Liturgia Dominical
27º Domingo do Tempo Comum
Tema do 27º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 27º Domingo do Tempo Comum
utiliza a imagem da "vinha de Deus" para falar desse Povo que aceita o desafio
do amor de Deus e que se coloca ao serviço de Deus. Desse Povo, Deus exige
frutos de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia.
Na primeira leitura, o profeta Isaías dá conta do amor e da solicitude de Deus
pela sua "vinha". Esse amor e essa solicitude não podem, no entanto, ter como
contrapartida frutos de egoísmo e de injustiça… O Povo de Jahwéh tem de
deixar-se transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos bons
que Deus aprecia – a justiça, o direito, o respeito pelos mandamentos, a
fidelidade à Aliança.
No Evangelho, Jesus retoma a imagem da "vinha". Critica fortemente os líderes
judaicos que se apropriaram em benefício próprio da "vinha de Deus" e que se
recusaram sempre a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus
anuncia que a "vinha" vai ser-lhes retirada e vai ser confiada a trabalhadores
que produzam e que entreguem a Deus os frutos que Ele espera.
Na segunda leitura, Paulo exorta os cristãos da cidade grega de Filipos – e
todos os que fazem parte da "vinha de Deus" – a viverem na alegria e na
serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os
frutos que Deus espera da sua "vinha".
LEITURA I – Is 5,1-7

Leitura do Livro de Isaías
Vou cantar, em nome do meu amigo,
um cântico de amor à sua vinha.
O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina.
Lavrou-a e limpou-a das pedras,
plantou-a de cepas escolhidas.
No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar.
Esperava que viesse a dar uvas,
Mas ela só produziu agraços.
E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá,
sede juízes entre mim e a minha vinha:
Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?
Quando eu esperava que viesse a dar uvas,
porque é que apenas produziu agraços?
Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha:
vou tirar-lhe a vedação e será devastada;
vou demolir-lhe o muro e será espezinhada.
Farei dela um terreno deserto:
não voltará a ser podada nem cavada,
e nela crescerão silvas e espinheiros;
e hei-de mandar às nuvens
que sobre ela não deixem cair chuva.
A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel,
e os homens de Judá são a plantação escolhida.
Ele esperava rectidão e só há sangue derramado;
esperava justiça e só há gritos de horror.
AMBIENTE
Isaías, filho de Amós, exerceu o seu
ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade
do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por
Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão
até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo
relativamente longo e abrange vários reinados.
Isaías – como os outros profetas – não fala de realidades abstractas e
intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a
realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens
do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na
época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado
por Deus a pronunciar-se.
A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam
(740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se
mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das
super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.
No entanto, o olhar crítico do profeta detecta uma realidade distinta.
Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e
arbitrariedades… Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se
corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas
legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os
súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num
desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.
Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de
piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo
esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma
verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e
de "comprar" Deus.
Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa
prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a "vinha" cuidada por
Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor)
pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro.
O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.
O "cântico da vinha" poderia ser, inicialmente, um "cântico de vindima" ou um
"cântico de trabalho", que um poeta popular entoa diante do seu círculo de
amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as
formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um
duplo sentido e passam a evocar outra realidade.
Na cultura judaica, a "vinha" é um símbolo do amor (cf. Cant 1,6.14; 2,15;
8,12). O "cântico da vinha" passa então a ser, na boca do poeta popular, uma
"cantiga de amor", que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar
a sua amada.
Isaías vai utilizar esta "cantiga de amor" como recurso para transmitir a
mensagem que Deus lhe confiou.
MENSAGEM
A canção que o profeta canta é bonita e o
tema é sugestivo. O profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo,
alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de
trabalho. Os interlocutores do profeta/poeta estão atentos e fascinados e
escutam com prazer a descrição das quase patéticas tentativas do poeta para
conquistar a sua amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua
vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem
perante as alusões ao "lagar" (o lugar onde será feito o vinho do amor) e à
torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua "vinha" e colha
os frutos do seu amor). Aprovam quando ele, depois de tantos cuidados, fica à
espera dos "frutos saborosos" do amor que cultivou. Ficam revoltados quando,
depois de todo o empenho do amado, a "vinha" só lhe ofereceu frutos azedos. O
auditório s
impatiza com o poeta, identifica-se com ele, partilha a sua desilusão…
De repente, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela
directamente os seus interlocutores e exige deles um veredicto. Tem o público
na mão: todos concordam que o profeta/poeta tem razão e que tem todo o direito
em tirar a vedação que protegia a vinha, em não voltar a cuidar dela, em dar
ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva…
Quando o seu público já pronunciou mentalmente um veredicto favorável ao
profeta/poeta, este lança-lhe à cara a acusação que vinha preparando: "a vinha
do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação
escolhida. Ele esperava rectidão e só há sangue derramado; esperava justiça e
só há gritos de horror" (vers. 7).
A imagem da "vinha" aplicada ao Povo de Deus encontra-se frequentemente na
Bíblia (cf. Is 3,14; 27,2-5; Jer 2,21; 12,10; Ez 17,6; Os 10,1; Sal 80,9-17).
Os profetas e catequistas de Israel viram na imagem da "vinha" um símbolo
privilegiado para expressar essa história de amor que Deus quis escrever com o
seu Povo, isto é, a Aliança.
Nesta "parábola", Deus é o "vinhateiro" e Israel é a "vinha". Foi Deus quem
trouxe de longe (do Egipto) essas videiras escolhidas, que as plantou numa
terra fértil (a terra de Canaan), que removeu dessa terra as pedras (os outros
povos que aí habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da "vinha", que
cuidou e, sobretudo, que amou a sua "vinha".
Como é que Israel respondeu aos esforços de Deus? Que frutos produziu a "vinha"
de Jahwéh? O profeta/poeta responde: Deus esperava que Israel vivesse no
direito e na justiça ("mishpat" e "zedaqa") cumprindo fielmente as exigências
da Aliança; esperava uma vida de coerência com os mandamentos; esperava que
Israel respeitasse os direitos dos mais débeis… Na realidade, o Povo actua em
sentido exactamente contrário àquilo que Deus esperava: os poderosos cometem
injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao
pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os
órfãos e as viúvas vêem espezinhados os seus direitos sem que ninguém os
defenda.
Na verdade, sugere o profeta, Deus não pode pactuar com este esquema e
prepara-Se para abandonar essa "vinha" ingrata, essa amada infiel.
Atente-se nesta "lição" fundamental: o amor de Deus pretende criar no coração
do seu Povo uma dinâmica que leve ao amor ao irmão. Deus ama-nos, para que nos
deixemos transformar pelo amor e amemos os outros.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes dados:
• A "parábola da vinha" é uma história de amor. Fala-nos do amor de um Deus que liberta o seu Povo da escravidão, que o conduz para a liberdade, que estabelece com ele laços de família, que lhe oferece indicações seguras para caminhar em direcção à justiça, à harmonia, à felicidade, que o protege nos caminhos da história… É preciso termos consciência de que esta história de amor não terminou e que o mesmo Deus continua a derramar sobre nós, todos os dias, o seu amor, a sua bondade, a sua misericórdia. Tenho consciência desse facto? Tenho o coração aberto aos seus dons? Encontro tempo e disponibilidade para Lhe agradecer e para O louvar?
• O encontro com o amor de Deus tem de significar uma efectiva transformação do nosso coração e tem de nos levar ao amor ao irmão. Quem trata os irmãos com arrogância, quem assume atitudes duras, agressivas e intolerantes, quem pratica a injustiça e espezinha os direitos dos mais débeis, quem é insensível aos dramas dos irmãos, certamente ainda não fez a experiência do amor de Deus. Às vezes encontramos nas nossas comunidades cristãs ou religiosas pessoas muito válidas do ponto de vista da organização e da animação, que se consideram a si próprias colunas da comunidade, que têm uma fé inabalável, mas que são insensíveis, amargas, agressivas, intolerantes… Será possível ser sinal de Deus e testemunhar o Deus que ama os homens, sem nos deixarmos conduzir pela tolerância, pela misericórdia, pela bondade, pela compreensão?
• O nosso texto identifica os "frutos bons" que Deus espera da sua "vinha" com o direito e a justiça e afirma que Deus não tolera uma "vinha" que produza "sangue derramado" e "gritos de horror". Nos nossos dias, o "sangue derramado" das vítimas da violência, do terrorismo, das guerras religiosas, dos sistemas que geram morte e sofrimento continua a tingir a nossa história; os "gritos de horror" de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, marginalizados, excluídos, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, na Ásia, na África, nas Américas… Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos condenados à morte? O que podemos fazer para que a "vinha" de Deus produza outros frutos?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.
Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.
Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.
Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.
Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.
LEITURA II – Filip 4,6-9

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
Irmãos:
Não vos inquieteis com coisa alguma.
Mas, em todas as circunstâncias,
apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
com orações, súplicas e acções de graças.
E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência,
guardará os vossos corações
e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
Quanto ao resto, irmãos,
tudo o que é verdadeiro e nobre,
tudo o que é justo e puro,
tudo o que é amável e de boa reputação,
tudo o que é virtude e digno de louvor
é o que deveis ter no pensamento.
O que aprendestes, recebestes, ouvi-
stes e vistes em mim
é o que deveis praticar.
E o Deus da paz estará convosco.
AMBIENTE
Continuamos a ler a carta enviada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Quando escreve aos seus amigos filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva. Entretanto, recebeu ajuda dos filipenses (uma soma em dinheiro e a visita de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado pelos filipenses de cuidar de Paulo e de prover às suas necessidades) e está sensibilizado pela bondade e pela preocupação que os filipenses manifestam para com a sua pessoa.
A Carta aos Filipenses é, sobretudo, uma carta dirigida a amigos muito queridos, na qual Paulo manifesta o seu apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Enviando de volta Epafrodito – que estivera gravemente doente – Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho.
MENSAGEM
Os primeiros dois versículos do nosso texto (vers. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vers. 4-7). Esta "alegria" não tem nada a ver com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a "alegria" que resulta de uma vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe o acesso próximo ("o Senhor está próximo") à vida definitiva. Daí resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (vers. 6a). Ao crente resta cultivar a comunhão com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida "com orações, súplicas e acções de graças" (vers. 6b).
Depois (vers. 8), Paulo recomenda aos filipenses um conjunto de seis "qualidades" que eles devem cultivar e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é "virtude", tudo isto é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a "magna carta do humanismo cristão". Estes valores não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que constam também do ideal pagão (eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.
Finalmente, Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que receberam do próprio Paulo (vers. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar na reflexão e actualização, as seguintes linhas:
• As palavras de Paulo aos filipenses definem alguns dos elementos concretos que devem marcar a caminhada do Povo de Deus. Em primeiro lugar, Paulo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão "enxertados" em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida definitiva. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os cristãos não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Porque é que, tantas vezes, saímos das nossas celebrações eucarísticas cabisbaixos, intranquilos, de semblantes tristonhos e ar irritado? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?
• Em segundo lugar, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que "os que vão à igreja são piores do que os outros". Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados "cristãos não praticantes" para justificar o facto de não irem à igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Quem contacta as recepções das nossas igrejas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência?
• A forma como Paulo propõe aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época, deve convidar-nos a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. Não podemos esconder-nos atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho…
ALELUIA – cf. Jo 15,16

Aleluia. Aleluia.
Eu Vos escolhi do mundo, para que vades e
deis fruto,
e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.
EVANGELHO – Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
'Respeitarão o meu filho'.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
'Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança'.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
'A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos'?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».
AMBIENTE
Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a
entrada triunfal de Jesus na cidade (cf. Mt 21,1-11). De hora para hora, cresce
a tensão entre Jesus e os seus adversários. Os líderes judaicos pressionam
Jesus, num esquema que apresenta foros de processo organizado. Adivinha-se, no
horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus
está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os
dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.
O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt
21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar
o projecto de salvação que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas,
Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a
reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de
arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos
desafios de Deus. O nosso texto é a segunda dessas três parábolas.
A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação
sócio-económica da Galileia do tempo de Jesus… A terra estava, quase sempre,
nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários
utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das
formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o
latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias
parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos
recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham
perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas.
Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os
gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao
latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a si e à sua
família. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta…
Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de
movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga
excessiva de impostos.
É neste cenário que Jesus vai colocar a parábola que hoje nos apresenta.
MENSAGEM
A parábola contada por Jesus coloca-nos
no mesmo ponto de partida da parábola da "vinha" de Is 5,1-7: um "senhor"
plantou uma "vinha", cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma
torre.
A partir daqui, no entanto, a parábola de Jesus afasta-se um pouco da parábola
de Isaías… Na versão de Jesus, o proprietário não explorou directamente a
"vinha", mas confiou-a a uns "vinhateiros" que deviam dar-lhe, cada ano, uma
determinada percentagem dos frutos produzidos. No entanto, quando os "servos"
do "senhor" apareceram para recolher a parte que pertencia ao seu amo, foram
maltratados e assassinados pelos "vinhateiros"; e o próprio filho do dono da
"vinha", enviado pelo pai para chamar os "vinhateiros" à responsabilidade e ao
respeito pelos compromissos, foi assassinado.
A "vinha" de que Jesus aqui fala é Israel – o Povo de Deus. O dono da "vinha" é
Deus. Os "vinhateiros" são os líderes religiosos judaicos – os encarregados de
trabalhar a "vinha" e de fazer com que ela produzisse frutos. Os "servos"
enviados pelo "senhor" são, evidentemente, os profetas que os líderes da nação,
tantas vezes, perseguiram, apedrejaram e mataram. O "filho" morto "fora da
vinha" é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém.
É um quadro de uma gravidade extrema. Os "vinhateiros" não só não entregaram ao
"senhor" os frutos que lhe deviam, mas fecharam todos os caminhos de diálogo e
recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o "senhor":
maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo "senhor" e assassinaram-lhe o
filho.
Diante deste quadro, Jesus interpela directamente os seus ouvintes: "quando
vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?"
A comunidade cristã primitiva encontrou facilmente resposta para esta questão.
Na perspectiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa
de Israel foi dada em dois movimentos. Em primeiro lugar, Deus ressuscitou o
"filho" que os "vinhateiros" mataram, glorificou-o e constituiu-o "pedra
angular" de uma nova construção; em segundo lugar, Deus decidiu retirar a
"vinha" das mãos desses "vinhateiros" maus e ingratos e confiá-la a outros
"vinhateiros" – a um povo que fizesse a "vinha" produzir bons frutos e que
entregasse ao "senhor" os frutos a que ele tem direito.
Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado,
exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – quanto a questão da
entrega da "vinha" a um outro povo. Ao sublinhar este aspecto, Mateus tem em
vista uma dupla finalidade…
Em primeiro lugar, ele explica dessa forma porque é que, na maioria das
comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da "vinha" de Deus
– eram uma minoria: eles recusaram-se a oferecer frutos bons ao "senhor" da
"vinha" e recusaram sempre as tentativas do "senhor" no sentido de uma
aproximação e de um compromisso. Logicamente, o "senhor" escolheu outros
"vinhateiros". O que é decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos
trabalhadores da "vinha" sejam judeus ou não judeus; o que é decisivo é que
eles estejam dispostos a oferecer ao "senhor" os frutos que lhe são devidos e a
acolher o "filho" que o "senhor" enviou ao seu encontro.
Em segundo lugar, Mateus exorta a sua comunidade a produzir frutos verdadeiros
que agradem ao "senhor" da "vinha". Estamos no final do séc. I (década de 80);
passou já o entusiasmo inicial e os crentes da comunidade de Mateus
instalaram-se num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido,
instalado. O catequista Mateus aproveita a oportunidade para exortar os irmãos
da comunidade a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a
que dêem frutos próprios do Reino, a que vivam com radicalidade as propostas de
Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:
• O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua "vinha", temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha… O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de "deixa andar", mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?
• O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma "tradição familiar" cristã? É o ter entrado, por um acto formal (Baptismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados actos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o "produzir frutos" de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?
• A parábola fala de trabalhadores da "vinha" de Deus que rejeitam o "filho" de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um acto de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l'O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?
• As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na "vinha" do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 27º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 27º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
Seria bom rezar hoje a Oração Eucarística IV, que traça a história da salvação
e concorda com os textos deste domingo (evocação do amor de Deus pelo seu povo,
do Antigo Testamento à Igreja).
3. PALAVRA DE VIDA.
Não podemos criticar o proprietário da vinha, posto em cena por Jesus numa
parábola, por ter negligenciado a sua vinha: ele trata da vinha com todos os
cuidados… Não podemos criticar a sua paciência e a sua perseverança para com os
vinhateiros: ele envia os seus servidores que são lapidados, envia outros que
têm o mesmo destino e, enfim, envia o seu próprio filho, pensando que ele seria
respeitado. Evidentemente, pensamos em Deus que toma cuidado do seu Reino e que
envia até o seu próprio Filho. E nós, de que lado nos situamos? Jesus foi-nos
enviado… Que fizemos do seu mandamento de amor? Foram-nos enviados mensageiros…
Escutámo-los? O Reino de Deus não é devido, é-nos confiado. Esperando que não
nos seja retirado…
4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
Uma oferenda dos frutos da terra. Hoje, ou num dos domingos de Outubro, pode
desenrolar-se durante a celebração uma oferenda dos frutos da terra: frutos,
legumes, flores… No final da celebração, pode-se partilhar os dons oferecidos.
5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Escolher um "fruto". Ao deixarmos a celebração, podemos escolher um "fruto"
possível para produzir nesta semana: um gesto ou uma palavra de reconciliação
em relação a alguém; uma partilha com um vizinho necessitado; ou uma iniciativa
que pareça ainda mais gratuita e que traga alegria. Para os mais empenhados na
vida espiritual: em cada dia, produzir um fruto de amor!
26º Domingo do Tempo Comum
Tema do 26º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum deixa claro que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer "sim" a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus – um compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo novo, de justiça, de fraternidade, de paz.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e consequente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente deve tomar consciência das consequências do seu compromisso com Deus e viver, com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.
O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do crente com Deus… O "sim" que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que "dá boa impressão", que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade de Deus.
A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projectos.
LEITURA I – Ez 18,25-28

