Liturgia Dominical

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR

Tema do Domingo de Ramos

A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.
A primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projectos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste "servo" a figura de Jesus.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.
O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se o amor de Deus - esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.

LEITURA I - Is 50,4-7

Leitura do Livro de Isaías

O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,
para que eu saiba dizer uma palavra de alento
aos que andam abatidos.
Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos,
para eu escutar, como escutam os discípulos.
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos
e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam,
e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio,
e, por isso, não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra,
e sei que não ficarei desiludido.

AMBIENTE

No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um "servo de Jahwéh", que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem carácter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projectos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detractores e adversários.
Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura colectiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.
O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do "servo de Jahwéh".

MENSAGEM

O texto dá a palavra a um personagem anónimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula "profeta"; porém, narra a sua vocação com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação.
Em primeiro lugar, a missão que este "profeta" recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar - com fidelidade - essa Palavra de Deus para os homens.
Em segundo lugar, a missão profética concretiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam, quase sempre, em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento.
Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas de que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição. Por isso, o profeta "não será confundido".

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode tocar os seguintes aspectos:

• Não sabemos, efectivamente, quem é este "servo de Jahwéh"; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens... A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.

• Jesus, o "servo" sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?

• Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens?

SALMO RESPONSORIAL - Salmo 21 (22)

Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

Todos os que me vêem escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor, Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo».

Matilhas de cães me rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos.

Repartiram entre si as minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.
Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,
glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,
reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

LEITURA II - Fil 2,6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

AMBIENTE

A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém - cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afecto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita... O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.
É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajectória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.

MENSAGEM

Cristo Jesus - nomeado no princípio, no meio e no fim - constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos - quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados - têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?
O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e Lhe desobedeceu - cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.

Em traços precisos, o hino define o "despojamento" ("kenosis") de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse "abaixamento" assumiu mesmo foros de escândalo: Jesus aceitou uma morte infamante - a morte de cruz - para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.

No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d'Ele o "Kyrios" ("Senhor" - nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira ("os céus, a terra e os infernos") reconhece Jesus como "o Senhor" que reina sobre toda a terra e que preside à história.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida, que Paulo aqui faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos. Esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glória, à vida plena.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes desenvolvimentos:

• Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

• Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

• Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.

EVANGELHO - Mt 26,14 - 27,66

N Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

N Naquele tempo,
um dos doze, chamado Judas Iscariotes,
foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
R «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»
N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
E a partir de então,
Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos,
os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
R «Onde queres que façamos os preparativos
para comer a Páscoa?»
N Ele respondeu:
J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe:
'O Mestre manda dizer:
O meu tempo está próximo.
É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa
com os meus discípulos'».
N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado,
e prepararam a Páscoa.

N Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze.
Enquanto comiam, declarou:
J «Em verdade vos digo:
Um de vós há-de entregar-Me».
N Profundamente entristecidos,
começou cada um a perguntar-Lhe:
R «Serei eu, Senhor?»
N Jesus respondeu:
J «Aquele que meteu comigo a mão no prato
é que há-de entregar-Me.
O Filho do homem vai partir,
como está escrito acerca d'Ele.
Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue!
Melhor seria para esse homem não ter nascido».
N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
R «Serei eu, Mestre?»
N Respondeu Jesus:
J «Tu o disseste».

N Enquanto comiam,
Jesus tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
N Tomou em seguida um cálice,
deu graças e entregou-lho, dizendo:
J «Bebei dele todos,
porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança,
derramado pela multidão,
para remissão dos pecados.
Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira,
até ao dia em que beberei convosco
o vinho novo no reino de meu Pai».

N Cantaram os salmos
e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N Então, Jesus disse-lhes:
J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa,
como está escrito:
'Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho'.
Mas, depois de ressuscitar,
preceder-vos-ei a caminho da Galileia».
N Pedro interveio, dizendo:
R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa,
eu não me escandalizarei».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade te digo:
Esta mesma noite, antes do galo cantar,
Me negarás três vezes».
N Pedro disse-lhe:
R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E o mesmo disseram todos os discípulos.

N Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade,
chamada Getsémani
e disse aos discípulos:
J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».
N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu,
começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.
Disse-lhes então:
J «A minha alma está numa tristeza de morte.
Ficai aqui e vigiai comigo».
N E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra,
enquanto orava e dizia:
J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice.
Todavia, não se faça como Eu quero,
mas como Tu queres».
N Depois, foi ter com os discípulos,
encontrou-os a dormir e disse a Pedro:
J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!
Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.
O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N De novo Se afastou, pela Segunda vez, e orou, dizendo:
J «Meu Pai,
se este cálice não pode passar sem que Eu o beba,
faça-se a tua vontade».
N Voltou novamente e encontrou-os a dormir,
pois os seus olhos estavam pesados de sono.
Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez,
repetindo as mesmas palavras.
Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
J «Dormi agora e descansai.
Chegou a hora em que o Filho do homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores.
Levantai-vos, vamos.
Aproxima-se aquele que Me vai entregar».
N Ainda Jesus estava a falar,
quando chegou Judas, um dos Doze,
e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus,
enviada pelos príncipes dos sacerdotes
e pelos anciãos do povo.
O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».
N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
R «Salve, Mestre!».
N E beijou-O.
Jesus respondeu-lhe:
J «Amigo, a que vieste?».
N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus
e prenderam-n'O.
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada,
desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote,
cortando-lhe uma orelha.
Jesus disse-lhe:
J «Mete a tua espada na bainha,
pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada.
Pensas que não posso rogar a meu Pai
que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos?
Mas como se cumpririam as Escrituras,
segundo as quais assim tem de acontecer?».
N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:
J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender
como se fosse um salteador!
Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar
e não Me prendestes...
Mas, tudo isto aconteceu
para se cumprirem as Escrituras das profetas».
N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N Os que tinham prendido Jesus
levaram-n'O à presença do sumo sacerdote Caifás,
onde os escribas e os anciãos se tinham reunido.
Pedro foi-O seguindo de longe,
até ao palácio do sumo sacerdote.
Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas,
para ver como acabaria tudo aquilo.

N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos
persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás
e fizesse morrer Jesus.
O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
R «Qual dos dois quereis que vos solte?»
N Eles responderam:
R «Barrabás».
N Disse-lhes Pilatos:
R «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»
N Responderam todos:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?»
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?»
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos, vendo que não conseguia nada
e aumentava o tumulto,
mandou vir água
e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
R «Estou inocente do sangue deste homem.
Isso é lá convosco».
N E todo o povo respondeu:
R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
N Soltou-lhes então Barrabás.
E, depois de ter mandado açoitar Jesus,
entregou-lh'O para ser crucificado.
Então os soldados do governador
levaram Jesus para o pretório
e reuniram à volta d'Ele toda a coorte.
Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n'O num manto vermelho.
Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça
e colocaram uma cana na sua mão direita.
Ajoelhando diante d'Ele, escarneciam-n'O, dizendo:
R «Salve, rei dos judeus!»
N Depois, cuspiam-Lhe no rosto
e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.
Depois de O terem escarnecido,
tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas
e levaram-n'O para ser crucificado.

N Ao saírem,
encontraram um homem de Cirene, chamado Simão,
e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus.
Chegados a um lugar chamado Gólgota,
que quer dizer lugar do Calvário,
deram-Lhe a beber vinho misturado com fel.
Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber.
Depois de O terem crucificado,
repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte,
e ficaram ali sentados a guardá-l'O.
Por cima da sua cabeça puseram um letreiro,
indicando a causa da sua condenação:
«Este é Jesus, o rei dos judeus».

Foram crucificados com Ele dois salteadores,

um à direita e outro à esquerda.

Os que passavam insultavam-n'O
e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias,
salva-Te a Ti mesmo;
Se és Filho de Deus, desce da cruz».
N Os príncipes dos sacerdotes,
juntamente com os escribas e os anciãos,
também troçavam d'Ele, dizendo:
R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo!
Se é o Rei de Israel,
desça agora da cruz e acreditaremos n'Ele.
Confiou em Deus:
Ele que O livre agora, se O ama,
porque disse: 'Eu sou Filho de Deus'».
N Até os salteadores crucificados com Ele o insultavam.

Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
as trevas envolveram toda a terra.
E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eli, Eli, lema sabachtani!»,
N que quer dizer:
«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»

Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R «Está a chamar por Elias».
N Um deles correu a tomar uma esponja,
embebeu-a em vinagre,
pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber.
Mas os outros disseram:
R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l'O».
N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes,
de alto a baixo;
a terra tremeu e as rochas fenderam-se.
Abriram-se os túmulos
e muitos dos corpos de santos que tinham morrido
ressuscitaram;
e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus,
entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus,
ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer,
ficaram aterrados e disseram:
R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres
que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.
Entre elas encontrava-se Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago e de José,
e a mãe dos filhos de Zebedeu.
Ao cair da tarde,
veio um homem rico de Arimateia, chamado José,
que também se tinha tornado discípulo de Jesus.
Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus.
E Pilatos ordenou que lho entregassem.
José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo
e depositou-o no seu sepulcro novo
que tinha mandado escavar na rocha.
Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro,
e retirou-se.
Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria,
sentadas em frente do sepulcro.

No dia seguinte, isto é, depois da Preparação,
os príncipes dos sacerdotes e os fariseus
foram ter com Pilatos e disseram-lhe:
R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse
quando ainda era vivo:
'Depois de três dias ressuscitarei'.
Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança
até ao terceiro dia,
para que não venham os discípulos roubá-lo
e dizer ao povo: 'Ressuscitou dos mortos'.
E a última impostura seria pior do que a primeira».
N Pilatos respondeu:
R «Tendes à vossa disposição a guarda:
ide e guardai-o como entenderdes».
N Eles foram e guardaram o sepulcro,
selando a pedra e pondo a guarda.

AMBIENTE

O Evangelho segundo Mateus começa por apresentar Jesus (cf. Mt 1,1-4,22). Descreve, depois, o anúncio central de Jesus: nas suas palavras e nos seus gestos, Jesus anuncia esse mundo novo a que Ele chama "o Reino dos céus" (cf. Mt 4,23-9,35). Do anúncio do "Reino" nasce a comunidade dos discípulos - isto é, nasce um grupo que assimila as propostas de Jesus (cf. Mt 9,36-12,50). Os discípulos são a "comunidade do Reino": instruídos por Jesus, formados na mentalidade do "Reino", os discípulos recebem a missão de testemunhar o "Reino", após a partida de Jesus (cf. Mt 13,1-17,27). Na parte final do seu Evangelho, Mateus descreve a ruptura final de Jesus com o judaísmo (cf. Mt 18,1-25,46) e o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição (cf. Mt 26,1-28,15).
A leitura que hoje nos é proposta é o relato da paixão de Jesus. Descreve como o anúncio do Reino choca com a mentalidade da opressão e, portanto, conduz à cruz e à morte; no entanto, não podemos dissociar os acontecimentos da paixão daqueles que celebraremos no próximo domingo: a ressurreição é a prova de que Jesus veio de Deus e tinha um mandato do Pai para tornar realidade no mundo o "Reino dos céus".

MENSAGEM

A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar esse mundo novo, de justiça, de paz e de amor para todos os homens. Para concretizar este projecto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina "fazendo o bem" e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos, os cegos, não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que eram os pobres e os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o "Reino"; e avisou os "ricos" (os poderosos, os instalados), de que o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, o fechamento só podiam conduzir à morte.
O projecto libertador de Jesus entrou em choque - como era inevitável - com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que dominava o mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostas a arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-n'O, condenaram-n'O e pregaram-n'O numa cruz.
A morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do "Reino": resultou das tensões e resistências que a proposta do "Reino" provocou entre os que dominavam o mundo.
Podemos, também, dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém, mais radical e mais verdadeira (porque marcada com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço.
Na cruz, vemos aparecer o Homem Novo, o protótipo do homem que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para todos. Porque ama, este Homem Novo vai assumir como missão a luta contra o pecado - isto é, contra todas as causas objectivas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração e morte. Assim, a cruz mantém o dinamismo de um mundo novo - o dinamismo do "Reino".
Para além da reflexão geral sobre o sentido da paixão e morte de Jesus, convém ainda notar alguns dados que são exclusivos da versão mateana da paixão.

• Ao longo do relato da paixão, Mateus insiste no facto de os acontecimentos estarem relacionados com o cumprimento das Escrituras (cf. Mt 26,24.30.54.56;27,9). Mesmo quando não refere explicitamente o cumprimento das Escrituras, Mateus liga os acontecimentos da paixão de Jesus com figuras e factos do Antigo Testamento, a fim de demonstrar que a paixão e morte de Jesus faz parte do projecto de Deus, previsto desde sempre. A explicação para esta insistência no cumprimento das Escrituras deve ser buscada no seguinte facto: Mateus escreve para cristãos que vêm do judaísmo; Ele vai, portanto, fazer referência a citações e promessas do Antigo Testamento - conhecidas de cor por todos os judeus - a fim de demonstrar que Jesus era esse Messias anunciado pelos profetas e cujo destino passava pelo dom da vida.

• Também Marcos (cf. Mc 14,47) e Lucas (cf. Lc 22,50-51) contam como, no Getsemani, na altura em que Jesus foi preso, um dos elementos do grupo de Jesus agrediu com uma espada um servo do sumo-sacerdote. No entanto, só Mateus apresenta Jesus a condenar explicitamente o gesto, explicando que o projecto do Pai não passa pela violência, mesmo contra os agressores (cf. Mt 26,51-54). O caminho do Pai passa pelo amor e pelo dom da vida; por isso, os discípulos de Jesus não podem recorrer à violência, mesmo que se trate de defender uma causa justa. Este ensinamento tem, neste contexto, uma força especial: é quando Jesus é vítima inocente da violência que Ele afirma de forma clara a recusa absoluta da violência: o "Reino" de Deus nunca passará por esquemas de violência, de imposição, de poder e de prepotência. Na lógica do "Reino", os fins nunca justificarão os meios.

• Só no Evangelho segundo Mateus aparece o relato da morte de Judas (cf. Mt 27,3-10. Temos uma outra versão do acontecimento em Act 1,18-19). O episódio deixa clara a iniquidade do processo e a inocência de Jesus. A forma como Mateus sublinha o desespero e o arrependimento de Judas deixa clara a inocência de Jesus, por um lado e, por outro, o desnorte dos responsáveis pelo processo, empenhados em "sacudir a água do capote" e em declinar responsabilidades.

• São exclusivos de Mateus o sonho da mulher de Pilatos (cf. Mt 27,19) e a lavagem das mãos por parte do procurador romano (cf. Mt 27,24). Estes pormenores aparecem aqui com uma dupla finalidade: por um lado, Mateus quer deixar claro que Jesus é inocente e que os próprios romanos reconhecem o facto; por outro, Mateus sugere que não foi o império romano, mas sim o próprio judaísmo que rejeitou Jesus e a sua proposta de "Reino". Os pagãos reconhecem a inocência de Jesus; mas o seu próprio Povo rejeita-O. A frase que, no contexto do julgamento de Jesus, Mateus atribui ao Povo ("o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos" - Mt 27,25) deve também ser entendida neste enquadramento. Mateus explica dessa forma - aos cristãos que vêm do judaísmo - porque é que o judaísmo como conjunto está fora do "Reino": o judaísmo rejeitou Jesus e quis eliminar a sua proposta.

• Também é exclusiva de Mateus a descrição dos factos que acompanharam a morte de Jesus: "o véu do Templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos" (Mt 27,51-53). Através destes elementos, Mateus quer sublinhar a importância do momento. É o tipo de sinais que, segundo a tradição apocalíptica, precederiam a manifestação de Deus, no final dos tempos. Estes sinais mostram que, apesar do aparente fracasso de Jesus, Deus está ali, a manifestar-Se como o salvador e libertador do seu Povo.

• Finalmente, só Mateus narra o episódio da "guarda" do sepulcro (cf. Mt 27,62-66). Provavelmente, o relato de Mateus tem uma finalidade apologética... Para os cristãos, o sepulcro vazio era a evidência de que Jesus tinha ressuscitado; mas alguns grupos judeus puseram a circular o rumor de que o corpo de Jesus tinha sido roubado pelos discípulos. Mateus trata de explicar a origem do rumor e de negá-lo veementemente.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

• Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil... Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco "até ao fim dos tempos": esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes.

• Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade... Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor... Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O DOMINGO DE RAMOS


(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo de Ramos, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. FAZER UMA VERDADEIRA PROCISSÃO.
Preparar com cuidado a aclamação com os ramos (durante a liturgia dos ramos e, depois, cantando "Hossana" após o prefácio). Se possível, fazer uma verdadeira procissão de entrada, pois a procissão dos Ramos celebra Jesus que, pela primeira vez, se apresenta à multidão como Rei-Messias! Ao entrar na igreja atrás da cruz e do presidente da assembleia, esta caminha com Cristo e deixa-se introduzir na celebração do mistério da sua Paixão, da sua morte e da sua Ressurreição. No final da celebração, recordemos aos fiéis que os ramos benzidos são um símbolo de vitória e de vida, e permanecerão, ao longo do ano, como um sinal de esperança.

3. A PAIXÃO POR EPISÓDIOS.
Para a leitura da Paixão, pode-se escolher vários leitores para as várias personagens, que devem preparar muito bem a leitura. Ou pode-se mudar de leitor ao longo da paixão.

4. BILHETE DE EVANGELHO.
A vida é paixão. Nunca ficamos insensíveis diante de um apaixonado. Ou irrita ou seduz... De qualquer modo, ele provoca. Jesus foi apaixonado de Deus seu Pai. Uma só coisa contava para Ele: fazer a sua vontade. Ora, a vontade de Deus não era que seu Filho morresse, mas que fosse até ao fim do amor. Com o risco de dar a sua vida... e foi o que Ele fez. Jesus foi um apaixonado dos homens seus irmãos. Uma só coisa contava para Ele: salvar a humanidade, arrancando-a do egoísmo, da violência, do orgulho, da riqueza, da idolatria, de tudo o que leva à morte e à infelicidade... para lhe propor o serviço, o acolhimento, o perdão, a pobreza, tudo o que leva à vida e à felicidade, e que tem um nome: o Amor. Durante toda esta Semana Santa, ergamos os olhos para Cristo na sua Paixão por Deus seu Pai, na paixão pelos homens seus irmãos. Para que nós também sejamos apaixonados!

5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Nós Te damos graças pelo testemunho de não-violência dado e ensinado pelos Profetas e, sobretudo, pelo teu Filho Jesus.
Nós Te pedimos. Vem em nosso auxílio, revela-nos cada manhã a escuta da tua Palavra, instrui-nos pelo teu Espírito de paciência. Que nós saibamos, da nossa parte, reconfortar aqueles que não podem mais.

No final da segunda leitura:
Cristo Jesus, nós Te adoramos e bendizemos: Tu que és de condição divina, Tu que Te tornaste servo. Pai, nós Te glorificamos, porque o teu Filho humilhado até ao extremo pelos homens, Tu O revelaste acima de todos.
Nós Te pedimos pela nossa humanidade que continua a sofrer e a fazer sofrer: que se deixe transformar e curar pelo teu Espírito de ressurreição.

No final do Evangelho:
Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Nós Te bendizemos, Senhor Jesus, e confessamo-lo: verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus.
Perdão pelas nossas negações, as nossas traições, as nossas faltas de fé, que semeiam a morte nas nossas existências e no nosso mundo. Nós sabemo-lo: Tu nunca nos abandonas. Pela tua cruz, livra-nos do mal.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II da Assembleia com Crianças.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Um Rei-Servidor... Mudança radical de valores! Numa sociedade que só acredita no seu poder, no seu dinheiro, nas suas conquistas, eis o nosso Rei que vem até nós na humildade, no serviço, no sofrimento, vulnerável até morrer. Discípulos deste Messias-Servidor, onde se situam os nossos valores de referência: do lado do Evangelho? Do lado do mundo? Não há meio termo...

5º DOMINGO DA QUARESMA ANO A

INTRODUÇÃO

LEITURA I 

SALMO RESPONSORIAL

Tema do 5º Domingo da Quaresma

Na quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova. Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz.

Na primeira leitura, através da voz profética de Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. "Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo" – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da vida eterna.

O Evangelho oferece-nos – a partir da história de um amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida, Jesus garante-lhes: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá". Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus, como discípulos.

Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a viverem sob o domínio "do Espírito". Aqueles que escolheram Cristo e que vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira.


LEITURA I – Ezequiel 37,12-14

Assim fala o Senhor Deus:
«Vou abrir os vossos túmulos
e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo,
para vos reconduzir à terra de Israel.
Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor,
quando abrir os vossos túmulos
e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo.
Infundirei em vós o meu espírito e revivereis.
Hei de fixar-vos na vossa terra
e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei».


CONTEXTO

Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, irritado pelas tentativas de Joaquim, rei de Judá, para se libertar do domínio babilónico, pôs cerco à cidade de Jerusalém. O rei Joaquim parece ter morrido durante o cerco da cidade (na versão de 2 Cr 36, contudo, Joaquim foi aprisionado e levado prisioneiro para a Babilónia). Sucedeu-lhe, no trono de Judá, o seu filho Joiaquin, que reinou apenas três meses (cf. 2Re 24,8-9), antes de cair nas mãos dos babilónios (cf. 2Re 24,10-16). O rei, a classe dirigente e todos aqueles que tinham alguma influência em Jerusalém foram deportados para a Babilónia (597 a.C.).

Nabucodonosor instalou, então, no trono de Judá um tal Sedecias. Durante algum tempo, Judá manteve-se tranquilo, pagando pontualmente os tributos devidos aos babilónios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de pagar o tributo. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilónios (586 a.C.). Sedecias tentou fugir da cidade; mas foi feito prisioneiro, viu os seus filhos serem assassinados e ele próprio foi levado prisioneiro para a Babilónia, onde acabou os seus dias.

Ezequiel, chamado "o profeta da esperança", deve ser colocado neste cenário. Pertencendo a uma família com alguma influência em Jerusalém, fez parte do primeiro grupo de exilados de Judá, levados para a Babilónia em 597 a.C. (no reinado de Joiaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém, pela primeira vez). Será na Babilónia que Ezequiel irá exercer a sua missão profética.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades contra Javé) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou. As palavras que, nesta fase, Ezequiel dirige aos seus concidadãos são palavras de ânimo e de esperança.

O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase do ministério profético de Ezequiel. Faz parte da famosa de um conjunto de "oráculos de salvação" (cf. Ez 33,1-39,29) que inclui a famosa "visão dos ossos calcinados" (cf. Ez 37). Nessa visão Ezequiel fala de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, esses ossos, vivificados pelo Espírito do Senhor, são revestidos de pele, de músculos e ganham nova vida. Nesta parábola, esses ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro no meio da planície mesopotâmica.


MENSAGEM

Depois de vários anos exilados no meio da planície mesopotâmica, os habitantes de Judá perderam a esperança. Estão à mercê dos seus inimigos e têm saudades da sua terra. Crêem-se abandonados por Deus e pelos homens. No horizonte não vislumbram nenhuma mudança, nenhum futuro, nenhuma saída. 

É uma situação "de morte" para a qual não parece não haver remédio. O texto usa uma imagem bem expressiva para definir a triste situação dos exilados: são como "ossos ressequidos" que apodrecem lentamente num túmulo. Para Judá, estará tudo terminado? 

Não. Deus conhece a situação do seu povo e prepara-se para intervir. O profeta Ezequiel, voz de Deus no meio dos exilados, anuncia que Javé vai ressuscitar o seu povo, vai tirá-lo do túmulo, vai libertá-lo, vai devolver-lhe a esperança, vai oferecer-lhe um futuro novo e cheio de vida. O que é que Deus se propõe fazer?

Deus irá infundir o seu Espírito sobre os exilados. Revitalizados pelo Espírito de Deus, os habitantes de Judá conhecerão uma vida nova. Poderão então pôr-se a caminho de Jerusalém, de regresso à sua terra, aos seus lares, às suas raízes. O projeto de morte será vencido pelo projeto de vida que Deus desenhou para o seu povo.

A referência à ação do Espírito de Deus na revivificação do homem coloca-nos no mesmo cenário de Gn 2,7: no homem que criou do barro, Deus infundiu o seu "hálito de vida" ("neshamá") para o tornar um ser vivente; aqui, sobre o Povo que jaz no túmulo, Deus "infunde o seu Espírito" ("ruah" – Ez 37,14). A ação de Deus em favor do seu povo é uma nova criação.

No "ruah" de Deus que aqui é dado ao Povo que jaz no túmulo, devermos ver bem mais do que uma simples "força vital" que é responsável pela vida física ao homem… O "ruah" de Deus transmite ao homem a vida divina e transforma radicalmente o coração do homem. Ele fará com que os "corações de pedra" – duros, insensíveis, autossuficientes – dos habitantes de Judá se transformem em "corações de carne", sensíveis e bons, capazes de amar Deus e de viver de acordo com os mandamentos de Deus ("dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos" – Ez 36,26-27). Esta nova criação vai bem mais longe do que a antiga criação, reportada na narração do livro do Génesis.

A promessa do regresso dos exilados a Judá concretizou-se alguns anos mais tarde (538 a.C.) quando o rei persa Ciro os autorizou a deixarem a Babilónia e a retornarem a Jerusalém. No entanto, a tradição rabínica posterior irá reinterpretar esta "promessa" de Deus e pô-la em ligação com a chegada dos tempos messiânicos. Em alguns círculos religiosos judaicos via-se nesta promessa de Deus a afirmação de que, com a chegada do Messias, todos os justos ressuscitariam e participariam na alegria do Reino messiânico.

Para além disso, este texto ajudou a catequese de Israel a sedimentar uma das suas convicções mais profundas: Javé é o Deus da vida, que nunca abandona o seu povo e que encontra sempre formas de transmitir vida ao seu Povo; em cada instante da história Ele está presente, recriando o seu Povo, transformando-o, renovando-o, encaminhando-o para a vida plena.