Leitura da Profecia de Ezequiel
Eis o que diz o Senhor:
«Vós dizeis: 'A maneira de proceder do Senhor não é justa'.
Escutai, casa de Israel:
Será a minha maneira de proceder que não é justa?
Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto?
Quando o justo se afastar da justiça,
praticar o mal o vier a morrer,
morrerá por causa do mal cometido.
Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado,
praticar o direito e a justiça,
salvará a sua vida.
Se abris os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido,
há-de viver e não morrerá».
AMBIENTE
Ezequiel, o "profeta da esperança", exerceu o seu ministério na Babilónia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilónia.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.
A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.
Até esta altura, Israel reflectia a sua relação com Deus em termos colectivos e não em termos individuais. A catequese de Israel considerava que a Aliança tinha sido feita, não com cada israelita individualmente, mas com toda a comunidade. Assim, as infidelidades de uns (inclusive dos antepassados) traziam sofrimento e morte a toda a comunidade; e a fidelidade de outros (inclusive dos antepassados) era fonte de vida e de bênção para todos.
Os exilados liam à luz desta perspectiva teológica o drama que tinha caído sobre eles. Consideravam que eram justos e bons, que não tinham pecado e que estavam ali a expiar os pecados de toda a nação. Havia até um refrão muito repetido por esta altura: "os pais comeram as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados" (Ez 18,2b). Parece ser uma reprovação velada à acção de Deus que, na perspectiva da teologia da época, fez dos exilados o bode expiatório de todas as infidelidades da nação. É justo, isto? Está certo que os justos paguem pelos pecadores?
É a estas questões que o profeta Ezequiel vai tentar responder.
MENSAGEM
Na verdade, os membros do Povo de Deus que estão exilados na Babilónia não podem "sacudir a água do capote" e presumir de justos e inocentes: não há justos e inocentes neste processo, uma vez que todos, sem excepção, são responsáveis por atitudes de infidelidade a Jahwéh e de desrespeito pelos seus mandamentos. Fará algum sentido que os exilados acusem Jahwéh de ser injusto, depois de terem violado sistematicamente a aliança e terem cometido tantos pecados e infidelidades (vers. 25)?
Para além disso, Israel não pode continuar a esconder-se atrás de uma responsabilidade colectiva, que implica todos, mas não responsabiliza ninguém. Chegou a altura de cada membro do Povo de Deus se sentir pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas acções e pelos compromissos assumidos no âmbito da Aliança. Cada membro do Povo de Deus tem de descobrir que, quando fizer escolhas erradas e se obstinar nelas, sofrerá as consequências; e que quando abandonar os caminhos de egoísmo e de pecado e optar por Deus e pelos seus valores, encontrará a vida (vers. 26-28).
Significa isto que o pecado de um membro da comunidade não afecta os outros irmãos, membros da mesma comunidade? É claro que afecta. O pecado introduz sempre elementos de desequilíbrio, de desarmonia, de egoísmo, de ruptura, que atingem todos aqueles que caminham connosco… Mas o que Ezequiel aqui pretende sublinhar é que cada homem ou mulher tem de sentir-se pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas opções e pelos seus actos.
Esta superação da mentalidade co
lectiva, dando lugar à responsabilidade individual, é um dos grandes progressos na história teológica de Israel. Doravante, o Povo aprenderá a reagir em termos individuais e não em termos de massa. Está aberto o caminho para uma Nova Aliança: uma Aliança que não é feita genericamente com uma comunidade, mas uma Aliança pessoal e interior, feita com cada crente.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:
• Antes de mais, a leitura convida-nos a tomar consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. No nosso tempo – no tempo da cultura do plástico, do "light", do efémero – há alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: "o que é verdade hoje, é mentira amanhã"). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com Deus no dia do meu Baptismo e que ao longo da vida, nas mais diversas circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja ou de cumprir a tradição e baptizar os filhos?
• O profeta Ezequiel convida-nos também a assumir, com verdade e coerência, a nossa responsabilidade pelos nossos gestos de egoísmo e de auto-suficiência em relação a Deus e em relação aos irmãos. Entre nós, no entanto, muitas vezes "a culpa morre solteira". Há homens e mulheres que não têm o mínimo para viver dignamente? A culpa é da conjuntura económica internacional… Há situações de violência extrema e de injustiça? A culpa é do governo que não legisla nem coloca suficientes polícias nas ruas… A minha comunidade cristã está dividida, estagnada e não testemunha suficientemente o amor de Jesus? A culpa é do Papa, ou do bispo, ou do padre… E a minha culpa? Eu não terei, muitas vezes, a minha quota-parte de responsabilidades em tantas situações negativas com que, dia a dia, convivo pacificamente? Eu não precisarei de me "converter"?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)

Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.
Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador:
em vós espero sempre.
Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Não recordeis as minhas faltas
e os pecados da minha juventude.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.
O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.
LEITURA II – Filip 2,1-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
Irmãos:
Se há em Cristo alguma consolação,
algum conforto na caridade,
se existe alguma consolação nos dons do Espírito Santo,
alguns sentimentos de ternura e misericórdia,
então, completai a minha alegria,
tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade,
numa só alma e num só coração.
Não façais nada por rivalidade nem por vanglória;
mas, com humildade,
considerai os outros superiores a vós mesmos,
sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
mas aos interesses dos outros.
Tende em vós os mesmos sentimentos
que havia em Cristo Jesus.
Ele, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte, e morte de cruz.
Por isso, Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem,
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.
AMBIENTE
Filipos, cidade situada no norte da Grécia, era uma cidade habitada maioritariamente por veteranos romanos do exército. Estava organizada à maneira de Roma e era uma espécie de Roma em miniatura. Os seus habitantes gozavam dos mesmos privilégios dos habitantes das cidades de Itália.
A comunidade cristã de Filipos foi fundada por Paulo no verão de 49, no decurso da sua segunda viagem missionária. Numa das estadias de Paulo na prisão (em Éfeso?), a comunidade enviou um dos seus membros para o ajudar e uma generosa quantia em dinheiro para prover às necessidades do apóstolo.
Apesar de ser uma comunidade viva, piedosa e generosa, a comunidade cristã de Filipos não era uma comunidade perfeita. O desprendimento, a humildade, a simplicidade, não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios romanos que compunham a comunidade.
É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Trata-se de um texto que, em termos literários, apresenta duas partes. A primeira (vers. 1-5), em prosa, contém recomendações concretas de Paulo aos Filipenses acerca dos valores que devem cultivar. A segunda (vers. 6-11), em poesia, apresenta aos Filipenses o exemplo de Cristo (trata-se, provavelmente, de um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs e que Paulo integrou no texto da carta).
MENSAGEM
Na primeira parte (vers. 1-5), Paulo, em tom solene, pede aos altivos romanos que constituem a comunidade de Filipos que não se deixem dominar pelo orgulho, pela auto-suficiência, pela vaidade, pela ambição, que só provocam egoísmo e divisão. Recomenda-lhes que vivam unidos, que se amem e que sejam solidários, pois foi isso que Cristo, não só com palavras, mas com a própria vida, ensinou aos seus discípulos.
Na segunda parte (vers. 6-11), Paulo vai referir-se, com mais pormenor, ao exemplo de Cristo. Para apresentar esse exemplo, Paulo recorre, então, ao tal hino litúrgico, que celebrava a "Kenosis" ("despojamento") de Cristo e a sua exaltação.
Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como &
eacute; o exemplo de Cristo?
O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em traços precisos, o hino define o "despojamento" ("kenosis") de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse "abaixamento" assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d'Ele o "Kyrios" ("Senhor" – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira ("os céus, a terra e os infernos") reconhece Jesus como "o senhor" que reina sobre toda a terra e que preside à história.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena.
ACTUALIZAÇÃO
Para reflexão, podem considerar-se as seguintes indicações:
• Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
• Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?
ALELUIA – Jo 10,27
Aleluia. Aleluia.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor;
Eu conheço-as e elas seguem-Me.
ALELUIA – Jo 10,27

Aleluia. Aleluia.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor;
Eu conheço-as e elas seguem-Me.
EVANGELHO – Mt 21,28-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe:
'Filho, vai hoje trabalhar na vinha'.
Mas ele respondeu-lhe: 'Não quero'.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho
e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: 'Eu vou, Senhor'.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Os publicanos e as mulheres de má vida
irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós,
ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes,
não vos arrependestes, acreditando nele».
AMBIENTE
O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos em Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Pouco antes, Jesus entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (cf. Mt 21,1-11); no entanto, o entusiasmo inicial da cidade foi sendo substituído, aos poucos, por uma recusa categórica em acolher Jesus e o seu projecto.
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo – os líderes religiosos judaicos – aparecem como o motor da oposição a Jesus. Eles não estão dispostos a reconhecer Jesus como o Messias de Deus e a aceitar que Ele tenha um mandato de Deus para propor aos homens uma nova realidade – a realidade do Reino. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e da morte de Jesus.
No quadro que antecede o episódio que nos é hoje proposto – mas que está em relação directa com ele – os líderes judeus encontraram-se com Jesus no Templo; perguntaram-Lhe com que autoridade Ele agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus respondeu-lhes convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do baptismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de Deus, tinham medo da reacção da multidão (que considerava João um profeta); se admitissem que o baptismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes perguntasse porque não o aceitaram… Diante do silêncio embaraçado dos seus interlocutores, Jesus deu-lhes a entender que não tinha uma resposta para lhes dar, enquanto eles continuassem de coração fechado, na recusa obstinada da novidade de Deus (anunciada por João e proposta pelo próprio Jesus).
Na sequência, Jesus vai apresentar três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta do Reino. Com elas, Jesus convida os líderes da nação judaica a reflectir sobre a situação de "gueto" em que se instalaram e a reconhecerem o sem sentido das suas posições fixistas e conservadoras. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas.
MENSAGEM
A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes diversas diante dos desafios e das propostas de Deus.
O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar "na vinha". A sua primeira resposta foi negativa: "não quero". No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente reprovável, particularmente porque uma atitude deste tipo ia contra todas as convenções sociais… Enchia um pai de vergonha e punha em causa a sua autoridade diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha (vers. 28-29).
O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: "vou, sim, senhor". Deu ao pai uma respos
ta satisfatória, que não punha em causa a sua autoridade e a sua "honra". Ficou bem visto diante de todos e todos o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na vinha (vers. 30).
A questão posta, em seguida, por Jesus, é: "qual dos dois fez a vontade do pai?" A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer pejo em a dar: "o primeiro" (vers. 31).
A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, de acordo com a lógica de Deus, o importante é cumprir, realmente, a vontade do pai. Na perspectiva de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas intenções; mas é preciso uma resposta adequada e coerente aos desafios e às propostas do Pai (Deus).
É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do Povo, disseram "sim" a Deus ao aceitar a Lei de Moisés… A sua atitude – como a do filho que disse "sim" e depois não foi trabalhar para a vinha – foi irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles que, de acordo com o "política e religiosamente correcto" disseram "não" (por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas), cumpriram a vontade do Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino que Jesus veio apresentar (vers. 32).
Lida no contexto do ministério de Jesus, esta parábola dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os marginais – isto é, aqueles que, de acordo com as "convenções", disseram não a Deus. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o que cumpre ritos externos e que dá "boa impressão" às massas; mas é o que cumpre a vontade de Deus.
Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa do Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos. Israel seria esse "filho" que aceitou trabalhar na vinha mas, na realidade, não cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse "filho" que, aparentemente, esteve sempre à margem dos projectos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e aderiu ao Reino.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:
• Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar "na vinha" do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projecto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual – implicados na concretização desse projecto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?
• Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito "sim" a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?
• O que é que significa, exactamente, dizer "sim" a Deus? É ser baptizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um "sim" inicial a Deus; mas é preciso que esse "sim" inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na "vinha" do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão "de registo", que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão "de facto", que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?
• Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento "religiosamente correcto" ou que não cumprem estritamente as regras do "bom comportamento" cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar "na vinha". A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos "santos" príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: "os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus". Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os "vós"? Hoje, quem são os "publicanos e mulheres de má vida"?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 26º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
O rito penitencial poderá ser preparado com mais cuidado, para não ser vivido de maneira demasiado mecânica e rotineira. As intenções penitenciais podem ser ditas mais lentamente para melhor serem interiorizadas, os silêncios podem permitir a cada um entrar nesta atitude de conversão à qual nos chama o Senhor.
3. PALAVRA DE VIDA.
É sempre fácil fazer belas promessas e proferir belas declarações. O que conta são os actos. Quantas mães disseram ao seu filho de quando em vez: "Pára de me dizer que gostas de mim… Prova-me!". Muitas vezes exprimimos a Deus a nossa confiança através de uma bela profissão de fé, muitas vezes reafirmamos-Lhe o nosso amor através de belas orações, mas Ele espera que Lhe manifestemos esta confiança e este amor. Não basta dizer os actos de fé, de esperança e de caridade. É preciso pôr em acção a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade. Então, seremos verdadeiros praticantes, pondo em prática o que ouvimos e vivemos na missa.
4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
O Salmo Responsorial. No interior da liturgia da Palavra, o salmo não é uma peça mestra, pois ele exprime a mensagem da primeira leitura. Mas é muitas vezes um tempo de meditação e de oração, é o caso de hoje. Não basta contentar-se em ler o salmo, é preciso lê-lo bem. Salmodiar este texto não é difícil, o cântico favorece a interiorização. O solista deve preparar-se muito bem para cantar o salmo, cujo refrão é cantado pela assembleia. Se alguém souber tocar flauta, poderá acompanhar a melodia do solista ou tocar algumas notas depois do refrão, antes de cada estrofe.
5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Tomar parte numa acção caritativa… Procuremos tomar a nossa quota-parte numa acção caritativa da paróquia, no bairro ou na cidade, um serviço particular a prestar nesta semana… Não temos a tendência, muitas vezes, de deixar que as equipas "especializadas" façam e, quanto a nós, ficarmos apenas no dizer?
25º Domingo do Tempo Comum
Tema do 25º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir um Deus cujos caminhos e cujos pensamentos estão acima dos caminhos e dos pensamentos dos homens, quanto o céu está acima da terra. Sugere-nos, em consequência, a renúncia aos esquemas do mundo e a conversão aos esquemas de Deus.
A primeira leitura pede aos crentes que voltem para Deus. "Voltar para Deus" é um movimento que exige uma transformação radical do homem, de forma a que os seus pensamentos e acções reflictam a lógica, as perspectivas e os valores de Deus.
O Evangelho diz-nos que Deus chama à salvação todos os homens, sem considerar a antiguidade na fé, os créditos, as qualidades ou os comportamentos anteriormente assumidos. A Deus interessa apenas a forma como se acolhe o seu convite. Pede-nos uma transformação da nossa mentalidade, de forma a que a nossa relação com Deus não seja marcada pelo interesse, mas pelo amor e pela gratuidade.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de um cristão (Paulo) que abraçou, de forma exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos interesses pessoais e aos esquemas de egoísmo e de comodismo, e colocou no centro da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projecto.
LEITURA I – Is 55,6-9

Leitura do Livro de Isaías
Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
invocai-O, enquanto está perto.
Deixe o ímpio o seu caminho
e o homem perverso os seus pensamentos.
Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
ao nosso Deus, que é generoso em perdoar.
Porque os meus pensamentos não são os vossos,
nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –.
Tanto quanto o céu está acima da terra,
assim os meus caminhos estão acima dos vossos
e acima dos vossos estão os meus pensamentos.
AMBIENTE
O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, "Livro da Consolação".
Estes quatro versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do "Livro da Consolação". Aproxima-se a libertação e, para muitos exilados, está perto o momento do regresso à Terra Prometida. Depois de exortar os exilados a cumprir um novo êxodo e de lhes garantir que, em Judá, vão sentar-se à mesa do banquete que Jahwéh quer oferecer ao seu Povo (cf. Is 55,1-3), o profeta lança-lhes agora um outro repto…
O tempo do Exílio foi um tempo de angústia e de sofrimento, mas também um tempo de amadurecimento e de graça. Aí, Israel tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que o viver longe de Deus não conduz à vida e à felicidade; por outro lado, o tempo de Exílio ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e até do significado de ser Povo de Deus.
O Deutero-Isaías – neste momento em que se abrem novos horizontes – convida os seus concidadãos a percorrerem esse caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direcção à Terra Prometida; esse "caminho" não é uma simples deslocação geográfica mas é, sobretudo, um "caminho" espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra da escravidão e voltar à terra da liberdade deve significar, para Israel, uma redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade dinâmica aos mandamentos de Jahwéh.
MENSAGEM
O apelo do profeta é, portanto, a um recomeço. Nesses novos caminhos que as vicissitudes da história vão abrir aos exilados, é preciso que este Israel renovado pela experiência do Exílio continue a procurar o Senhor, a invocá-l'O, a cultivar laços de comunhão e de proximidade com Ele.
Fundamentalmente, Israel é convidado a converter-se ou, literalmente, a "voltar (em hebraico: 'shûb') para Deus". Essa "conversão" exige uma transformação radical do homem, quer em termos de mentalidade, quer em termos de comportamento ("deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos" – vers. 7).
A mentalidade, os valores, as atitudes dos "ímpio" e do "homem perverso", estão muito longe da mentalidade, dos valores e dos esquemas de Deus. A vida do "ímpio" e do "homem perverso" funciona numa lógica de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de violência, de exploração; os esquemas do "ímpio" geram sofrimento, infelicidade, morte… Deus funciona numa lógica de amor, de serviço, de partilha, de doação; os esquemas de Deus geram alegria, paz verdadeira, vida definitiva.
Ao Povo de Deus, pede-se que prescinda da lógica do "ímpio" e do "homem perverso", para abraçar a lógica de Deus; pede-se-lhe que não viva de olhos postos no chão, mas que olhe para o céu e contemple os horizontes de Deus; pede-se-lhe que seja capaz de confiar em Deus e de compreender o acerto dos seus caminhos. Só dessa forma o Povo poderá ser feliz nessa Terra a que vai regressar; só dessa forma Israel poderá continuar a ser fiel à sua missão de testemunhar Jahwéh no meio dos outros povos.
A conversão implica também (este aspecto está mais sugerido do que afirmado) uma mudança na forma de ver Deus. O homem tem sempre tendência a construir um deus à sua imagem, um deus previsível e domesticado que funcione de acordo com a lógica e a mentalidade do homem. No entanto, Deus não pode ser reduzido aos nossos esquemas humanos: os seus pensamentos não são os pensamentos do homem, as suas reacções não são as reacções do homem, os seus caminhos não são os caminhos do homem. "Converter-se" é, a este nível, aprender que Deus não é redutível às nossas lógicas e esquemas humanos; e é aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos… "Converter-se" é, a este nível, prescindir das nossas certezas, preconceitos e auto-suficiências, confiar em Deus e na bondade dos caminhos através dos quais ele conduz a história da salvação.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões:
• Antes de mais, o nosso texto apela à conversão. O "voltar para Deus" (como diz o Deutero-Isaías) significa, neste contexto, re-equacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem.
É inflectir o sentido da existência, de forma a que Deus (e não o dinheiro, o poder, o sucesso, os amigos, a família) ocupe sempre, na vida do homem, o primeiro lugar. A cultura pós-moderna prescindiu de Deus… Considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz… Na verdade, o que é que nos faz passar da terra da escravidão para a terra da liberdade: o amor, a partilha, o serviço, o dom da vida, ou o egoísmo, o orgulho, a arrogância, a auto-suficiência?
• No entanto, o homem só poderá converter-se a Deus e abraçar os seus esquemas e valores, se se mantiver em comunhão com Ele. É na escuta e na reflexão da Palavra de Deus, na oração frequente, na atitude de disponibilidade para acolher a vida de Deus, na entrega confiada nas mãos de Deus, que o crente descobrirá os valores de Deus e os assumirá. Aos poucos, a acção de Deus irá transformando a mentalidade desse crente, de forma a que ele viva e testemunhe Deus e as suas propostas para os homens.
• A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o crente terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro crente nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.
• Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não podemos construir e testemunhar diante dos outros homens um Deus à nossa imagem, que funcione de acordo com os nossos esquemas mentais e que assuma comportamentos parecidos com os nossos. Temos de descobrir, no diálogo pessoal com Ele, esse Deus que nos transcende infinitamente. Sem preconceitos, sem certezas absolutas, temos de mergulhar no infinito de Deus, e deixarmo-nos surpreender pela sua lógica, pela sua bondade, pelo seu amor.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.
Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.
O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.
LEITURA II – Filip 1,20c-24.27a
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Cristo será glorificado no meu corpo,
quer eu viva quer eu morra.
Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.
Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho,
não sei o que escolher.
Sinto-me constrangido por este dilema:
desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor;
mas é mais necessário para vós
que eu permaneça neste corpo mortal.
Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.
AMBIENTE
Filipos, cidade situada ao norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada por Paulo. Era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador. Gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.
A comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo no Verão do ano 49, era uma comunidade entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos "filhos" de Filipos um afecto especial.
No momento em que escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (um membro da comunidade), encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afectuosa, onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu amor. Nela, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O texto que nos é hoje proposto faz parte de uma perícopa (cf. Flp 1,12-26), na qual Paulo fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e esperanças. Paulo está consciente de que corre riscos de vida; mas está sereno, alegre e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho.
MENSAGEM
Quando escreve a carta aos Filipenses, Paulo continua preso. Não sabe se sairá da prisão vivo ou morto mas, para ele, isso não é importante; o que é importante é que Cristo seja engrandecido – seja através da vida, seja através da morte do apóstolo.
Para Paulo, Cristo é que é a autêntica vida. Ele é a razão de ser e de viver do apóstolo. Na perspectiva de Paulo, a morte seria bem vinda, não como libertação das dificuldades e das dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho directo para o encontro definitivo, imediato, sem intermediários, com Cristo. Paulo não se importaria nada de morrer a curto prazo, porque isso significaria a comunhão total com Cristo. Especialmente significativa, a este propósito, é a conhecida frase (que, aliás, está escrita no seu túmulo, em Roma): "para mim, viver é Cristo e morrer é lucro".
No entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que ele continue – para benefício das comunidades cristãs – algum tempo mais na terra, a dar testemunho do Evangelho de Cristo. Paulo aceita isso: por Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que contam, mas os interesses de Cristo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode ter em conta as seguintes questões:
• Um dos elementos que mais impressionam e questionam neste testemunho é a centralidade de Cristo na vida de Paulo. Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. Paulo aparece, neste aspecto, como o perfeito modelo do cristão: para os baptizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a "pedra angular" à volta da qual se constrói a existência cristã. Que significa Cris
to para mim? Ele é a referência fundamental à volta da qual tudo se articula, ou é apenas mais um entre muitos interesses a partir dos quais eu vou construindo a minha vida? Quando tenho de optar, para que lado cai a minha escolha: para o lado de Cristo, ou para o lado dos meus interesses pessoais?
• A mesma questão – a questão da centralidade de Cristo – pode colocar-se a propósito do testemunho que a Igreja oferece aos homens e ao mundo… É mais importante falar de Cristo e do seu Evangelho do que dos artigos do Código de Direito Canónico; é mais importante testemunhar Cristo e os seus valores do que discutir a estrutura hierárquica da Igreja; é mais importante anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de organização e de disciplina… Cristo está, verdadeiramente, no centro desse anúncio que somos convidados a fazer aos homens do nosso tempo?
• Neste texto, impressiona também a liberdade total de Paulo face à morte. Essa liberdade resulta do facto de a fé que anima o apóstolo lhe permitir encarar a morte, não como o mais terrível e assustador de todos os males, mas como a possibilidade do encontro definitivo e pleno com Cristo. Dessa forma, Paulo pode entregar-se tranquilamente ao exercício do seu ministério, sem deixar que o medo trave o seu empenho e o seu testemunho. Também aqui a atitude de Paulo interpela e questiona os crentes… Para um cristão, a morte é o momento da realização plena, do encontro com a vida definitiva. Não é um drama sem sentido, sem remédio e sem esperança. Para um cristão, não faz sentido que o medo da perseguição ou da morte impeça o compromisso com os valores de Deus e com o compromisso profético diante do mundo.
ALELUIA – cf. Actos 16,14b

Aleluia. Aleluia.
Abri, Senhor, os nossos corações,
para aceitarmos a palavra do vosso Filho.
EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
'Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo'.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
'Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?'
Eles responderam-lhe: 'Ninguém nos contratou'.
Ele disse-lhes: 'Ide vós também para a minha vinha'.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros'.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
'Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor'.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
'Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?'
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».
AMBIENTE
No texto que nos é proposto, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a testemunhem. Trata-se de mais uma "parábola do Reino".
O quadro que a parábola nos apresenta reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada "patrão" tinha os seus "clientes" – isto é, homens em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, esses trabalhadores "de confiança" recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, nomeadamente, que esses "clientes" fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar uma "jorna" completa (um "denário", que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado).
MENSAGEM
A parábola refere-se, portanto, a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus "clientes" para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. O volume de tarefas a realizar na vinha fez com que este patrão voltasse a sair a meio da manhã, ao meio-dia, às três da tarde e ao cair da tarde e que trouxesse, de cada vez, novas levas de trabalhadores. O trabalho decorreu sem incidentes, até ao final do dia.
Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos – quer os que só tinham trabalhado uma hora, quer os que tinham trabalhado todo o dia – receberam a mesma paga: um denário. Contudo, os trabalhadores da primeira hora (os "clientes" habituais do dono da vinha) manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento "de favor".
A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim? Isso em nada deveria afectar os outros…
Muito provavelmente, a parábola serviu primariamente a Jesus para responder às críticas dos adversários, que O acusavam de estar demasiado próximo dos pecadores (os trabalhadores da última hora). Através dela, Jesus mostra que o amor do Pai se derrama sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é decisiva a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é decisivo é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento "especial" por antiguidade; para Deus, todos os seus
filhos são iguais e merecem o seu amor.
A parábola serviu a Jesus, também, para denunciar a concepção que os teólogos de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um "patrão" que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. Segundo esta perspectiva, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo. O "deus" dos fariseus é uma espécie de comerciante, que todos os dias aponta no seu livro de registos as dívidas e os créditos do homem, que um dia faz as contas finais, vê o saldo e dá a recompensa ou aplica o castigo.
Para Jesus, no entanto, Deus não é um contabilista, sempre de lápis na mão a fazer as contas dos homens para lhes pagar conforme os seus merecimentos; mas é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.
A parábola foi, depois, proposta por Mateus à sua comunidade (provavelmente a comunidade cristã de Antioquia da Síria) para iluminar a situação concreta que a comunidade estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindos mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos, sem qualquer excepção. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira hora ou da última hora, todos são filhos amados do mesmo Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento… O dom de Deus destina-se a todos, por igual.
Conclusão: A parábola convida-nos a perceber que o nosso Deus é o Deus que oferece gratuitamente a salvação a todos os seus filhos, independentemente da sua antiguidade, créditos, qualidades, ou comportamentos. Os membros da comunidade do Reino não devem, por isso, fazer o bem em vista de uma determinada recompensa, mas para encontrarem a felicidade, a vida verdadeira e eterna.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar as seguintes linhas:
• Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem excepção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.
• Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque "estou aqui há mais tempo do que os outros", ou porque "tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros"? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.
• O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um "negociante", que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus ("se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo"; "se tu me deres isto, pago-te com aquilo")?
• Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a "sorte" na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.
• Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos "serviços" prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. A VINHA.
Neste domingo (e nos dois próximos) temos a imagem da vinha. Embora a comparação só apareça plenamente no 27º domingo (em que a vinha significa o povo de Israel), pode ser interessante, a partir deste domingo: pôr em evidência uma cepa, quer na entrada da igreja, quer dentro da igreja (é o mês da vindima em muitas regiões); solenizar a procissão das oferendas pedindo a um jovem para levar ao altar um belo cacho de uvas…
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te louvamos, Deus nosso Pai, porque Te deixas encontrar por aqueles que Te procuram e tens piedade daqueles que vêm até Ti. Tu estás próximo de nós, és rico em perdão e misericórdia e os teus pensamentos são tão elevados acima dos nossos.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos guie, que Ele nos livre dos caminhos do mal, que Ele eleve e inspire os nossos pensamentos.
No final da segunda leitura:
Senhor Jesus Cristo, nós Te bendizemos e com o apóstolo Paulo confessamos: a nossa vida, a nossa alegria e a nossa felicidade, és Tu.
Nós Te pedimos por nós mesmos e por todas as nossas comunidades cristãs: penetra-nos com o teu Espírito, para que levemos uma vida digna do teu Evangelho e que a tua grandeza seja manifestada nas nossas vidas.
No final do Evangelho:
Deus da Aliança antiga e nova, não cessas de chamar os homens a mudar de mentalidade. Hoje, Jesus recorda-nos isso uma vez mais na parábola da última hora.
Abre os nossos olhos, as nossas mãos e os nossos corações, Senhor de infinita ternura. No respeito leal pela justiça dos homens, ensina-nos, pelo teu Espírito, a dar provas de generosidade.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II, que nos recorda que fomos "escolhidos para servir" (2ª leitura).
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
"Ide também vós para a minha Vinha!" Pobreza na nossa Igreja. Falta de vocações… Assembleias dominicais "raquíticas"… Cada vez menos crianças na catequese… Críticas… Lamentações… Decepções… "Ide também vós para a minha Vinha!" Compreendemos bem que Jesus não faz selecção e que Se dirige a todos sem excepção. Cabe-nos a nós aceitar ser "contratados". Há trabalho para todos? Vamos para a sua Vinha?
24º Domingo do Tempo Comum
Tema do 24º Domingo do Tempo Comum
A Palavra de Deus que a liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.
O Evangelho fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama
sobre os seus filhos – de forma total, ilimitada e absoluta – o seu perdão. Os
crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma
lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua
relação com os irmãos.
A primeira leitura deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que
não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar
o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida
nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e
sofrimento.
Na segunda leitura Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã
tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das
diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que
têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há
algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto
não tem grande importância.
LEITURA I – Sir 27,33-28,9