INTERPELAÇÕES

  • O desânimo, a frustração, o desalento que, no séc. VI a.C. afetaram os habitantes de Judá exilados na Babilónia não são experiências completamente desconhecidas para nós. São realidades que a cada passo nos esperam ao virar da esquina. Sentimo-las quando somos obrigados a encarar a morte de alguém que nos é querido, quando enfrentamos o desmoronar dos laços familiares, quando somos surpreendidos pela traição de um amigo ou de alguém a quem amamos, quando carregamos o peso da solidão, quando temos de deixar para trás os nossos sonhos, quando nos sentimos afogados pelo medo, quando os nossos melhores esforços resultam em nada… A constatação da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa impotência paralisa-nos. Olhamos à volta à procura de Deus e Ele parece infinitamente distante; interpelamo-lo e Ele parece não nos responder… Estamos sozinhos, sem apoio e sem defesa? Deus não se interessa minimamente por nós? O profeta Ezequiel garantia aos exilados de Judá que Deus iria ajudá-los a "sair do sepulcro" e trazê-los de volta à terra nova da liberdade e da esperança. Como é que isto nos soa? Acreditamos que Deus é capaz de "escrever direito por linhas tortas" e tirar vida da morte? Apesar dos "acidentes" que a vida insiste em trazer-nos, conseguimos sentir a mão de Deus que nos segura e que nos dá confiança?
  • Pela voz profética de Ezequiel, Deus dizia ao seu povo: "infundirei em vós o meu espírito e revivereis". Sim, Deus está mesmo disposto a fazer-nos "sair do sepulcro" em que muitas vezes nos deixamos encerrar. Esse espírito que Ele nos promete pode renovar-nos e transformar-nos: é o Espírito de Deus que elimina dos nossos corações o egoísmo, o orgulho, a ambição, a autossuficiência, a maldade, tudo isso que estraga a nossa vida; é o Espírito de Deus que gera nos nossos corações sentimentos de bondade, de generosidade, de misericórdia, de amor… Deus, no entanto, nunca forçará a nossa vontade, nunca nos obrigará a uma transformação que não queremos aceitar. Queremos acolher o Espírito de Deus? Existe em nós uma vontade sincera de nos deixarmos transformar por Ele?
  • É Deus que vem em nosso auxílio para nos tirar dos "túmulos" onde estamos encerrados; é Deus que infunde em nós o seu Espírito, esse Espírito que nos transforma, que nos renova, que nos faz reviver… No entanto Deus, tantas e tantas vezes, vem ao nosso encontro através de pessoas – como Ezequiel – que nos oferecem, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, a vida e o amor de Deus. Deus age no mundo e na vida dos homens através dos seus enviados. Talvez Deus também conte connosco para sermos, junto dos nossos irmãos, testemunhas e sinais da sua bondade e do seu amor. Dispomo-nos a colaborar com Deus e a gastar algum do nosso tempo a "curar" os males que ferem os irmãos que caminham ao nosso lado?

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 129 (130)

Refrão: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.

Se tiverdes em conta as nossas faltas,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão,
para Vos servirmos com reverência.

Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora.

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há de libertar Israel
de todas as suas faltas.


LEITURA II

LEITURA II – Romanos 8,8-11

Irmãos:

Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,
não Lhe pertence.
Se Cristo está em vós,
embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado,
o espírito permanece vivo por causa da justiça.
E, se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós.

CONTEXTO

Em meados do séc. I, Roma era a maior cidade do mundo, com aproximadamente um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.

Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. Depois disso, Paulo tinha a intenção de anunciar o Evangelho no ocidente: queria passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí dar testemunho de Jesus (cf. Rm 15,24-28).

Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a "justiça de Deus" dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna.

O nosso texto integra a primeira parte da Carta. Refere-se à "vida nova" daqueles que aderiram a Jesus e vivem "no Espírito". Todo o capítulo oitavo é dedicado à vida no Espírito. É uma das mais ricas e mais belas páginas da catequese paulina.


MENSAGEM

A reflexão desenvolvida no capítulo oitavo da Carta aos Romanos, sobre a "vida no Espírito", tem como cenário de fundo uma das mais famosas antíteses paulinas: "carne"/"Espírito". A que se referem estes dois conceitos, segundo Paulo?

A "carne" designa a situação do homem frágil e destinado à morte; mas designa especialmente, na teologia paulina, a situação do homem pecador, do homem que se opõe a Deus e que vive à margem de Deus: o "homem carnal" é o homem que vive no egoísmo e na autossuficiência, que cultiva atitudes e apetites desordenados – o ódio, a ambição, a inveja, o ciúme, a fúria, a devassidão, a discórdia, a libertinagem (cf. Gl 5,19-21). O "Espírito" designa tudo aquilo que faz do homem uma realidade transcendente; mas designa especialmente, na linguagem paulina, a realidade do homem que está aberto a Deus: o "homem do Espírito" é o homem que escuta Deus e que obedece a Deus, que pauta a sua vida pelo amor, pela alegria, pela paz, pela paciência, pela benignidade, pela bondade, pela fidelidade, pela mansidão, pelo autodomínio (cf. Gl 5,22-23). Estas duas realidades estão, evidentemente, em profunda contradição.

Deus, dando cumprimento à sua vontade de salvar o homem, enviou ao mundo o seu Filho Jesus. Jesus apresentou-se numa "carne" semelhante à dos homens; mas Ele não conheceu o pecado e nunca escolheu o pecado. Cristo recusou sempre viver à margem de Deus; escolheu viver segundo o Espírito, numa obediência total ao Pai. Trouxe à nossa "carne" o dinamismo do Espírito.

Quem adere a Cristo recebe vida d'Ele e passa a ser animado pelo mesmo dinamismo que o animou a Ele. O batizado deixa de estar sob o domínio da carne e, como Cristo, passa a viver sob o dinamismo do Espírito (cf. Rm 8,9). Se alguém ainda vive de acordo com a "carne", é sinal de que não é cristão, não se identifica com Cristo, não pertence a Cristo (cf. Rm 8,10).

Esses que se identificam com Cristo e que vivem "no Espírito", estão destinados à vida. Assim como Cristo – depois de uma vida vivida "no Espírito" – isto é, depois de uma vida de renúncia ao egoísmo e ao pecado e de opção por Deus e pelas suas propostas – ressuscitou e foi elevado definitivamente à glória do Pai, assim o cristão está destinado à vida nova, à vida plena, à vida eterna (cf. Rm 8,11).

É, pois, o Espírito – presente naqueles que renunciaram à vida da "carne" e aderiram a Jesus – que liberta os crentes do pecado e da morte, que os transforma em homens novos e que os leva em direção à vida plena, à vida definitiva.

INTERPELAÇÕES

  • Jesus, ao despedir-se dos discípulos, enviou-os a "batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" ("ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado" – Mt 28,19). O momento do batismo ficou a ser, para os que seguidores a Jesus, o momento da opção pela proposta de Jesus, pela "vida no Espírito". É possível que tenhamos sido batizados quando ainda não tínhamos consciência das coisas e que, mais tarde, não tenhamos tido vontade ou oportunidade de "validar" essa opção inicial; é possível, também, que as nossas opções de vida nos tenham levado por caminhos diferentes e que hoje, de forma consciente nos sintamos afastados desse "vida no Espírito" de que fala Paulo… Nós, os que fomos batizados e que estamos contentes com essa opção, temos procurado viver de forma coerente a nossa vocação batismal e caminhamos "no Espírito"? Nós os que fomos batizados mas depois nos desleixamos e deixamos de dar importância ao seguimento de Jesus, não gostaríamos de renovar o nosso compromisso batismal, de retomar o nosso contacto com Jesus e de viver de forma coerente com a opção que fizemos quando fomos batizados? Nós os que desistimos de Jesus e optamos conscientemente por outros caminhos, não estaríamos interessados em redescobrir a beleza de "viver no Espírito", de procurar um sentido e uma realização mais completa da nossa vida?
  • O apóstolo Paulo assegura aos cristãos de Roma que quem escolheu identificar-se com Cristo – isto é, viver na obediência aos planos do Pai e no dom da vida em favor dos irmãos – está destinado a encontrar uma vida nova e plena, uma "vida eterna". Aquilo que aconteceu com Cristo aponta exatamente nesse sentido. Ele recusou o egoísmo e a autossuficiência e escolheu cumprir o plano do Pai até às últimas consequências; Ele amou os seus irmãos até ao extremo e quis dar a própria vida para derrotar a injustiça, a violência, a maldade, a arrogância, a morte. Apesar de ter sofrido o vexame da cruz, na manhã de Páscoa saiu vitorioso do túmulo, foi glorificado e sentou-se à direita do Pai. Jesus mostrou-nos que uma vida vivida "no Espírito" não termina no fracasso e na morte, mas aponta à vida definitiva, à realização plena, à vida eterna. Evidentemente, a nossa vida nesta terra há de ter um fim; mas o Espírito que ressuscitou Jesus far-nos-á viver eternamente como filhos de Deus. Acreditamos nisto? A certeza dessa vida nova que nos espera dá-nos ânimo para, ao longo do caminho que percorremos na terra, fazermos escolhas segundo o Espírito?

EVANGELHO

EVANGELHO – João 11,1-45

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n'Ele.

CONTEXTO

O Quarto Evangelho, escrito por volta do ano 100, é um belo ponto de chegada da reflexão cristológica feita ao longo do séc. I. Na sua génese estará, certamente, o testemunho do apóstolo João; mas o livro conserva a reflexão que a comunidade joânica (provavelmente a comunidade cristã de Éfeso) desenvolveu sobre Jesus a partir do testemunho deixado pelo apóstolo.

O livro é de uma grande riqueza e não é fácil definir a sua estrutura. Mas diversos estudiosos do Quarto Evangelho fazem questão de dividi-lo em duas partes: o "Livro dos Sinais" (cf. Jo 4,1-11,54) e o "Livro da Hora" (cf. Jo 11,55-19,42). No "Livro dos Sinais" são-nos apresentadas diversas "catequeses" – recorrendo a "sinais" como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No "livro da Hora", o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

A narrativa da ressurreição de Lázaro integra o "Livro dos Sinais". É a quinta "catequese" que esse "livro" nos oferece. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos. Propõe Jesus como aquele que é capaz de dar aos que a Ele aderem uma vida que supera a morte.

A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia situada no lado oriental do monte das Oliveiras, a cerca de 2.700 metros de Jerusalém. Atualmente a localidade tem o nome de El-Azariyeh, nome derivado de Lázaro. Quem a visita pode descer, ainda hoje, os vinte e quatro degraus que conduzem a um espaço onde a tradição situa o túmulo de Lázaro.

O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família em questão, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: em Jo 11,5 diz-se que Jesus "era amigo" de Marta, de sua irmã (Maria) e de Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (cf. Jo 11,2, cf. Jo 12,1-8).


MENSAGEM

O "sinal" realizado – a "reanimação" de Lázaro, o amigo de Jesus que a morte tinha levado – é descrito de forma muito breve, em apenas dois versículos (cf. Jo 11,43-44). Mas o relato prolonga-se ao longo de quarenta e cinco versículos. Apresenta numerosos diálogos, achegas, comentários, explicações… O autor do Quarto Evangelho, com a competência que todos lhe reconhecem, propõe à sua comunidade mais uma catequese sobre Jesus. O tema dessa catequese é formulado pelo próprio Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá" (Jo 11,25-26).

Comecemos por olhar para família que protagoniza esta história. Trata-se de uma família com algumas caraterísticas que importa sublinhar.

Notemos, antes de mais, que não há referência, por parte do narrador, a outros membros da família, para além de Maria, Marta e Lázaro: não há pai, nem mãe, nem filhos. Além disso, João insiste no grau de parentesco que une os três: são "irmãos" (vers. 1.2b.3.5.19.21.23.28.32.39). A palavra "irmão" ("adelfós") será a palavra usada por Jesus, após a ressurreição, para definir a comunidade dos discípulos (cf. Jo 20,17); e esta denominação será comum entre os membros da comunidade cristã primitiva para se designarem entre si (Jo 21,23). Reparemos, por outro lado, como é descrita a relação entre Jesus e esta família de irmãos: trata-se de uma família amiga de Jesus, que Jesus conhece e que conhece Jesus, que ama Jesus e que é amada por Jesus, que recebe Jesus em sua casa. A família de Lázaro é uma boa imagem da comunidade cristã.

Um facto abala a vida desta família: um dos irmãos (Lázaro) está gravemente doente (cf. Jo 11,1). As irmãs de Lázaro mostram o seu interesse, preocupação e solidariedade para com o "irmão" doente e informam Jesus (cf. Jo 11,3). Aquela família acredita que Jesus pode "dar vida" àquele "irmão" fragilizado pela doença.

No entanto, apesar do afeto e da amizade que sente pelo seu amigo Lázaro, Jesus não vai imediatamente ao seu encontro; mas parece, até, atrasar-se deliberadamente (cf. Jo 11,4-6). Jesus, sem se inquietar, deixa que a doença de Lázaro siga o seu percurso normal e que a morte física do amigo se concretize. Quererá o narrador dizer-nos que Jesus tinha outras preocupações mais importantes do que a vida do seu amigo Lázaro? Não. Provavelmente o autor do Quarto Evangelho está a querer dizer-nos, desta forma, que Jesus não veio para alterar o ciclo normal da vida física do homem, libertando-o da morte biológica; veio, sim, para dar um novo sentido à morte física e para oferecer ao homem a vida eterna.

Depois de dois dias, Jesus resolve dirigir-se à Judeia ao encontro do amigo Lázaro (cf. Jo 11,7). Os discípulos não estão tranquilos com a decisão e lembram a Jesus que a Judeia é um lugar perigoso, pois é lá que estão aqueles – os líderes religiosos judaicos – que pretendem silenciá-l'O (cf. Jo 11,8). É verdade. Mas Jesus não pretende fugir às suas responsabilidades: o plano do Pai é que Ele dê vida ao homem enfermo, mesmo que para isso corra riscos. A sua preocupação única é realizar o plano do Pai no sentido de dar vida ao homem (cf. Jo 11,9-10). Jesus não pode abandonar o "amigo": Ele é o pastor que desafia o perigo por amor dos seus.

Jesus, no entanto, não está a falar de uma "revivificação", no final dos tempos, conforme as crenças farisaicas. O que Ele diz é que, para quem é Seu amigo, adere a Ele e caminha com Ele, não há morte, sequer. Jesus é "a ressurreição e a vida" (Jo 11,25-26a). Para os seus amigos, a morte física é apenas "um sono", a passagem desta vida para a vida plena. Jesus não evita a morte física; mas Ele oferece ao homem essa vida que se prolonga para sempre. Para que essa vida definitiva possa chegar ao homem é necessário, no entanto, que o homem adira a Jesus e O siga, num caminho de amor e de dom da vida ("todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá"). A comunidade de Jesus (a comunidade dos que aderiram a Ele e ao seu projeto) é a comunidade daqueles que já possuem a vida definitiva. Eles passarão pela morte física; mas essa morte será apenas uma passagem para a verdadeira vida. E é essa vida verdadeira que Jesus quer oferecer.

Confrontada com esta garantia de Jesus ("acreditas nisto?" – Jo 11,26b), Marta manifesta a sua adesão plena ao que Ele afirma e professa a sua fé no Senhor que dá a vida ("acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo" – Jo 11,27).

Maria, a outra irmã, tinha ficado em casa. Está imobilizada, paralisada pela dor sem esperança. Marta – que falara com Jesus e encontrara n'Ele a resposta para a situação que a fazia sofrer – convida a irmã a sair da sua dor e a ir, por sua vez, ao encontro de Jesus (cf. Jo 11,28). Maria vai rapidamente, sem dar explicações a ninguém: ela tem consciência de que só em Jesus encontrará uma solução para o sofrimento que lhe enche o coração (cf. Jo 11,29-31).

Também nas palavras de Maria há uma reprovação a Jesus pelo facto de Ele não ter estado presente, impedindo a morte física de Lázaro (cf. Jo 11,32). Jesus não pronuncia qualquer palavra de consolo, nem exorta à resignação (como é costume fazer nestes casos): vai fazer melhor do que isso e vai mostrar que Ele é, efetivamente, a ressurreição e a vida (cf. Jo 11,33-34).

A cena da ressurreição de Lázaro começa com Jesus a chorar (cf. Jo 11,35). Não é pranto ruidoso, mas sereno… Jesus mostra, dessa forma, o seu afeto por Lázaro, a sua saudade do amigo ausente. Ele – como nós – sente a dor, diante da morte física de uma pessoa amada; mas a sua dor não é desespero.

Depois, Jesus chega junto do sepulcro de Lázaro (cf. Jo 11,38). A entrada da gruta onde Lázaro está sepultado está fechada com uma pedra, como era costume, entre os judeus. A pedra é, aqui, símbolo da definitividade da morte. Separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, cortando qualquer relação entre um e outro.

Jesus, no entanto, manda tirar essa "pedra": para os crentes, não se trata de duas realidades sem qualquer relação. Jesus, ao oferecer a vida plena, abate as barreiras criadas pela morte física. A morte física não afasta definitivamente o homem da vida.

A ação de dar vida a Lázaro representa, para Jesus, a concretização da missão que o Pai Lhe confiou: dar vida plena e definitiva ao homem. É por isso que Jesus, antes de mandar Lázaro sair do sepulcro, ergue os olhos ao céu e dá graças ao Pai (cf. Jo 11,41b-42): a sua oração demonstra a sua comunhão com o Pai e a sua obediência na concretização do plano do Pai. Depois, Jesus mostra Lázaro vivo na morte, provando à comunidade dos crentes que a morte física não interrompe a vida plena do discípulo que ama Jesus e O segue.

Aquela família de Betânia que a catequese joânica nos traz nesta narração representa a comunidade cristã, formada por irmãos e irmãs. Todos eles conhecem Jesus, são amigos de Jesus, acolhem Jesus na sua casa e na sua vida, têm-n'O como a sua grande referência. Essa família também faz a experiência da morte física. Como é que deve lidar com ela? Com o desespero de quem está convencido de que tudo acabou? Com a tristeza de quem acha que a morte venceu, por algum tempo, até que Deus "revivifique" o "irmão" morto, no final dos tempos (como acreditavam os fariseus da época de Jesus)?

Não. Ser "amigo" de Jesus é saber que Ele é a ressurreição e a vida e que dá aos seus a vida plena, em todos os momentos. Ele não evita a morte física; mas a morte física é, para os que aderiram a Jesus, apenas a passagem (imediata) para a vida verdadeira e definitiva. Para os "amigos" de Jesus – para aqueles que acolhem a sua proposta e fazem da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos irmãos – não há morte… Podemos chorar a saudade pela partida de um irmão, mas temos de saber que, ao deixar este mundo, esse irmão encontrou a vida plena, na glória de Deus.

INTERPELAÇÕES

  • Há em cada um de nós um desejo insaciável de vida e, por isso, passamos cada instante a lutar por mais e mais vida. Agarramo-nos à ciência e, sobretudo, à medicina para prolongarmos a nossa vida biológica tanto quanto possível. Contudo, apesar de todas as possibilidades que a ciência nos oferece para vencer as dores e enfermidades, deparamo-nos a cada instante com a nossa finitude, os nossos limites, o "tempo curto" da nossa caminhada aqui na terra. Sentimo-nos impotentes diante de uma realidade – a morte – que não podemos controlar e que parece pôr um ponto final nos nossos melhores sonhos, anseios, desejos, projetos e realizações. Porque é que não podemos prolongar para sempre a nossa vida? Porque é que temos de, a certa altura, deixar aqueles que mais amamos? Que vai ser de nós quando se esgotar o nosso tempo aqui na terra? O que podemos fazer diante da realidade da morte? Muitos recusam-se a pensar nestas questões e limitam-se a aproveitar cada instante da existência o melhor possível, sem terem em conta qualquer horizonte futuro. Mas podemos, simplesmente, viver cada dia sem assumirmos uma atitude consciente e responsável sobre o nosso fim último, a realidade que nos espera depois da nossa peregrinação pela terra? Como equacionamos estas questões? Como nos situamos face a elas?
  • O autor do Quarto Evangelho oferece-nos hoje uma catequese sobre a temática da morte e da vida. A partir dos acontecimentos que enlutaram uma família amiga de Jesus (a morte de um homem chamado Lázaro, um dos membros dessa família), o nosso catequista diz-nos que a nossa vida nesta terra terá um fim e que isso é inevitável. Trata-se de algo que resulta da nossa finitude, dos nossos limites, da nossa debilidade, da nossa condição de criaturas. Mas a incontornável morte biológica não será o nosso fim, a última palavra de Deus sobre nós. Aquilo a que chamamos "morte" será uma espécie de "sono" do qual acordaremos nos braços amorosos do nosso Pai do céu. O crente não sabe mais do que os outros homens, nem tem uns óculos especiais para ver aquilo que os outros homens não conseguem ver; mas o crente aproxima-se da morte física com uma confiança radical na bondade, na misericórdia e no amor de Deus… Portanto, o crente acredita que a morte física não é destruição e aniquilação, mas sim a passagem para Deus, para a vida definitiva. Jesus, depois de dialogar com Marta, irmã de Lázaro, sobre esse horizonte de eternidade, perguntava-lhe: "acreditas nisto?" E nós, acreditamos nisto?
  • O "catequista" que nos conta a história de Lázaro, está convicto do poder salvador de Jesus. A sua certeza de que Jesus é fonte de vida é tão grande que, a certa altura, põe na boca de Jesus as seguintes palavras: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá". O que é "acreditar" em Jesus? É aderir a Ele, escutar e acolher as suas palavras, viver ao seu estilo, assumir os seus valores, segui-l'O no caminho do amor, do serviço, do dom da própria vida. Ora, foi precisamente essa a opção que fizemos no dia do nosso batismo: "acreditar" em Jesus; e, ao fazê-lo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a vida eterna. Já agora: temos vivido de forma coerente com essa opção? Vivemos conscientes de que a fidelidade a Jesus é fonte de vida eterna?
  • O adeus definitivo a uma pessoa que nos é querida e que a morte nos arrebata mergulha-nos sempre numa dor sem remédio. Porque temos de perder aqueles que amamos e que enchem as nossas vidas de luz? A ausência, a saudade, deixam-nos um enorme vazio, um vazio que não conseguimos preencher senão com lágrimas. É mesmo assim: essas lágrimas são o preço do amor. O próprio Jesus, diante da "partida" do seu amigo Lázaro, chorou. A nossa relação com aquela pessoa que amávamos estará definitivamente terminada? O adeus que lhe dissemos será um adeus até nunca mais? Jesus, depois de chorar pelo seu amigo Lázaro, chegou ao sepulcro onde Lázaro estava e mandou tirar aquela pedra que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos. Queria, talvez, dizer que essa separação não tinha sentido. Avisaram-no de que Lázaro estava morto há quatro dias e que "já cheirava mal". Jesus limita-se a gritar: "Lázaro, sai para fora". E, à voz de Jesus, Lázaro sai para fora para mostrar a todos que está vivo. Tem os pés e as mãos "enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário". Traz consigo os sinais e as ligaduras da morte. No entanto, sai do sepulcro pelo seu próprio pé. Lázaro, sepultado há quatro dias, está vivo. O que é que o nosso "catequista" quer dizer com isto? Simplesmente que os nossos queridos mortos, aqueles de quem nos despedimos e abandonamos num sepulcro, estão vivos! Deus não os abandonou. Conscientes disso, retiremos a "pedra" que nos afasta dos que já partiram. Não os perdemos. Eles estão vivos. De junto de Deus, eles continuam a acompanhar-nos e a amar-nos. Isso não será, para nós, motivo de consolação e de esperança?
  • Estamos a percorrer o "caminho quaresmal", o caminho que nos leva em direção à Páscoa, à vida nova, à Ressurreição. É uma boa oportunidade para redescobrirmos o compromisso que assumimos no dia do nosso batismo e para redirecionarmos o sentido da nossa existência. Talvez as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, estejam enfaixados por ligaduras que nos prendem na morte e que nos impedem de sair dos túmulos sujos em que nos deixamos encerrar pelo nosso egoísmo, pelo nosso comodismo, pelo nosso orgulho, pela nossa ambição, pela nossa autossuficiência… Talvez necessitemos de prestar atenção à voz de Jesus que nos chama ("Lázaro, sai para fora") e que nos convida a começar uma vida nova, uma vida gloriosa e cheia de sentido. Quais são as "ataduras" que nos mantêm agarrados a uma vida de sombras e de escravidões? Nesta Páscoa, estamos dispostos a ressuscitar com Jesus e a passar com Ele da morte para a vida?
  • Ao chegar a Betânia, Jesus encontra o amigo Lázaro sepultado há já quatro dias (cf. Jo 11,17). De acordo com a mentalidade judaica, a morte era considerada definitiva a partir do terceiro dia. Quando Jesus chega, Lázaro está, pois, verdadeiramente morto. Jesus, em conversa com os discípulos, admite-o; mas fala da morte que atingiu Lázaro como de um "sono". O autor do Quarto Evangelho está, assim a sugerir que Jesus não elimina a morte física; mas, para aqueles que são amigos de Jesus, a morte física não é mais do que um sono, do qual se acorda para descobrir a vida definitiva (cf. Jo 11,11-15).
  • Por esta altura, entram em cena as "irmãs" de Lázaro. Marta é a primeira. Vem ao encontro de Jesus e insinua uma vaga crítica, misturada com um pedido: Jesus podia ter evitado a morte do seu amigo, se tivesse vindo imediatamente, pois onde Ele está reina a vida; no entanto, ela acredita que, mesmo agora, Jesus poderá interceder junto de Deus: de certeza que Deus O ouvirá e devolverá a vida física a Lázaro (cf. Jo 11,20-22). Marta acredita em Deus; acredita que Jesus é um profeta através de quem Deus atua no mundo; mas ainda não tem consciência de que Jesus é a vida e que Ele próprio dá a vida.
  • Jesus vai agora expor a Marta (e, através dela, a todos os "irmãos" que a cada momento se encontram com a morte física de alguém a quem amam) a sua catequese sobre a vida que Ele tem para oferecer. Começa por dizer a Marta: "teu irmão ressuscitará" (Jo 11,23). Marta pensa que as palavras de Jesus são uma consolação banal e que Ele se refere simplesmente à crença farisaica, segundo a qual os mortos haveriam de reviver, no final dos tempos, quando se registasse a última intervenção de Deus na história humana. Isso ela já sabe (cf. Jo 11,24); mas isso não lhe basta: esse último dia ainda está tão longe!

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5.º DOMINGO DA QUARESMA

(adaptadas, em parte, de "Signes d'aujourd'hui")

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 5.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. INCLINAÇÃO NO MOMENTO PENITENCIAL.

Neste domingo sob o signo da Ressurreição e da Vida, eis uma sugestão para renovar o rito penitencial. Depois de uma breve introdução, o presidente da assembleia, virado para a cruz, inclina-se profundamente, assim como toda a assembleia. Permanecer assim durante algum tempo, em profundo silêncio… Seguem-se algumas invocações penitenciais que podem ter como resposta: "Senhor, dai-nos a Vida!"

3. RENOVAR A PROFISSÃO DE FÉ.

Habitualmente, dizemos o Credo com um ar demasiado rotineiro e repetitivo… Como transmitir-lhe mais alegria e entusiasmo interior? Uma brevíssima introdução pode motivar a uma maior atenção à recitação do Credo. Pode-se ainda proclamar o Símbolo dos Apóstolos (dando o texto antecipadamente, pois não é sabido de cor). Pode-se também proclamar a fórmula do credo batismal (dialogada)…

4. BILHETE DE EVANGELHO.

A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem dececionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode dececionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Sejamos vivos. Sê-lo-emos se nós esperamos.