Leitura do Livro de Ben-Sirá
O rancor e a
ira são coisas detestáveis,
e o pecador é mestre nelas.
Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor,
que pedirá minuciosa conta de seus pecados.
Perdoa a ofensa do teu próximo
e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas.
Um homem guarda rancor contra outro
e pede a Deus que o cure?
Não tem compaixão do seu semelhante
e pede perdão para os seus próprios pecados?
Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor,
quem lhe alcançará o perdão das suas faltas?
Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio;
pensa na corrupção e na morte,
e guarda os mandamentos.
Recorda os mandamentos
e não tenhas rancor ao próximo;
pensa na Aliança do Altíssimo
e não repares nas ofensas que te fazem.
AMBIENTE
O livro de Ben
Sira (também chamado "Eclesiástico"), de onde foi extraída a primeira leitura
deste domingo, é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais,
pretende apresentar uma reflexão de carácter prático sobre a arte de bem viver
e de ser feliz.
Estamos no início do séc. II a.C., numa época em que o helenismo tinha começado
o seu trabalho pernicioso, no sentido de minar a cultura e os valores
tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor deste livro, está preocupado
com a degradação dos valores tradicionais do seu Povo e as cedências que,
sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega. A "fé dos pais" corre
riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua identidade.
Jesus Ben Sira procura, então, apresentar uma síntese da religião tradicional e
da sabedoria de Israel, sublinhando a grandeza dos valores judaicos e
demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura
grega. Por essa razão, escreveu este compêndio de "sabedoria". Nele, tenta
demonstrar aos seus compatriotas que Israel possuía na "Torah", revelada por
Deus, a verdadeira "sabedoria" – uma "sabedoria" muito superior à "sabedoria"
grega.
O texto que a liturgia de hoje nos propõe integra uma secção (cf. Sir
24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura demonstrar que a "sabedoria" – criatura
de Deus, oferecida a todos os homens piedosos (cf. Sir 1,1-23,38) – tem um
campo especial de acção em Israel, o Povo eleito de Deus. Esta secção não tem
uma estrutura clara e coerente: os temas vão-se sucedendo, aparentemente sem
uma ordem lógica. Dominam, aí, as "máximas" destinadas a ensinar os
comportamentos que se devem assumir nas relações sociais.
Uma nota de carácter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões
recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no
entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9 – que é a apresentada no
"Leccionário Dominical". Esta discrepância resulta do facto de o texto
apresentado pelo "Leccionário" seguir uma versão latina, mais longa do que a
versão grega que serve de base às traduções mais recentes do Livro de Ben Sira.
MENSAGEM
Jesus Ben Sira
ensina que a verdadeira "sabedoria" está em não se deixar dominar pelo rancor,
pela ira e pelos sentimentos de vingança. O "sábio" (isto é, aquele que quer
ter êxito e ser feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter
compaixão pelo seu semelhante.
Particularmente interessante é a relação estabelecida aqui entre o perdão
humano e o perdão divino: quem se recusa a perdoar ao irmão, como poderá ter a
coragem de pedir o perdão de Deus? Mas quem perdoa as ofensas dos outros,
poderá pedir e esperar o perdão do Senhor para as suas próprias falhas. Ao
menos dois séculos antes de Cristo o judaísmo já tinha descoberto que existe
uma relação entre o perdão que Deus nos oferece e o perdão que ele nos convida
a oferecer aos irmãos.
Para tornar mais sugestivo e impressionante o seu apelo, Ben Sira convida os
seus concidadãos a lembrarem-se da morte: "pensa no teu fim e deixa de ter
ódio"… Diante da realidade final que nos espera, que sentido é que fazem os
sentimentos de rancor, de ira, de vingança que alimentamos nesta terra? E
podemos, com coerência, esperar o perdão final de Deus, se a nossa vida foi
vivida numa lógica de ódio e de vingança?
Fundamentalmente, temos aqui um apelo a invertermos a lógica do "olho por olho,
dente por dente", de forma a que as nossas relações com os irmãos sejam
marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia. É dessa forma que o homem
construirá a sua felicidade nesta terra; e é assumindo está lógica que o homem
poderá pedir e esperar de Deus o perdão para as suas falhas.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, as seguintes questões:
Todos os dias
vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a
lógica do "responder na mesma moeda". Para vingar ofensas reais ou imaginárias,
desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de
inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem
limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos
respeitar os nossos direitos e a nossa dignid
ade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e
de ódio?
Ben Sira estabelece uma relação clara entre o perdão de Deus e o perdão humano. É claro que não podemos dizer que Deus não nos perdoa se nós não conseguirmos perdoar aos nossos irmãos (a bondade e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que as nossas); mas, se o nosso coração estiver dominado por uma lógica de ódio e de vingança, o perdão que Deus nos oferece poderá encontrar aí lugar? Um coração duro, violento e agressivo, incapaz de compreender as falhas dos outros, estará suficientemente disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?
Ben Sira lembra também, a propósito do perdão, o horizonte final do homem (a morte)… Não se tratará, tanto, de avisar que se não nos portarmos bem, Deus condena-nos (por esta altura, o Povo de Deus ainda não parece ter uma noção clara de que há, para além desta terra, uma vida eterna reservada para aqueles que escolhem Deus e os seus valores); trata-se, sobretudo, de sugerir que a nossa vida nesta terra está marcada pela brevidade e pela finitude e não pode ser estragada com sentimentos que só nos magoam a nós e aos outros.
Muitos homens do nosso tempo pensam que só nos afirmamos, só nos realizamos e só triunfamos quando somos fortes e respondemos com força e agressividade à força e agressividade dos outros. Jesus Ben Sira, contudo, ensina que a "sabedoria", o êxito e a felicidade do homem não passam por cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas por cultivar sentimentos de perdão e de misericórdia. Quem tem razão? O que é que nos dá paz, nos faz sentir em harmonia connosco, com Deus e com ou outros e nos torna mais felizes: os gestos violentos que mostraram aos outros a nossa força e apaziguaram o nosso orgulho ferido, ou os nossos gestos de perdão, de bondade, de misericórdia?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: O
Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
Bendiz, ó
minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.
Ele perdoa
todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.
Não está
sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.
Como a
distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados.
LEITURA II – Rom 14,7-9

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Nenhum de nós vive para si mesmo
e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, vivemos para o Senhor,
e se morremos, morremos para o Senhor.
Portanto, quer vivamos quer morramos,
pertencemos ao Senhor.
Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou
para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.
AMBIENTE
Na segunda
parte da Carta aos Romanos (já o vimos nos domingos anteriores), Paulo
preocupa-se em apresentar aos cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os
lugares e tempos) um conjunto de atitudes e de valores que devem marcar a vida
pessoal, social e eclesial daqueles que Deus chama à salvação. A segunda
leitura deste domingo situa-nos neste contexto e apresenta-nos mais alguns
dados sobre esta questão.
O nosso texto faz parte de uma perícopa (cf. Rom 14,1-12) em que Paulo dá
algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da
comunidade, particularmente face àqueles que têm perspectivas diferentes da fé
e do caminho cristão.
Paulo considera que existem dois tipos de crentes na comunidade cristã de Roma:
os "fortes" e os "débeis". Estas designações não parecem referir-se,
primordialmente, à classe social ("ricos" e "pobres") ou à origem religiosa
("pagano-cristãos" e "judeo-cristãos") desses crentes, mas a atitudes diversas
quanto à fé… Os "fortes" (na linguagem de hoje, poderíamos caracterizá-los como
"progressistas") são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão
da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no
caminho da fé. Os "fracos" (na linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes
"tradicionalistas") são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas
tradições antigas e ficam escandalizados pelo facto de esses valores não serem
assumidos por toda a gente.
Muito provavelmente, estes dois grupos viviam em confronto, provocando uma
certa divisão na comunidade. Paulo não aceita atitudes de intolerância ou de
desprezo pelos irmãos, venham elas de onde vieram. Na verdade, o pensamento de
Paulo aproxima-o mais dos "fortes"; mas ele sabe muito bem que mais importante
do que as divergências é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade.
Os "fortes" não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os "débeis"
não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma
outra perspectiva.
É precisamente neste contexto que Paulo encaixa os três versículos que
constituem a segunda leitura deste domingo.
MENSAGEM
Os vers. 7-9 são verdadeiramente o centro da perícopa. Fundamentalmente, Paulo recorda a todos – aos "fortes" e aos "débeis" – que pertencem ao Senhor: "quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos" (vers. 8). Isso é muito mais importante do que as opiniões particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o mesmo objectivo. Os crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões verdadeiramente secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé e daquilo que os une: Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a mesma vida. A comunidade é uma família de irmãos, reunida à volta do mesmo Senhor.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:
Paulo está
consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua
proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua
diversidade, constituem um factor de enriquecimento da nossa experiência
comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não
exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar
da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões,
da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeit
o pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este
respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?
Existem, às vezes, nas comunidades cristãs certas pessoas que se consideram mais esclarecidas e mais preparadas e que manifestam desprezo por aqueles que têm concepções menos racionais da fé, que vivem agarrados a determinadas devoções ou a determinados ritos considerados ultrapassados. Paulo recomenda-lhes: "não desprezeis ninguém; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos".
Existem, às vezes, na comunidade cristã certas pessoas que se consideram muito santas e virtuosas porque cumprem determinadas regras, são fiéis a determinados ritos e têm sempre presente os mandamentos da santa madre Igreja… Observam e controlam os outros, julgam-nos sem direito a defesa, condenam-nos e acham-se no sagrado direito de os desacreditar diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda-lhes: "não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos".
Às vezes perdemo-nos na discussão das coisas secundárias e esquecemos o essencial. Discutimos se se deve receber a comunhão na mão ou na boca, se se deve ou não ajoelhar à consagração, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem ou não casar, se a procissão do santo padroeiro da paróquia deve fazer este ou aquele percurso… e, algures durante a discussão, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade, e que todos vivemos à volta do mesmo Senhor. É preciso descobrir o essencial que nos une e não absolutizar o secundário que nos divide.
ALELUIA – Jo 13,34
5. Palavra para o caminho.«Senhor, quantas vezes devo perdoar?» A resposta de Jesus não tem nada de matemática e o perdão que Ele nos propõe para oferecer aos nossos irmãos é ilimitado – por vezes também muito difícil. Nesta semana, poderíamos retomar o salmo 102 na oração e nos deixarmos habitar – impregnar, modelar – pelos seus acentos de ternura, de perdão, de amor, que nos revelam o Coração d'Aquele que nos convida a perdoar como Ele nos perdoa.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS

Aleluia. Aleluia.
Dou-vos um
mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
EVANGELHO – Mt 18,21-35
5. Palavra para o caminho.«Senhor, quantas vezes devo perdoar?» A resposta de Jesus não tem nada de matemática e o perdão que Ele nos propõe para oferecer aos nossos irmãos é ilimitado – por vezes também muito difícil. Nesta semana, poderíamos retomar o salmo 102 na oração e nos deixarmos habitar – impregnar, modelar – pelos seus acentos de ternura, de perdão, de amor, que nos revelam o Coração d'Aquele que nos convida a perdoar como Ele nos perdoa.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
'Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei'.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
'Paga o que me deves'.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
'Concede-me um prazo e pagar-te-ei'.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
'Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?'
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».
AMBIENTE
Continuamos a
ler o "discurso eclesial", que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo
Mateus. Este "discurso" tem como ponto de partida algumas "instruções"
apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), mas
que Mateus ampliou de forma significativa. Os destinatários do discurso são os
discípulos (na realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa
comunidade cristã a quem este Evangelho se destina).
Por detrás do texto que nos é hoje proposto, podemos entrever uma comunidade
onde as tensões e os conflitos degeneram em ofensas pessoais e que tem muita
dificuldade em perdoar.
MENSAGEM
O mandamento
do perdão não é novo – como vimos, aliás, na primeira leitura. Os catequistas
de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão
que tinha cometido qualquer falha. Os "mestres" de Israel estavam, no entanto,
de acordo em que a obrigação de perdoar existia apenas em relação aos membros
do Povo de Deus (os inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de
misericórdia). A grande discussão girava, porém, à volta do número limite de
vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais
misericordiosos – aceitavam, contudo, que o perdão tem limites e que não se
deve perdoar indefinidamente.
É nesta problemática que Jesus é envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz
da comunidade, consulta Jesus acerca dos limites do perdão. Ele sabe que,
quanto a isto, Jesus tem ideias radicais e, talvez com alguma ironia, pergunta
a Jesus se, na sua perspectiva, se deve perdoar sempre ("até sete vezes?" –
vers. 21: o número sete, na cultura semita, indica "totalidade").
Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada,
total, absoluta ("setenta vezes sete" – vers. 22). Deve-se perdoar sempre, a
toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção.
É neste contexto e a propósito da lógica do perdão que Jesus propõe aos
discípulos uma parábola (vers. 23-35). A parábola apresenta-se em três quadros
ou cenas.
O primeiro quadro (vers. 23-27) coloca-nos diante de uma cena de corte: um
funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente de
impostos recebidos e nunca entregues), revela-se incapaz de saldar a sua
dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como
escravos; mas, perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se
dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa a dívida. Neste quadro, o que
impressiona mais é o montante astronómico da dívida: dez mil talentos (um
talento equivalia a cerca de 36 Kg e podia ser em ouro ou em prata. Dez mil
talentos é, portanto, uma soma incalculável). O exagero da dívida serve, aqui,
para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.
O segundo quadro (vers. 28-30) descreve como esse funcionário que experimentou
a misericórdia do seu senhor se recusou, logo a seguir, a perdoar um
companheiro que lhe devia cem denários (um denário equivalia a 12 gramas de
prata e era o pagamento diário de um operário n&atil
de;o especializado. Cem denários correspondia, portanto, a uma quantia
insignificante para um alto funcionário do rei).
Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem, por um lado, a
desproporção entre as duas dívidas e, por outro, a diferença de atitudes e de
sentimentos entre o senhor (capaz de perdoar infinitamente) e o funcionário do
rei (incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter
experimentado a alegria de ser perdoado).
É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o
terceiro quadro (vers. 28-35): os outros companheiros do funcionário real,
chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei,
escandalizado com o comportamento do seu funcionário, castigou-o duramente.
Antes de mais, a parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra
como, na perspectiva de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto.
Depois, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos
face aos irmãos que erram. Mostra como neste capítulo, a nossa lógica está,
tantas vezes, distante da lógica de Deus. Diante de qualquer falha do irmão (por
menos significativa que ela seja), assumimos a pose de vítimas magoadas e,
muitas vezes, tomamos atitudes de desforra e de vingança que são o sinal claro
de que ainda não interiorizámos a lógica de Deus.
Finalmente, a parábola sugere que existe uma relação (aliás já afirmada na
primeira leitura deste domingo) entre o perdão de Deus e o perdão humano.
Mateus estará a sugerir que o perdão de Deus é condicionado e que só se tornará
efectivo se nós aprendermos a perdoar aos nossos irmãos? O que Mateus está a
dizer, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão
ilimitado: se essa é a lógica de Deus, terá de ser a nossa lógica, também. O
que Mateus está a sugerir, também, é que se o nosso coração não bater segundo a
lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o
amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e
ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente aqueles que nos ofenderam.
Deus pagará na mesma moeda e castigará quem não for capaz de viver segundo a
lógica do perdão e da misericórdia? Não. Decididamente, o revanchismo e a
vingança não fazem parte dos métodos de Deus… Mateus usa aqui – bem ao jeito
semita – imagens fortes e dramáticas para sublinhar que a lógica do perdão é
urgente e que dela depende a construção de uma realidade nova, de amor, de
comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar os seguintes desenvolvimentos:
O Evangelho deste domingo é sobre a necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se – todos estamos conscientes do facto – de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz. No entanto não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas, desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. Na cruz, ele morreu pedindo perdão para os seus assassinos… Ora o cristão é, antes de mais, um seguidor de Jesus. Pessoalmente, como é que me situo face a isto?
O perdão e a misericórdia tornam-se ainda mais complicados à luz dos valores que presidem à construção do nosso mundo. O "mundo" considera que perdoar é próprio dos fracos, dos vencidos, dos que desistem de impor a sua personalidade e a sua visão do mundo; Deus considera que perdoar é dos fortes, dos que sabem o que é verdadeiramente importante, dos que estão dispostos a renunciar ao seu orgulho e auto-suficiência para apostar num mundo novo, marcado por relações novas e verdadeiras entre os homens. Na verdade, a lógica do mundo só tem aumentado a espiral de violência, de injustiça, de morte; a lógica de Deus tem ajudado a mudar os corações e frutificado em gestos de amor, de partilha, de diálogo e de comunhão. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido? Qual destes dois caminhos pode ajudar a instaurar uma realidade mais humana, mais harmoniosa, mais feliz?
O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa "deixar correr" enquanto forem coisas que não nos afectem directamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.
Este Evangelho recorda-nos – talvez ainda de forma mais clara e concludente – aquilo que a primeira leitura já sugeria: quem faz a experiência do perdão de Deus, envolve-se numa lógica de misericórdia que tem, necessariamente, implicações na forma de abordar os irmãos que falharam. Não podemos dizer que Deus não perdoa a quem é incapaz de perdoar aos irmãos; mas podemos dizer que experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele significa assumir uma outra atitude para com os irmãos, uma atitude marcada pela bondade, pela compreensão, pela misericórdia, pelo acolhimento, pelo amor.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM
1. A liturgia meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. Testemunhos de reentrada.
Em certas paróquias, há por vezes o costume de preparar breves testemunhos
dados por membros da assembleia no momento dos avisos. Pode haver alguns breves
testemunhos (cerca de 1 minuto cada) sobre actividades eclesiais em que se
participou durante o tempo de verão. A intercalar, pode-se cantar um breve
refrão cantado.
3. Oração na lectio divina.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da
primeira leitura:
Pai misericordioso, nós Te bendizemos pela longa aprendizagem ao perdão na qual
formaste o teu povo desde o tempo de Moisés. Nós Te louvamos pela pedagogia da
misericórdia e pelas mensagens de paz.
Nós Te pedimos por todas as populações ainda submetidas ao ciclo infernal do
ódio, do terrorismo, do rancor e da vingança cega.
No final da segunda leitura:
Cristo ressuscitado, Senhor dos mortos e dos vivos, bendito sejas pelo teu
caminho de Páscoa: Tu conheceste a morte, para dela nos libertares e nos
fazeres partilhar a vida nova que manifestaste pela tua ressurreição.
Nós Te pedimos por todos os baptizados: demos-Te a nossa fé, aderimos a Ti. Que
o teu Espírito nos faça viver para Ti.
No final do Evangelho:
Pai do céu, Deus de paciência, Tu que perdoaste a nossa imensa dívida, bendito
sejas pelo perdão que liberta das cadeias e livra do desespero.
Nós Te pedimos: que o teu Reino venha aos nossos corações, que todas as nossas
comunidades manifestem a presença do teu Reino na nossa terra, como um reino de
paz, em que o perdão é dado do fundo do coração.
4. Oração Eucarística.
Pode-se escolher a Oração Eucarística IV, que recorda as alianças e as
misericórdias de Deus.
«Senhor, quantas vezes devo perdoar?» A resposta de Jesus não tem nada de matemática e o perdão que Ele nos propõe para oferecer aos nossos irmãos é ilimitado – por vezes também muito difícil. Nesta semana, poderíamos retomar o salmo 102 na oração e nos deixarmos habitar – impregnar, modelar – pelos seus acentos de ternura, de perdão, de amor, que nos revelam o Coração d'Aquele que nos convida a perdoar como Ele nos perdoa.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
23º Domingo do Tempo Comum
Tema do 23º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo sugere-nos uma reflexão sobre a nossa responsabilidade face aos irmãos que nos rodeiam. Afirma, claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns pelos outros.
A primeira leitura fala-nos do profeta como uma "sentinela", que Deus colocou a vigiar a cidade dos homens. Atento aos projectos de Deus e à realidade do mundo, o profeta apercebe-se daquilo que está a subverter os planos de Deus e a impedir a felicidade dos homens. Como sentinela responsável alerta, então, a comunidade para os perigos que a ameaçam.
O Evangelho deixa clara a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Trata-se de um dever que resulta do mandamento do amor. Jesus ensina, no entanto, que o caminho correcto para atingir esse objectivo não passa pela humilhação ou pela condenação de quem falhou, mas pelo diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor.
Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a colocar no centro da existência cristã o mandamento do amor. Trata-se de uma "dívida" que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.
LEITURA I – Ez 33,7-9

Leitura da Profecia de Ezequiel
Eis o que diz o Senhor:
«Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel.
Quando ouvires a palavra da minha boca,
deves avisá-los da minha parte.
Sempre que Eu disser ao ímpio: 'Ímpio, hás-de morrer',
e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho,
o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade,
mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte.
Se tu, porém, avisares o ímpio,
para que se converta do seu caminho,
e ele não se converter,
morrerá nos seus pecados,
mas tu salvarás a tua vida».
AMBIENTE
Ezequiel é conhecido como "o profeta da esperança". Desterrado na Babilónia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.
A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.
Pelo conteúdo, não é possível dizer de forma clara se o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura pertence à primeira ou à segunda fase da actividade profética de Ezequiel. Em qualquer caso, ele define – recorrendo à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, como uma sentinela atenta, que escuta os apelos de Deus e que avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.
MENSAGEM
A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc (cf. Hab 2,1), Isaías (cf. 21,6), Jeremias (cf. Jer 6,17) e mesmo Oseias (cf. Os 5,8) recorrem a esta figura para definir a missão profética.
O que é que significa dizer que o profeta é uma "sentinela"? A sentinela é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detectar o perigo que ameaça a sua cidade, os seus concidadãos, os seus camaradas de armas. Quando pressente o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Dessa forma, a comunidade poderá preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe vai colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.
Assim é o profeta. Ele é esse guarda que Jahwéh colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar atentamente o horizonte da história e da vida do Povo e para dar o alarme sempre que a comunidade corre riscos.
Para que o profeta seja uma sentinela eficiente, ele tem de ser, simultaneamente, um homem de Deus e um homem atento ao mundo que o rodeia.
O profeta é, antes de mais, um homem que Jahwéh chamou ao seu serviço. Eleito por Jahwéh, chamado para o serviço de Jahwéh, ele vive em comunhão com Deus; e nessa intimidade que vai criando com Deus, ele descobre a vontade de Deus e aprende a discernir os projectos que Deus tem para os homens e para o mundo. Ao mesmo tempo, o profeta é um homem do seu tempo, mergulhado na realidade e nos desafios da sociedade em que está integrado; conhece o mundo e é capaz de ler, numa perspectiva crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos seus contemporâneos.
Ao contemplar os planos de Deus e a vida do mundo, o profeta dá-se conta do desfasamento entre uma realidade e outra. Apercebe-se de que a realidade da vida dos homens é muito diferente dessa realidade que Deus projectou.
Diante disto, o que é que o profeta faz? Sacode a água do capote e diz que não é nada com ele? Fecha-se no seu mundo cómodo e ignora as infidelidades dos homens aos projectos de Deus? Demite-se das suas responsabilidades e não se incomoda com as escolhas erradas que os seus irmãos fazem?
Não. O profeta recebeu um mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam. Custe o que custar, doa a quem doer, o profeta tem que dizer a todos – mesmo que os seus concidadãos não o compreendam ou recusem escutá-lo – que continuar a trilhar esses caminhos errados não pode senão conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.
O profeta/sentinela é, em última análise, um sinal vivo – mais um – do amor de Jahwéh pelo seu Povo. É Deus que o chama, que o envia em missão, que lhe dá a coragem de testemunhar, que o apoia nos momentos de crise, de desilusão e de solidão… O profeta/sentinela é a prova de que Deus, cada dia, continua a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida. O profeta/sentinela demonstra, sem margem para dúvidas, que Deus
não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir das seguintes questões:
• E hoje? Deus continua a amar o seu Povo? Continua a querer que ele se converta e viva? Continua a preocupar-Se em oferecer ao seu Povo a salvação – isto é, a possibilidade de ser feliz neste mundo e de alcançar, no final da sua caminhada nesta terra, a vida definitiva? O Deus de ontem não será o Deus de hoje e de amanhã?
• Na verdade, Ele continua a chamar, todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo Baptismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens. Temos consciência de que recebemos de Deus uma missão profética e que essa missão nos compromete com a denúncia do que está errado no mundo e na vida dos homens?
• O que é que devemos denunciar? Tudo aquilo que contradiz os projectos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir. Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um relacionamento forte com Deus. Encontro tempo para potenciar a relação com Deus, para falar com Deus, para escutar e meditar a sua Palavra?
• É preciso também que o profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os acontecimentos à luz de Deus e do projecto de Deus. Estou atento aos sinais dos tempos e procuro analisá-los a partir de uma perspectiva de fé?
• É preciso, finalmente, que o profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cómodo, demitindo-se das suas responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afecta a vida de um homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta. Podemos ficar calados diante das escolhas erradas que o mundo faz? O nosso silêncio não nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria tantos homens e mulheres?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 94 (95)

Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,
não fecheis os vossos corações.
Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.
Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.
Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».
LEITURA II – Rom 13,8-10

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Não devais a ninguém coisa alguma,
a não ser o amor de uns para com os outros,
pois, quem ama o próximo, cumpre a lei.
De facto, os mandamentos que dizem:
«Não cometerás adultério, não matarás,
não furtarás, não cobiçarás»,
e todos os outros mandamentos,
resumem-se nestas palavras:
«Amarás ao próximo como a ti mesmo».
A caridade não faz mal ao próximo.
A caridade é o pleno cumprimento da lei.
AMBIENTE
Continuamos a ler a segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí, Paulo mostra – em termos práticos – como devem viver aqueles que Deus chama à salvação.
Deus oferece a todos a salvação; ao homem resta acolher o dom de Deus, aderindo a Jesus e à sua proposta… Mas a adesão a Jesus implica assumir, na prática do dia a dia, atitudes coerentes com essa vida nova que o cristão acolheu no dia do seu baptismo. São essas atitudes que Paulo recomenda aos romanos (e aos crentes em geral) nesta segunda parte da carta.
No ano 49, o imperador Cláudio tinha publicado um édito que expulsava de Roma os judeus (incluindo os cristãos de origem judaica). Ora em 57/58 (quando a Carta aos Romanos foi escrita), muitos desses judeus tinham já voltado a Roma. Será que os cristãos de origem pagã, "donos" da comunidade durante bastante tempo, ostentavam a sua superioridade e manifestavam desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma? Será que, por essa razão, havia divisões e falta de amor na comunidade de Roma? Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito uma "carta de reconciliação", destinada a unir uma comunidade dividida. O apelo ao amor que o nosso texto nos apresenta poderia entender-se neste contexto.
MENSAGEM
Paulo exorta os crentes de Roma a construir toda a sua vida sobre o amor. O cristianismo sem amor é uma mentira. Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos.
Essa exigência, contudo, nunca estará completamente realizada… Qualquer dívida pode ser liquidada de uma vez; mas o amor não: em cada instante é preciso amar e amar sempre mais. O cristão nunca poderá cruzar os braços e dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo: ele tem uma dívida eterna de amor para com os seus irmãos.
O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma "invenção" de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt 22,34-40).
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:
• Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei" (Jo 15,12). Este não é "mais um mandamento", mas é "o mandamento" de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa caminhada pela história, esquecemos "o mandamento" de Jesus e distraímo-nos com questões secundárias… Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de organização e de autoridade, códigos de leis, questões de
disciplina… e esquecemos "o mandamento" do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o resto é secundário.
• As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: "eles são diferentes, são uma mais valia para o mundo, porque amam mais do que os outros". É isso que acontece? Quem contempla as nossas comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os estrangeiros, os doentes, os necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com solicitude e amor?
• É importante sentirmos que a nossa dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão… mas é preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída.
ALELUIA – 2Cor 5,19

Aleluia. Aleluia.
Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo
e confiou-nos a palavra da reconciliação.
EVANGELHO – Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida
pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu;
e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles».
AMBIENTE
O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o "discurso eclesial". Apresenta uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Aqui, Mateus ampliou de forma significativa algumas instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37. 42-47) e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho nos apresenta. Os destinatários desta "instrução" são os discípulos e, através deles, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige.
A comunidade de Mateus é uma comunidade "normal" – isto é, é uma comunidade parecida com qualquer uma das que nós conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis; há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros… Para responder a este quadro, Mateus elaborou uma exortação que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um "modelo" de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.
MENSAGEM
O fragmento do "discurso eclesial" que nos é hoje proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos no seio da comunidade. Como é que os irmãos da comunidade devem proceder, nessa situação? Devem condenar, sem mais, e marginalizar o infractor?
Não. Neste quadro, as decisões radicais e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com amor. Mateus propõe um caminho em várias etapas…
Em primeiro lugar, Mateus propõe um encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o problema (vers. 15). O caminho correcto não passa, decididamente, por dizer mal "por trás", por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se invente nada), e muito menos por espalhar boatos, por caluniar, por difamar. O caminho correcto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão em causa.
Se esse encontro não resultar, Mateus propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros irmãos ("toma contigo uma ou duas pessoas" – diz Mateus – vers. 16) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infractor perceber o sem sentido do seu comportamento.
Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada a confrontar o infractor, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão (vers. 16a).
No caso de o infractor se obstinar no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento o colocou à margem da comunidade. Mateus acrescenta que, nesse caso, o faltoso será considerado como "um pagão ou um cobrador de impostos" (vers. 17b). Isto significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus? Não. Ao usar este exemplo, o autor deste texto não pretende referir-se a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens tipicamente judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação.
A Igreja tem o direito de expulsar os pecadores? Mateus não sugere aqui, com certeza, que a Igreja possa excluir da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que a Igreja tem de tom
ar posição quando algum dos seus membros, de forma consciente e obstinada, recusa a proposta do Reino e realiza actos que estão frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo, nem é a Igreja que exclui o prevaricador: ele é que, pelas suas opções, se coloca decididamente à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que constatar o facto e agir em consequência.
Depois desta instrução sobre a correcção fraterna, Mateus acrescenta três "ditos" de Jesus (cf. Mt 18,18-20) que, originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.
O primeiro (vers. 18) refere-se ao poder, conferido à comunidade, de "ligar" e "desligar". Entre os judeus, a expressão designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (algum tempo antes – cf. Mt 16,19 – Jesus dissera estas mesmas palavras a Pedro; mas aí Pedro representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder para interpretar as palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs.
O segundo (vers. 19) sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração, que o Pai os escutará.
O terceiro (vers. 20) garante aos discípulos a presença de Jesus "no meio" da comunidade. Neste contexto, sugere que as tentativas de correcção e de reconciliação entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:
• A palavra "tolerância" é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa "tolerância"? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele "é maior e vacinado" e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da "tolerância"? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A "tolerância" não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?
• O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…
• Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…
• Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?
• A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de actos que afectam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus actos errados. As acções erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas acções devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 23º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. PRIVILEGIAR O TEMPO DO ACOLHIMENTO.
É o recomeço. A maior parte dos fiéis estão agora de regresso à paróquia. Será bom privilegiar o tempo do acolhimento, em particular dos novos paroquianos. Depois do sinal da cruz, da saudação e da introdução à celebração, o presidente pode convidar cada um a saudar os seus vizinhos de lugar. Pode igualmente pedir aos novos paroquianos para se apresentarem e acolhê-los em nome de toda a comunidade. Será igualmente bom privilegiar o gesto de paz. O presidente dá a paz a algumas pessoas que vêm ao altar. A paz é em seguida transmitida progressivamente por esse grupo e cada um dá a paz a outra pessoa, depois de a ter recebido simbolicamente. Saudar-se, dar a paz… tal deve continuar depois da celebração. Isso deve ser expresso nas palavras finais de envio. Se possível, pode-se organizar um pequeno convívio após a celebração.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Bendito sejas, Deus de santidade, que nos chamas a ser santos como Tu mesmo és santo. Nós Te louvamos pelos profetas que nos envias em todo o tempo como sentinelas, para vigiar o nosso caminho e para nos guiar.
Nós Te pedimos por todas as comunidades cristãs: que o teu Espírito nos purifique das más condutas que desvalorizam o nosso testemunho.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças, Deus de amor, pela Lei viva que nos deste em Jesus e pelos teus apóstolos. Ela é comunicação do teu Espírito. Nós reconhecemos a imensa dívida de amor que temos para contigo.
Nós Te pedimos: mantém-nos receptivos ao teu Espírito de amor. Que ele nos torne conscientes da dívida de mútuo amor de uns para com os outros.
No final do Evangelho:
Deus justo e bom, se eu não interpelar o irmão ou a irmã que se perde, estou em dívida para contigo, porque me torno cúmplice do mal que não me esforço de impedir.
Que o teu Espírito seja para mim fonte de discernimento e de coragem!
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II das Assembleias com Crianças, que evoca com insistência o amor ao próximo e a comunhão fraterna aos quais nos convidam a segunda leitura e o Evangelho de hoje.
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Ser sentinela… A religião cristã não é um simples assunto pessoal que só a nós diz respeito e que nos desinteressa dos outros. "Sentinela": qual é o cuidado missionário que está em nós para transmitir a Palavra do Senhor aos nossos irmãos? O nosso amor para com eles é suficientemente forte para os convidar a uma mudança de conduta, se necessário? "Sentinelas": o amor ao próximo é para nós uma dinâmica de conversão pessoal e comunitária?
22º Domingo do Tempo Comum
Tema do 22º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir a "loucura da cruz": o acesso a essa vida verdadeira e plena que Deus nos quer oferecer passa pelo caminho do amor e do dom da vida (cruz).
Na primeira leitura, um profeta de Israel (Jeremias) descreve a sua experiência de "cruz". Seduzido por Jahwéh, Jeremias colocou toda a sua vida ao serviço de Deus e dos seus projectos. Nesse "caminho", ele teve que enfrentar os poderosos e pôr em causa a lógica do mundo; por isso, conheceu o sofrimento, a solidão, a perseguição… É essa a experiência de todos aqueles que acolhem a Palavra de Jahwéh no seu coração e vivem em coerência com os valores de Deus.
A segunda leitura convida os cristãos a oferecerem toda a sua existência de cada dia a Deus. Paulo garante que é esse o sacrifício que Deus prefere. O que é que significa oferecer a Deus toda a existência? Significa, de acordo com Paulo, não nos conformarmos com a lógica do mundo, aprendermos a discernir os planos de Deus e a viver em consequência.
No Evangelho, Jesus avisa os discípulos de que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas passa pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo tem de aceitar percorrer um caminho semelhante.
LEITURA I – Jer 20,7-9