5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
Deus, nosso Pai, nós Te bendizemos, porque és o Deus da Vida. Tu o mostraste, libertando o teu povo, desde o tempo de Isaac, de Moisés e do exílio.

Nós Te pedimos pelo teu novo Povo: levanta as comunidades cristãs de todas as formas de morte, divisões, indiferenças, tédio, isolamento do mundo. Venha sobre nós o teu Espírito de Vida.

No final da segunda leitura:
Pai de Jesus Cristo, nós Te damos graças porque o teu Espírito habita em nós e pelo teu Batismo nos incorporaste ao teu Filho.

Nós Te pedimos: vê as nossas fraquezas. Abrimos as nossas mãos para Ti, para Te pedir o teu Espírito: que Ele dê vida aos nossos corpos mortais, que Ele nos justifique com a justiça que está em Ti.

No final do Evangelho:
Senhor Jesus, proclamamos a tua glória, porque em Ti irradia a luz da vida e da ressurreição: associaste-te aos nossos lutos, chamas os teus amigos a sair dos seus túmulos, Tu arranca-los ao sono da morte.

Nós Te pedimos: desperta em nós a fé. Tu que libertaste Lázaro das ligaduras, liberta-nos dos laços que nos paralisam diante do próximo.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística IV.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO.

O passo da confiança… A que "empresa" estamos nós sujeitos? À do Espírito de Cristo ressuscitado? Ou à da carne, isto é, aquela de todas as contingências humanas que esgotam o nosso tempo e a nossa energia? Ousaremos dar o passo da confiança? Ousaremos entregar-nos a este Espírito que habita em nós para nos comprometermos na sua plenitude de Vida? A quem pertencemos nós?

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Tema da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

A "Festa de Cristo Rei" foi instituída pelo Papa Pio XI, a 11 de dezembro de 1925, através da Carta Encíclica "Quas Primas". Ao instituir esta festa, Pio XI quis propor ao mundo – saído há pouco da tragédia da I Guerra Mundial e mergulhado ainda em contradições que pareciam insanáveis – o regresso a Cristo, o reconhecimento da soberania de Cristo sobre a História e sobre a vida dos homens, o reencontro da humanidade com os valores cristãos e com a paz que só Cristo pode dar. Celebrada inicialmente no último domingo de outubro, esta festa acabou mais tarde por fixar-se no último domingo do ano litúrgico.

A primeira leitura recorda-nos o momento em que David foi ungido como rei de todo o Israel. Com David iniciou-se uma época de felicidade e de abundância que ficou na memória de todo o Povo de Deus. O reinado de David tornou-se símbolo e anúncio de um tempo novo, de uma era de justiça, de bem-aventurança e de paz sem fim. O Povo de Deus vivia dessa esperança e aguardava ansiosamente a sua concretização.

O Evangelho mostra a peculiar resposta de Deus à expetativa de Israel. Jesus é o "ungido de Deus", o Messias-Rei enviado pelo Pai para inaugurar o reinado de Deus. Contudo, a realeza de Jesus soa estranha e paradoxal aos olhos do mundo: as armas que esse rei leva consigo são o amor e a misericórdia; a autoridade que esse rei reivindica é a do serviço simples e humilde; o trono que este rei ocupa é uma cruz onde Ele derrama o seu sangue em benefício de todos; os soldados que rodeiam esse rei são gente desarmada, que Ele irá enviar pelo mundo a anunciar o amor e a paz; os súbditos desse rei sãotodos aqueles que aceitam colocar as suas vidas ao serviço de Deus e dos irmãos. Decididamente, a realeza de Deus não funciona segundo a lógica dos grandes da terra.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um hino que celebra a grandeza universal de Cristo, aquele que tem soberania sobre toda a criação e que é a cabeça da Igreja. O hino exorta os crentes a fazerem de Cristo a sua referência e a viverem em comunhão com Ele. Por Cristo passa, indubitavelmente, o caminho que conduz à vida eterna.

LEITURA I – 2Samuel 5,1-3

Naqueles dias,
todas as tribos de Israel
foram ter com David a Hebron e disseram-lhe:
«Nós somos dos teus ossos e da tua carne.
Já antes, quando Saul era o nosso rei,
eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel.
E o Senhor disse-te:
"Tu apascentarás o meu povo de Israel,
tu serás rei de Israel"».
Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron.
O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor
e eles ungiram David como rei de Israel.

CONTEXTO

O Livro de Samuel (dividido em duas partes – 1Samuel e 2Samuel) situa-nos no período histórico que vai de meados do séc. XI a.C. até ao final do reinado de David (972 a.C.). Depois de apresentar diversas tradições históricas relativas ao período pré-monárquico (o tempo da instalação e da consolidação das tribos do Povo de Deus na terra de Canaan – cf. 1 Sm 1,1 – 7,17), narra-nos o início da experiência monárquica (eleição do rei Saul, os seus feitos militares, a derrota de Saul às mãos dos filisteus – cf. 1Sm 8,1 – 15,35) e a ascensão do rei David ao trono de Israel e de Judá (cf. 1Sm 16,1 – 2Sm 5,25). Na parte final da obra, o autor deuteronomista oferece-nos um conjunto de tradições sobre a realeza davídica (2Sm 6,1 – 24,25), incluindo o longo e conturbado processo de sucessão de David.

Por volta do ano 1007 a.C., o reino de Saul (que agrupava as tribos instaladas no norte e no centro da terra de Canaan) sofreu um rude golpe, com a morte do rei e de Jónatas (filho e natural sucessor de Saul) às mãos dos filisteus, numa batalha travada junto do monte Guilboá (cf. 1Sm 31). Por esta altura, em contrapartida, David já reinava (desde 1012 a.C.) sobre as tribos instaladas no sul do país (cf. 2Sm 2,1-4).

Ishboshet, um outro filho de Saul, foi escolhido para suceder a seu pai no trono de Israel; e ainda reinou dois anos sobre as tribos do norte e do centro (cf. 2Sm 2,8-11). Contudo, acabou por ter a oposição de Abner, chefe dos exércitos do norte, que ofereceu a David a autoridade sobre as tribos que formavam o reino de Saul (cf. 2Sm 3,12-21). Abner foi, entretanto, assassinado por Joab, general de David (cf. 2Sm 3,26-27). Pouco depois, também Ishboshet, o filho de Saul, foi assassinado (os teólogos deuteronomistas, responsáveis pela redação do livro de Samuel, garantem, no entanto, que David não teve nada a ver com esses atos violentos – cf. 2Sm 3,28-39; 4,1-12). Finalmente, os anciãos do norte – apostados em encontrar uma liderança forte que lhes permitisse resistir à pressão militar dos filisteus – decidiram propor a David que, além de ser rei de Judá, no sul, também aceitasse dirigir os destinos das tribos do norte e do centro.

É diante deste quadro histórico que a leitura de hoje nos coloca. David está em Hebron, o lugar onde está instalada a capital das tribos do sul. É aí que, pelo ano 1005 a.C., os representantes das tribos do norte e do centro se encontram com David e o convidam a reinar sobre todo o Israel.

MENSAGEM

A cena descrita – a apresentação dos anciãos das tribos do norte e do centro em Hebron para solicitarem a David que assuma o governo dos territórios que integravam o reino de Saúl – é, provavelmente, um facto histórico. De resto, o pedido que os representantes das tribos fazem a David parece bastante natural: além de ser um guerreiro inteligente e corajoso, David era bem conhecido das gentes do norte por ter passado algum tempo na corte do rei Saul (cf. 1Sm 16,14-23; 18,1-30; 19,1-7). David parecia ser, portanto, uma boa escolha para ocupar o trono de Saul.

Contudo, os autores deuteronomistas são teólogos e catequistas, antes de serem historiadores ou analistas políticos. Por isso, vão apresentar a realeza de David, não apenas como um desejo dos homens, mas sobretudo como uma decisão de Deus. Nesse sentido, colocam na boca dos anciãos de Israel a seguinte afirmação, dirigida a David: "o Senhor disse-te: 'tu apascentarás o meu povo, de Israel, tu serás o rei de Israel'" (vers. 2). A unção de David como rei, mais do que uma conveniência política, é um facto religioso, uma escolha de Deus. David, o rei que vai reunir as coroas de Israel e de Judá, é o "eleito de Javé" para presidir aos destinos do Povo de Deus. A realeza de David é uma espécie de extensão da realeza de Deus. Doravante, o rei David será considerado o instrumento através do qual Deus apascenta o seu povo. É a primeira vez que as doze tribos do povo de Deus estarão unidas sob uma autoridade comum.

O reinado de David ficará na história do povo de Deus como um tempo ideal de prosperidade, de justiça, de abundância e de paz. Não esteve isento de conflitos internos, de injustiças e de lutas pelo poder; mas deixou uma marca imorredoira na memória do povo. David conquistou Jerusalém aos jebuseus e fez dessa cidade a capital do seu reino (cf. 2Sm 5,6-15); ampliou e consolidou as fronteiras do seu reino, submetendo os inimigos tradicionais do povo de Deus, nomeadamente os filisteus, os amonitas e os moabitas (cf. 2Sm 8,1-14; 10,1-19). Do ponto de vista religioso, o reinado de David foi a época em que todo o povo vivia unido à volta de Javé, na fidelidade à Aliança. O próprio rei assegurava que o povo não se desviasse dos compromissos assumidos para com Deus. Os teólogos de Israel chegarão a dizer que Javé, agradado com o seu servo David, lhe prometeu que haveria sempre um descendente da sua raça a presidir aos destinos do povo de Deus (cf. 2Sm 7).

No futuro, o reinado de David vai constituir como que uma miragem ideal para a qual os israelitas continuamente voltam os olhos; e, nas alturas mais dramáticas da sua história, o Povo de Deus passará a sonhar com um descendente de David que venha restaurar o reino ideal de seu pai. A catequese judaica explorará esse filão e falará, com frequência, de um "ungido de Deus" que irá sentar-se no trono de David, libertar Israel dos seus inimigos e inaugurar uma nova era de prosperidade e de paz.

INTERPELAÇÕES

Porque é que, na Solenidade de Jesus Cristo, rei do universo, a liturgia nos traz a memória de David, o rei ideal de Israel e de Judá? Porque a catequese cristã sempre viu em Jesus o "ungido de Deus" (o "Messias"), o descendente de David que Israel esperava ansiosamente para ocupar o trono de seu pai e inaugurar uma época nova de felicidade e de paz sem fim. De facto, depois de ter recebido o batismo no rio Jordão e de ter sido ungido pelo Espírito (cf. Mc 1,9-11), Jesus apareceu na Galileia a anunciar a chegada do "Reino de Deus" (cf. Mc 1,14-15), uma realidade que Ele parecia ligar à Sua pessoa e à Sua atividade. Durante o tempo em que andou pela Galileia e pela Judeia, Jesus evitou que o vissem como "rei" para evitar equívocos perigosos; mas, nos últimos instantes da sua vida, quando estava a ser interrogado pelo governador romano Pôncio Pilatos, Jesus admitiu a sua realeza (cf. Mc 15,2; Jo 18,33-38). Talvez hoje, no entanto, o título de "rei" nos pareça pouco adequado para "colar" à pessoa de Jesus. Para nós, o que significa dizer que Jesus é "rei"? Imaginamo-lo à imagem dos reis que presidem aos destinos dos povos e que desenham a história das nações? Até que ponto vemos em Jesus a nossa referência e estamos dispostos a deixar-nos conduzir por Ele?

A escolha de David para reinar sobre as tribos que constituíam o antigo reino de Saul pareceu, aos anciãos de Israel que se apresentaram em Hebron, uma escolha óbvia, do ponto de vista humano e político. No entanto, a catequese de Israel vai mais além e faz questão de lembrar que David é o "escolhido de Javé", aquele que Deus designou para "apascentar" o seu povo. Na Bíblia deparamo-nos a cada passo com a ideia de que Deus chama pessoas, confia-lhes determinadas tarefas, age através delas para moldar a história dos homens e concretizar o seu projeto de salvação. Nós também fazemos parte desta história. Como fez com David, também a nós Deus chama para desempenhar uma determinada missão no mundo. Estamos conscientes disso? Como encaramos e como concretizamos a missão que Deus nos confiou?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 121 (122)

Refrão: Vamos com alegria para a casa do Senhor.

Alegrei-me quando me disseram:
«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.

Jerusalém, cidade bem edificada,
que forma tão belo conjunto!
Para lá sobem as tribos,
as tribos do Senhor.

Para celebrar o nome do Senhor,
segundo o costume de Israel;
ali estão os tribunais da justiça,
os tribunais da casa de David.

LEITURA II – Colossenses 1,12-20

Irmãos:
Damos graças a Deus Pai,
que nos fez dignos de tomar parte
na herança dos santos, na luz divina.
Ele nos libertou do poder das trevas
e nos transferiu para o reino do seu Filho muito amado,
no qual temos a redenção, o perdão dos pecados.
Cristo é a imagem de Deus invisível,
o Primogénito de toda a criatura;
Porque n'Ele foram criadas todas as coisas
no céu e na terra, visíveis e invisíveis,
Tronos e Dominações, Principados e Potestades:
Ele é anterior a todas as coisas
e n'Ele tudo subsiste.
Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo.
Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos;
em tudo Ele tem o primeiro lugar.
Aprouve a Deus que n'Ele residisse toda a plenitude
e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas,
estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz,
com todas as criaturas na terra e nos céus.

CONTEXTO

Colossos era uma cidade da Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de 180 quilómetros a Este de Éfeso, no vale do rio Lico. Tinha sido, em tempos mais recuados, uma cidade rica e populosa; mas, no tempo de Paulo, tinha perdido a sua antiga importância e estava reduzida a uma pequena povoação.

A comunidade cristã dessa cidade não foi fundada por Paulo mas por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Cl 4,12). A maior parte dos membros da comunidade eram de origem pagã; mas havia também alguns de origem judaica.

A carta aos Colossenses terá sido escrita numa altura em que Paulo estava na prisão (provavelmente em Roma). Estaríamos entre os anos 61 e 63. Epafras visitou Paulo e levou-lhe notícias pouco satisfatórias sobre a comunidade cristã de Colossos. Alguns "doutores" locais (talvez membros de um movimento de índole sincretista, que misturava cristianismo com elementos de religiões mistéricas em voga no mundo helenista) propunham aos Colossenses um sistema religioso que incluía, além do Evangelho de Jesus, práticas ascéticas rigorosas, prescrições sobre os alimentos (cf. Cl 2,16.21), doutrinas especulativas sobre os anjos (cf. Cl 2,18), celebrações que não faziam parte do universo cristão (cf. Cl 2,16). Na opinião desses "doutores", tudo isto devia comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e uma maior perfeição. Paulo desmonta toda esta confusão doutrinal e afirma que nenhum destes elementos tem qualquer importância para a salvação: Cristo basta.

O texto que hoje nos é proposto deve ser enquadrado nesta perspetiva. Inclui um hino de duas estrofes, que provavelmente Paulo tomou da liturgia cristã primitiva, mas que está perfeitamente integrado no conteúdo geral da carta. Este hino cristão de inspiração sapiencial celebra a grandeza universal de Cristo.

MENSAGEM

O texto que nos é proposto começa com um convite à ação de graças, porque Deus livrou os colossenses "do poder das trevas" e transferiu-os "para o Reino do seu filho muito amado". Ligados a Cristo, os colossenses vivem agora segundo um dinamismo novo. Em comunhão com Cristo, os colossenses libertaram-se do pecado e da morte. Encontraram-se com a salvação, com a vida verdadeira (vers. 12-14).

Chegado aqui, Paulo apresenta um hino, carregado de densidade e de beleza, no qual celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção (vers. 15-20): trata-se de um hino que Paulo, provavelmente, tomou da liturgia cristã, mas que está perfeitamente integrado no discurso e na mensagem desta carta. É nas duas estrofes deste hino que está a mensagem fundamental que nos interessa refletir no dia da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.

A primeira estrofe deste hino (vers. 15-17), refere a soberania de Cristo sobre toda a criação. Começa por afirmar que Cristo é, para todos os homens e mulheres, a "imagem de Deus invisível". Dizer que Cristo é "imagem de Deus" significa aqui que Ele é em tudo igual ao Pai, no ser e no agir, e que n'Ele reside a plenitude da divindade. Significa também que Deus, espiritual e transcendente, Se revela aos homens e Se faz visível através da humanidade de Cristo. Quem encontra Cristo, encontra Deus; quem escuta Cristo, escuta Deus; quem experimenta o amor de Cristo, experimenta o amor de Deus; quem está em comunhão com Cristo, está em comunhão com Deus. Cristo, feito homem, torna-se para os homens uma manifestação de Deus.

Depois, o hino afirma que Cristo é o "primogénito de toda a criatura". No contexto familiar judaico, o "primogénito" era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa a supremacia e a autoridade de Cristo sobre toda a criação. Dizer que Cristo é o "primogénito de toda a criatura" significa incluí-lo na classe das criaturas (apesar da sua primazia em dignidade sobre as outras criaturas)? Não. Para deixar as coisas claras, o hino afirma que "n'Ele foram criadas todas as coisas" e que "por Ele e para Ele tudo foi criado" (vers. 16). Ele colaborou com Deus na obra da criação.

Dizer que "n'Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas", significa que todas as coisas têm em Cristo o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia ("n'Ele"); que é Ele que comunica a vida do Pai ("por Ele"); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação ("para Ele"). Ao mencionar expressamente que os "tronos, dominações, principados e potestades" estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos "doutores" Colossenses acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo. Cristo é único; Ele tem verdadeiramente a primazia sobre toda a criação.

A segunda estrofe do hino (vers. 18-20) celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção. Apresenta Cristo, antes de mais, como a "cabeça do corpo" que é a Igreja. A expressão, tipicamente paulina (cf. Ef 4,15-16; 5,23), significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros desse "corpo" e que os une num conjunto vital e harmónico. Cristo é, portanto, a referência absoluta para todos aqueles que fazem parte da comunidade cristã. Não há outra referência.

Depois, afirma-se que Cristo é o "princípio, o primogénito de entre os mortos". Significa que Ele, não só foi o primeiro que ressuscitou, mas também que Ele é a fonte de graça e de glória para aqueles que vivem em comunhão com Ele e que fazem parte do "corpo" do qual Ele é a cabeça. Na sua ressurreição, está incluída a nossa ressurreição; a sua vitória sobre a morte tornou-se para nós fonte perene de vida.

Finalmente, o hino afirma que em Cristo reside "toda a plenitude". O termo grego "pleroma", aqui utilizado, refere-se à totalidade de Deus. Significa que em Cristo e só n'Ele habita, efetiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor deste hino pode dizer que por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.

INTERPELAÇÕES

Existem questões decisivas que, mais tarde ou mais cedo, se nos colocam: como dar significado pleno à nossa existência? Como construir uma vida que valha a pena? Por que caminhos devemos andar, na viagem da vida, para não ficarmos atolados em becos sem saída? O que é que é essencial e o que é que é secundário, quando se trata de definir o eixo fundamental da nossa existência? Os cristãos de Colossos também se debatiam com estas questões; e, na sua ânsia de encontrar respostas, abriam portas a doutrinas estranhas e a propostas incompatíveis com o Evangelho de Jesus. Hoje, em pleno séc. XXI, numa altura em que vivemos "em rede" e somos confrontados a cada instante com mil e uma propostas e sugestões, esta questão adquire uma particular relevância. Confundidos e baralhados por tanta informação, tornamo-nos permeáveis a propostas mais ou menos excêntricas, mais ou menos esotéricas, mais ou menos ecléticas, por vezes pouco condizentes com a pureza e a autenticidade da proposta cristã. Por outro lado, muitos cristãos continuam a colocar a sua esperança de realização em "poderes", em figuras, em superstições, em instituições, em rituais "mágicos", que não libertam e que não ajudam a encontrar caminhos de plena realização. Como nos situamos face a isto? Procuramos definir claramente, em coerência com a nossa fé, o caminho que devemos seguir?

A festa de Cristo Rei celebra, antes de mais, a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação. Neste contexto, o autor da Carta aos Colossenses lembra-nos que, em Cristo, Deus revela-Se; que Ele tem a supremacia e autoridade sobre todos os seres criados; que Ele é o centro de todo o universo e que tudo tende e converge para Ele… Isto equivale a definir Cristo como o centro da vida e da história, a coordenada fundamental à volta da qual tudo se constrói. Cristo tem, de facto, esta centralidade na vida dos homens e mulheres do nosso tempo, ou há outros deuses e referências que usurparam o seu lugar? Quais são esses outros "reis" que ocuparam o "trono" que pertence a Cristo? Esses "reis" trouxeram alguma "mais valia" à vida dos homens, ou apenas criaram escravidão e desumanização? O que podemos fazer para que a nossa sociedade reconheça em Cristo o seu "rei"? Cristo é o centro, a referência fundamental à volta da qual a nossa vida se articula e se constrói? O que é que Cristo significa para nós, não em termos de definição teórica, mas em termos existenciais?

A Festa de Cristo Rei é, também, a festa da soberania de Cristo sobre a comunidade cristã. A Igreja é um corpo, do qual Cristo é a cabeça. É Cristo que reúne os vários membros da Igreja numa comunidade de irmãos que vivem no amor; é Cristo que a todos alimenta e dá vida; é Cristo o termo dessa caminhada que os crentes fazem ao encontro da vida em plenitude. Esta centralidade de Cristo tem estado sempre presente na reflexão, na catequese e na vida da Igreja? Não é verdade que, muitas vezes falamos mais de autoridade e de obediência do que de Cristo, de castidade e de leis canónicas do que do Evangelho, de poder e de direitos da Igreja do que do Reino de Deus que Cristo veio propor? Cristo é – não em teoria, mas de facto – o centro de referência da Igreja no seu todo e de cada uma das nossas comunidades cristãs em particular? Não damos, às vezes, mais importância às leis feitas pelos homens do que a Cristo? Não há, tantas vezes, "santos" e "santinhos" que assumem um valor cimeiro na experiência de fé de muitos cristãos, deixando em plano secundário Cristo e o Seu Evangelho?

ALELUIA – Marcos 11,9.10

Aleluia. Aleluia.

Bendito O que vem em nome do Senhor!
Bendito o reino do nosso pai David!

EVANGELHO – Lucas 23,35-43

Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d'Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d'Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más ações.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no
Paraíso».

CONTEXTO

Jesus foi preso no jardim das Oliveiras pelos soldados do templo (cf. Lc 22,47-53) numa noite de quinta-feira do mês de Nisan do ano 30. Logo de seguida, foi conduzido pelos soldados ao palácio do sumo sacerdote, onde foi maltratado e insultado durante uma boa parte da noite (cf. Lc 22,63-65). De manhã, Jesus foi apresentado diante de um Conselho de notáveis, formado por anciãos do povo, sumo sacerdotes e doutores da Lei. Os membros do Conselho interrogaram-no e procuraram definir a sua culpa (cf. Lc 22,66-71). Quando acharam que já tinham os dados necessários, fizeram Jesus comparecer diante do procurador romano Pôncio Pilatos. Acusavam-no de sublevar o povo contra César e de se apresentar como o Messias-Rei (cf. Lc 23,1-5).

Pilatos não ficou convencido da culpabilidade do réu (cf. Lc 23,4. 13-16). Tentou, de diversas formas, libertar Jesus; mas, pressionado pelos dirigentes judeus, acabou por ceder e por decretar a condenação de Jesus à morte na cruz (cf. Lc 23,20-25).

O cortejo com os condenados (havia mais dois, além de Jesus – cf. Lc 23,32) saiu do palácio de Pôncio Pilatos e dirigiu-se, através das ruas da cidade, para o local das execuções, uma pequena colina situada fora das muralhas, mas que era um lugar de passagem para os que entravam e saíam da cidade. Dessa forma, todos os que passavam por ali podiam ver o que acontecia a quem afrontava o poder romano. O traçado que Jesus e os outros condenados tinham de percorrer era relativamente curto, talvez de uns quinhentos metros.

Jesus, como os outros condenados, levava às costas uma trave, a trave transversal da cruz. As fontes dizem que Jesus, enfraquecido pela tortura, não conseguiu levar a trave até ao fim. Os soldados, com medo que ele morresse antes de a sentença ter sido executada, tiveram de requisitar um tal Simão de Cirene, um homem que vinha do campo, para carregar a trave que Jesus transportava às costas (cf. Lc 23,26).

Não tardaram a chegar ao Gólgota, o lugar das execuções de Jerusalém. Era um local sinistro. "Gólgota" (do arameu "gulgultá") significa "lugar do crânio, ou da caveira". Era uma pequena colina de dez ou doze metros de altura. No cimo dessa pequena colina podiam ver-se, espetados na terra, os paus verticais onde iriam ser penduradas as traves que os condenados transportavam às costas.

Procedeu-se então à crucifixão dos condenados. Despiram-nos, para lhes degradar a dignidade. Depois, os soldados deitaram sortes para ver quem ficava com as vestes dos condenados (cf. Lc 23,34). Estenderam Jesus e os outros dois no chão e pregaram-nos ao travessão lateral pelos pulsos; depois elevaram o travessão com o corpo de cada condenado e fixaram-no no pau vertical. Com cravos, fixaram os pés dos condenados ao pau vertical. Na parte superior da cruz de Jesus havia um letreiro identificando o condenado e dizendo a razão da sua condenação: "o basileus tôn Ioudaiôn outos" ("este é o rei dos judeus").

É o final da "caminhada" terrena de Jesus: estamos perante o último quadro de uma vida gasta ao serviço da construção do Reino de Deus. As bases do Reino já estão lançadas e Jesus é apresentado como "o Rei" que preside a esse "estranho" Reino cujos contornos não foram desenhados pelos homens mas sim por Deus.

MENSAGEM

Jesus está pregado na cruz, afogado num sofrimento indizível. Às dores físicas soma-se o sofrimento que resulta das zombarias e dos insultos dos "chefes dos judeus" (provavelmente alguns membros do Sinédrio) que estavam por ali (vers. 35), orgulhosos da sua vitória sobre o rabi galileu que tanto os tinha incomodado com o projeto do Reino de Deus. Os próprios soldados romanos que vigiavam a execução troçavam de Jesus (vers. 36) e faziam alusões irónicas ao facto de um "rei" acabar os seus dias numa cruz (vers. 37), o suplício reservado à ralé da sociedade, aos "malditos", aos "últimos".