Leitura da Profecia de Jeremias
Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir;
Vós me dominastes e vencestes.
Em todo o tempo sou objecto de escárnio,
toda a gente se ri de mim;
porque sempre que falo é para gritar e proclamar:
«Violência e ruína!»
E a palavra do Senhor tornou-se para mim
ocasião permanente de insultos e zombarias.
Então eu disse:
«Não voltarei a falar n'Ele,
não falarei mais em seu nome».
Mas havia no meu coração um fogo ardente,
comprimido dentro dos meus ossos.
Procurava contê-lo, mas não podia.
AMBIENTE
Jeremias nasceu em Anatot (a norte de Jerusalém), por volta de 650 a.C. Ainda novo (por volta de 627/626 a.C.), sentiu que Deus o chamava a ser profeta. A actividade profética de Jeremias prolongou-se até depois da destruição de Jerusalém pelos babilónios (586 a.C.). O cenário da actividade do profeta foi, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
Jeremias viveu numa época histórica bastante conturbada. Foi um período de grande instabilidade, de injustiças sociais gritantes, de infidelidade religiosa. Quer Joaquim (609-597 a.C.) quer Sedecias (597-586 a.C.) foram reis fracos, incapazes de responder com êxito às exigências da conjuntura internacional e de manter uma política de neutralidade em relação às grandes potências da época (sobretudo o Egipto e a Babilónia). Jeremias – convencido de que Judá estava a ser infiel a Deus ao deixar de confiar em Jahwéh e ao colocar a sua segurança e a sua esperança nas mãos dos povos estrangeiros – criticou duramente os líderes do Povo e anunciou uma invasão estrangeira, destinada a castigar os pecados de Judá.
A pregação de Jeremias não foi, no entanto, apreciada pelo Povo e pelos líderes. Considerado um "profeta da desgraça", Jeremias apenas conseguiu criar o vazio à sua volta e viu os amigos, os familiares, os conhecidos voltarem-lhe as costas. Conheceu a solidão, o abandono, a maledicência… Acusado de traição e encarcerado (cf. Jer 37,11-16), o profeta chegou a correr perigo de vida (cf. Jer. 38,11-13).
Jeremias é o paradigma dos profetas que sofreram por causa da sua missão. De natureza sensível e cordial, homem de paz, Jeremias não foi feito para o confronto, para a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para "arrancar e destruir, para exterminar e demolir" (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, foi continuamente objecto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam e se afastavam mal ele abria a boca. E esse homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o condenava.
Jeremias estava, verdadeiramente, apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Então, dirigia-se a Deus e censurava-O asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia.
No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como "confissões de Jeremias" e são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jer 11, 18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas "confissões".
MENSAGEM
O texto apresenta-nos uma desconcertante oração de Jeremias num momento dramático de desilusão e de desânimo (quando, preso pelos ministros de Sedecias e atirado para uma cisterna, se afundava no lodo? – cf. Jer 38,4-6).
Esta estranha oração adopta a forma de denúncia ou de acusação do profeta ao seu Deus. Essa acusação é formulada através da imagem da "sedução": é como se Jahwéh tivesse namorado o profeta até ao ponto de o seduzir (o verbo "pth", aqui utilizado, aparece em Ex 22,15 para falar da sedução de uma jovem solteira). Deus insinuou-Se na vida do profeta, pressionou-o, subjugou-o, dominou-o e o profeta não soube como resistir às investidas de Deus (o verbo "ykl", utilizado no vers. 7 para definir a forma como Deus actuou em relação ao profeta, significa "exercer o poder", "prevalecer sobre alguém", "dominar"). O profeta, embalado pelas promessas desse Deus sedutor, incapaz de resistir ao seu "charme" e aos seus jogos de sedução, pressionado, dominado, violentado, entregou-se completamente nas suas mãos e dedicou toda a vida ao seu serviço.
O que é que o profeta ganhou com essa entrega? Nada. Esse Deus que o seduziu, que o forçou a dedicar a vida ao serviço profético, abandonou-o miseravelmente e deixou-o entregue aos insultos e às zombarias dos seus adversários. O profeta está desiludido e decepcionado… Essa desilusão irrompe em resolução firme de resistir à voz do sedutor: "não voltarei a falar nele, não falarei mais em seu nome" (vers. 9). Conseguirá o profeta levar até ao fim o s
eu propósito?
Não. O amor por Deus e pela sua Palavra está tão vivo no coração do profeta que é inútil resistir: "procurava contê-lo, mas não podia" (vers. 9). A Palavra de Deus é um fogo devorador, que consome o coração do profeta e que não o deixa demitir-se da missão e esconder-se numa vida cómoda e instalada. Ao profeta resta, portanto, continuar ao serviço da Palavra, enfrentando o seu destino de solidão e de sofrimento, na esperança de, ao longo da caminhada, reencontrar esse amor de Deus que um dia o seduziu e ao qual o profeta nunca saberá renunciar.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode fazer-se, considerando as seguintes questões:
• A história de Jeremias é, em termos gerais, a história de todos aqueles que Deus chama a ser profetas. Ser sinal de Deus e dos seus valores significa enfrentar a injustiça, a opressão, o pecado e, portanto, pôr em causa os interesses egoístas e os esquemas sobre os quais, tantas vezes, se constrói a história do mundo; por isso, o "caminho profético" é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco. Deus nunca prometeu a nenhum profeta um caminho fácil de glórias e de triunfos humanos. Temos consciência disso e estamos dispostos a seguir esse caminho?
• No baptismo, fomos ungidos como "profetas", à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a "boca" através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e se dirige aos homens?
• Neste texto – e, em geral, em toda a vida de Jeremias – impressiona-nos o espaço fundamental que a Palavra de Deus ocupa na vida do profeta. Ela tomou conta do seu coração e dominou-o totalmente. É uma "paixão" que – apesar de ter trazido ao profeta uma história pessoal de sofrimento e de risco – não pode ser calada e sufocada. Que espaço ocupa a Palavra de Deus ocupa na minha vida? Amo, de forma apaixonada, a Palavra de Deus? Estou disposto a correr todos os riscos para que a Palavra de Deus alcance a vida dos meus irmãos e renove o mundo?
• O lamento de Jeremias não deve escandalizar-nos; mas deve ser entendido no contexto de uma situação trágica de sofrimento intolerável. É o grito de um coração humano dolorido, marcado pela incompreensão dos que o rodeiam, pelo abandono, pela solidão e pelo aparente fracasso da missão a que devotou a sua vida. É o mesmo lamento de tantos homens e mulheres, em tantos momentos dramáticos de solidão, de sofrimento, de incompreensão, de dor. É a expressão da nossa finitude, da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa humanidade. É precisamente nessas situações que nos dirigimos a Deus (às vezes até com expressões menos próprias) e Lhe dizemos a falta que Ele nos faz e o quanto a nossa vida é vazia e sem sentido se Ele não nos estender a sua mão. Esses momentos não são, propriamente, momentos negativos da nossa caminhada de fé e de relação com Deus; mas são momentos (talvez necessários) de crescimento e de amadurecimento, em que experimentamos a nossa fragilidade e descobrimos que, sem Deus e sem o seu amor, a nossa vida não faz sentido.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 62 (63)

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.
Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.
Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.
Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares,
e com vozes de júbilo Vos louvarei.
Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.
LEITURA II – Rom 12,1-2

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus,
como culto racional.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito.
AMBIENTE
Depois de apresentar a sua catequese sobre o projecto de salvação que Deus tem para todos os homens (cf. Rom 1,18-11,36), Paulo vai descer a considerações de carácter mais prático, destinadas a mostrar como deve viver aquele que é chamado à salvação.
Essas indicações práticas aparecem na segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí Paulo apresenta um longo discurso exortativo, no qual convida os romanos (e os crentes em geral) a comportar-se de acordo com as exigências da sua condição de baptizados. Aderir a Cristo e acolher a salvação que Ele veio oferecer não significa ficar no simples campo das verdades teóricas e abstractas (por muito bonitas e profundas que elas possam ser), mas exige um comportamento coerente com os valores de Jesus e com a vida nova que Ele oferece. A adesão a Jesus implica assumir atitudes, nos vários momentos e situações da vida diária, que sejam a expressão existencial desse dinamismo de vida nova que resulta do baptismo.
O texto que hoje nos é proposto é a introdução à segunda parte da Carta e a esta reflexão prática sobre as exigências do caminho cristão. Apresentam-se como uma espécie de ponte entre a parte teórica (primeira parte da carta) e a parte prática (segunda parte da carta).
MENSAGEM
A bondade e o amor de Deus (de que Paulo tratou abundantemente nos capítulos anteriores) convida a uma resposta do homem. Como é que deve ser essa resposta?
Paulo convida os crentes a oferecerem-se a si mesmos (literalmente "os vossos corpos". "Corpo" não designa, aqui, essa entidade distinta da alma, mas a pessoa na sua totalidade, enquanto ser em relação. É o homem enquanto ser que se relaciona com Deus, com os outros homens e com o mundo). Os cristãos são aqueles que se entregam completamente nas mãos de Deus e que, em todos os instantes da sua existência, vivem para Deus.
Essa oferta será um "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus". É esse "culto espiritual" (pode traduzir-se também como "culto lógico" ou "culto razoável") que Deus espera do homem. O adjectivo utilizado por Paulo para referir-se ao culto é utilizado em contextos análogos, tanto por autores judeus como por autores gregos, para marcar a diferença entre um culto formal e exterior, que não compromete o homem e o culto verdadeiro, que brota do coração e que compromete o homem inteiro (cf. Am 5,21-25; Os 6,6; Jo 4,23-24). Os crentes devem, portanto, oferecer inteiramente as suas vidas a Deus; e é esse o culto que Deus espera desses sobre quem derrama a sua misericórdia e a quem oferece a salvação.
Na perspectiva de Paulo, o que é que significa o homem oferecer inteiramente a sua vida a Deus?
Significa, em primeiro lugar, não se conformar com "este mundo" – isto é, manter uma distância crítica em relação aos esquemas do mundo e aos valores sobre os quais este mundo de egoísmo e de pecado se constrói. Significa, em segundo lugar, uma mudança de coração, de mentalidade e de inteligência, que possibilite ao homem discernir qual é a vontade de Deus, a fim de poder percorrer, com fidelidade, os seus caminhos.
O "culto espiritual" de que Paulo fala é, portanto, a entrega a Deus da totalidade da vida do homem. Na sua relação com Deus, com os outros homens e com o mundo, o cristão deve renunciar aos caminhos do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência, da injustiça e do pecado; e deve procurar conhecer os projectos de Deus, acolhê-los no coração e viver em coerência total com as suas propostas.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes elementos:
• Como é que o crente deve responder aos dons de Deus? Com actos rituais solenes e formais, com orações ou gestos tradicionais repetidos de forma mecânica, com a oferta de uma "esmola" para os cofres da Igreja, com uma peregrinação a um santuário? Paulo responde: o culto que Deus quer é a nossa vida, vivida no amor, no serviço, na doação, na entrega a Deus e aos irmãos. Respondemos ao amor de Deus entregando-nos nas suas mãos, tentando perceber as suas propostas, vivendo na fidelidade aos seus projectos. Como é o culto que eu procuro prestar a Deus: é um somatório de gestos mecânicos, rituais e externos, ou é uma vida de entrega e de amor a Deus e aos homens meus irmãos?
• "Não vos conformeis com este mundo" – pede Paulo. O cristão é alguém que não pactua com um mundo que se constrói à margem ou contra os valores de Deus. O cristão não pode pactuar com a violência como meio para resolver os problemas, nem com a lógica materialista do sucesso a qualquer custo, nem com as leis do neo-liberalismo que deixam atrás uma multidão de vencidos e de sofredores, nem com as exigências de uma globalização que favorece alguns privilegiados mas aumenta as bolsas de miséria e de exclusão, nem com a forma de organização de uma sociedade que condena à solidão os velhos e os doentes… Eu sou um comodista, egoisticamente instalado no meu cantinho a devorar a minha pequena fatia de felicidade, ou sou alguém que não se conforma e que luta para que os projectos de Deus se concretizem?
• "Transformai-vos pela renovação espiritual da vossa mente" – diz Paulo. Estou instalado nos meus preconceitos, nas minhas certezas e seguranças, nos meus princípios imutáveis, ou estou sempre numa permanente escuta de Deus, dos seus caminhos, dos seus projectos e propostas?
ALELUIA – cf. Ef 1,17-18
Aleluia. Aleluia.
Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados.
EVANGELHO – Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus começou a explicar aos seus discípulos
que tinha de ir a Jerusalém
e sofrer da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas;
que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte,
começou a contestá-l'O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai,
com os seus Anjos,
e então dará a cada um segundo as suas obras».
AMBIENTE
O episódio que o Evangelho de hoje nos propõe vem na sequência daquele que lemos e reflectimos no passado domingo. Então (cf. Mt 16,13-20), a comunidade dos discípulos expressava a sua fé em Jesus como o "Messias, Filho de Deus" (é sobre essa fé – diz Jesus – que a Igreja será edificada); agora, Jesus vai explicar a esse grupo de discípulos o sentido autêntico do seu messianismo e da sua filiação divina.
Continuamos, ainda, no âmbito da "instrução sobre o Reino" (cf. Mt 13,1-17,27); no entanto, iniciamos, com este episódio, uma secção onde se privilegia a catequese sobre esse destino de cruz que aparece no horizonte próximo de Jesus (cf. Mt 16,21-17,27).
Nesta fase, as multidões ficaram para trás e os líderes já decidiram rejeitar Jesus. Quem continua a acompanhar Jesus, de forma indefectível, é o grupo dos discípulos. Eles acreditam que Jesus é o "Messias, Filho de Deus" e querem partilhar o seu destino de glória e de triunfo. Jesus vai, no entanto, explicar-lhes que o seu messianismo não passa por triunfos e êxitos humanos, mas pela cruz (cf. Mt 16,21-17,21); e vai avisá-los de que viver como discípulo é seguir esse caminho da entrega e do dom da vida (cf. Mt 17,22-27).
Mateus escreve o seu Evangelho para comunidades cristãs do final do séc. I (anos 80/90). São comunidades instaladas, que já esqueceram o fervor inicial e que se acomodaram num cristianismo morno e pouco exigente. Com a aproximação de tempos difíceis (no horizonte próximo estão já as grandes perseguições do final do séc. I), é conveniente que os crentes recordem que o caminho cristão não é um caminho fácil, percorrido no meio de êxitos e de aplausos, mas é um caminho difícil, que exige diariamente a entrega e o dom da vida.
MENSAGEM
O nosso texto pode, claramente, dividir-se em duas partes. Na primeira (vers. 21-23), Jesus anuncia aos discípulos a sua paixão; na segunda (vers. 24-28), Jesus apresenta uma instrução sobre o significado e as exigências de ser seu discípulo.
A primeira parte começa com o anúncio de Jes
us de que o caminho para a ressurreição passa pelo sofrimento e pela morte na cruz. Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projecto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.
Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direcção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do "Messias, Filho de Deus" é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.
Jesus dirige-Se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projectos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mt 4,3-10); por isso, Mateus coloca na boca de Jesus a mesma resposta que, então, Ele deu ao diabo: "Retira-te, Satanás". As palavras de Pedro – como as do diabo anteriormente – pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projectos de Deus.
Na segunda parte, Jesus apresenta uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo. Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de "renunciar a si mesmo", "tomar a cruz" e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega e de dom da vida.
O que é que significa, exactamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projectos de riqueza, de segurança, de bem-estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.
O que é que significa "tomar a cruz" de Jesus e segui-l'O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. "Tomar a cruz" é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.
No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a "lógica da cruz" (vers. 25-27).
Em primeiro lugar, Jesus convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 25).
Em segundo lugar, os discípulos são convidados a perceber que a vida que gozam neste mundo não é a vida definitiva. Não devem, pois, preocupar-se em preservá-la a qualquer custo: devem é procurar encontrar, já nesta terra, essa vida definitiva que passa pelo amor total e pelo dom a Deus e aos outros. É essa a grande meta que todos devem procurar alcançar (vers. 26).
Em terceiro lugar, os discípulos devem pensar no seu encontro final com Deus: nessa altura, Deus dar-lhes-á a recompensa pelas opções que fizeram… Esta alusão ao momento do juízo não é rara em Mateus: ele recorre, com alguma frequência, a esta motivação para fundamentar as exigências éticas da vida cristã.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes dados:
• Frente a frente, o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?
• Jesus tornou-Se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projecto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projectos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses "sinais dos tempos" através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projectos pessoais?
• Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser baptizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.
• O que é "renunciar a si mesmo"? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
• O que é "tomar a cruz"? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 22º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. "SE ALGUÉM QUISER SEGUIR-ME, TOME A SUA CRUZ…"
Ao longo da celebração, o sinal da cruz, a introdução inicial, as invocações do rito penitencial, a oração dos fiéis, a admonição ao rito da paz… podem fazer eco das cruzes – visíveis ou escondidas – levadas por cada um e cada uma e pela humanidade inteira. O rito penitencial pode desenrolar-se com toda a assembleia voltada para a Cruz.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Senhor, nós Te louvamos pelo profeta Jeremias e pela disponibilidade que manifestou nas missões que lhe confiaste. Nós Te louvamos pelo fogo devorador do teu amor que nos seduz e nos prende a Ti.
Nós Te pedimos pelos mensageiros da tua Palavra e por nós, os teus fiéis, encarregados de testemunhar em toda a nossa vida. Que o teu Espírito nos torne mais fortes.
No final da segunda leitura:
Senhor, nós Te damos graças pela vontade de salvação que nos manifestaste com perseverança desde os tempos antigos e pela adoração verdadeira à qual o teu Filho nos associa, pelo sopro interior do teu Espírito.
Nós Te pedimos: renova as nossas maneiras de pensar, ensina-nos a reconhecer o que é bom, o que Te é agradável, para a salvação do mundo.
No final do Evangelho:
Jesus, Messias, Filho do Deus vivo, nós Te damos graças pela tua subida a Jerusalém, para a Paixão, que assumiste com coragem, por nossa causa, e que mostraste que podia tornar-se um caminho de ressurreição.
Quando Te fazemos obstáculo, retidos pela fraqueza da carne, nós Te suplicamos: livra-nos de ceder à tentação.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, cujas epicleses fazem eco da segunda leitura.
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Três perfis de discípulos… Através das leituras deste domingo, temos três perfis de discípulos: PEDRO – que receia a cruz para Jesus mas também para si mesmo; PAULO – que nos convida a ultrapassar os modelos do mundo para que as nossas vidas estejam de acordo com a vontade de Deus; JEREMIAS – que, para lá de todas as dificuldades encontradas, se deixa seduzir pelo amor do Senhor. E nós? Que género de discípulos somos?
21º Domingo do Tempo Comum
Tema do 21º Domingo do Tempo Comum
No centro da reflexão que a liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum nos propõe, estão dois temas à volta dos quais se constrói e se estrutura toda a existência cristã: Cristo e a Igreja.
O Evangelho convida os discípulos a aderirem a Jesus e a acolherem-n'O como "o Messias, Filho de Deus". Dessa adesão, nasce a Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus, convocada e organizada à volta de Pedro. A missão da Igreja é dar testemunho da proposta de salvação que Jesus veio trazer. À Igreja e a Pedro é confiado o poder das chaves – isto é, de interpretar as palavras de Jesus, de adaptar os ensinamentos de Jesus aos desafios do mundo e de acolher na comunidade todos aqueles que aderem à proposta de salvação que Jesus oferece.
A primeira leitura mostra como se deve concretizar o poder "das chaves". Aquele que detém "as chaves" não pode usar a sua autoridade para concretizar interesses pessoais e para impedir aos seus irmãos o acesso aos bens eternos; mas deve exercer o seu serviço como um pai que procura o bem dos seus filhos, com solicitude, com amor e com justiça.
A segunda leitura é um convite a contemplar a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus que, de forma misteriosa e às vezes desconcertante, realiza os seus projectos de salvação do homem. Ao homem resta entregar-se confiadamente nas mãos de Deus e deixar que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem num hino de amor e de louvor ao Deus salvador e libertador.
LEITURA I – Is 22,19-23