Presidindo a toda esta cena, dominando-a de alto a baixo, está a famosa inscrição que define Jesus como "rei dos judeus" (vers. 38). Trata-se, certamente, de uma pequena placa em madeira que era costume pendurar ao pescoço dos sentenciados ou pregar no alto da cruz, indicando o nome do condenado e o motivo da sua condenação. Quer os dirigentes judeus ali presentes, quer os soldados que acompanham a execução, captam a ironia das palavras escritas naquela placa: Jesus, o "rei dos judeus" não está sentado num trono real, mas pendurado num madeiro fora das muralhas de Jerusalém; não aparece rodeado de súbditos fiéis que O aclamam, O incensam e O adulam, mas de gente medíocre e exaltada que o insulta e escarnece; não exerce autoridade de vida ou de morte sobre milhões de homens, mas está indefeso, abandonado por todos os seus amigos, condenado a uma morte infamante; não está vestido com roupas de linho e púrpura, mas está nu, pois até as suas pobres vestes de camponês lhe foram tiradas; não tem na cabeça uma coroa de oiro e pedras preciosas, mas sim uma coroa de espinhos que os soldados o obrigaram a levar como supremo insulto… Não há, neste quadro dramático, qualquer sinal que identifique Jesus com poder, com autoridade, com realeza terrena. Contudo, a inscrição da cruz – irónica aos olhos dos homens – descreve com precisão a situação de Jesus, na perspetiva de Deus: Ele é o "rei" que preside, do alto daquela cruz, a um Reino diferente dos reinos humanos, a um "Reino" desenhado com as cores de Deus e assente nos valores de Deus.

Jesus tinha proclamado esse Reino por toda a Galileia e por toda a Judeia com parábolas sublimes e com gestos de misericórdia que trouxeram uma nova esperança ao coração dos pobres, dos esquecidos, dos sem voz, dos abandonados da sociedade e da religião. De acordo com o anúncio de Jesus, o Reino de Deus é um mundo governado pelo amor sem fronteiras, pelo serviço simples e humilde, pelo dom de si próprio, pelo perdão sem limites; é um mundo onde os pobres, os sofredores, os abandonados terão sempre lugar à mesa abundante de Deus; é um mundo onde os "grandes", os mais importantes, não são os que têm cargos de autoridade, mas sim aqueles que estão sempre disponíveis para amar e para cuidar dos seus irmãos mais frágeis; é um mundo onde a força do amor substitui a força da violência e das armas; é um mundo onde o perdão fala sempre mais alto do que rancor e o ódio. Ora, tudo isto está ali presente e bem evidente naquela cruz erguida numa pequena colina fora das muralhas de Jerusalém. Naquele homem que oferece toda a sua vida por amor, que morre pedindo perdão para os seus assassinos, que se deixa matar para libertar os seus irmãos prisioneiros do pecado, da maldade e da morte, está bem evidente a realidade do Reino de Deus. A morte de Jesus na cruz é a lição suprema através da qual Ele "explica" ao mundo e aos homens o que é o Reino, o que é que ele significa, o que é que ele exige. Naquele momento, os chefes dos judeus, os soldados, o povo que contempla o crucificado, não são capazes de perceber o alcance de tudo aquilo; mas, com o passar do tempo, o mundo aprenderá a ver, naquele crucificado que deu a vida por amor, a proposta de uma nova maneira de viver. Aquela cruz onde está Jesus é o verdadeiro ícone do Reino de Deus, do mundo novo que Jesus veio anunciar e propor. Jesus é o "rei" que preside a esse mundo novo.

Depois, para completar a catequese que pretende oferecer-nos sobre a realeza de Jesus, o evangelista Lucas convida-nos a dirigir o olhar para os dois "malfeitores" que "tinham sido crucificados" ao lado de Jesus.

Um deles, dirigia-se a Jesus com insultos (vers. 39). As palavras que ele dizia expressavam a sua convicção de que Jesus, enquanto Messias, era uma fraude, pois não conseguia salvar-se nem salvar os seus companheiros de infortúnio. Esse "malfeitor" contemplava Jesus com o mesmo olhar de incompreensão dos dirigentes judeus e dos soldados romanos. Via em Jesus um fracassado, um vencido, um "pobre diabo" triturado pelo sistema, um insignificante que iria passar sem deixar memória na história do mundo e dos homens. Aquele "malfeitor" não conseguia ver no seu companheiro de suplício o "rei" que veio propor ao mundo e aos homens, em nome de Deus, uma nova ordem. Aquele "malfeitor" não estava apto para entender a realidade do Reino de Deus que se manifestava naquela cruz e naquele condenado.

No lado oposto está o outro "malfeitor". Aparentemente foi ele o único a entender o sentido da cruz e da entrega de Jesus (vers. 40-41); foi ele o único a perceber que amar até ao extremo e entregar-se em benefício de todos não significa perder a vida, mas sim ganhá-la. Esse "malfeitor" que era capaz de ver para além das aparências, entendeu claramente que, na história daquele "rei" que morria sem culpa numa cruz ali ao lado, havia a inconfundível marca de Deus. Ao ver Jesus entregar a vida por amor, ele entendeu a lógica do Reino de Deus e desejou ardentemente, naqueles últimos instantes da sua vida, abraçar tal projeto, fazer parte desse Reino do qual Jesus era o "rei". Por isso, dirigindo-se a Jesus, pediu-lhe: "Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza" (vers. 42). A resposta de Jesus àquele "malfeitor" condenado subverte todas as nossas lógicas e entendimentos: "em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso" (vers. 43). Tudo isto é tão "fora da caixa" que, mesmo depois de dois mil anos de cristianismo, ainda nos é difícil entender este "rei" que se entrega a uma morte ignominiosa para levar vida aos seus irmãos e que faz de um "malfeitor" condenado o primeiro santo canonizado da sua Igreja. Ao canonizá-lo, Jesus garante que da cruz brota vida. Aquele "malfeitor" que descobriu o sentido da cruz vai ao encontro dessa vida.

"Este é o rei dos judeus" – dizia a inscrição feita na placa de madeira que encimava a cruz de Jesus. O evangelista João informa que foi o governador romano Pôncio Pilatos (cf. Jo 19,19) que redigiu esse breve resumo da ata da sentença que condenou Jesus à morte. Aqueles dizeres que, na intenção de quem os redigiu, queriam informar sobre o motivo da condenação à morte do rabi da Galileia, ajudam agora o mundo a entender o mistério que se esconde por detrás daquela morte e daquela vida: o crucificado que ofereceu a sua vida para concretizar o projeto de Deus, é o "rei" que veio concretizar as promessas outrora feitas por Deus ao seu povo. Do seu testemunho, da sua entrega, do seu amor até ao extremo, nasce um reino novo, sem fronteiras e sem limites, cuja lei é o amor. O trono desse "rei" é a cruz; os seus soldados são todos aqueles que, independentemente do seu passado, entendem a lógica do amor e se dispõem a viver no serviço, na misericórdia, no perdão, no dom da vida.

INTERPELAÇÕES

  • Faz sentido, em pleno séc. XXI, encerrar o ano litúrgico com a celebração da Solenidade de Cristo Rei do Universo? O título de "rei" que atribuímos a Jesus não será, nestes tempos "democráticos", um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que nos conviria evitar? Tratar Jesus como "rei" não será pô-lo ao nível dos grandes e poderosos do nosso mundo? Ver em Jesus um "rei" não poderá contribuir para que fiquemos com uma ideia errada d'Ele e do projeto que Ele nos veio propor? Todas estas perguntas são legítimas; mas convém desde logo ter em conta que o próprio Jesus, questionado por Pilatos sobre a sua realeza, confirmou que era "rei" (cf. Lc 23,3). Na versão do evangelista João, Jesus diz mesmo a Pilatos que é um "rei" que veio ao mundo "para dar testemunho da verdade" e que todos os que são da verdade devem escutar a sua voz (Jo 18,37). Sim, podemos celebrar a realeza de Jesus, nós que escutamos a Sua voz, que queremos viver na verdade e que o temos como a referência fundamental à volta da qual construímos a nossa existência. Convém, no entanto, entender a "realeza" de Jesus na perspetiva certa: Ele é um rei que veio oferecer aos homens a verdade que liberta; Ele reina através da força desarmada do amor; o seu estilo é o do serviço simples e humilde; a sua força é a que resulta da misericórdia e do perdão; o trono de onde Ele exerce o seu poder é a cruz onde oferece a sua própria vida em benefício de todos. É dessa forma que vemos e entendemos a "realeza" de Jesus? Estamos dispostos a fazer desse "rei" a nossa referência?
  • Ao longo do seu caminho pela história a Igreja nem sempre entendeu bem a realeza de Jesus. Julgou, em diversos momentos, que essa realeza lhe dava um mandato para se impor, para dominar, para condenar, para coagir, até mesmo para matar. Montou estruturas decalcadas dos impérios; enviou exércitos para combater os "infiéis"; impôs conversões forçadas; condenou e queimou muitos "diferentes" que não se reviam na "ordem cristã" ou que tinham uma visão do mundo e da fé não coincidente com a da hierarquia… É evidente que temos de olhar para muitos desses "equívocos" como "datados", como acontecimentos que devem ser vistos e avaliados à luz de um determinado contexto histórico. No entanto, em pleno séc. XXI faz sentido perguntar: já nos livramos de toda essa mentalidade triunfalista, inquisitiva, intolerante, do espírito de cruzadas e de guerras santas contra o mundo e contra os que não pensam como nós? Faz sentido, depois de o nosso "rei" se ter apresentado ao mundo no trono da cruz, reivindicar dos poderes políticos honras e privilégios para a Igreja nascida de Jesus? Necessitamos de continuar a reproduzir, na Igreja, as estruturas de poder que a sociedade cultiva e que funcionam segundo lógicas que nem sempre coincidem com os valores do Evangelho? O que pensamos de tudo isto?
  • A maneira como Jesus exerce a sua realeza sobre o mundo e sobre os homens poderá também deixar-nos uma poderosa interpelação sobre o nosso estilo de vida, os valores que privilegiamos, a forma como nos situamos diante dos nossos irmãos. O silêncio digno daquele "rei" pregado na cruz, despojado das suas vestes, abandonado pelos amigos, que sofre sem revolta as zombarias dos líderes judaicos e os insultos dos soldados, não faz parecer absolutamente ridículas as nossas pretensões de honras, de títulos, de aplausos, de reconhecimentos, de vaidades pessoais? A atitude daquele "rei" que, por amor aos seus irmãos, oferece a sua vida até à última gota de sangue, não constitui uma denúncia eloquente das nossas manias de grandeza, das nossas invejas mesquinhas, das nossas rivalidades, das nossas ambições desmedidas, das nossas vaidades estúpidas, dos nossos egoísmos estreitos e cegos? Diante deste "rei" que se dá completamente, sem guardar nada para si, não nos sentimos convidados a fazer da vida um dom a Deus e aos irmãos que caminham ao nosso lado?
  • É extraordinário que, de entre todos os que estavam presentes no momento da crucificação de Jesus, só um "malfeitor" tenha visto naquele justo que todos desprezaram, "o rei dos judeus". É admirável que só um "malfeitor" condenado à morte tenha entendido o mistério daquele justo que ofereceu a vida por amor e que, amando até às últimas consequências, libertou os seus irmãos da violência, da injustiça, da mentira, das trevas, da morte. É singular que só um "malfeitor" em fim de linha, prestes a ser eliminado por uma sociedade que o considerara irrecuperável, tenha percebido que, do martírio daquele justo, ia nascer um mundo novo, um reino de justiça, de amor e de vida. Porque é que, tantas e tantas vezes, são os mais distantes que melhor compreendem Jesus e o seu mistério? Porque é que tantas e tantas vezes são os mais "improváveis" que entendem e abraçam os desafios que Jesus deixa ao mundo e aos homens? Nós, que há tanto tempo caminhamos atrás de Jesus e que nos dizemos seus discípulos, já percebemos o Seu mistério? Estamos disponíveis para viver ao estilo de Jesus e para colaborar com Ele na construção do Reino de Deus?
  • O evangelista Lucas convida-nos, na Solenidade de Cristo Rei do Universo, a olhar para a cruz onde agoniza Jesus, o "rei dos judeus". Contemplar a cruz onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus significa assumir a mesma atitude que Ele assumiu e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade. Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste modo pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição. A contemplação da cruz de Jesus leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo? A contemplação da cruz de Jesus faz com que nos sintamos solidários com todos os nossos irmãos que todos os dias são crucificados e injustiçados? A contemplação da cruz de Jesus dá-nos a coragem para lutarmos contra tudo aquilo que gera sofrimento e morte, mesmo que isso implique correr riscos, ser incompreendido e condenado?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 34.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(adaptadas, em parte, de "Signes d'aujourd'hui")

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 34.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. PALAVRA CELEBRADA NA EUCARISTIA.

A Palavra de Deus não se limita ao tempo da proclamação e da escuta da Palavra. Na preparação da celebração, procurar que algumas expressões da liturgia da Palavra estejam presentes no momento penitencial, nalguma intenção da oração dos fiéis, num momento de acção de graças…

3. BILHETE DE EVANGELHO.

Na colina do Gólgota, os chefes zombam… os soldados troçam… um soldado injuria Jesus… Até ao fim Jesus encontrará a oposição e a incompreensão. A sua mensagem era perturbadora, o seu testemunho provocador, o seu rosto desfigurado, mesmo Deus parecia tê-l'O abandonado… É um malfeitor que reconhece no seu companheiro de infelicidade, também perto de morrer, o Rei de um outro Reino em que a única defesa é a do Amor. Então, vira-se para Jesus, de quem deve ter ouvido falar do seu Reino, e pede-Lhe somente para Se recordar dele quando vier inaugurar este Reino. Ora, a hora chegou, é hoje que estará com Ele no Paraíso. Aquele que foi malfeitor sobre a terra torna-se benfeitor no Reino, é isso a salvação. Isso passou-se na colina do Gólgota, numa certa sexta-feira da história…

4. À ESCUTA DA PALAVRA.

Na oração do Pai Nosso, Jesus faz-nos pedir, e reza connosco: "Não nos deixeis cair em tentação". De facto, Jesus foi submetido à tentação e resistiu. A este propósito, Lucas dá uma estranha precisão, dizendo que o diabo afastou-se de Jesus até ao momento fixado. Este momento é quando Jesus é pregado na cruz. No deserto, o diabo tinha dito: "Se és o Filho de Deus…" Agora Jesus ouve: "Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também". É a mesma tentação: se Jesus é verdadeiramente o Messias, o Filho de Deus, deve dispor de toda a omnipotência de Deus. Então, que utilize este mesmo poder para cumprir um último milagre e despegar-Se da cruz. Até os seus inimigos ficariam confundidos. Mas Jesus resistiu. É porque algo de sumamente importante está aqui em jogo. Trata-se, uma vez mais, do verdadeiro rosto de Deus que Jesus veio revelar. Não um Deus todo-poderoso à maneira dos homens, mas um Deus Pai que só pode fazer uma coisa: amar, amar os seus inimigos, ainda e sempre, mesmo quando eles O rejeitam e crucificam o seu Filho bem-amado. Ora, se esta tentação acompanhou Jesus até à cruz, não é de admirar que ela acompanhe sempre os seus discípulos, que a própria Igreja não lhe escape! Na cruz, Jesus, o Rei, exerce outro poder, outra realeza. Não utiliza um poder à maneira do mundo. O segundo malfeitor, que chamamos de "bom ladrão", só pede uma coisa a Jesus: que Se lembre dele no seu Reino. O que ele pede não é que o livre da morte iminente, a mesma de Jesus! É que, depois da morte, Jesus Se lembre dele. Simplesmente, diz: "Jesus, preciso de ti". É um grito de pobreza. Então Jesus diz-lhe: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso". E o assassino tornou-se o primeiro homem a entrar com Jesus no Reino do Pai. Aí está o verdadeiro, o único poder de Jesus.

Dedicação da Basílica de Latrão 

XXXII Domingo do Tempo Comum

Tema da Festa da Dedicação da Basílica de Latrão

A Basílica de S. João de Latrão é a catedral do Papa, enquanto Bispo de Roma. Construída pelo imperador Constantino, no tempo do Papa Silvestre I, foi consagrada no ano 324. Ela é chamada "a igreja-mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe"; e é o símbolo das Igrejas de todo o mundo, unidas à volta do sucessor de Pedro. A Festa da Dedicação da Basílica de Latrão convida-nos a tomar consciência de que a Igreja nascida de Jesus (que a Basílica de S. João de Latrão simboliza e representa) é hoje, no meio do mundo, a "morada de Deus", o testemunho vivo da presença de Deus na caminhada histórica dos homens.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel anuncia aos exilados na Babilónia que Deus vai fixar definitivamente a sua morada no meio do Seu Povo. Da "casa de Deus" brotará um rio de água viva e abundante que se derramará sobre toda a terra de Israel. Essa água irá fecundar o deserto, fazer com que nasçam árvores de toda a espécie, carregadas de frutos comestíveis e de folhas medicinais que serão remédio contra a morte. O povo de Deus, vivificado pela água que brota da morada de Deus, conhecerá a vida em abundância, a felicidade sem fim.

No Evangelho, Jesus apresenta-Se como "o Templo Novo" onde Deus reside e onde marca encontro com os homens para lhes oferecer a sua Vida e a sua salvação. Quem quiser encontrar Deus deve aproximar-se de Jesus, tornar-se seu discípulo, abraçar o seu projeto, seguir os seus passos, viver animado pelo seu Espírito.

Na segunda leitura, Paulo recorda aos cristãos de Corinto (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) que são, no mundo, o Templo de Deus onde reside o Espírito. Animados pelo Espírito, os cristãos são chamados a viver segundo um dinamismo novo, dando testemunho da bondade e da misericórdia de Deus no meio dos seus irmãos.

LEITURA I – Ezequiel 47,1-2.8-9.12

Naqueles dias,
o Anjo reconduziu-me à entrada do templo.
Depois do limiar da porta saía água em direcção ao Oriente,
pois a fachada do templo estava voltada para o Oriente.
As águas corriam da parte inferior,
do lado direito do templo, ao sul do altar.
O Anjo fez-me sair pela porta setentrional
e contornar o templo por fora,
até à porta exterior que está voltada para o Oriente.
As águas corriam do lado direito.
O Anjo disse-me:
«Esta água corre para a região oriental,
desce para Arabá e entra no mar,
para que as suas águas se tornem salubres.
Todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente
terá novo alento
e o peixe será mais abundante.
Porque aonde esta água chegar,
tornar-se-ão sãs as outras águas
e haverá vida por toda a parte aonde chegar esta torrente.
À beira da torrente, nas duas margens,
crescerá toda a espécie de árvores de fruto;
a sua folhagem não murchará, nem acabarão os seus frutos.
Todos os meses darão frutos novos,
porque as águas vêm do santuário.
Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio».

CONTEXTO

Ezequiel integrava o grupo de jerusalimitanos que o rei babilónio Nabucodonosor, depois de derrotar Joaquin, rei de Judá, e de conquistar pela primeira vez Jerusalém, em 597 a.C., deportou para a Babilónia. Foi aí, entre os seus concidadãos exilados, que Ezequiel exerceu a sua missão profética.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é novamente conquistada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, muitos dos exilados acreditavam que o cativeiro terminaria dentro de pouco tempo e que iriam ser autorizados a retornar a Jerusalém. Ezequiel, por mandato de Deus, procura destruir essas falsas esperanças: o cativeiro está para durar. Aliás, o que vai acontecer é precisamente o contrário: Jerusalém vai ser novamente tomada pelos babilónios e muitos dos que escaparam da primeira deportação serão levados para a Babilónia e irão fazer companhia aos que já lá estão. De facto, assim aconteceu.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio, sem culto, os exilados estão desesperados. Duvidam da fidelidade de Deus, da Sua bondade e do Seu amor. Nessa fase, Ezequiel assume um discurso diferente. Com a sua palavra e os seus gestos proféticos procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir-lhes a certeza de que Deus não os abandonou. O texto que hoje nos é proposto pertence a esta segunda fase.

Para dar corpo à esperança, Ezequiel anuncia aos exilados a chegada de uma nova era, de felicidade e de paz sem fim… Será o tempo em que Deus irá, Ele próprio, assumir a condução do seu Povo, como um "Bom Pastor" que cuida das suas ovelhas (cf. Ez 34,11-16); será o tempo em que Deus vai tornar de novo fecundos os campos sobre os quais se abateu a guerra e a desolação e reconstruir e repovoar as cidades abandonadas e calcinadas (cf. Ez 36,8-11); será o tempo em que Deus vai operar uma mudança no interior dos homens, substituindo os "corações de pedra", duros e insensíveis, por "corações de carne", capazes de acolher os preceitos da Aliança e de viver no amor a Deus e aos irmãos (cf. Ez 36,25-28); será o tempo em que o Templo de Jerusalém será reconstruído e Deus irá voltar a residir no meio do seu Povo (cf. Ez 40,1-47,12).

Com a promessa de que Deus vai voltar a residir no meio do seu Povo, chegamos ao ponto culminante dessa "teologia da esperança" que Ezequiel, por indicação de Deus, propõe aos seus concidadãos. Mais do que o próprio Exílio numa terra estrangeira, Israel lamentava o desaparecimento do Templo (a "residência de Deus") e da "Glória de Javé" (a "Glória" equivalia à presença gloriosa de Deus no meio do seu Povo, oferecendo a Judá a salvação e a vida). Mas Ezequiel garante aos exilados que Deus vai construir um Novo Templo (cf. Ez 40-42), do qual sairá vida em abundância ("água": Ez 47,1-12) e no qual a "Glória de Javé" voltará a habitar (cf. Ez 43,1-5).

MENSAGEM

Do Novo Templo que vai surgir e que será a habitação de Deus no meio do seu Povo, o profeta "vê" brotar um rio de águas profundas e impetuosas (vers. 1-2). A água é um símbolo universal de vida, de fecundidade, de abundância, de felicidade; no entanto, essa simbologia torna-se, ainda, mais significativa para um Povo marcado pela dura experiência do deserto, onde a falta ou a abundância de água é, em termos bem reais, a diferença entre a morte e a vida. Dado que esse "rio" de que o profeta fala brota da casa de Deus, a sua água evoca o poder vivificante e fecundante de Deus que, de Jerusalém, se derrama sobre o seu Povo.

O rio de água viva e abundante que brota do Templo de Deus corre para oriente, desce para a região da Arabá – a região mais desolada e árida do país – e, daí, para o Mar Morto. Aquela corrente de água fecunda a aridez do deserto, torna salubres as águas do Mar Morto e enche-as de vida (vers. 8-9). Nas margens desse rio crescerão árvores de toda a espécie, carregadas de frutos comestíveis e de folhas medicinais que serão remédio contra a morte (vers. 12). O cenário evoca a imagem paradisíaca do Jardim do Éden, local de água abundante e de árvores de fruto de toda a espécie, onde o homem – vivendo em comunhão com Deus e obedecendo às suas propostas – tinha todas as condições para ser feliz (cf. Gn 2,9-14). De acordo com a visão de Ezequiel, o cenário que Deus prepara para o seu povo será, portanto, um regresso a esse tempo idílico de felicidade sem limites, em que Deus e a sua criação viviam lado a lado, em comunhão total e sem sombras.

Durante os anos sombrios do exílio, esta promessa animou os exilados e deixou-lhes no coração um enorme capital de esperança. De olhos postos em Jerusalém, no Monte do Templo, os exilados sonhavam de olhos abertos com esse Novo Templo prometido a partir do qual a vida de Deus voltaria a derramar-se abundantemente sobre toda a terra e sobre todos os membros da comunidade do povo de Deus.

Os escritos nascidos da tradição joânica vão ligar esta profecia de Ezequiel a Jesus Cristo. Para o autor do Quarto Evangelho, Jesus é esse Novo Templo de que o profeta falou (cf. Jo 2,21), o "lugar" da residência de Deus no meio dos homens; e do coração de Cristo, o Homem Novo que amou os homens até ao dom total de si mesmo, irá brotar uma fonte de água (cf. Jo 19,34) que mata definitivamente a sede de vida que o homem sente (cf. Jo 4,14; 7,37-39). O Livro do Apocalipse, por sua vez, apresenta – integrado na descrição da "nova Jerusalém" onde vão residir aqueles que se mantiverem fiéis a Jesus – o quadro do trono celeste do Cordeiro imolado, de onde sai um "rio de água viva, resplendente como cristal" (Ap 22,1), que fecundará toda a terra. Nas suas margens estará a "árvore da Vida, que produz anualmente doze colheitas de fruto" e que "tem folhas que servem de medicamento para as nações" (Ap 22,2).

INTERPELAÇÕES

  • A amarga experiência do cativeiro na Babilónia foi, para as gentes de Judá, um terrível tempo de prova. Longe da sua terra, humilhados pelos vencedores, sentindo que todas as suas certezas tinham caído por terra, viviam desanimados e sem esperança; mas, mais do que tudo, doía-lhes sentirem-se traídos e abandonados por Deus. Onde estava Deus? Tinha-se ausentado para parte incerta? Tinha desistido do seu povo? O profeta Ezequiel recebeu a missão de dizer a esse povo sofrido: "Não, Deus não vos abandonou. Ele vai voltar a residir no meio do Seu povo. Da Sua morada sairá um rio de vida que inundará toda a terra e vos trará bênçãos infinitas". Talvez nós, homens e mulheres do séc. XXI, nos sintamos numa situação semelhante à dos exilados judeus na Babilónia. As guerras, as injustiças, as convulsões sociais, os escândalos que abalam a sociedade e que nos fazem desconfiar das instituições, a falência dos líderes em quem colocamos a nossa confiança, a crise de valores, a falta de respeito pela vida humana, abalam o nosso mundo e mergulham-nos na angústia, na frustração, na insegurança, no medo. Onde está Deus? Podemos contar com Ele? Outra vez ecoa no mundo a Boa notícia trazida por Ezequiel: "não, o mundo não caminha para um beco sem saída; Deus não virou as costas aos seus queridos filhos; Ele faz questão de residir no meio de vós. D'Ele brota continuamente um rio de água refrescante que rega a vossa terra e que sacia a vossa sede de vida". Somos capazes de reconhecer a vida que Deus a cada instante derrama sobre o mundo e sobre os homens? Isso é para nós fonte de serenidade, de confiança e de esperança?
  • Se Deus reside no meio dos homens e derrama sobre eles vida em abundância, porque é que existem na história do nosso tempo tantos pontos negros de miséria, de injustiça, de exploração, de sofrimento? Dificilmente conseguiremos, alguma vez, encontrar uma resposta totalmente satisfatória para esta questão… Convém, no entanto, ter presente que uma parte significativa dos males da humanidade resulta do facto de os homens serem indiferentes às propostas de vida que Deus continuamente lhes faz… Não é Deus que falha; são os homens que, utilizando a sua liberdade, recusam a vida que Deus lhes oferece e preferem construir a história humana de acordo com esquemas de egoísmo e de pecado. Para que a presença de Deus na nossa história tenha um impacto real na forma como, dia a dia, se constrói o nosso mundo, é necessário que a humanidade abandone os caminhos do orgulho e da autossuficiência e aprenda a escutar, com humildade e simplicidade, as propostas e os desafios de Deus. No que nos diz respeito, estamos dispostos a isso?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 45 (46)

Refrão:

Os braços dum rio alegram a cidade de Deus,
a morada santa do Altíssimo.