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio:
«Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te-ei do teu posto.
E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim,
filho de Elcias.
Hei-de revesti-lo com a tua túnica,
hei-de pôr-lhe à cintura a tua faixa,
entregar-lhe nas mãos os teus poderes.
E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém
e para a casa de Judá.
Porei aos seus ombros a chave da casa de David:
há-de abrir, sem que ninguém possa fechar;
há-de fechar, sem que ninguém possa abrir.
Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme
e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».
AMBIENTE
O profeta Isaías nasceu por de 760 a.C., muito provavelmente em Jerusalém. Bastante jovem, sentiu-se chamado por Deus para ser profeta ("no ano da morte do rei Ozias" – Is 6,1 – o que nos coloca por volta de 740-739 a.C.); e vai desempenhar essa missão durante um longo espaço de tempo (os seus últimos oráculos são de finais do séc. VIII ou princípios do séc. VII a.C.), sendo uma espécie de consciência crítica dos vários reis que, nessa fase, presidiram aos destinos do Povo de Deus. De família nobre, Isaías é um homem culto, decidido, enérgico, que frequenta os círculos de poder e faz parte dos notáveis do reino de Judá. Participa nas decisões relativas à condução do reino, fala com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (cf. Is 7,10). No entanto, isso não significa que apoie as classes altas: os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes – autoridades, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da classe alta que vivem num luxo escandaloso (cf. Is 3,16-25)… Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (Is 3,12-15). Convida continuamente o seu povo à conversão, pedindo-lhe que se volte para Jahwéh, que respeite os compromissos assumidos, que reaprenda a viver no âmbito da Aliança, que coloque outra vez Deus e os seus mandamentos no centro da vida e da história.
O oráculo de Isaías que nos é hoje proposto leva-nos à época do rei Ezequias. Em 714 a.C., Ezequias atinge a maioridade e toma conta dos destinos de Judá. Movido pelo desejo de reforma religiosa e de independência política, Ezequias manifestará uma certa propensão para alinhar em alianças políticas contra os assírios (que, desde o reinado de Acaz, mantêm Judá sob a sua autoridade). Em resposta, Senaquerib volta-se contra Judá e devasta-a… Em 701 a.C., Jerusalém é cercada pelos assírios e Ezequias tem de aceitar uma submissão ainda mais onerosa do que a anterior.
O episódio que nos é narrado, contudo, não se refere aos grandes acontecimentos políticos em que Judá, por esta altura, se vê envolvido. Refere-se, antes, a um episódio doméstico da vida do palácio. Quer Shebna, quer Elyaqîm, aqui referenciados, são altos funcionários de Ezequias, que o segundo livro dos Reis cita a propósito de um episódio relacionado com a invasão de Senaquerib (cf. 2 Re 18,18.26.37).
MENSAGEM
O nosso oráculo dirige-se, inicialmente, a Shebna, "administrador do palácio". Anuncia-lhe a expulsão do cargo e a sua substituição por Elyaqîm. Porquê? A razão aparece antes (num versículo que, contudo, o texto que nos é hoje proposto não conservou): Shebna talhou "para si um sepulcro no alto e cavou para si na rocha um mausoléu" (Is 22,16). Porque é que o erigir um monumento funerário é condenado? Talvez porque é sinal do orgulho de Shebna; ou talvez porque Shebna utilizou o dinheiro do povo ou despendeu dinheiro em futilidades num momento difícil para o povo.
De qualquer forma, Shebna será substituído nas suas funções. Irá ser despojado das insígnias do seu poder (a túnica, o cinto, a chave do palácio), as quais serão revestidas por Elyaqîm.
Elyaqîm receberá, pois, o "poder das chaves" do palácio. O simbolismo das chaves é particularmente sugestivo: o mordomo do palácio, entre outras coisas, conservava em seu poder as chaves do palácio real, administrava os bens do soberano, fixava a abertura e o fechamento das portas e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano.
Isaías deposita grande esperança em Elyaqîm e na forma como ele desempenhará as suas funções. A expressão usada pelo profeta a propósito de Elyaqîm – "ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá" (vers. 21) – indica que Elyaqîm irá exercer o serviço da autoridade com solicitude, com amor, com justiça… A referência à "estaca" ("fixá-lo-ei como uma estaca num lugar firme" – vers. 23), revela que, na perspectiva de Isaías, Elyaqîm desempenhará as suas funções com grande firmeza.
Num outro desenvolvimento que a leitura que nos é proposta não conservou, contudo, sugere-se que o "serviço" de Elyaqîm terminou mal… Um comentarista que conheceu a actividade ulterior
de Elyaqîm retomou a imagem da "estaca" para construir uma crítica à sua venalidade: nessa "estaca" penduraram-se e apoiaram-se todos os familiares de Elyaqîm (os nobres que pertenciam à família, os filhos e os netos) e a "estaca" acabou por cair, arrastando na queda todos aqueles que a ela se seguravam (cf. Is 22,24-25).
Porque é que esta história privada, este "fait divers" doméstico, nos é hoje proposto como Palavra de Deus? Uma dupla história de corrupção e de venalidade é assim tão importante?
Ela prepara-nos para entender melhor o Evangelho que nos é hoje proposto. Define em que consiste o verdadeiro serviço "das chaves", o serviço da autoridade: ser um pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir das seguintes questões:
• O texto convida-nos a uma reflexão sobre a lógica e o sentido do poder… Sugere que o poder é um serviço à comunidade. Quem exerce o poder, deverá fazê-lo com a solicitude, o cuidado, a bondade, a compreensão, a tolerância, a misericórdia, e também com a firmeza com que um pai conduz e orienta os seus filhos. Nessa perspectiva, o serviço da autoridade não é uma questão de poder, mas é uma questão de amor. Será impensável considerar que alguém pode desempenhar com êxito cargos de responsabilidade, se não for guiado pelo amor. É esta mesma lógica que os cristãos devem exigir, seja no exercício do poder civil, seja no exercício do poder no âmbito da comunidade cristã.
• O exercício do poder, quer para Shebna, quer para Elyaqîm, aparece associado à corrupção, à venalidade, ao aproveitamento do serviço da autoridade para a concretização de finalidades egoístas, interesseiras, pessoais. A Palavra de Deus que nos é proposta vai em sentido contrário: o exercício do poder só faz sentido enquanto está ao serviço do bem comunitário… O exercício de um cargo público supõe, precisamente, a secundarização dos interesses próprios em benefício do bem comum.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 137 (138)

Refrão 2: Pela vossa misericórdia,
não nos abandoneis, Senhor.
De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças
porque ouvistes as palavras da minha boca.
Na presença dos Anjos Vos hei-de cantar
e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.
Hei-de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade,
porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa.
Quando Vos invoquei, me respondestes,
aumentastes a fortaleza da minha alma.
O Senhor é excelso e olha para o humilde,
ao soberbo conhece-o de longe.
Senhor, a vossa bondade é eterna,
não abandoneis a obra das vossas mãos.
LEITURA II – Rom 11,33-36

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!
Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?
D'Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amen.
AMBIENTE
Nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos, Paulo reflecte sobre a questão do acesso de Israel à salvação. A questão aí abordada é a seguinte: Israel rejeitou oferta da salvação que Deus fez aos homens, através de Jesus Cristo; isso significa que Israel está, definitivamente, arredado da salvação?
Paulo não concorda. Ele acha que Deus – esse Deus que prometeu a salvação a Israel – não pode ser infiel às suas promessas. Talvez Ele tenha deixado que Israel, num primeiro momento, recusasse a salvação, para que os gentios pudessem beneficiar dos dons de Deus… Deus "escreve direito por linhas tortas" e pode ter permitido algo de aparentemente mau, para daí tirar um bem maior.
De resto, Israel foi, desde os primeiros instantes da sua existência, chamado a ser o Povo de Deus; e esse chamamento é irrevogável. O Povo eleito, chamado por Deus desde os seus inícios, não pode deixar de ser objecto especial da misericórdia de Deus.
O texto que nos é hoje proposto é a conclusão da reflexão de Paulo. Trata-se de um belíssimo hino de louvor, de reconhecimento e de adoração que exalta o desígnio salvador de Deus.
MENSAGEM
Depois de reflectir sobre o projecto salvífico de Deus e de ter tentado perceber o lugar de Israel nesse projecto Paulo, abismado, contempla a riqueza de Deus, a sabedoria de Deus e a ciência de Deus (vers. 33). Estas três qualidades de Deus conduzem, depois, às exclamações e interrogações que preenchem o resto do hino (vers. 34-36).
Fundamentalmente, Paulo reconhece que os desígnios de Deus são misteriosos e ultrapassam infinitamente a capacidade de compreensão e de entendimento do homem. Deus é sempre "mais" do que aquilo que o homem possa imaginar: mais sábio, mais poderoso, mais misericordioso… Ao homem resta reconhecer a sua própria pequenez, os seus próprios limites, a sua própria finitude, a sua própria incapacidade de compreender totalmente esse Deus desconcertante e incompreensível. Mesmo quando as coisas parecem não fazer sentido (porque a lógica de Deus é completamente diferente da lógica dos homens), ao homem resta atirar-se com confiança para os braços de Deus, acolher humildemente a sua Palavra e procurar seguir, com simplicidade e amor os seus caminhos…
O verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender o alcance total dos projectos de Deus, se entrega confiadamente nas suas mãos e deixa que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem num hino de louvor: "glória a Deus para sempre. Amén".
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar as seguintes questões:
• Antes de mais, o nosso texto convida-nos a reflectir sobre Deus… Convida-nos a mergulhar no seu mistério, a reconhecer a sua riqueza, sabedoria e ciência; convida-nos a reconhecer a nossa incapacidade de entender cabalmente os seus projectos; convida-nos a perceber que Deus, na sua infinita sabedoria, nos ultrapassa completamente. Por isso, precisamos de ter cuidado com as imagens de Deus que criamos e que apresentamos… O nosso Deus não é um Deus "domesticado" pelo homem, previsível, fantoche, lógico pelos padrões humanos, que se encaixa nas teorias de uma qualquer igreja ou catequese… O verdadeiro crente n&a
tilde;o é aquele que "sabe" tudo sobre Deus, que tem respostas feitas sobre Ele, que pretende conhecê-l'O perfeitamente e dominá-l'O; mas é aquele que, com honestidade e verdade, mergulha na infinita grandeza de Deus, abisma-se na contemplação do seu mistério, entrega-se confiadamente nas suas mãos… e deixa que o seu espanto e admiração se transformem num cântico de adoração e de louvor.
• Esse Deus omnipotente, que nunca conseguiremos definir, controlar e explicar não é um concorrente ou um adversário do homem, preocupado em afirmar a sua grandeza e omnipotência à custa da humilhação do homem… Mas é um pai, preocupado com a felicidade dos seus filhos e com um projecto de salvação que Ele pretende que os homens acolham. É verdade que muitas vezes não percebemos o alcance desse projecto; mas se virmos em Deus, não um concorrente mas um pai cheio de amor, aprenderemos a não nos fecharmos no orgulho e na auto-suficiência e a acolhermos, com gratidão, os seus dons – como um menino que recebe do pai a vida, o alimento, o afecto, o amor.
ALELUIA – Mt 16,18