Deus é o nosso refúgio e a nossa força,
auxílio sempre pronto na adversidade.
Por isso nada receamos ainda que a terra vacile
e os montes se precipitem no fundo do mar.

Os braços dum rio alegram a cidade de Deus,
a mais santa das moradas do Altíssimo.
Deus está no meio dela e a torna inabalável,
Deus a protege desde o romper da aurora.

O Senhor dos Exércitos está connosco,
o Deus de Jacob é a nossa fortaleza.
Vinde e contemplai as obras do Senhor,
as maravilhas que realizou na terra.

LEITURA II – 1 Coríntios 3,9c-11.16-17

Irmãos:
Vós sois edifício de Deus.
Segundo a graça de Deus que me foi dada,
eu, como sábio arquiteto, coloquei o alicerce
e outro levanta o edifício.
Veja cada um como constrói:
ninguém pode colocar outro alicerce
além do que está posto, que é Jesus Cristo.
Não sabeis que sois templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vós?
Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá.
Porque o templo de Deus é santo
e vós sois esse templo.

CONTEXTO

No séc. I Corinto era uma cidade próspera e um centro cultural importante. Servida por dois portos de mar, nela se cruzavam diariamente pessoas de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava a deusa Afrodite, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, Corinto comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos recentemente chegados de Itália. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. No entanto, não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga.

Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora, em geral, de condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas havia também elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).

De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Em Corinto estão bem representadas as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.

O texto que hoje nos é proposto como segunda leitura está inserido num contexto de polémica. Depois de Paulo ter deixado a cidade, apareceu por lá um cristão de origem judaica com o nome de Apolo. Era um brilhante pregador e foi de grande utilidade para a comunidade nas polémicas doutrinais com os judeus de Corinto. Formaram-se partidos (embora Apolo não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns admiravam Paulo, outros Pedro, outros Apolo (cf. 1 Cor 1,12). É de crer que os vários partidos manifestassem uma certa rivalidade, à imagem das escolas filosóficas gregas que estavam espalhadas por toda a cidade de Corinto. De qualquer forma, a comunidade estava dividida e, dia a dia, acentuavam-se os conflitos, os ciúmes, as lutas, as rivalidades.

Este estado alarmante da comunidade chegou ao conhecimento de Paulo quando o apóstolo se encontrava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem apostólica. Imediatamente, Paulo escreveu aos Coríntios questionando a opção dos membros da comunidade pela sabedoria do mundo, em detrimento da sabedoria de Deus. Depois de apresentar a "sabedoria de Deus", revelada em Jesus Cristo (sobretudo através da "loucura da cruz") e oferecida aos homens (cf. 1 Cor 1,18-2,16), Paulo constata que os coríntios ainda não acolheram essa sabedoria: mantêm-se na dimensão do homem carnal (isto é, do homem fraco, pecador, escravo das suas paixões e apetites), imaturos na fé; cultivam as divisões e os conflitos; correm atrás de mestres humanos como se eles tivessem a chave da felicidade e da realização plena, esquecendo que, por detrás de Paulo ou de Apolo, está Deus.

As fraturas comunitárias serão o testemunho que Deus espera dos cristãos de Corinto?

MENSAGEM

É à ação de Deus que se deve a constituição da comunidade cristã de Corinto. Paulo, chamado por Deus a colaborar na construção da comunidade, colocou o alicerce quando anunciou Jesus Cristo aos coríntios; mas outros, também eles chamados por Deus, ajudaram a erguer o edifício comunitário com a sua palavra e com o seu testemunho. Deus é o "dono da obra"; Paulo, Apolo, Pedro, cada um à sua maneira, foram cooperadores de Deus, que tornaram realidade o projeto desenhado por Deus. Assim nasceu aquela comunidade que é agora um edifício de Deus (vers. 9c). Deus reside ali, naquela comunidade, naqueles crentes que acolheram a salvação de Deus.

Paulo quer que os coríntios estejam bem conscientes de tudo isto. Por isso, pergunta-lhes diretamente: "não sabeis que sois Templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (vers. 16). O Templo (de Jerusalém) era, no Antigo Testamento, a residência de Deus, o lugar por excelência da presença de Deus no meio do seu Povo. Era no Templo que Israel encontrava o seu Deus e estabelecia comunhão com Ele. Agora, contudo, é a comunidade cristã que é o verdadeiro Templo da nova aliança, isto é, o lugar onde Deus reside, onde Ele Se manifesta aos homens e onde Ele oferece ao mundo a salvação. A pergunta impõe-se: o testemunho que a comunidade cristã de Corinto dá à cidade e ao mundo revela Deus?


Ser Templo de Deus (lugar onde Deus reside no mundo e onde os homens encontram Deus) será compatível com a realidade de uma comunidade que ainda vive na lógica da "sabedoria do mundo"? A comunidade de Corinto pode ser Templo de Deus onde reside o Espírito e viver no conflito, na divisão, no ciúme, no confronto? Ao dizerem que são "de Paulo", "de Apolo" ou "de Pedro", os coríntios estão a dar testemunho de Deus ou a impor líderes humanos que obscurecem o protagonismo de Deus?

Mais: o Templo de Deus (que é a comunidade cristã) é santo (vers. 17). A noção de santidade sugere a ideia de "separação": trata-se de uma comunidade que deve marcar a sua diferença em relação ao mundo (aos valores do mundo, aos esquemas do mundo, à sabedoria do mundo), e viver para o serviço de Deus. Os comportamentos típicos "do mundo" são incompatíveis com a santidade a que a comunidade é chamada.

Paulo declara ainda que, se alguém destrói o Templo de Deus, Deus o destruirá (vers. 17). Mais do que uma ameaça, a afirmação deve ser entendida como um aviso: aqueles que, com o seu egoísmo, orgulho e vaidade pessoal, impedem que a comunidade viva de forma coerente o seu compromisso cristão, não podem integrar a família de Deus.

INTERPELAÇÕES

  • A Igreja é obra de Deus. Deus, no momento histórico que entendeu adequado, enviou ao mundo o Seu Filho Jesus para propor aos homens a salvação; e, do anúncio de Jesus, surgiu uma comunidade de homens e mulheres empenhados em acolher a salvação oferecida por Deus. Essa comunidade é a Igreja, a comunidade da salvação. Depois de ter concluída a sua missão na terra dos homens, Jesus voltou para o Pai. No entanto, deixou os seus discípulos no mundo e enviou-os a propor a salvação a todos os povos e nações. Hoje são os membros dessa comunidade que dão testemunho da salvação de Deus no mundo (como o fizeram, há dois mil anos, Paulo, Pedro, Apolo e tantos outros membros da comunidade da salvação). É através deles que a Igreja de Deus continua a edificar-se e a ser presença no mundo da salvação de Deus. Temos consciência disto? Sentimo-nos – como São Paulo – cooperadores de Deus na obra da salvação? Fazemos tudo aquilo que está ao nosso alcance – de acordo com a nossa vocação e missão específica – para que a Igreja possa continuar a cumprir o seu papel enquanto testemunha da salvação que Deus oferece a todos os homens?
  • Segundo a bela expressão de Paulo, a Igreja é agora no mundo o Templo de Deus, onde reside o Espírito. É na comunidade cristã que Deus reside no mundo; é através da comunidade cristã que Deus se encontra com o mundo e oferece ao mundo a salvação. Ora, isto configura uma enorme responsabilidade para a comunidade cristã e para cada um dos crentes em particular. Temos consciência dessa responsabilidade? Sentimo-nos dignos dela? Levamo-la a sério? Que rosto de Deus testemunhamos junto dos nossos contemporâneos? A Igreja, Templo de Deus onde reside o Espírito, é verdadeiro sacramento e sinal da salvação de Deus? Quem, do lado de fora, olha para a Igreja, descobre no rosto e nos gestos dos cristãos a misericórdia e a ternura de Deus? Os pobres, os marginalizados, os que o mundo considera "fracassados", os que a máquina trituradora da injustiça deixa caídos nas bermas do caminhos que a humanidade vai fazendo, encontram nos crentes a bondade e o amor de Deus?
  • O apóstolo Paulo vê nos conflitos, divisões, ciúmes, contradições, vaidades, dos membros da comunidade cristã de Corinto sinais evidentes da preponderância daquilo a que ele chama "a sabedoria do mundo". Essa "sabedoria do mundo" opõe-se à "loucura da cruz". A "sabedoria do mundo" é a lógica de quem ainda vive de forma egoísta, entrincheirado atrás do seu orgulho e da sua autossuficiência e ainda não se revestiu de Cristo. A nossa comunidade paroquial ou religiosa é uma comunidade fraterna, solidária, e que dá testemunho da "loucura da cruz" com gestos concretos de amor, de partilha, de doação, de serviço, ou é uma comunidade fragmentada, dividida, cheia de contradições, onde cada membro puxa para o seu lado, ao sabor dos interesses pessoais?

EVANGELHO – João 2,13-22

Estava próxima a Páscoa dos judeus
e Jesus subiu a Jerusalém.
Encontrou no templo
os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas
e os cambistas sentados às bancas.
Fez então um chicote de cordas
e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;
deitou por terra o dinheiro dos cambistas
e derrubou-lhes as mesas;
e disse aos que vendiam pombas:
«Tirai tudo isto daqui;
não façais da casa de meu Pai casa de comércio».
Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:
«Devora-me o zelo pela tua casa».
Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:
«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?».
Jesus respondeu-lhes:
«Destruí este templo e em três dias o levantarei».
Disseram os judeus:
«Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo
e Tu vais levantá-lo em três dias?».
Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo
Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,
os discípulos lembraram-se do que tinha dito
e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

CONTEXTO

O autor do Quarto Evangelho apresenta, na secção introdutória do seu livro, um gesto profético de Jesus, realizado logo no início do Seu ministério: a expulsão dos vendilhões do templo de Jerusalém. Ao situar o episódio nesse enquadramento, o evangelista João está provavelmente a sugerir que o gesto de Jesus é um anúncio programático do ministério que, a partir dali, Ele vai desenvolver, por mandato de Deus: apresentar-se Ele próprio como o Novo templo, o "lugar" onde os homens podem encontrar-se com Deus e ter acesso a Deus. Mateus, Marcos e Lucas, por seu turno, têm outro entendimento e situam o mesmo episódio nos últimos dias do ministério de Jesus, poucos dias antes da sua morte (cf. Mt 21,12-17; Mc 11,15-19; Lc 19,45-48).

A cena descrita no Evangelho deste dia situa-nos, portanto, no átrio externo do templo de Jerusalém, nos dias que antecedem a celebração da Páscoa. Era a época em que as grandes multidões se concentravam em Jerusalém para celebrar a festa principal do calendário religioso judaico. Jerusalém, que normalmente teria à volta de 55.000 habitantes, chegava a albergar, por essa altura, cerca de 125.000 peregrinos. No templo sacrificavam-se cerca de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal. Neste ambiente, o comércio relacionado com o Templo sofria um espantoso incremento. Três semanas antes da Páscoa, começava a emissão de licenças para a instalação dos postos comerciais à volta do Templo. O dinheiro arrecadado com a emissão dessas licenças revertia para o sumo sacerdote. Havia tendas de venda que pertenciam, directamente, à família do sumo sacerdote. Vendiam-se os animais para os sacrifícios e vários outros produtos destinados à liturgia do Templo. Havia, também, as tendas dos cambistas que trocavam as moedas romanas correntes por moedas judaicas (os tributos dos fiéis para o Templo eram pagos em moeda judaica, pois não era permitido que moedas com a efígie de imperadores pagãos conspurcassem o tesouro do Templo). Este comércio constituía uma mais valia para a cidade e sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do templo.

O templo, cenário deste episódio, era, na verdade, uma construção magnífica. Herodes, o Grande, para demonstrar as suas boas disposições para com o culto a Javé e para conseguir a benevolência dos judeus, tinha começado as obras de ampliação e de restauração do templo no ano 19 a.C.; mas, na época em que Jesus andava por Jerusalém, os trabalhos continuavam (só foram concluídos por volta do ano 63 d.C.). A área do templo ocupava uma superfície de mil e quinhentos metros quadrados e as pedras utilizadas na construção chegavam a ter vinte metros de comprimento. Coberto de mármore branco, o templo refletia os raios do sol e brilhava como uma joia preciosa. As portas tinham incrustações de ouro e no interior havia tapeçarias de linho finíssimo de cor azul, escarlate e púrpura. O templo, "casa de Deus", lugar sagrado por excelência, era o orgulho de Israel.

MENSAGEM

O templo de Jerusalém era, para os israelitas, o centro do culto e da fé de Israel. Era ao templo que os israelitas se dirigiam para "contemplar a face de Deus" (Sl 42,3) e para comunicar com Deus. O povo amava o templo com um amor comovedor ("a minha alma suspira e tem saudades dos átrios do Senhor" – Sl 84,3; "que alegria quando me disseram: 'vamos para a casa do Senhor'" – Sl 122,1). Embora a catequese de Israel ensine que a residência de Deus está no céu (cf. Sl 2,4; 103,19; 115,3), o templo é como que uma réplica terrena do palácio celestial de Deus. A vida de toda a comunidade israelita gravitava à volta do templo.

No entanto, os profetas de Israel, em diversas situações, tinham criticado o culto sacrificial que Israel oferecia a Deus no templo, considerando-o como um conjunto de ritos estéreis, vazios e sem significado, uma vez que não eram expressão verdadeira de amor a Javé; tinham, inclusive, denunciado a relação do culto com a injustiça e a exploração dos pobres (cf. Am 4,4-5; 5,21-25; Os 5,6-7; 8,13; Is 1,11-17; Jr 7,21-26). As considerações proféticas acabaram por consolidar a ideia de que a chegada dos tempos messiânicos implicaria a purificação e a moralização do culto prestado a Javé no Templo. Nesta linha, o profeta Zacarias chegou a ligar explicitamente o "dia do Senhor" (o dia em que Deus vai intervir na história e construir um mundo novo, através do Messias) com a purificação do culto e a eliminação dos comerciantes que desenvolviam a sua actividade comercial "no Templo do Senhor do universo" – Zc 14,21).

O gesto que o Evangelho deste domingo nos relata deve entender-se neste enquadramento. Quando Jesus pega no chicote de cordas, expulsa do Templo os vendedores de ovelhas, de bois e de pombas, deita por terra os trocos dos banqueiros e derruba as mesas dos cambistas (vers. 14-16), está a revelar-Se como "o Messias" e a anunciar que chegaram os novos tempos, os tempos messiânicos.

No entanto, Jesus vai bem mais longe do que os profetas vétero-testamentários. Ao expulsar do Templo também as ovelhas e os bois que serviam para os ritos sacrificiais que Israel oferecia a Javé (João é o único dos evangelistas a referir este pormenor), Jesus mostra que não propõe apenas uma reforma, mas a abolição do próprio culto ali prestado. Aquela "casa" tinha-se tornado uma casa de comércio ("não façais da casa de Meu Pai casa de comércio – vers. 16); com o pretexto de dar culto a Deus, praticava-se ali a exploração e a injustiça; em nome de Deus roubava-se o dinheiro dos pobres. Deus não estava ali, há muito que se tinha afastado daquele lugar maldito. O culto ali prestado era, portanto, uma mentira que só interessava aos que beneficiavam com todo aquele negócio. Jesus, o Filho, com a autoridade que Lhe vem do Pai, diz um claro "basta" a uma mentira com a qual Deus não pode continuar a pactuar. Deus não se identifica com o que se passa no templo nem quer o culto que ali se Lhe presta. Tudo aquilo tem que terminar de uma vez por todas.

Os líderes judaicos ficam indignados. Quais são as credenciais de Jesus para assumir uma atitude tão radical e grave? Com que legitimidade é que Ele se arroga o direito de abolir o culto oficial prestado a Javé?

A resposta de Jesus é, à primeira vista, estranha: "destruí este Templo e Eu o reconstruirei em três dias" (vers. 19). Recorrendo à figura literária do "mal-entendido" (propõe-se uma afirmação; os interlocutores entendem-na de forma errada; aparece, então, a explicação final, que dá o significado exacto do que se quer afirmar), João deixa claro que Jesus não Se referia ao Templo de pedra onde Israel celebrava os seus ritos litúrgicos (vers. 20), mas a um outro "Templo" que é o próprio Jesus ("Jesus, porém, falava do Templo do seu corpo" – vers. 21). O que é que isto quer exatamente dizer? Onde é que Jesus quer chegar? Jesus desafia os líderes que O questionaram, a suprimir o Templo que é Ele próprio; mas deixa claro que, três dias depois, esse Templo estará outra vez erigido no meio dos homens. Jesus alude, evidentemente, à sua ressurreição. A prova de que Jesus tem autoridade para "proceder deste modo" é que os líderes não conseguirão suprimi-lo. A ressurreição garante que Jesus vem de Deus e que a sua actuação tem o selo de garantia de Deus. Os defensores da religião oficial vão matar Jesus para o calar; mas, ressuscitando-O, Deus vai garantir aos líderes religiosos judaicos que Jesus tem razão.

Contudo, o mais notável na resposta de Jesus é a sugestão de que Ele é, a partir de agora, o "novo Templo". Jesus é agora "a casa" onde Deus Se encontra com os homens e onde Se manifesta ao mundo. Jesus é o lugar do encontro, da intimidade, da comunhão entre Deus e os homens. É através de Jesus que o Pai oferece aos homens o seu amor, a sua vida, a sua salvação. Aquilo que a antiga Lei já não conseguia fazer – estabelecer relação e comunhão entre Deus e os homens – é Jesus que, a partir de agora, o faz.

INTERPELAÇÕES

  • Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho que nos é proposto na Festa da Dedicação da Basílica de Latrão responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9) – disse um dia Jesus a Filipe, quando este Lhe pediu que "mostrasse o Pai" aos Seus discípulos. Somos, assim, convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu "Evangelho", aquela proposta de vida e de salvação que Deus nunca desistiu de nos apresentar; somos convidados a tornarmo-nos discípulos, a seguir Jesus a par e passo. Jesus é o Caminho que nos leva até Deus ("Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém pode ir até ao Pai senão por Mim" – Jo 14,6). Estamos dispostos a deixarmo-nos conduzir por Jesus?
  • Os cristãos são aqueles que aderiram a Cristo, que aceitaram integrar a sua comunidade, que comem a sua carne e bebem o seu sangue, que se identificam com Ele. Fazem parte de um Corpo do qual Cristo é a cabeça (cf. Rm 12,5; 1 Cor 12,27; Ef 1,22-23). São pedras vivas do novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação. Os homens do nosso tempo devem poder ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; devem poder experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; devem poder encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o facto de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade… O nosso testemunho pessoal é um sinal de Deus para os irmãos que caminham ao nosso lado? A vida das nossas comunidades dá testemunho da vida de Deus? A Igreja é essa "casa de Deus" onde qualquer homem ou qualquer mulher pode encontrar essa proposta de libertação e de salvação que Deus oferece a todos? Somos no mundo "a casa" onde Deus reside e onde Ele se encontra com os homens?
  • Jesus denunciou, nos átrios externos do templo de Jerusalém, uma religião estéril e mentirosa, construída à volta de um folclore de gestos que Deus não apreciava e que, afinal, não mudavam o coração dos crentes. Qual é o verdadeiro culto que Deus espera de nós? Ao contrário do que possamos pensar, Deus não aprecia os nossos rituais litúrgicos cheios de pompa e circunstância que, no entanto, acabam por ser "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma", pois não têm implicações na nossa vida nem alteram a nossa forma de estar no mundo. O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa autossuficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta "litúrgica" adequada ao amor e à generosidade de Deus para connosco. Que culto prestamos a Deus?
  • Ao gesto profético de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância. Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a denúncia que Jesus faz esteja correta. A sua autossuficiência impede-os de ver para além dos seus projetos pessoais e de descobrir os projetos de Deus. Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Estamos conscientes de que, quando nos barricamos atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus?
  • Como aqueles vendedores e cambistas que transformaram o Templo de Deus numa casa de comércio, também nós podemos, quase sem nos darmos conta, estar a converter toda a nossa vida num negócio, onde tudo é pesado em favor do nosso interesse e do nosso ganho. Até a nossa relação com Deus pode tornar-se uma troca comercial, em que cumprimos os ritos para termos Deus a nosso favor, "pagamos missas" ou "promessas" para obter algum benefício, evitamos o pecado para que Deus não tenha razões para nos condenar… O gesto profético de Jesus no Templo de Jerusalém denuncia o sem sentido de uma vida vivida em registo de ganância e de lucro egoísta; lembra-nos que Deus é amor, amor que não se compra nem vende e que é puro dom; lembra-nos a importância dos gestos gratuitos de amor, da partilha solidária, da fraternidade desinteressada, do dom sem recompensa; lembra-nos que devemos dar testemunho, com a nossa vida, de um Deus que ama os seus filhos – todos – com um amor sem limites e "a fundo perdido". Estamos conscientes de tudo isto?

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Breves introduções às leituras:

Primeira leitura:

 Como descrever a felicidade dos mártires e dos santos na sua condição celeste, invisível? Para isso, o profeta recorre a uma visão.

Salmo responsorial: 

O salmo de hoje proclama as condições de entrada no Templo de Deus. Ele anuncia também a bem-aventurança dos corações puros. Nós somos este povo imenso que marcha ao encontro do Deus santo.

Segunda leitura: 

Desde o nosso baptismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marcada da eternidade.

Evangelho: 

Que futuro reserva Deus aos seus amigos, no seu Reino celeste? Ele próprio é fonte de alegria e de felicidade para eles.

LEITURA I – Ap 7,2-4.9-14

Leitura do Apocalipse de São João

Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente,
trazendo o selo do Deus vivo.
Ele clamou em alta voz
aos quatro Anjos a quem foi dado o poder
de causar dano à terra e ao mar:
«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores,
até que tenhamos marcado na fronte
os servos do nosso Deus».
E ouvi o número dos que foram marcados:
cento e quarenta e quatro mil,
de todas as tribos dos filhos de Israel.
Depois disto, vi uma multidão imensa,
que ninguém podia contar,
de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro,
vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão.
E clamavam em alta voz:
«A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono,
e ao Cordeiro».
Todos os Anjos formavam círculo
em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos.
Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra,
e adoraram a Deus, dizendo:
«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças,
a honra, o poder e a força
ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!».
Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me:
«Esses que estão vestidos de túnicas brancas,
quem são e de onde vieram?».
Eu respondi-lhe:
«Meu Senhor, vós é que o sabeis».
Ele disse-me:
«São os que vieram da grande tribulação,
os que lavaram as túnicas
e as branquearam no sangue do Cordeiro».

Breve comentário

As primeiras perseguições tinham feito cruéis destruições nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. Iriam estas comunidades desaparecer, acabadas de fundar? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear directamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilónia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 23 (24)

Refrão: Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

Do Senhor é a terra e o que nela existe,
o mundo e quantos nele habitam.
Ele a fundou sobre os mares
e a consolidou sobre as águas.

Quem poderá subir à montanha do Senhor?
Quem habitará no seu santuário?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro,
o que não invocou o seu nome em vão.

Este será abençoado pelo Senhor
e recompensado por Deus, seu Salvador.
Esta é a geração dos que O procuram,
que procuram a face de Deus.

LEITURA II – 1Jo 3,1-3

Leitura da Primeira Epístola de São João

Caríssimos:
Vede que admirável amor o Pai nos consagrou
em nos chamar filhos de Deus.
E somo-lo de facto.
Se o mundo não nos conhece,
é porque O não conheceu a Ele.
Caríssimos, agora somos filhos de Deus
e ainda não se manifestou o que havemos de ser.
Mas sabemos que, na altura em que se manifestar,
seremos semelhantes a Deus,
porque O veremos tal como Ele é.
Todo aquele que tem n'Ele esta esperança
purifica-se a si mesmo,
para ser puro, como ele é puro.

Breve comentário

Segunda mensagem de esperança. Ela responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser?
A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.


ALELUIA – Mt 11,28

Aleluia. Aleluia.

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados e oprimidos
e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

EVANGELHO – Mt 5,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n'O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».


AMBIENTE

Depois de dizer quem é Jesus (cf. Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o "Reino". Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o "Reino" e a sua lógica.
Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância dada pelo evangelista aos "ditos" de Jesus. Ao longo do Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta "ditos" e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje proposto é a primeira parte – é conhecido como o "sermão da montanha" (cf. Mt 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que Mateus coleccionou com a evidente intenção de proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida cristã. O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de Deus.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao "Reino".
As "bem-aventuranças" que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das "bem-aventuranças" propostas por Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem nove "bem-aventuranças", enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro "maldições", que estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os "pobres" de Lucas são, para Mateus, os "pobres em espírito") e a aplicação dos "ditos" originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido mais trabalhado.







MENSAGEM

As "bem-aventuranças" são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is 30,18; 32,20; Dn 12,12), quer nas acções de graças pela alegria presente (cf. Sl 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, reflectida e prudente (cf. Prov 3,13; 8,32.34; Sir 14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas definem sempre uma alegria oferecida por Deus.
As "bem-aventuranças" evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o "Reino". Jesus proclama "bem-aventurados" aqueles que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o "Reino" e a situação destes "pobres" vai mudar radicalmente; além disso, são "bem-aventurados" porque, na sua fragilidade, debilidade e dependência, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do "Reino").
As quatro primeiras "bem-aventuranças" referidas por Mateus (vers. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos "pobres" (as segunda, terceira e quarta "bem-aventuranças" são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama: "bem-aventurados os pobres em espírito"). Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade; daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.
Os "pobres em espírito" são aqueles que aceitam renunciar, livremente, aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem, incondicionalmente, nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.
Os "mansos" não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do "Reino".
Os "que choram" são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do "Reino" vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria…
A quarta bem-aventurança proclama felizes "os que têm fome e sede de justiça". Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.
O segundo grupo de "bem-aventuranças" (vers. 7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.
Os "misericordiosos" são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam.
Os "puros de coração" são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.
Os "que constroem a paz" são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os homens.
Os "que são perseguidos por causa da justiça" são aqueles que lutam pela instauração do "Reino" e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.
Na última "bem-aventurança" (vers. 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação, aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava "bem-aventurança".
No seu conjunto, as "bem-aventuranças" deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse "Reino" onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.


ACTUALIZAÇÃO

A reflexão e a partilha podem fazer-se à volta dos seguintes elementos:

• Jesus diz: "felizes os pobres em espírito"; o mundo diz: "felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e sabeis usá-lo para comprar influências, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que faz andar o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes". Quem é, realmente, feliz?

• Jesus diz: "felizes os mansos"; o mundo diz: "felizes vós os que respondeis na mesma moeda quando vos provocam, que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é eficaz para lidar com a violência e a injustiça". Quem tem razão?

• Jesus diz: "felizes os que choram"; o mundo diz: "felizes vós os que não tendes motivos para chorar, porque a vossa vida é sempre uma festa, porque vos moveis nas altas esferas da sociedade e tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com telefone e ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro". Onde está a verdadeira felicidade?

• Jesus diz: "felizes os que têm ânsia de cumprir a vontade de Deus"; o mundo diz: "felizes vós os que não dependeis de preconceitos ultrapassados e não acreditais num deus que vos diz o que deveis e não deveis fazer, porque assim sois mais livres". Onde está a verdadeira liberdade, que enche de felicidade o coração?

• Jesus diz: "felizes os que tratam os outros com misericórdia"; o mundo diz: "felizes vós quando desempenhais o vosso papel sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo". Qual é o verdadeiro fundamento de uma sociedade mais justa e mais fraterna?

• Jesus diz: "felizes os sinceros de coração"; o mundo diz: "felizes vós quando sabeis mentir e fingir para levar a água ao vosso moinho, pois a verdade e a sinceridade destroem muitas carreiras e esperanças de sucesso". Onde está a verdade?

• Jesus diz: "felizes os que procuram construir a paz entre os homens"; o mundo diz: "felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso". O que é que torna o mundo melhor: a paz ou a guerra?

• Jesus diz: "felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus"; o mundo diz: "felizes vós os que já entendestes como é mais seguro e mais fácil fazer o jogo dos poderosos e estar sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira". O que é que nos eleva à vida plena?


ALGUMAS REFLEXÕES À LUZ DO EVANGELHO
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

REFLEXÃO 
CELEBRAR OS SANTOS NA RESSURREIÇÃO

As Bem-aventuranças revelam a realidade misteriosa da vida em Deus, iniciada no Baptismo. Aos olhos do mundo, o que os servidores de Deus sofrem, são efectivamente formas de morte: ser pobre, suportar as provas (os que choram) ou as privações (ter fome e sede) de justiça, ser perseguido, ser partidário da paz, da reconciliação e da misericórdia, num mundo de violência e de lucro, tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, consequentemente, à morte.
Mas que pensa Cristo? Ele, ao contrário, proclama felizes todos os seus amigos que o mundo despreza e considera como mortos, consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introdu-los no Reino e na Terra Prometida.
A Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso será mais tarde.

REFLEXÃO 
O EVANGELHO NO PRESENTE

Os membros de uma mesma família têm traços do rosto comuns…
As pessoas que partilham toda uma vida juntos acabam por se parecerem…
Esta festa anual de Todos os Santos reúne inúmeros rostos que trazem em si a imagem e a semelhança de Deus.

Um rosto de humanidade transfigurada. Enquanto vivos, os santos não se consideravam como tais, longe disso! Eles não esculpiam a sua efígie num fundo de auto-satisfação… Contrariamente àquilo que geralmente aparece nas imagens ditas piedosas e nas biografias embelezadas, eles não foram perfeitos, nem à primeira, nem totalmente, nem sobretudo sem esforço. Eles tinham fraquezas e defeitos contra os quais se bateram toda a vida. Alguns, como S. Agostinho, vieram de longe, transfigurados pelo amor de Deus que acolheram na sua existência. Quanto mais se aproximaram da luz de Deus, tanto mais viram e reconheceram as sombras da sua existência.
Peregrinos do quotidiano, a maior parte deles não realizaram feitos heróicos nem cumpriram prodígios. É certo que alguns têm à sua conta realizações espectaculares, no plano humanitário, no plano espiritual, ou ainda na história da Igreja. Mas muitos outros, a maioria, são os santos da simplicidade e do quotidiano! Canoniza-se muito pouco estas pessoas do quotidiano!

Um rosto com traços de Cristo.
Encontramos em cada um dos santos e das santas um mesmo perfil. Poderíamos mesmo desenhar o seu retrato-robô comum. Por muito frequentar Cristo, deixaram-se modelar pelos seus traços.
Como Jesus, os santos tiveram que viver muitas vezes em sentido contrário às ideias recebidas e aos comportamentos do seu tempo. Viver as Bem-aventuranças não é evidente: ser pobre de coração num mundo que glorifica o poder e o ter; ser doce num mundo duro e violento; ter o coração puro face à corrupção; fazer a paz quando outros declaram a guerra…
Os santos foram pessoas "em marcha" (segundo uma tradução hebraizante de "bem-aventurado"), isto é, pessoas activas, apaixonadas pelo Evangelho… Os santos foram homens e mulheres corajosos, capazes de reagir e de afirmar a todo o custo aquilo que os fazia viver. Eles mostram-nos o caminho da verdade e da liberdade.
Aqueles que frequentaram os santos – aqueles que os frequentam hoje – afirmam que, junto deles, sentimos que nos tornamos melhores. O seu exemplo ilumina. A sua alegria é o seu testemunho mais belo. A sua felicidade é contagiosa.


REFLEXÃO
A SANTIDADE DE MUITOS

Fruto da conversão realizada pelo Evangelho é a santidade de muitos homens e mulheres do nosso tempo; não só daqueles que foram proclamados oficialmente santos pela Igreja, mas também dos que, com simplicidade e no dia a dia da existência, deram testemunho da sua fidelidade a Cristo. Como não pensar aos inumeráveis filhos da Igreja que, ao longo da história do continente europeu, viveram uma santidade generosa e autêntica no mais recôndito da vida familiar, profissional e social? «Todos eles, como "pedras vivas" aderentes a Cristo "pedra angular", construíram a Europa como edifício espiritual e moral, deixando aos vindouros a herança mais preciosa. O Senhor Jesus havia prometido: "Aquele que acredita em Mim fará também as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai" (Jo 14,12). Os santos são a prova viva da realização desta promessa, e ajudam a crer que isto é possível mesmo nos momentos mais difíceis da história». [nº 14 da Exortação Apostólica Ecclesia in Europa de João Paulo II]





Liturgia do XXIX Domingo do Tempo Comum

A liturgia do trigésimo domingo comum propõe-nos uma reflexão sobre a forma como Deus exerce a Sua justiça. A justiça de Deus não ignora o sofrimento dos pobres, dos mais fracos, daqueles que nem sempre obtém justiça nos tribunais dos homens. A justiça de Deus concretiza-se essencialmente como amor e misericórdia. Todos os que estiverem disponíveis para acolher o amor misericordioso de Deus, encontrarão graça e salvação.

Na primeira leitura um sábio judeu do séc. II a.C. lembra aos seus concidadãos – impressionados pela arrogância dos conquistadores gregos e pelo brilho da cultura helénica – que Deus não faz aceção de pessoas: Ele escuta as súplicas dos desprezados e faz justiça às vítimas dos poderosos. Talvez as vozes dos humildes não signifiquem nada para os grandes do mundo; mas elas atravessam as nuvens e vão diretas ao coração de Deus.

No Evangelho Jesus, conta uma parábola "para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros". Colocando frente a frente a figura de um fariseu de vida exemplar e de um publicano de vida mais do que duvidosa, Jesus tira uma conclusão desconcertante: de nada valem as "boas obras" do "justo" que, convencido dos seus méritos, se apresenta diante de Deus e dos irmãos com orgulho e arrogância; Deus prefere o pecador que, humildemente, reconhece a sua indignidade e se dispõe a abraçar a salvação que lhe é oferecida.

A segunda leitura propõe-nos o testemunho do apóstolo Paulo na fase final da sua vida: apesar de todas as contrariedades e vicissitudes que teve de enfrentar por causa da sua fidelidade a Jesus e ao Evangelho, Paulo manteve-se fiel e coerente: combateu o bom combate e guardou a fé. Resta-lhe agora confiar em Deus e entregar-se nas suas mãos. O exemplo de Paulo aponta o caminho aos crentes de todas as épocas.

LEITURA I – Ben Sirá 35,15b-17.20-22a

O Senhor é um juiz
que não faz aceção de pessoas.
Não favorece ninguém em prejuízo do pobre
e atende a prece do oprimido.
Não despreza a súplica do órfão
nem os gemidos da viúva.
Quem adora a Deus será bem acolhido
e a sua prece sobe até às nuvens.
A oração do humilde atravessa as nuvens
e não descansa enquanto não chega ao seu destino.
Não desiste, até que o Altíssimo o atenda,
para estabelecer o direito dos justos e fazer justiça.

CONTEXTO

O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, "Eclesiástico") é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a "sábios" indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um "sábio" israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).

A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a "modernidade" e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um "sábio" judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da "sabedoria" de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.

O texto que nos é oferecido neste domingo como primeira leitura integra um conjunto de sentenças do sábio Ben Sirá sobre a justiça de Deus (cf. Sir 35,11-24).

MENSAGEM

Há quem pense que pode "comprar" Deus oferecendo-Lhe presentes esplêndidos; há quem ache que pode ganhar os favores de Deus ofertando-Lhe abundantes sacrifícios de animais; há quem considere que pode pôr Deus do seu lado e acalmar a sua indignação partilhando com Ele os frutos dos seus negócios injustos. No entanto, os que assim pensam enganam-se redondamente: "Deus é um juiz justo e incorruptível, que não faz aceção de pessoas; não favorece ninguém em prejuízo do pobre e atende a prece do oprimido" (vers. 15b-16). Os grandes, os poderosos, os influentes, os que pensam que tudo dominam, os que oprimem e exploram os pobres, os que cometem injustiças, nunca poderão fazer de Deus seu cúmplice.

Em contrapartida, Deus tem uma predileção especial pelos pobres, pelos humildes, pelos pequenos, pelos desprezados. Aqueles que não têm quem os defenda, aqueles que não têm voz, aqueles que não contam para nada – por exemplo, os órfãos e as viúvas – esses têm um lugar especial no coração de Deus (vers. 17).

A oração dos humildes não se perde: Deus escuta-a; os lamentos doloridos dos que são vítimas da injustiça e da maldade dos poderosos ultrapassam as nuvens e chegam aos ouvidos de Deus (vers. 20-21). "Tocado" pelos gritos que saem do coração dos desprezados, Deus vem ao encontro deles, olha-os com bondade e pronuncia sobre eles um veredito de salvação. É assim que Deus exerce a Sua justiça (vers. 22a).

INTERPELAÇÕES

  • Numa sociedade de direito, a justiça é um princípio fundamental que orienta a organização e o funcionamento do sistema legal e social. Ela envolve a aplicação equitativa de leis, a garantia dos direitos individuais e coletivos, a busca pela igualdade e equidade entre todos os cidadãos. É esta a experiência que temos? Na prática, todos os membros da sociedade – independentemente do seu estatuto social, da sua formação intelectual, do seu poder económico, da sua raça, ideologia ou religião – têm acesso à justiça e são tratados de forma igual por aqueles que têm como missão aplicar as leis e fazer justiça? Na sociedade israelita do séc. II a.C., os pobres queixavam-se frequentemente de discriminação na aplicação da justiça, da corrupção dos juízes, do desprezo pelos direitos dos que não tinham poder social. E Deus? Como é que Deus exerce a justiça? Também se deixará corromper? Também negligenciará os direitos dos mais pobres e frágeis? Deixar-se-á "comprar" pelos ricos que pagam um culto esplendoroso e caro? Jesus ben Sira, um sábio do séc. II a.C., diz: "Não. Deus exerce a sua justiça sem fazer aceção de pessoas. No exercício da sua justiça, Ele não discrimina o pobre em benefício do rico. Pelo contrário, Deus tem sempre diante de si o sofrimento dos mais frágeis, daqueles que muitas vezes não encontram justiça nos tribunais humanos. Deus faz-lhes justiça, sem qualquer dúvida". Aqueles que no nosso mundo por vezes "torcem" a justiça para defender os seus próprios interesses, estão conscientes da "posição" de Deus? A atitude de Deus não nos responsabilizará na construção de uma sociedade onde os pobres que gritam por justiça não sejam ignorados nem discriminados? Esforçamo-nos por construir uma sociedade justa, onde todos – especialmente os pobres, os que não têm voz nem vez – vejam os seus direitos respeitados e protegidos?
  • Embora isso não seja claramente afirmado neste texto, é doutrina corrente na Bíblia que Deus tem um fraco pelos mais desprezados e humildes, por aqueles que não são admitidos à mesa dos poderosos, por aqueles que são deixados abandonados nas periferias da vida e da história. Mais do que "discriminação positiva", a atitude de Deus é a atitude de amor de um pai ou de uma mãe que tem um cuidado especial pelos seus filhos mais necessitados de cuidado. A especial ternura que Deus sente pelos seus filhos mais frágeis insere-se na definição daquilo a que chamamos "a justiça de Deus". Ora, nós somos chamados a dar testemunho do amor de Deus no meio dos nossos irmãos. Aqueles que são marginalizados e abandonados, aqueles que ninguém quer, aqueles que a sociedade ignora e despreza, aqueles que não têm direitos ou, tendo-os, nem sabem reivindicá-los, encontram, através da nossa solidariedade, do nosso cuidado, da nossa solicitude, o rosto misericordioso e bondoso do Deus que os ama infinitamente?
  • Jesus Ben Sira garante-nos que "a oração do humilde atravessa as nuvens" e chega a Deus. Porquê? Porque Deus está especialmente atento ao pobre, ao desvalido, aos que o mundo despreza? Sem dúvida. Deus está sempre atento às súplicas dos seus filhos mais frágeis. Mas é provável que Ben Sira esteja a insinuar outra coisa: que a oração do humilde "toca" o coração de Deus e agrada a Deus; e que a oração do rico não "toca" o coração de Deus e não agrada a Deus. Expliquemos isto… O pobre apresenta-se diante de Deus com humildade e simplicidade e coloca-se confiante nas mãos de Deus; sente-se pequeno, frágil indigno, e vê em Deus aquele que o pode salvar; com gratidão, entrega toda a sua vida nas mãos de Deus e confia no Seu amor; a sua atitude e a sua oração agradam a Deus. O rico, pelo contrário, apresenta-se diante de Deus seguro da sua importância, do seu estatuto, do seu poder; petulante e autossuficiente, sente-se mais como um "parceiro" de Deus, do que um "filho" que tudo deve ao amor de Deus; a sua atitude e a sua oração não agradam a Deus. E nós, como é que nos apresentamos diante de Deus?


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 33 (34)

Refrão 1: O pobre clamou e o Senhor ouviu a sua voz.

Refrão 2: O Senhor ouviu o clamor do pobre.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal,
para apagar da terra a sua memória.
Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,
livrou-os de todas as angústias.

O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado
e salva os de ânimo abatido.
O Senhor defende a vida dos seus servos,
não serão castigados os que n'Ele confiam.


LEITURA II – 2 Timóteo 4,6-8.16-18

Caríssimo:
Eu já estou oferecido em libação
e o tempo da minha partida está iminente.
Combati o bom combate,
terminei a minha carreira,
guardei a fé.
E agora já me está preparada a coroa da justiça,
que o Senhor, justo juiz, me há de dar naquele dia;
e não só a mim, mas a todos aqueles
que tiverem esperado com amor a sua vinda.
Na minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado:
todos me abandonaram.
Queira Deus que esta falta não lhes seja imputada.
O Senhor esteve a meu lado e deu-me força,
para que, por meu intermédio,
a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada
e todas as nações a ouvissem;
e eu fui libertado da boca do leão.
O Senhor me livrará de todo o mal
e me dará a salvação no seu reino celeste.
Glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen.


CONTEXTO

Timóteo era natural de Listra, uma cidade da região da Licaónia, na Ásia Menor (atual Turquia). O pai de Timóteo era grego e a mãe, de nome Eunice, era judeo-cristã. A avó de Timóteo, chamada Loide, também teve influência na sua educação cristã (cf. At 16,1-3; 2 Tm 1,5).

Foi ao passar por Listra durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52) que o apóstolo Paulo encontrou Timóteo. Mandou-o circuncidar "por causa dos judeus existentes naquela região", e levou-o consigo para o serviço do Evangelho. Pouco depois Timóteo aparecerá junto de Paulo na Bereia, em Atenas (cf. At 17,14-15), em Corinto (cf. At 18,5) e em Éfeso (cf. At 19,22). Paulo confiava totalmente em Timóteo e encarregou-o de missões delicadas junto de comunidades cristãs que se defrontavam com problemas (cf. 1 Ts 3,2.6; 1 Cor 4,17; 16,10-11). Na sua primeira Carta aos Tessalonicenses, Paulo referir-se-á a Timóteo como "nosso irmão e colaborador de Deus no Evangelho de Cristo" (1 Ts 3,2). A tradição cristã apresenta Timóteo como o primeiro bispo de Éfeso.

Embora encontremos na segunda Carta a Timóteo bastantes pormenores pessoais sobre Paulo, a maior parte dos estudiosos duvida que ela tenha origem no apóstolo. Antes de mais, porque a linguagem e a teologia parecem significativamente distantes de outras cartas reconhecidamente paulinas. Mas, mais do que isso, a carta refere-se a um modelo de organização eclesial que parece claramente posterior à época de Paulo (Paulo teria sido martirizado em Roma por volta do ano 66/67, durante a perseguição de Nero). A grande preocupação que transparece nas duas Cartas a Timóteo já não é a difusão do Evangelho (que era a problemática que estava em cima da mesa na época paulina), mas sim a organização e a conservação do "depósito da fé". A temática tratada nas cartas a Timóteo incide fundamentalmente sobre a organização da comunidade, a necessidade de combater as heresias nascentes, o incremento da vida cristã dos fiéis.

MENSAGEM

O autor da carta apresenta-se na pele de Paulo, prisioneiro em Roma. Sentindo que a sua vida está a chegar ao fim, avalia a forma como viveu (vers. 6-8). O objetivo é levar os crentes a fazerem, como Paulo, o dom total das suas vidas a Deus.

A vida de Paulo sofreu uma transformação radical quando ele se encontrou com Cristo na estrada de Damasco (cf. At 9,1-9; 22,4-11; 26,9-18). A partir desse momento, deixou para trás todas as certezas e seguranças em que, até então, tinha apostado e começou a viver para Cristo: enfrentou todas as oposições, contornou todos os obstáculos, suportou todos os cansaços, deu tudo para levar a Boa nova da salvação a todas as nações, desde Jerusalém a Roma.

Para definir a sua vida de compromisso total com o projeto de Deus, Paulo recorre a três imagens. A primeira vem do culto judaico (vers. 6): a vida de Paulo foi como uma oferta sacrificial entregue a Deus. A sua vida foi derramada sobre o altar de Deus, à imagem dos ritos de libação que se faziam no santuário e que consistiam no derramamento de um pouco de vinho sobre o altar onde, depois, se queimava a oferenda destinada à divindade. A segunda imagem é tirada do mundo militar (vers. 7a). A vida de Paulo foi como que um combate, no qual o apóstolo se empenhou totalmente, até ao dom de si próprio. Paulo combateu bravamente e deu tudo pela vitória de Deus. A terceira imagem é a do atleta que corre em direção à meta para alcançar a vitória (vers. 7b). Paulo, qual atleta de eleição, correu sempre, com empenho total, com dedicação absoluta, pondo todas as suas forças ao serviço do projeto de Deus.

Agora, depois de uma vida gasta ao serviço de Deus, Paulo pressente que chegou ao fim do seu caminho. Está satisfeito com a sua prestação, pois manteve-se focado, foi fiel, fez tudo o que estava ao seu alcance para corresponder ao chamamento que recebeu de Jesus. Resta-lhe receber a "coroa da justiça" reservada aos vencedores. Paulo aproveita até para avisar que o mesmo prémio está reservado a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do Reino (vers. 8). Os discípulos de Jesus de todas as épocas devem ter isso em conta.

No final da carta, o autor do texto refere a desilusão de Paulo por não ter sentido o apoio dos "irmãos" durante a sua "primeira defesa" diante das autoridades (vers. 16). Apesar disso não se sente sozinho, pois tem experimentado, nestes dias de cativeiro, o apoio e o conforto de Deus (vers. 17). Está convicto de que Deus o livrará de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Por isso, termina a sua partilha com um grito de louvor: "glória a Ele pelos séculos dos séculos. Amen" (vers. 18).

Ao apresentar aos crentes do final do séc. I o "testemunho" de Paulo, o autor desta carta pede-lhes que tenham uma atitude semelhante à do apóstolo: que não se deixem vencer pelo desânimo, pelo sofrimento, pelo medo, pela tribulação; que se mantenham fiéis a Jesus e ao Evangelho; que confiem no prémio que espera todos aqueles que combateram o bom combate e mantiveram a fé.

INTERPELAÇÕES

  • Paulo de Tarso marcou de forma decisiva a história do cristianismo pela sua visão larga do projeto de Deus e pela forma como abriu ao Evangelho as portas do mundo greco-romano. Mas, para além disso, deixou aos cristãos de todas as épocas um impressionante testemunho pessoal de compromisso total com Jesus e com o Evangelho. O seu encontro com Jesus no caminho de Damasco marcou a sua vida de uma forma tão decisiva que ele dizia: "já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). Passou a viver para Cristo, apenas para Cristo. A sua paixão por Cristo levou-o a dar testemunho do Evangelho em todo o mundo antigo, sem vacilar perante as dificuldades, os perigos, o cansaço, a contestação, a tortura, a prisão e até mesmo a morte. Nós, cristãos, encontramo-nos frequentemente com Jesus no caminho da nossa vida: escutamos a sua Palavra, conversamos com Ele, sentamo-nos com Ele à mesa e comemos do Pão que Ele oferece, dizemos que somos seus discípulos e que estamos em comunhão com Ele… O nosso compromisso com Cristo é tão profundo e tão decisivo como o de Paulo? Cristo é para nós – como foi para Paulo – a referência decisiva à volta da qual se constrói a nossa existência?
  • Paulo experimentou, no seu caminho de testemunho missionário, o abandono, a solidão, a traição, a incompreensão de muita gente, inclusive de alguns irmãos na fé. Por outro lado, sentiu sempre que o Senhor estava com ele, o animava e lhe dava forças para que "a mensagem do Evangelho fosse plenamente proclamada e todos os pagãos a ouvissem". A experiência de Paulo é, afinal, a experiência de todos os "profetas" que Deus envia ao mundo para serem arautos da sua salvação no meio dos homens: de um lado está o ódio do mundo, que desgasta e traz desânimo; do outro está a solicitude de Deus que conforta, sustenta, defende, anima e renova as forças dos seus enviados. É esta também a nossa experiência? A certeza da presença de Deus ao nosso lado dá-nos a força necessária para cumprirmos fielmente a missão que nos foi confiada?
  • Quase a chegar ao fim da sua vida, Paulo avalia desta forma a maneira como viveu: "combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé". Pelo que sabemos da vida de Paulo, esta avaliação é honesta e verdadeira. É muito bom chegar ao fim da vida e concluir que a vida valeu a pena e que se deixou uma marca positiva no mundo e na vida dos outros homens e mulheres. Se tivéssemos, neste preciso instante, de avaliar o sentido da nossa vida, o que diríamos? A nossa vida tem feito sentido? Há alguma coisa que possamos mudar ou acrescentar para sentirmos que a nossa vida está a valer a pena?


ALELUIA – 2 Coríntios 5,9

Aleluia. Aleluia.

Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo
e confiou-nos a palavra da reconciliação.


EVANGELHO – Lucas 18,9-14

Naquele tempo,
Jesus disse a seguinte parábola
para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao templo para orar;
um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim:
'Meu Deus, dou-Vos graças
por não ser como os outros homens,
que são ladrões, injustos e adúlteros,
nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e pago o dízimo de todos os meus rendimentos'.
O publicano ficou a distância
e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu;
Mas batia no peito e dizia:
'Meu Deus, tende compaixão de mim,
que sou pecador'.
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa
e o outro não.
Porque todo aquele que se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

CONTEXTO

Jesus e os seus discípulos estão a caminho de Jerusalém. Aproxima-se a hora em que Jesus, rejeitado e condenado pelas autoridades judaicas, vai ser crucificado. Depois, os discípulos ficarão sós no mundo e terão como missão dar testemunho do Reino de Deus. Jesus aproveita o caminho para preparar os discípulos para a missão que os espera.

A certa altura, Jesus quis propor aos discípulos uma lição sobre orgulho e arrogância. Nesse sentido, contou-lhes uma parábola onde entram um fariseu e um publicano. No dizer de Lucas, a parábola tem como alvo aqueles "que se consideravam justos e desprezavam os outros" (vers. 9). Esta parábola só aparece no Evangelho de Lucas.

Os "fariseus" eram um grupo leigo (em oposição aos saduceus, o partido sacerdotal), com bastante influência entre o povo. O historiador Flávio Josefo diz que, no tempo de Herodes, os fariseus eram cerca de 6.000. Descendentes daqueles "piedosos" ("hassidim") que apoiaram o heroico Matatias na luta contra Antíoco IV Epífanes e a helenização forçada (cf. 1 Mac 2,42), os fariseus eram os defensores intransigentes da Lei, quer a Lei escrita, quer a Lei oral (a Lei oral constava de uma coleção de leis não escritas, mas que os mestres da escola farisaica tinham deduzido a partir da "Tora" escrita). Mantinham uma estreita ligação com os "escribas", os mestres e intérpretes da Lei. Esforçavam-se por cumprir escrupulosamente a Lei e procuravam ensiná-la ao Povo. Acreditavam que, quando todos cumprissem a Lei, o Messias chegaria para trazer a libertação a Israel. Convencidos da sua superioridade religiosa e moral, tratavam com desprezo o "povo da terra" ("am ha-aretz"), os ignorantes que não conheciam a Lei nem se importavam com o cumprimento dos preceitos que a Lei impunha. A sua insistência no cumprimento integral da Lei contribuía para criar no povo simples uma sensação latente de pecado e de indignidade que oprimia as consciências e fazia o crente sentir-se longe de Deus. Estavam genuinamente interessados na santificação do Povo de Deus; mas, absolutizando a Lei, acabavam por colocar em segundo plano o amor e a misericórdia.

Os "publicanos" ("publicanus") eram agentes comerciais privados que executavam a recolha dos impostos. Considerados servidores do governo imperial romano, eram desprezados pelos seus concidadãos. O publicano recebia do governo, por uma soma fixa anual (determinada a partir de uma estimativa das rendas), o direito de recolher os impostos. A soma fixada e que o publicano devia entregar era inferior à entrada prevista. O publicano retinha para si um eventual excedente. Este sistema favorecia os abusos destes funcionários, que procuravam faturar o mais possível a fim de garantir ganhos convenientes para eles próprios. Por isso, eram vistos pelo povo como ladrões e exploradores dos seus concidadãos. De acordo com a Mishna, estavam afetados permanentemente de impureza e não podiam sequer fazer penitência, pois eram incapazes de conhecer todos aqueles a quem tinham defraudado e a quem deviam uma reparação. Se um publicano, antes de aceitar o cargo, fazia parte de uma comunidade farisaica, era imediatamente expulso dela e não podia ser reabilitado, a não ser depois de abandonar esse cargo. Quem exercia tal ofício, estava privado de certos direitos cívicos, políticos e religiosos; por exemplo, não podia ser juiz nem prestar testemunho em tribunal, sendo equiparado ao escravo.

MENSAGEM

A parábola coloca-nos no cenário do Templo de Jerusalém. Há dois homens que ali vão rezar: um fariseu e um publicano. São figuras que estão bem distantes uma da outra na estrutura social e religiosa da Palestina da época de Jesus.

O fariseu está no "átrio dos israelitas" a fazer a sua oração. Está de pé, que é a posição habitual dos crentes israelitas quando se dirigem a Deus. Não pronuncia as palavras da sua oração em voz alta, mas ora interiormente, como é de bom tom entre os crentes israelitas. Na sua oração a Deus, o fariseu louva e agradece por ser quem é e por viver como vive (vers. 11). Como bom fariseu, jejua duas vezes por semana, paga o dízimo de tudo quanto possui (vers. 12). Sente que o seu compromisso com Deus o põe acima dos outros homens, pecadores notórios, como por exemplo aquele publicano que, a uma certa distância, também está a rezar, e que é um ladrão e explorador do seu povo. Tem consciência de que leva uma vida íntegra e que cumpre integralmente os preceitos da Lei, ou até mais… Estará a falar verdade? Aparentemente sim. Jesus não diz, ao contar a parábola, que este fariseu estivesse a mentir.

O publicano entra envergonhado no espaço do Templo para fazer a sua oração. Provavelmente não chega ao "átrio dos israelitas" onde está o fariseu a rezar, mas fica-se por um dos átrios exteriores, para não dar nas vistas e também porque não se considera digna de se aproximar de
Deus. Sabe que não pode pôr-se em regra com Deus, pois nunca conseguirá devolver todo o dinheiro que subtraiu aos pobres aquando da recolha dos impostos. Mantém a cabeça baixa, sem se atrever a levantar os olhos, e bate no peito para mostrar o seu arrependimento. Tem consciência da sua indignidade. Na sua oração não se compara com outros homens; apenas reconhece o seu pecado e invoca a misericórdia de Deus. Não pode agarrar-se às suas boas obras para se salvar, porque não as tem; só pode confiar na compaixão de Deus ("meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador" (vers. 13).

Vem agora a apreciação de Jesus sobre a oração e a atitude destes dois homens. Jesus considera, de forma algo desconcertante, que o publicano "desceu justificado para sua casa", ao contrário do fariseu (vers. 14a). A palavra "justificado" é sinónimo de "perdoado", ou "salvo". Leva-nos à teologia paulina da "justificação": Deus, na sua infinita "justiça", lança sobre o homem pecador um veredicto de graça e salva-o, mesmo que o homem não o mereça (cf. Rm 5,18-19; 4,25; 5,1). Como se explica esta "sentença"?

O fariseu apresenta-se diante de Deus numa atitude de orgulho e de arrogância. Ao cumprir as exigências da Lei, considera-se em regra com Deus. Acha que não precisa da misericórdia de Deus para nada, pois as obras que faz "obrigam" Deus a oferecer-lhe a salvação. Esta não é um dom gratuito, fruto da bondade de Deus, mas uma conquista do homem, o resultado do esforço do homem. O Deus que ele conhece é apenas um contabilista que toma nota das ações do homem e que, no fim, lhe paga conforme os seus méritos. Aquele fariseu está cheio de autossuficiência e de arrogância: não necessita da misericórdia de Deus pois – pensa ele – os seus créditos são suficientes para se salvar. Por outro lado, essa autossuficiência leva-o, também, ao desprezo por aqueles que não são como ele. Considera-se superior, "à parte", "separado", como se entre ele e o pecador existisse uma barreira… É meio caminho andado para, em nome de Deus, criar segregação e exclusão: é a isso que conduz a religião dos "méritos".

O publicano, ao contrário, não pode contar com os seus méritos (que, aliás, não existem). Ele apresenta-se diante de Deus de mãos vazias e sem quaisquer pretensões; reconhece as suas falhas e a sua incapacidade de, por si só, as ultrapassar; entrega-se apenas nas mãos de Deus e pede-Lhe compaixão. Sabe que só Deus o pode salvar. E Deus "justifica-o" – isto é, derrama sobre ele a sua graça e salva-o – precisamente porque ele não tem o coração cheio de autossuficiência e está disposto a aceitar a salvação que Deus quer oferecer a todos os homens.

A última frase do texto ("aquele que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado" – vers. 14b) é uma conclusão adequada para esta parábola. Avisa-nos que não nos serve de nada confiar nos nossos méritos e nas nossas boas ações, exigindo a Deus que nos "pague" pela nossa fidelidade e pelo nosso bom comportamento; se queremos ter acesso à vida verdadeira, temos de nos apresentar humildemente diante de Deus, reconhecer a nossa fragilidade, confiar no amor de Deus e acolher a salvação de Deus.

INTERPELAÇÕES

  • A parábola do fariseu e do publicano não é sobre viver bem ou viver mal, realizar boas obras ou realizar más obras, ter comportamentos corretos ou ter comportamentos incorretos em relação à Lei religiosa ou civil; mas é sobre a atitude do homem – de qualquer homem, independentemente das suas ações – face a Deus. Um dos protagonistas – aquele que pertence ao partido dos fariseus – apresenta-se diante de Deus cheio de si próprio, seguro dos seus méritos, plenamente satisfeito com aquilo que é. A sua atitude diante de Deus é de orgulho e de autossuficiência: ele não precisa dos favores de Deus, pois tem feito tudo aquilo que lhe compete fazer e ainda mais… O outro – o cobrador de impostos – sente-se indigno e pecador, pois sabe que a sua vida está marcada pela ganância e pelas inúmeras injustiças que cometeu contra os seus irmãos. Está consciente de que só a misericórdia de Deus o poderá resgatar de uma vida suja e maldita. Reconhece a sua fraqueza e coloca-se humildemente nas mãos de Deus. Jesus, ao contar esta parábola, deixa claro qual é a atitude que o verdadeiro crente deve assumir diante de Deus. Independentemente das nossas boas ou más ações, com qual destes homens nos identificamos? Quando nos apresentamos diante de Deus e Lhe falamos da nossa vida, o que Lhe dizemos? Sentimos que a balança que contém os nossos méritos e os nossos débitos está claramente inclinada a nosso favor? Ousamos lembrar a Deus o nosso "comportamento

  • exemplar" (que nem sempre é assim tão exemplar) e ficamos à espera que Ele nos pague convenientemente?
  • A parábola do fariseu e do publicano serve também para nos questionarmos sobre a imagem que temos de Deus. Garante-nos que Deus não é a um contabilista eficiente e rigoroso, com o coração cheio de números exatos, empenhado em elaborar uma tabela minuciosa do "deve" e do "haver" de cada um dos seus filhos para lhes atribuir os castigos e as recompensas a que têm direito; mas é um pai cheio de bondade e de misericórdia, sempre disposto a derramar sobre os seus queridos filhos, como puro dom, um veredito de amor, de salvação e de graça. A única condição que Deus põe para que sejamos "justificados" (como aquele publicano que foi rezar ao templo de Jerusalém) é que nos entreguemos humildemente nas suas mãos e que aceitemos a oferta de salvação que Ele faz. O Deus que nos habita é esse Pai cheio de bondade e de amor que quer salvar-nos sempr
  • e, mesmo quando o não merecemos? É esse o Deus que testemunhamos no meio dos nossos irmãos?
  • A certeza de possuir qualidades e méritos em abundância pode conduzir ao orgulho. Do orgulho nasce a arrogância e o desprezo por aqueles que não são como nós. Ora, isto é perigoso. Entrincheirados atrás da nossa importância e da nossa pretensa autoridade moral, julgamo-nos melhores do que os outros; e
    • sentimo-nos no direito de avaliar, de criticar, de julgar e de condenar aqueles que nos rodeiam. O passo seguinte é erguermos muros de separação: do nosso lado colocamos os "bons" (aqueles com os quais nos identificamos, os que têm uma visão do mundo e da vida semelhante à nossa) e no lado oposto colocamos os "pecadores" (aqueles com os quais não nos identificamos, os que têm visões "diferentes", os que têm comportamentos que reprovamos). Onde é que isto nos conduz? Não servirá para criar exclusão e marginalização? Ajudará a potenciar a fraternidade, a inclusão, a comunhão? Temos o direito de nos considerarmos melhores do que um agnóstico, ou do que um ateu? Poderemos continuar, de forma ligeira, a

  • alimentar a nossa ilusão de inocência, a condenar os outros à luz dos nossos critérios, e a esquecer a compaixão de Deus por todos os seus filhos?
  • O fariseu da parábola foi conversar com Deus, mas não estava convencido de precisar de Deus. Ele não foi ao encontro de Deus para receber e abraçar os dons de Deus, mas para se gabar das suas brilhantes escolhas e concretizações. Não precisava da salvação que Deus oferecia, porque ele tinha conquistado essa salvação à força do seu bom comportamento. A doença da autossuficiência – que era a doença da qual este fariseu padecia – é uma doença que ainda hoje deixa muitas feridas nos homens. Nos últimos séculos os homens desenvolveram, a par de uma consciência muito profunda da sua dignidade, uma consciência muito viva das suas capacidades e possibilidades. Isto, em sim, nada tem de mal; mas, no limite, conduziu à presunção da autossuficiência do homem, da sua autonomia total em relação a Deus. O desenvolvimento da tecnologia, da medicina, da química, dos sistemas políticos e ideológicos,
    • convenceram o homem de que podia prescindir de Deus pois, por si só, podia ser feliz. Onde nos tem conduzido esta presunção? Podemos chegar à salvação, à felicidade plena, apenas pelos nossos próprios meios?


    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 30.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    (adaptadas, em parte, de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 30.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. PALAVRA CELEBRADA NA EUCARISTIA.

    A Palavra de Deus não se limita ao tempo da proclamação e da escuta da Palavra. Na preparação da celebração, procurar que algumas expressões da liturgia da Palavra estejam presentes no momento penitencial, nalguma intenção da oração dos fiéis, num momento de ação de graças…

    3. BILHETE DE EVANGELHO.

    O fariseu não reza a Deus, gaba-se daquilo que é, compara-se como sendo o melhor de todos. Ele crê não ter necessidade de ser salvo, ajudado, perdoado; não tem necessidade de Deus. Repartirá com o seu orgulho, privado do amor misericordioso de Deus. Quanto ao publicano, volta-se para Deus, suplica-Lhe para ter piedade, reconhece a sua miséria, mas conta com a misericórdia de Deus. Evidentemente, Deus ouve a oração deste último e atende-o; ele reparte de modo diferente, pois Deus faz dele um justo. Não esqueçamos que Jesus conta esta história em relação a certos homens que estavam convencidos de serem justos e desprezavam todos os outros. Com efeito, eis o sentido da história: Jesus não põe em causa a justiça destes homens, como não põe em causa a retidão e a generosidade do fariseu que ultrapassa as exigências da Lei; o que Jesus critica ao fariseu da parábola e, sobretudo, aos seus ouvintes é que eles desprezavam todos os outros. Ora, não se pode entrar em relação com Deus quando se manifesta desprezo em relação aos irmãos: "Aquele que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é um mentiroso".

    4. À ESCUTA DA PALAVRA.

    Este fariseu é vilão, nada simpático, olhando apenas os seus méritos, tomando-se por modelo de virtudes! Este publicano, que exemplo de humildade! Não se coloca à frente, baixa os olhos, reconhece-se pecador! Atenção! Não andemos demasiado depressa! O fariseu é um homem profundamente religioso, habitado pela preocupação em obedecer à Lei de Deus. Vai ao Templo para rezar e a sua fé impregna toda a sua vida. Mais ainda, dá à sua fé uma cor de ação de graças. E Jesus não havia dito "aquele que violar um dos mais pequenos preceitos da Lei será tido como o mais pequeno no Reino"? O publicano, ao contrário, é um homem a não frequentar. Fica à distância, porque lhe é proibido entrar no Templo. É um colaborador dos Romanos, contaminado pela impureza dos pagãos. E é um "ladrão profissional", como Zaqueu! Finalmente, o fariseu tem razão em experimentar um sentimento de desprezo para com este publicano que todo o mundo detesta. O próprio Jesus havia dito: "Se o teu irmão pecar e recusar escutar a comunidade, seja para ti como o pagão e o publicano". Sabendo isso, como não ficar chocado com a palavra de Jesus: "Quando o publicano voltou a casa, foi ele que se tornou justo e não o fariseu"? Leiamos mais atentamente. O que está no centro da parábola não é o fariseu nem o publicano. É Deus. Deus deu a Lei a Moisés, mas nunca disse que Se identificava pura e simplesmente com os preceitos jurídicos. Pelo contrário, com os profetas, não pára de dizer que é um Deus que não faz senão amar o seu povo. É esse traço do rosto de Deus que Jesus veio não somente privilegiar, mas colocar à frente de todos os outros aspetos. O seu nome é Pai. Jesus dirá: "É a misericórdia que eu quero, não os sacrifícios". Com o fariseu, Deus não tem mais nada a fazer: ele é justo em si mesmo. O publicano, não tendo qualquer mérito a dar, só tem a receber. E justamente Deus quer dar, dar-Se, gratuitamente. Ele pode então "ajustar" o publicano ao seu amor. Finalmente, somos convidados, nós também, a perguntar em que Deus acreditamos.

    5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística II, que sublinha a santidade e a justiça de Deus, o único santo, e parece bem adaptada à Palavra proclamada neste domingo.

    6. PALAVRA PARA O CAMINHO DA VIDA…

    Levar a Palavra de Deus como luz para mais uma semana de trabalho, de estudo… Ao longo dos dias da semana que se segue, procurar rezar e meditar algumas frases da Palavra de Deus: "O Senhor é um juiz que não faz aceção de pessoas…"; "Quem adora a Deus será bem acolhido…"; "A toda a hora bendirei o Senhor…"; "O Senhor está a meu lado e dá-me força…"; "Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador…" Procurar transformá-las em atitudes e em gestos de verdadeiro encontro com Deus e com os próximos que formos encontrando nos caminhos percorridos da vida…

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

    Grupo Dinamizador:
    José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal


    Liturgia do XXIX Domingo do Tempo Comum

    Tema do 29.º Domingo do Tempo Comum

    As leituras que a liturgia do vigésimo nono domingo comum nos propõe recordam-nos a importância de manter com Deus uma relação estreita, uma comunhão íntima, um diálogo insistente, uma escuta atenta… O diálogo contínuo com Deus trará à nossa vida uma nova luz: permitir-nos-á compreender os silêncios de Deus, respeitar os tempos de Deus, entender o projeto de Deus, confiar sempre no amor de Deus.

    A primeira leitura traz-nos um episódio da caminhada do povo de Deus pelo deserto: durante um confronto de Israel com os amalecitas, Moisés ficou em oração, no cimo de um monte, pedindo a Deus que salvasse o seu povo. Ao contar esta história, a catequese de Israel pretende sublinhar o poder da oração. O crente só conseguirá enfrentar as duras batalhas que a vida lhe impõe se puder contar com a ajuda e a força de Deus; e essa ajuda e essa força brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido e nunca acabado, com esse Deus salvador e libertador que acompanha o seu povo em cada passo do caminho.

    No Evangelho Jesus conta aos discípulos uma parábola sobre "a necessidade de orar sempre sem desanimar". Segundo Jesus, Deus escuta sempre a oração dos seus filhos e, no tempo oportuno, há de dar resposta a tudo aquilo que eles lhe dizem. Entretanto, independentemente da resposta de Deus, a oração faz bem: aproxima os crentes de Deus, fá-los entender o projeto de Deus, leva-os a confiar incondicionalmente em Deus, na sua misericórdia, na sua bondade, no seu amor.

    Na segunda leitura um mestre cristão do final do primeiro século convida os crentes a terem sempre em conta, na construção do edifício da sua fé, a Sagrada Escritura. Ela é um lugar privilegiado de encontro entre Deus e o homem. Escutar a Escritura é escutar o Deus que fala e que mostra o caminho que conduz à vida verdadeira. A oração também passa pela escuta desse Deus que nos fala através da Sua Palavra escrita.

    LEITURA I – Êxodo 17,8-13a

    Naqueles dias,
    Amalec veio a Refidim atacar Israel.
    Moisés disse a Josué:
    «Escolhe alguns homens
    e amanhã sai a combater Amalec.
    Eu irei colocar-me no cimo da colina,
    com a vara de Deus na mão».
    Josué fez o que Moisés lhe ordenara e atacou Amalec,
    enquanto Moisés, Aarão e Hur subiram ao cimo da colina.
    Quando Moisés tinha as mãos levantadas,
    Israel ganhava vantagem;
    mas quando as deixava cair, tinha vantagem Amalec.
    Como as mãos de Moisés se iam tornando pesadas,
    trouxeram uma pedra e colocaram-no por debaixo
    para que ele se sentasse,
    enquanto Aarão e Hur, um de cada lado,
    lhe seguravam as mãos.
    Assim se mantiveram firmes as suas mãos até ao pôr do sol
    e Josué desbaratou Amalec e o seu povo ao fio da espada.

    CONTEXTO

    A secção de Ex 15,22-18,27 desenvolve um dos grandes temas do Pentateuco: a marcha pelo deserto dos hebreus libertados da escravidão no Egito. Aqui estamos, ainda, na primeira etapa dessa marcha, a que vai desde a passagem do mar (cf. Ex 14,15-31), até ao Sinai.

    Ao longo da caminhada, Israel confrontou-se com as mais diversas contrariedades. Algumas – por exemplo, a sede (cf. Ex 15,22-27; 17,1-7) e a fome (cf. Ex 16,1-36) – resultaram das condições naturais que o ambiente desolado e hostil do deserto impunha; mas outras advieram de fatores humanos, nomeadamente da oposição de grupos inimigos. O episódio que a primeira leitura deste domingo nos apresenta refere-se a um confronto com um grupo inimigo designado no texto por "Amalek".

    Os amalecitas eram uma tribo nómada, violenta e agressiva, que circulava pela zona do Neguev ("sul"), entre o Sinai e Canaan. O oráculo de Balaão (cf. Nm 24,20) refere-se aos amalecitas como "o mais antigo dos povos". Descendentes de Esaú (cf. Gn 36,12), os amalecitas eram aparentados com Israel. Provavelmente viram os hebreus que atravessavam o deserto como uma ameaça e quiseram opor-se à sua passagem. Mais tarde aparecerão como adversários de Saul (cf. 1 Sm 15) e de David (cf. 1 Sm 30). Ficarão na história como os inimigos por excelência dos israelitas.

    Uma informação suplementar, fornecida por Dt 25,17-19, permite-nos entender este primeiro confronto entre amalecitas e israelitas a que o nosso texto se refere: os amalecitas, emboscados no deserto perto de um lugar chamado Refidim, atacaram o grupo de Moisés e mataram alguns dos mais sedentos e extenuados que se arrastavam na retaguarda da caravana. Em resposta, Moisés mandou Josué reunir um grupo de guerreiros e dar uma resposta ao brutal ataque dos amalecitas.

    Josué, o chefe que Moisés pôs à frente do grupo armado de hebreus enviado a combater os amalecitas, é aqui nomeado pela primeira vez. Também é referido com o nome de Oseias (cf. Nm 13,8). A tradição bíblica diz que foi Moisés que lhe mudou o nome para Josué (cf. Nm 13,16), um nome que significa "Javé salva" (a mudança de nome está muitas vezes ligada, no contexto bíblico, à escolha de uma pessoa para uma determinada missão). Josué aparecerá em diversas situações como ajudante de Moisés (cf. Ex 24,13; 32,17; Nm 11,28). Foi um dos homens que Moisés enviou a Canaan em missão exploratória, antes da penetração do povo na terra (cf. Nm 13,1-24.30). Josué receberá o encargo de suceder a Moisés na condução do Povo de Deus (cf. Nm 27,1223) e será ele que levará o povo a entrar na Terra Prometida (cf. Js 1,1-9).

    MENSAGEM

    Josué, por indicação de Moisés, leva os seus homens de guerra para dar combate aos amalecitas (vers. 9). No entanto, depois desta indicação, o narrador afasta-nos do campo onde está a desenrolar-se a batalha e leva-nos a contemplar a ação de Moisés. Este, no cimo de uma colina (vers. 10), acompanhado de Aarão e de Hur e tendo na mão a "vara de Deus" com a qual tinha operado tantos prodígios, intercede diante de Deus pelo seu povo. Quando Moisés tinha as mãos levantadas para o céu, Israel levava vantagem no combate; quando Moisés, cansado, baixava as mãos, a vantagem pendia para o amalecitas. Aarão e Hur, depois de terem feito sentar Moisés numa pedra, colocaram-se um de cada sustentando-lhe as mãos, sem as deixar cair. Moisés pôde continuar com as mãos levantadas, a interceder pelo seu povo, até ao pôr do sol (vers. 12); e assim os israelitas derrotaram completamente as tropas amalecitas (vers. 13).

    A quem se deveu a vitória dos hebreus sobre os seus inimigos? Ao génio militar de Josué e à bravura dos seus homens de guerra? À "vara dos prodígios" que Moisés leva consigo para a colina de onde contempla o desenrolar da batalha? Não. O teólogo autor desta narração pretende claramente sugerir que a vitória deve ser atribuída a Deus. Não é o valor guerreiro dos hebreus, nem os malabarismos mágicos de um líder carismático que salvam Israel, mas sim a ação do Deus libertador e salvador, que acompanha o seu povo ao longo do caminho e o livra de todos os perigos. Não se trata tanto de uma vitória militar, quanto de um acontecimento de salvação.

    No entanto, há um outro elemento que é necessário sublinhar nesta história: o poder da oração. Os teólogos de Israel querem dizer aos seus conterrâneos que, diante das crises e dificuldades que a vida apresenta, é preciso invocar o Deus libertador com perseverança e insistência. O crente só conseguirá enfrentar as duras batalhas que a vida lhe impõe se puder contar com a ajuda e a força de Deus; e essa ajuda e essa força brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido e nunca acabado, com esse Deus salvador e libertador que acompanha o seu povo em cada passo do caminho.


    SALMO RESPONSORIAL – Salmo 120 (121)

    Refrão:

    O nosso auxílio vem do Senhor,
    que fez o céu e a terra.

    Levanto os meus olhos para os montes:
    donde me virá o auxílio?
    O meu auxílio vem do Senhor,
    que fez o céu e a terra.

    Não permitirá que vacilem os teus passos,
    não dormirá Aquele que te guarda.
    Não há de dormir nem adormecer
    aquele que guarda Israel.

    O Senhor é quem te guarda,
    o Senhor está a teu lado, Ele é o teu abrigo.
    O sol não te fará mal durante o dia,
    nem a luz durante a noite.

    O Senhor te defende de todo o mal,
    o Senhor vela pela tua vida.
    Ele te protege quando vais e quando vens,
    agora e para sempre.


    LEITURA II – 2 Timóteo 3,14-4,2

    Caríssimo:
    Permanece firme no que aprendeste
    e aceitaste como certo,
    sabendo de quem o aprendeste.
    Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras;
    elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação,
    pela fé em Cristo Jesus.
    Toda a Escritura, inspirada por Deus,
    é útil para ensinar, persuadir, corrigir
    e formar segundo a justiça.
    Assim o homem de Deus será perfeito,
    bem preparado para todas as boas obras.
    Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo,
    que há de julgar os vivos e os mortos,
    pela sua manifestação e pelo seu reino:
    Proclama a palavra,
    insiste a propósito e fora de propósito,
    argumenta, ameaça e exorta,
    com toda a paciência e doutrina.


    CONTEXTO

    Quem é este Timóteo, o destinatário deste texto? Trata-se de um cristã oriundo da cidade de Listra, nascido de pai grego e de mãe judeo-cristã. O apóstolo Paulo teria encontrado Timóteo quando passou por Listra, no decurso da sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Quando Paulo seguiu viagem, Timóteo acompanhou-o, aparecendo junto dele na Bereia, em Atenas (cf. At 17,14-15), em Corinto (cf. At 18,5) e em Éfeso (cf. At 19,22). Paulo confiava plenamente em Timóteo, chegando a encarregá-lo de algumas intervenções delicadas junto de comunidades cristãs que se defrontavam com problemas diversos (cf. 1 Ts 3,2.6; 1 Cor 4,17; 16,10-11). A tradição cristã refere Timóteo como o primeiro bispo de Éfeso.

    A segunda Carta a Timóteo apresenta-se como uma carta escrita por Paulo enquanto está na prisão (provavelmente em Roma). Sentindo aproximar-se o tempo da sua partida deste mundo, Paulo teria escrito ao seu discípulo e amigo Timóteo, exortando-o a manter-se fiel ao dom recebido de Deus e à missão que lhe foi confiada. É uma carta carregada de sentimento, uma verdadeira carta de despedida. O testemunho de Paulo, que viveu sempre fiel à missão que Deus lhe confiou, é apresentado como encorajamento para Timóteo e para todos os que são chamados a animar e orientar as comunidades cristãs.

    Na verdade, os especialistas consideram que dificilmente esta carta poderá ser atribuída ao apóstolo Paulo. As problemáticas tratadas e a estrutura eclesial que é suposta na carta são, muito provavelmente, do final do séc. I, numa altura em que a comunidade eclesial se debatia com o problema dos falsos mestres que, com doutrinas falsas, lançavam a confusão entre os cristãos. Paulo teria sido martirizado em Roma muito antes de tudo isto, por volta do ano 65, na altura da perseguição ordenada por Nero contra os cristãos.

    MENSAGEM

    O autor da Carta, depois de avisar Timóteo para ter cuidado com os falsos mestres, que são "pessoas de mente corrupta e inapta para a fé", que se "opõem à verdade" e que "não irão longe pois a sua insensatez tornar-se-á patente a todos" (2 Tm 3,8-9), convida-o a "permanecer firme" (2 Tm 3,14) naquilo que aprendeu. Timóteo sabe que a doutrina que recebeu vem dos apóstolos e lhe foi fielmente transmitida por pessoas que estavam devidamente mandatadas para tal; também sabe que essa doutrina está em absoluta conformidade com a Escritura.

    Desde a sua infância que Timóteo conhece a Sagrada Escritura. Sabe que ela é "inspirada por Deus" (o termo grego "théopneustos", aqui utilizado, sugere que, na composição dos livros que formam a Escritura, interveio, além do autor humano, o próprio Deus). O Espírito Santo influiu na mente e no coração dos escritores sagrados, de modo que estes puseram por escrito aquilo que Deus queria comunicar-nos através deles. Por isso, a Escritura contém "a sabedoria que leva à salvação" (2 Tm 3,15). Ela é a grande base para formar e educar na fé e na sã doutrina. A utilidade da Escritura na formação do crente é descrita através de quatro verbos: "ensinar", "persuadir", "corrigir" e "formar". Desta "escola" de fé sairá o "homem de Deus", o homem "perfeito", "bem preparado para todas as boas obras" (2 Tm 3, 17).

    No final, o autor da Carta renova a sua exortação a Timóteo no sentido de que cumpra com esmero a sua tarefa de animador da comunidade cristã (cf. 2 Tm 4,1-2). Em tom solene mas, ao mesmo tempo, comovente, o autor suplica a Timóteo que proclame a Palavra, que insista "a propósito e fora de propósito" (mesmo quando a ocasião não parece muito propícia), sem medo das reações, sem respeitos humanos, sem falsos pudores, "com toda a paciência e doutrina" – quer dizer, com uma adequada pedagogia pastoral. Timóteo sabe que um dia deverá apresentar-se diante de Deus para dar conta da forma como cumpriu a missão que lhe foi confiada; isso deverá servir-lhe de estímulo para ser uma testemunha dedicada e fiel da fé que recebeu.

    INTERPELAÇÕES

    • No final do séc. I, as comunidades cristãs deparavam-se, frequentemente, com "mestres" que se diziam cristãos, mas que ensinavam doutrinas que não coincidiam exatamente com a fé recebida da tradição apostólica e da Sagrada Escritura. Isto provocava, naturalmente, alarme e confusão: por onde passa a verdade da fé? Que critérios deverão ser tidos em conta para não sermos enganados e não nos afastarmos do caminho certo? Hoje, no séc. XXI, numa época de relativismo e de opiniões desencontradas, toda esta problemática acaba por fazer-se bem presente na nossa experiência de vida e de fé: há verdades absolutas e universais, às quais não podemos renunciar, ou é tudo uma questão de opinião e de perspetiva? Os valores e padrões morais dependem de contextos particulares contexto e das "visões" de cada cultura, ou são exigências ineludíveis que brotam do Evangelho e do seguimento de Jesus? Em que verdades devemos basear-nos para delinearmos a nossa história de vida? O autor da segunda Carta a Timóteo tem uma perspetiva bem definida: em matéria de fé, o cristão tem de construir o edifício da sua existência a partir da Sagrada Escritura e da doutrina transmitida pela tradição viva da Igreja. É sobre esses alicerces que temos construído a nossa fé? Por vezes encontramos pessoas que dizem, para justificar certas opções ou comportamentos: "eu cá tenho a minha fé". De que fé se trata? De uma "fé" particular, construída ao sabor de interesses e visões pessoais, ou da fé da Igreja, da fé que une todos os discípulos de Jesus e que os faz caminhar em comunidade, sendo uma única família?
    • O autor da segunda Carta a Timóteo exorta o destinatário (ou os destinatários) da Carta a ter sempre em conta, na construção do edifício da sua fé, a Escritura Sagrada. Ela ajuda a formar o "homem de Deus", o homem "perfeito", "bem preparado para todas as boas obras". No séc. XIX, o papa Leão XIII dizia isto de uma forma muito bela: a Escritura é "uma carta outorgada pelo Pai do céu ao género humano, em peregrinação longe da sua pátria, e transmitida pelos autores sagrados" (Carta Encíclica Providentissimus Deus, nº 1). Nessa "carta", Deus "diz-nos" o seu amor e mostra-nos como devemos viver para caminharmos em direção à vida. Ignorar essa "carta" de amor que Deus nos escreveu e construir a nossa fé à margem dela, tornaria a nossa vida e a nossa experiência de fé consideravelmente mais pobres. Que lugar ocupa a leitura, a reflexão e a partilha da Palavra de Deus na nossa vida pessoal? Que lugar ocupa a Palavra de Deus na vida e na experiência das nossas comunidades cristãs? O que é que assume um valor mais determinante na experiência cristã: as práticas rituais, as devoções particulares, as leis e os códigos, ou a Palavra de Deus?
    • É verdade que Deus, para nos fazer chegar a sua "carta" em linguagem percetível para nós, nos "escreveu" através de homens. Esses homens viveram em determinada época e usaram a linguagem da sua época. Serviram-se de géneros literários, de formas de expressão, de imagens e de símbolos próprios do seu tempo e da sua cultura. Talvez essas formas de expressão nos soem, em pleno séc. XXI, distantes, estranhas, longe da nossa realidade, do nosso mundo e da nossa vida. Para compreendermos a "carta de Deus", precisamos de conhecer o mundo bíblico, o tempo, o contexto, o "ambiente" em que o redator de determinado livro viveu; e, só depois de termos "descascado" aquilo que é acessório, encontraremos o essencial: a mensagem eterna de Deus para nós. Estamos verdadeiramente interessados em conhecer, em estudar, em compreender a Palavra de Deus? As nossas atividades de evangelização assentam na Palavra de Deus? Nas comunidades cristãs há a preocupação de organizar cursos e encontros que permitam a todos conhecer e compreender a Sagrada Escritura?
    • Timóteo é exortado a servir a Palavra e a proclamá-la "a propósito e fora de propósito", em todas as circunstâncias, sem medo, sem vergonha, sem atenuar a radicalidade e a exigência da Palavra de Deus, sem cedências aos interesses dos que se sentem incomodados pelos desafios de Deus. É assim que procedem aqueles e aquelas a quem a Igreja confia o serviço da Palavra? Os que têm a missão de proclamar a Palavra e de a explicar aos irmãos, procuram fazê-lo de forma clara e cativante, a fim de que a Palavra chegue ao coração dos que a escutam?



    INTERPELAÇÕES

    • No final do séc. I, as comunidades cristãs deparavam-se, frequentemente, com "mestres" que se diziam cristãos, mas que ensinavam doutrinas que não coincidiam exatamente com a fé recebida da tradição apostólica e da Sagrada Escritura. Isto provocava, naturalmente, alarme e confusão: por onde passa a verdade da fé? Que critérios deverão ser tidos em conta para não sermos enganados e não nos afastarmos do caminho certo? Hoje, no séc. XXI, numa época de relativismo e de opiniões desencontradas, toda esta problemática acaba por fazer-se bem presente na nossa experiência de vida e de fé: há verdades absolutas e universais, às quais não podemos renunciar, ou é tudo uma questão de opinião e de perspetiva? Os valores e padrões morais dependem de contextos particulares contexto e das "visões" de cada cultura, ou são exigências ineludíveis que brotam do Evangelho e do seguimento de Jesus? Em que verdades devemos basear-nos para delinearmos a nossa história de vida? O autor da segunda Carta a Timóteo tem uma perspetiva bem definida: em matéria de fé, o cristão tem de construir o edifício da sua existência a partir da Sagrada Escritura e da doutrina transmitida pela tradição viva da Igreja. É sobre esses alicerces que temos construído a nossa fé? Por vezes encontramos pessoas que dizem, para justificar certas opções ou comportamentos: "eu cá tenho a minha fé". De que fé se trata? De uma "fé" particular, construída ao sabor de interesses e visões pessoais, ou da fé da Igreja, da fé que une todos os discípulos de Jesus e que os faz caminhar em comunidade, sendo uma única família?
    • O autor da segunda Carta a Timóteo exorta o destinatário (ou os destinatários) da Carta a ter sempre em conta, na construção do edifício da sua fé, a Escritura Sagrada. Ela ajuda a formar o "homem de Deus", o homem "perfeito", "bem preparado para todas as boas obras". No séc. XIX, o papa Leão XIII dizia isto de uma forma muito bela: a Escritura é "uma carta outorgada pelo Pai do céu ao género humano, em peregrinação longe da sua pátria, e transmitida pelos autores sagrados" (Carta Encíclica Providentissimus Deus, nº 1). Nessa "carta", Deus "diz-nos" o seu amor e mostra-nos como devemos viver para caminharmos em direção à vida. Ignorar essa "carta" de amor que Deus nos escreveu e construir a nossa fé à margem dela, tornaria a nossa vida e a nossa experiência de fé consideravelmente mais pobres. Que lugar ocupa a leitura, a reflexão e a partilha da Palavra de Deus na nossa vida pessoal? Que lugar ocupa a Palavra de Deus na vida e na experiência das nossas comunidades cristãs? O que é que assume um valor mais determinante na experiência cristã: as práticas rituais, as devoções particulares, as leis e os códigos, ou a Palavra de Deus?
    • É verdade que Deus, para nos fazer chegar a sua "carta" em linguagem percetível para nós, nos "escreveu" através de homens. Esses homens viveram em determinada época e usaram a linguagem da sua época. Serviram-se de géneros literários, de formas de expressão, de imagens e de símbolos próprios do seu tempo e da sua cultura. Talvez essas formas de expressão nos soem, em pleno séc. XXI, distantes, estranhas, longe da nossa realidade, do nosso mundo e da nossa vida. Para compreendermos a "carta de Deus", precisamos de conhecer o mundo bíblico, o tempo, o contexto, o "ambiente" em que o redator de determinado livro viveu; e, só depois de termos "descascado" aquilo que é acessório, encontraremos o essencial: a mensagem eterna de Deus para nós. Estamos verdadeiramente interessados em conhecer, em estudar, em compreender a Palavra de Deus? As nossas atividades de evangelização assentam na Palavra de Deus? Nas comunidades cristãs há a preocupação de organizar cursos e encontros que permitam a todos conhecer e compreender a Sagrada Escritura?
    • Timóteo é exortado a servir a Palavra e a proclamá-la "a propósito e fora de propósito", em todas as circunstâncias, sem medo, sem vergonha, sem atenuar a radicalidade e a exigência da Palavra de Deus, sem cedências aos interesses dos que se sentem incomodados pelos desafios de Deus. É assim que procedem aqueles e aquelas a quem a Igreja confia o serviço da Palavra? Os que têm a missão de proclamar a Palavra e de a explicar aos irmãos, procuram fazê-lo de forma clara e cativante, a fim de que a Palavra chegue ao coração dos que a escutam?


    ALELUIA – Hebreus 4,12

    Aleluia. Aleluia.

    A palavra de Deus é viva e eficaz,
    pode discernir os pensamentos e intenções do coração.


    EVANGELHO – Lucas 18,1-8

    Naquele tempo,
    Jesus disse aos seus discípulos uma parábola
    sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar:
    «Em certa cidade vivia um juiz
    que não temia a Deus nem respeitava os homens.
    Havia naquela cidade uma viúva
    que vinha ter com ele e lhe dizia:
    'Faz-me justiça contra o meu adversário'.
    Durante muito tempo ele não quis atendê-la.
    Mas depois disse consigo:
    'É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens;
    mas, porque esta viúva me importuna,
    vou fazer-lhe justiça,
    para que não venha incomodar-me indefinidamente'».
    E o Senhor acrescentou:
    «Escutai o que diz o juiz iníquo!…
    E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos,
    que por Ele clamam dia e noite,
    e iria fazê-los esperar muito tempo?
    Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa.
    Mas quando voltar o Filho do homem,
    encontrará fé sobre esta terra?»


    CONTEXTO

    Jesus e os discípulos estão a caminho a Jerusalém. O tempo começa a esgotar-se, pois cada passo nesse caminho aproxima mais Jesus do seu destino de cruz. Quando Jesus, pela morte na cruz, reentrar na glória do Pai, os discípulos ficarão sozinhos no mundo. Terão como missão continuar, pelo tempo fora, a obra de Jesus. Conseguirão fazê-lo? Parecem ainda tão distantes da lógica do Reino de Deus! Serão capazes de perceber o projeto de Deus, de acolher as indicações de Deus, de confiar suficientemente em Deus, de esperar pacientemente que Deus aja no mundo e na história? Não irão impacientar-se e desanimar enquanto esperam que o Reino de Deus se concretize? Não irão desistir quando lhes parecer que Deus fica em silêncio diante da maldade, da violência, da injustiça? Jesus sabia, por experiência própria, que o diálogo frequente com Deus – a oração – era fundamental para compreender, para acolher e para abraçar o projeto de Deus. Ele próprio, antes de tomar decisões importantes, retirava-se para sítios isolados e passava longas horas a dialogar com o Pai, a escutar o Pai, a procurar discernir a vontade do Pai.

    Lucas refere a oração de Jesus em diversas situações, nomeadamente no Batismo (cf. Lc 3,21), antes da eleição dos Doze (cf. Lc 6,12), antes do primeiro anúncio da paixão (cf. Lc 9,18), no contexto da transfiguração (cf. Lc 9,28-29), após o regresso dos discípulos da missão (cf. Lc 10,21), na última ceia (cf. Lc 22,32), no Getsémani (cf. Lc 22,40-46) e na cruz (cf. Lc 23,34.46). O diálogo com o Pai pacificava Jesus, ajudava-O a ver as coisas mais claras, a confiar plenamente em Deus, a entregar-se plenamente nas mãos de Deus.

    Jesus queria que os discípulos fizessem esta experiência. Por isso, contou aos discípulos uma parábola "sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar" (vers. 1). Este texto é exclusivo de Lucas.

    MENSAGEM

    Na parábola contada por Jesus há dois personagens: um juiz e uma viúva. Ambos viviam numa cidade não identificada. Do juiz diz-se que "não temia a Deus nem respeitava os homens" (vers. 2). A expressão parece sugerir, antes de mais, o exercício autocrático do poder judicial; mas poderá também referir-se à venalidade do juiz, que não tinha problemas em "torcer" a justiça conforme os seus interesses. Em qualquer caso, o comportamento daquele juiz é definido como "iníquo", uma vez que ele não está minimamente preocupado em remediar as injustiças cometidas contra os mais frágeis da sociedade. A outra personagem da parábola é uma viúva (vers. 3), vítima da prepotência de um adversário que se aproveita da sua fragilidade para a defraudar. Na sociedade palestina a viúva é o protótipo da pessoa indefesa, ao nível dos órfãos e dos estrangeiros: não tem quem a defenda e, por isso, está vulnerável diante das arbitrariedades dos poderosos. Não se especifica quem é o adversário da viúva, nem qual é a natureza do conflito que está em cima da mesa: o que é decisivo é a injustiça de que a viúva é alvo.

    Durante muito tempo o juiz, talvez por inércia ou talvez porque tinha sido pago para tal, ignorou os pedidos de justiça apresentados pela viúva (vers. 4a). Poderoso e prepotente, o juiz sentia que podia fazer o que quisesse e que não tinha de dar contas a ninguém pelos seus atos. Contudo, a mulher não se conformou com aquela "porta fechada": de forma insistente, sem desanimar, continuou a levar o seu caso à consideração do juiz e a reclamar por justiça.

    Chegados aqui, o narrador deixa a viúva em segundo plano e convida-nos a acompanhar o "raciocínio" cínico do juiz: "é certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente" (vers. 4b-5). Aquele juiz prepotente e corrupto, quando finalmente tomou posição, não o fez movido pelo sentido de justiça ou por um sentimento de compaixão, mas apenas porque não queria problemas; estava farto de aturar aquela mulher que, dia a dia, não o deixava em paz com as suas reclamações. No final, a persistência da viúva venceu a insensibilidade e a prepotência daquele juiz sem coração.

    Como interpretar esta parábola? Onde é que Jesus quer chegar? A explicação vem logo a seguir. Jesus pede aos seus ouvintes que façam um esforço e que comparem o juiz injusto com Deus: "Escutai o que diz o juiz iníquo!… E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa" (vers. 6-8). É claro que Jesus não está a dizer que Deus é, como o juiz da parábola, alguém prepotente e injusto… Está a garantir-nos que Deus não fica indiferente às nossas súplicas: se até um juiz sem coração é capaz, apesar da sua relutância, de atender os pedidos de uma viúva sem poder nem influência, Deus – que é justo, que tem coração, que defende sempre os pobres e débeis, que ama os seus filhos com amor de pai e de mãe – não será capaz de escutar o que Lhe dizemos e não fará tudo para corresponder aos pedidos que Lhe fazemos?

    Portanto, os discípulos de Jesus farão bem em dialogar continuamente com Deus. Farão bem em apresentar a Deus as suas dúvidas, os seus anseios, as suas inquietações, os seus problemas. Deus, garantidamente, escutá-los-á. Pode parecer, em algum momento, que Deus mantém um silêncio inexplicável e desconcertante; mas, seja qual for a razão do silêncio de Deus, a verdade é que Ele não fica indiferente às súplicas dos seus queridos filhos. Se os discípulos confiarem em Deus e dialogarem com Ele, sairão dessas "conversas" mais revigorados, mais pacificados, mais esclarecidos, mais conscientes dos projetos de Deus e mais dispostos a aceitá-los, mais preparados para acolher e viver os valores do Reino.

    O tema da parábola original de Jesus – "a necessidade de orar sempre sem desanimar" – será ainda aproveitado por Lucas, na década de oitenta do primeiro século, para deixar uma mensagem forte aos destinatários do Evangelho que compôs. A situação histórica das comunidades cristãs era, por essa altura, muito particular. No ano 70, Jerusalém tinha sido destruída pelas tropas romanas; no ano 81, o imperador Domiciano tinha assumido o poder em Roma e tinha começado, de forma organizada, a perseguir os cristãos. Viviam-se tempos difíceis e o futuro era sombrio; para as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo greco-romano, o mundo parecia estar a desabar. Neste contexto de angústia, de incerteza e de perseguição, compreende-se que a comunidade dos discípulos de Jesus grite por justiça e peça a Deus que intervenha para salvar o seu povo. Deus ouvirá os pedidos de socorro dos seus queridos filhos? Tardará muito a responder-lhes? Lucas, a partir de uma parábola contada por Jesus quando ia a caminho de Jerusalém, garante aos crentes desanimados: Deus não tardará a intervir; Ele escuta os seus filhos e far-lhes-á justiça. O que é preciso é que estes, apesar de todas as vicissitudes que terão de enfrentar, não percam a fé em Deus, não desistam de confiar n'Ele, se mantenham fiéis a Jesus e ao Evangelho. Será que os discípulos de Jesus, no meio de tanta incerteza, saberão manter a sua confiança em Deus ("quando o Filho do homem voltar, encontrará fé sobre esta terra?" – vers. 8b)?

    INTERPELAÇÕES

    • Porque é que Deus permite que tantos milhões dos seus filhos sobrevivam em condições tão degradantes, despojados da sua dignidade e dos seus direitos básicos? Porque é que os maus, os injustos e os violentos praticam arbitrariedades sem conta contra os mais débeis e, aparentemente, nenhum mal lhes acontece? Como é que Deus aceita que quase dez por cento da população mundial passe fome? Onde está Deus quando as ditaduras ou os imperialismos maltratam povos inteiros? Porque é que Deus deixa que determinadas doenças continuem a ceifar tantas vidas? Porque é que Deus não evita que as catástrofes naturais deixem por todo o lado um rasto de sofrimento e de morte? Será Deus insensível ao sofrimento que atinge os seus filhos que peregrinam no mundo e na história? O evangelista Lucas está convicto de que Deus não fica indiferente aos dramas e sofrimentos dos homens. Mais tarde ou mais cedo, no tempo oportuno, Ele irá intervir para fazer justiça aos seus filhos. Talvez a nossa impaciência tenha dificuldade em compreender o ritmo e o tempo de Deus; mas Deus acompanha a nossa vida, escuta os nossos gritos de aflição, sabe de que necessitamos e, na altura certa, irá atuar. Seremos capazes de confiar em Deus, de acreditar no seu amor, de nos fiarmos na sua bondade, de deixarmos a nossa vida nas suas mãos? Mesmo quando Deus não vai ao ritmo da nossa impaciência, confiamos n'Ele?
    • Como podemos manter a confiança em Deus? Como podemos acreditar n'Ele quando a lógica dos Seus planos nos escapa completamente? Jesus, a partir da sua própria experiência de Deus, propunha aos seus discípulos uma forma de chegarmos ao coração de Deus: é necessário viver em contínuo diálogo com Deus, numa constante escuta de Deus. Quando dialogamos com Deus, aprofundamos os laços com Ele, consolidamos a comunhão com Ele, aprendemos a confiar completamente n'Ele; quando escutamos Deus, começamos a perceber o seu projeto para o mundo e para os homens e sentimos vontade de nos envolvermos na concretização desse projeto; quando falamos com Deus descobrimos que Ele se interessa pelas nossas questões e que não fica indiferente diante daquilo que nos inquieta; quando questionamos Deus encontramos respostas para a maior parte das nossas dúvidas e incertezas; quando "tocamos" o amor e a misericórdia de Deus percebemos que Ele nunca nos abandonará e que nunca ficará indiferente à nossa sorte. Estamos dispostos a acolher a indicação de Jesus e a manter um diálogo frequente com Deus? Que lugar ocupa a oração na nossa vida? Sentimos que a oração nos aproxima de Deus e nos ajuda a entender o projeto de Deus para nós e para o mundo?
    • Como se processa o nosso diálogo com Deus? É um monólogo em que nos limitamos a atirar a Deus, de rajada, as nossas reivindicações e as nossas listas de pedidos, porque não temos tempo ou disposição para mais, ou é um diálogo franco, sincero, sem pressas, que é simultaneamente escuta e partilha, agradecimento e prece, obediência e confiança, conversa de Pai para filho e de filho para Pai? A nossa oração é uma simples descarga de palavras e de fórmulas que temos gravadas na nossa mente e que reproduzimos de forma mecânica para acalmar a nossa consciência, ou é uma partilha com Deus daquilo que nos preocupa e inquieta, daquilo que nos assusta e desafia, e também daquilo que enche a nossa vida de felicidade e de encanto? No nosso diálogo com Deus damos-Lhe espaço para falar, para nos contar os seus projetos, para nos dizer o que espera de nós? O nosso diálogo com Deus é constante, ou depende da nossa disposição, do nosso tempo disponível, dos interesses que temos em agenda?
    • Muitas vezes ficamos com a impressão de que Deus não dá importância aos nossos pedidos. Porque será? Será porque Deus não quer saber, ou será porque os nossos pedidos não fazem sentido à luz da Sua lógica? Às vezes pedimos a Deus coisas que nos compete a nós conseguir; deverá Ele favorecer a nossa preguiça? Às vezes pedimos a Deus coisas que nos parecem boas mas que, em última análise, têm efeitos negativos na construção da nossa vida; fará sentido Deus conceder-no-las? Às vezes pedimos a Deus coisas que são boas para nós, mas que implicam sofrimento e injustiça para os nossos irmãos; poderá Deus beneficiar-nos em prejuízo de outras pessoas?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    (adaptadas, em parte, de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

    Ao longo dos dias da semana anterior ao 29º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. PALAVRA CELEBRADA NA EUCARISTIA.

    A Palavra de Deus não se limita ao tempo da proclamação e da escuta da Palavra. Na preparação da celebração, procurar que algumas expressões da liturgia da Palavra estejam presentes no momento penitencial, nalguma intenção da oração dos fiéis, num momento de ação de graças…

    3. BILHETE DE EVANGELHO.

    O juiz da parábola faz justiça, não para fazer respeitar a justiça, mas para ter a paz. É a perseverança da mulher que lhe faz obter o que ela pede. O que conta aos olhos do Senhor é a perseverança no pedido. Deus parece esperar a confiança daqueles que Lhe rezam. A confiança não tem limites… Mas Jesus coloca a terrível questão: "O Filho do Homem, quando vier, encontrará fé sobre a terra?" Não respondamos demasiado depressa… A nossa oração verifica a nossa fé, mas é necessário que ela se faça perseverança…

    4. À ESCUTA DA PALAVRA.

    "É preciso rezar sempre sem desencorajar". Jesus tomou o exemplo da viúva que pede obstinadamente que a justiça lhe seja feita, para ilustrar o seu convite a uma oração perseverante, também ela obstinada. Mas poderíamos esperar esta conclusão: "Se vós insistis sem cessar junto de Deus com a vossa oração, então, como o juiz, Ele acabará por ceder e atenderá o vosso pedido". Mas não! Jesus parece incoerente. Ele diz: "E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa". É preciso rezar longamente, com perseverança, sem desencorajar e então Deus escuta-nos depressa, sem tardar! Tudo isso não é muito lógico! Mas que quer Jesus dizer-nos? A palavra-chave é que "Deus faz-nos justiça". É uma palavra terrivelmente ambígua. A justiça entre os homens é indispensável. Consiste em dar a cada um o que lhe é devido, a reconhecer os deveres e os direitos de cada um. Há leis para dizer quais são esses direitos e deveres, há juízes para aplicar essas leis. Mas a justiça humana é sempre muito limitada e é preciso, muitas vezes, uma longa paciência para que ela seja, ao menos um pouco, aplicada! Com Deus, as coisas não são assim. Deus não é um juiz mais perfeito que os juízes terrestres, a justiça de Deus não é um decalque eterno da justiça humana. Jesus veio revelar-nos que Deus é Amor. Desde então, Deus é justo quando a sua ação é "ajustada" ao seu ser, é justo quando ama. O mais alto degrau da justiça é perdoar e fazer misericórdia, porque aí se manifesta em plena luz a verdadeira natureza de Deus, o seu amor totalmente gratuito. É precisamente isso que pedem os "eleitos", aqueles que compreenderam qual é a justiça de Deus: Ó Deus, dá-me o teu amor, o teu Espírito Santo, para que Ele ajuste o meu coração e toda a minha vida ao teu amor. Perdoa os meus pecados". Esta oração, Deus atende-a sem tardar, como fez ao bom ladrão: "Hoje, estarás comigo no Paraíso". Esta oração, posso e devo fazê-la todos os dias, sem me cansar, sem me desencorajar, porque é todos os dias que preciso de ser ajustado ao amor de Deus.

    5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

    Pode-se escolher a Oração Eucarística IV, que recorda toda a história da salvação e está em harmonia com a perseverança pedida ao homem; é toda a Aliança…

    6. PALAVRA PARA O CAMINHO DA VIDA…

    Levar a Palavra de Deus como luz para mais uma semana de trabalho, de estudo… Ao longo dos dias da semana que se segue, procurar rezar e meditar algumas frases da Palavra de Deus: "o Senhor é quem te guarda… o Senhor vela pela tua vida…"; "proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina"; "…necessidade de orar sempre sem desanimar…". Procurar transformá-las em atitudes e em gestos de verdadeiro encontro com Deus e com os próximos que formos encontrando nos caminhos percorridos da vida.

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