Aleluia. Aleluia.
Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Evangelho: Mt 16,13-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»
Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos
que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias.
AMBIENTE
O Evangelho deste domingo situa-nos no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, em Cesareia de Filipe (na zona da actual Bânias). A cidade tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.
O episódio que nos é proposto ocupa um lugar central no Evangelho de Mateus. Aparece num momento de viragem, quando começa a perfilar-se no horizonte de Jesus um destino de cruz. Depois do êxito inicial do seu ministério, Jesus experimenta a oposição dos líderes e um certo desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida, senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos.
É, então, que Jesus dirige aos discípulos uma série de perguntas sobre si próprio. Não se trata, tanto, de medir a sua quota de popularidade; trata-se, sobretudo, de tornar as coisas mais claras para os discípulos e confirmá-los na sua opção de seguir Jesus e de apostar no Reino.
O relato de Mateus é um pouco diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas (nomeadamente Marcos – cf. Mc 8,27-30). Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, acrescentando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro.
MENSAGEM
O nosso texto pode dividir-se em duas partes. A primeira, de carácter mais cristológico, centra-se em Jesus e na definição da sua identidade. A segunda, de carácter mais eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.
Na primeira parte (vers. 13-16), Jesus interroga duplamente os discípulos: acerca do que as pessoas dizem dele e acerca do que os próprios discípulos pensam.
A opinião dos "homens" vê Jesus em continuidade com o passado ("João Baptista", "Elias", "Jeremias" ou "algum dos profetas"). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos "homens", Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d'Ele (vers. 13-14). É muito, mas não é o suficiente: significa que os "homens" não entenderam a novidade do Messias, nem a profundidade do mistério de Jesus.
A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo" (vers. 16). Nestes dois títulos resume-se a fé da Igreja de Mateus e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é "o Cristo" (Messias) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o "Filho de Deus". No Antigo Testamento, a expressão "Filho de Deus" é aplicada aos anjos (cf. Dt 32,8; Sal 29,1; 89,7; Job 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Os 11,1; Jer 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt 14,1-2; Is 1,2; 30,1.9; Jer 3,14), ao rei (cf. 2 Sm 7,14) e ao Messias/rei da linhagem de David (cf. Sal 2,7; 89,27). Designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o "Filho de Deus" significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza os projectos do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.
Na segunda parte (vers. 17-20), temos a resposta de Jesus à confissão de fé da comunidade dos discípulos, apresentada pela voz de Pedro. Jesus começa por felicitar Pedro (isto é, a comunidade) pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus ("não foram a carne e o sangue q
ue to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus" – vers. 17). Pedro (os discípulos) pertence a essa categoria dos "pobres", dos "simples", abertos à novidade de Deus, que têm um coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (esses "pobres" e "simples" estão em contraposição com os líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas suas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).
O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é "a rocha" (o nome "Pedro" é a tradução grega do hebraico "Kephâ" – "rocha") sobre a qual a Igreja de Jesus vai ser construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé precedente. Mateus está, portanto, a afirmar que a base firme e inamovível sobre a qual vai assentar a Ekklesia de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.
Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe "as chaves do Reino dos céus" e o poder de "ligar e desligar". A entrega das chaves equivale à nomeação do "administrador do palácio" de que falava a primeira leitura: o "administrador do palácio", entre outras coisas, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano… Por outro lado, a expressão "atar e desatar" designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para "administrador" e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (atenção: todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos).
Trata-se, aqui, de confiar a um homem (Pedro) um primado, um papel de liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos? Ou Pedro é, aqui, um discípulo que dá voz a todos aqueles que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos? É difícil, a partir deste texto, fazer afirmações concludentes e definitivas. O poder de "ligar e desligar", por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt 18,18). Provavelmente, o mais correcto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada essa comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o "Messias" e o "Filho de Deus". É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro fosse uma figura de referência para os primeiros cristãos e que desempenhasse um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que o Evangelho de Mateus se destina).
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes dados:
• Quem é Jesus? O que é que "os homens" dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável "mestre" de moral, que tinha uma proposta de vida "interessante", mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenómeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingénuo e inconsequente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o "status quo". Estas visões apresentam Jesus como "um homem" – embora "um homem" excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi, apenas, um "homem" que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?
• Para os discípulos, Jesus foi bem mais do que "um homem". Ele foi e é "o Messias, o Filho de Deus vivo". Defini-l'O dessa forma significa reconhecer em Jesus o Deus que o Pai enviou ao mundo com uma proposta de salvação e de vida plena, destinada a todos os homens. A proposta que Ele apresentou não é apenas uma proposta de "um homem" bom, generoso, clarividente, que podemos admirar de longe e aceitar ou não; mas é uma proposta de Deus, destinada a tornar cada homem ou cada mulher uma pessoa nova, capaz de caminhar ao encontro de Deus e de chegar à vida plena da felicidade sem fim. A diferença entre o "homem bom" e o "Messias, Filho de Deus", é a diferença entre alguém a quem admiramos e que é igual a nós, e alguém que nos transforma, que nos renova e que nos encaminha para a vida eterna e verdadeira.
• "E vós, quem dizeis que Eu sou?" É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim?
• É sobre a fé dos discípulos (isto é, sobre a sua adesão ao Cristo libertador e salvador, que veio do Pai ao encontro dos homens com uma proposta de vida eterna e verdadeira) que se constrói a Igreja de Jesus. O que é a Igreja? O nosso texto responde de forma clara: é a comunidade dos discípulos que reconhecem Jesus como "o Messias, o Filho de Deus". Que lugar ocupa Jesus na nossa experiência de caminhada em Igreja? Porque é que estamos na Igreja: é por causa de Jesus Cristo, ou é por outras causas (tradição, inércia, promoção pessoal…)?
• A Igreja de Jesus não existe, no entanto, para ficar a olhar para o céu, numa contemplação estéril e inconsequente do "Messias, Filho de Deus"; mas existe para O testemunhar e para levar a cada homem e a cada mulher a proposta de salvação que Cristo veio oferecer. Temos consciência desta dimensão "profética" e missionária da Igreja? Os homens e as mulheres com quem contactamos no dia a dia – em casa, no emprego, na escola, na rua, no prédio, nos acontecimentos sociais – recebem de nós este anúncio e este convite a integrar a comunidade da salvação?
• A comunidade dos discípulos é uma comunidade organizada e estruturada, onde existem pessoas que presidem e que desempenham o serviço da autoridade. Essa autoridade não é, no entanto, absoluta; mas é uma autoridade que deve, constantemente, ser amor e serviço. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que Ele lança aos discípulos e a todos os homens.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 21º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. ACLAMAR O FILHO DE DEUS VIVO.
A Boa Nova deste domingo convida a dar uma atenção particular à profissão de fé. Poder-se-ia dar um maior destaque à aclamação ao Evangelho. O presidente apresenta o Evangeliário aberto à assembleia, dizendo: "Senhor Jesus, cremos que tens palavras de vida eterna!" A assembleia retoma o refrão, cantando: "Louvor e glória a Ti, Senhor Jesus" (ou outro refrão). Depois: "Senhor Jesus, cremos que és o Salvador de todos os homens" e refrão. E finalmente: "Senhor Jesus, cremos que és o Caminho, a Verdade e a Vida" e refrão.
3. INSISTIR NA PROFISSÃO DE FÉ.
Como eco ao texto do Evangelho (confissão de fé de Pedro), pode-se insistir particularmente na profissão de fé. Poder-se-á tomar a do tipo pergunta/resposta: profissão de fé baptismal ou uma das propostas no ritual da confirmação. Recorde-se que a resposta é sempre "CREIO" e não "cremos".
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Mestre do universo, nós Te louvamos porque em todo o tempo enviaste profetas. Iluminados pelo teu Espírito, eles perceberam os sinais dos tempos. Tornados fortes pelo teu Espírito, denunciaram o mal com coragem.
Nós Te pedimos: torna-nos receptivos aos profetas do nosso tempo, suscita pastores para as nossas comunidades e para o nosso mundo.
No final da segunda leitura:
Deus, que ultrapassas infinitamente tudo o que possamos imaginar, com o apóstolo Paulo proclamamos a profundidade e a riqueza da tua sabedoria e da tua ciência. A Ti, glória eterna!
Nós Te pedimos pelos pregadores, catequistas, teólogos e mensageiros da tua Palavra. Que o teu Espírito nos eduque para a acção de graças.
No final do Evangelho:
Jesus, nosso irmão, com o apóstolo Pedro proclamamos os títulos que revelam a tua natureza e a tua missão: Filho do homem, novo Elias, grande Profeta, Messias, Filho do Deus vivo. Nós Te bendizemos!
Nós Te pedimos pela tua Igreja, pelo sucessor de Pedro e por todos os bispos a quem confias as chaves do teu Reino.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I, que nomeia os Apóstolos e em particular Pedro, de quem o Evangelho de hoje fala da confissão de fé.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
«Para vós, quem sou Eu?» Tomemos tempo para colocar esta questão a nós mesmos, no real muito concreto das nossas existências. Quem é Jesus para nós? E que "dizemos" d'Ele – ou não dizemos – quando se apresenta ocasião para testemunhar a nossa fé?
20º Domingo do Tempo Comum
Tema do 20º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum reflecte sobre a universalidade da salvação. Deus ama cada um dos seus filhos e a todos convida para o banquete do Reino.
Na primeira leitura, Jahwéh garante ao seu Povo a chegada de uma nova era, na qual se vai revelar plenamente a salvação de Deus. No entanto, essa salvação não se destina apenas a Israel: destina-se a todos os homens e mulheres que aceitarem o convite para integrar a comunidade do Povo de Deus.
O Evangelho apresenta a realização da profecia do Trito-Isaías, apresentada na primeira leitura deste domingo. Jesus, depois de constatar como os fariseus e os doutores da Lei recusam a sua proposta do Reino, entra numa região pagã e demonstra como os pagãos são dignos de acolher o dom de Deus. Face à grandeza da fé da mulher cananeia, Jesus oferece-lhe essa salvação que Deus prometeu derramar sobre todos os homens e mulheres, sem excepção.
A segunda leitura sugere que a misericórdia de Deus se derrama sobre todos os seus filhos, mesmo sobre aqueles que, como Israel, rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções dos homens; mas não desiste de propor, em todos os momentos e a todos os seus filhos, oportunidades novas de acolher essa salvação que Ele quer oferecer.
LEITURA I – Is 56,1.6-7

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor:
«Respeitai o direito, praticai a justiça,
porque a minha salvação está perto
e a minha justiça não tardará a manifestar-se.
Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor
para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos,
se guardarem o sábado, sem o profanarem,
se forem fiéis à minha aliança,
hei-de conduzi-los ao meu santo nome,
hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração.
Os seus holocaustos e os seus sacrifícios
serão aceites no meu altar,
porque a minha casa
será chamada casa de oração para todos os povos».
AMBIENTE
A primeira leitura deste domingo faz parte de um bloco de textos a que se convencionou chamar "Trito-Isaías" (cfr. Is 56-66). Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém, entre os retornados da Babilónia, nos anos 537-520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de uma pluralidade de autores, e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente entre os séc. VI e V a.C.). Estamos, em qualquer caso, na época pós-exílica.
Não é uma época fácil. Os retornados estão desiludidos, pois a tarefa da reconstrução apresenta-se demorada e difícil. O país está arruinado, as cidades destruídas e desabitadas, os campos incultos e abandonados. Os ricos bem depressa começam a oprimir os pobres e a esmagar os humildes. Do ponto de vista religioso, o ambiente caracteriza-se pela incompreensão dos planos de Deus, pelo cepticismo e desconfiança, por um culto meramente exterior e pelo retorno às práticas idolátricas. Nesta fase, desempenham um papel fundamental o sacerdote Josué e o governador Zorobabel, responsáveis pelos trabalhos de reconstrução do Templo.
Como é que os regressados a Jerusalém se relacionam, nesta fase, com os outros povos? A resposta não é clara, até porque não conhecemos bem este período da história do Povo de Deus. Alguns textos desta época mostram uma certa abertura à universalidade, sugerindo que o exílio, ao permitir o contacto com outras realidades culturais e religiosas, levou o Povo de Deus a uma certa tolerância para com as outras nações… No entanto, outros textos da época manifestam um fechamento cada vez mais acentuado (além da experiência dramática do exílio, a oposição dos povos vizinhos na altura em que os retornados tentam reconstruir Jerusalém aumenta a desconfiança em relação aos estrangeiros), que culminará na política xenófoba de Esdras e Neemias, na segunda metade do séc. V a.C. (os casamentos mistos entre judeus e estrangeiros são anulados e proibidos – cf. Esd 9,1-10,44; Nee 13,23-31).
Não podemos situar exactamente, em termos cronológicos, o texto que nos é proposto. Provavelmente, ele aparece nos primeiros decénios após o exílio, quando a comunidade discute se os eunucos e os estrangeiros devem ou não integrar a comunidade do Povo de Deus (cf. Is 56,3). De qualquer forma, o texto leva-nos coloca-nos, sem dúvida, nesse ambiente – rico de desafios, mas cheio de contradições – da época pós-exílica.
MENSAGEM
A essa comunidade desiludida e decepcionada, o profeta anuncia que está para chegar um tempo novo. O que caracterizará essa nova era é a presença na comunidade do Povo de Deus da salvação e da justiça.
A comunidade precisa, no entanto, de se preparar para receber o dom de Deus. Como? Guardando o direito e praticando a justiça ("mishpat" e "zedaqa" – as decisões justas dos tribunais, que fundamentam uma recta ordem social).
Até aqui, a "promessa" não apresenta nada de verdadeiramente novo. A "justiça" foi pregada e anunciada, vezes sem conta (com estas mesmas palavras ou com outras semelhantes), por todos os profetas de Israel…
A verdadeira novidade aparece a seguir… A salvação que Deus vai oferecer não se destina apenas a Israel, mas também aos estrangeiros. Trata-se de uma espantosa revolução no universo religioso do Povo de Deus.
Para os autores do livro do Deuteronómio, os estrangeiros deveriam ser vencidos e votados à destruição; Israel não podia jamais fazer qualquer pacto, nem aceitar qualquer aliança matrimonial com eles. Os altares dos povos estrangeiros deveriam ser destruídos, os seus monumentos quebrados, os seus postes sagrados cortados, os seus ídolos queimados no fogo. Se Israel não procedesse dessa forma e tolerasse os estrangeiros, a cólera de Jahwéh inflamar-se-ia contra o seu Povo e exterminá-lo-ia rapidamente (cf. Dt 7,2-5).
Agora, é o próprio Deus que quer oferecer a sua salvação a todos os povos, inclusive aos estrangeiros. O que é necessário aos estrangeiros para entrarem na comunidade do Povo de Deus ("os estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos" – vers. 6)? Duas coisas: "guardarem o sábado, sem o profanarem" e serem "fiéis à Aliança". Serão, então, membros de pleno direito da comunidade do Povo de Deus. Participarão plenamente na vida litúrgica do Povo de Deus e o próprio Jahwéh os conduzirá ao Templo, onde poderão oferecer holocaustos e sacrifícios, como os israelitas. O Templo não será, então, um condomínio fechado a que só
Israel tem acesso, mas será a "casa de oração para todos os povos" (esta perspectiva deve ter conhecido uma tal dificuldade para se firmar em Israel que, mesmo na época neo-testamentária, os estrangeiros que visitavam Jerusalém não podiam passar da esplanada exterior do Templo – o "átrio dos gentios" – e em nenhum caso podiam penetrar no "átrio dos israelitas").
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir dos seguintes dados:
• Também nós vivemos num mundo de contradições. Por um lado, o intercâmbio de ideias, de experiências, de notícias, o contacto fácil, rápido e directo com qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, contribuem para nos abrir horizontes, para nos ensinar o respeito pela diferença, para nos fazer descobrir a riqueza de cada povo e de cada cultura… Por outro lado, o egoísmo, a auto-suficiência, o medo dos conflitos sociais, o sentimento de que um determinado estilo de vida pode estar ameaçado, provocam o racismo e a xenofobia e levam-nos a fechar as portas àqueles que querem cruzar as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida… Não é, evidentemente, uma questão simples e que possa ser objecto de demagogia… No entanto, o nosso Deus convida-nos a abrir o nosso coração à universalidade, à diferença. Os outros homens e mulheres – estrangeiros, diferentes, com outra cor de pele, com outra língua, com outros valores ou com outra religião – são irmãos nossos, que devemos acolher e amar.
• A Igreja é a comunidade do Povo de Deus. Todos os seus membros são filhos do mesmo Deus e irmãos em Jesus, embora pertençam a raças diferentes, a culturas diferentes e a extractos sociais diferentes. No entanto: todos são lá acolhidos da mesma forma? O rico e o pobre são sempre tratados da mesma forma nas recepções das nossas igrejas? Aqueles que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorrectos são sempre tratados com amor e acolhidos com respeito nas nossas comunidades cristãs, ou são tratados como cristãos de segunda?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão: Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.
Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação.
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu temor aos confins da terra.
LEITURA II – Rom 11,13-15.29-32
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
É a vós, os gentios, que eu falo:
Enquanto eu for Apóstolo dos gentios,
procurarei prestigiar o meu ministério
a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça
e salvo alguns deles.
Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo,
o que será a sua reintegração
senão uma ressurreição de entre os mortos?
Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis.
Vós fostes outrora desobedientes a Deus
e agora alcançastes misericórdia,
devido à desobediência dos judeus.
Assim também eles desobedeceram agora,
devido à misericórdia que alcançastes,
para que, por sua vez,
também eles alcancem agora misericórdia.
Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência,
para usar de misericórdia para com todos.
AMBIENTE
Continuamos, com Paulo, a reflectir a questão posta pela segunda leitura do passado domingo… Israel, apesar de ser o Povo de eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou a salvação que Cristo veio oferecer. Que lhe acontecerá, então? Ficará, devido a essa recusa, à margem da salvação?
Vimos como esse problema afectava Paulo e como o fazia sofrer. Na introdução a esta questão (cf. Rom 9,1-5), Paulo confessava a sua dor e tristeza ao ver o seu povo obstinado na recusa da vida nova de Deus. Paulo admitia, até, aceitar ser separado – ele próprio – de Cristo, se isso servisse para que o Povo judeu aceitasse a salvação que Deus não desiste de lhe oferecer.
A desilusão e a tristeza de Paulo significarão a convicção de que não há mais saída, que Israel vai manter-se fechado aos dons de Deus e que está, definitivamente, à margem da salvação? Deus terá rejeitado o seu Povo?
De modo nenhum. Paulo vai, aliás, constatar que a questão não está encerrada. Em primeiro lugar, porque uma parte (uma parte pequena, um "resto") de Israel aderiu a Jesus (cf. Rom 11,1-6) e entrou na comunidade do Reino (o próprio Paulo faz parte desse grupo); em segundo lugar, porque o endurecimento de Israel face à oferta de salvação feita por Deus já estava prevista na Escritura e insere-se, certamente, nos planos de Deus (cf. Rom 11,7-10).
De resto, a recusa de Israel fez com que o Evangelho fosse proposto aos gentios (cf. Rom 11,11-12). Há males que vêm por bem; Deus escreve direito por linhas tortas…
MENSAGEM
Entretanto, Paulo continua o seu ministério entre os gentios, com a esperança de que os israelitas sintam ciúmes e acolham os dons de Deus (vers. 13-14).
De resto, Paulo está convencido de que, um dia, todo o Israel será salvo. Assim será, não só porque está anunciado na Escritura (cf. Rom 11,26-27), mas sobretudo porque Deus permanece fiel às suas promessas.
Da sua parte, os gentios não têm nada que se sentir superiores aos israelitas. Israel foi chamado por Deus desde os seus inícios e o chamamento de Deus é irrevogável (vers. 29). Os gentios, que antes estavam longe de Deus, agora tiveram acesso à sua graça; e os judeus, que agora se afastaram dos dons de Deus, hão-de também alcançar a graça. Parece enquadrar-se tudo no projecto salvífico de um Deus que permitiu que todos sejam rebeldes, a fim de sobre todos deixar cair a sua misericórdia. E Israel, o Povo eleito, chamado por Deus desde os seus inícios, não pode deixar de ser objecto especial da misericórdia de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:
• Em primeiro lugar, o nosso texto convida-nos a ter sempre presente que a misericórdia de Deus não abandona nenhum dos seus filhos, mesmo aqueles que numa determinada fase da caminhada rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções livres dos homens; mas não desiste de propor oportunidades infindáveis de salvação, que só esperam o "sim" do homem.
• Em segundo lugar, o nosso text
o sugere que "Deus escreve direito por linhas tortas". Do mal, Ele é sempre capaz de retirar o bem (se os judeus – com a sua mentalidade fechada aos estrangeiros e com a sua mentalidade de que a salvação era uma proposta exclusiva, só a eles destinada – tivessem aderido em massa ao Evangelho, dificilmente teriam aceite que a proposta de salvação se tornasse universal). Aquilo que, muitas vezes, nos parece ilógico e sem sentido, talvez faça parte dos projectos de Deus – projectos que nem sempre conseguimos entender e enquadrar nos nossos esquemas mentais. Temos de aprender a confiar em Deus e na forma como Ele dirige a história, mesmo quando não conseguimos entender os seus projectos.
• Em terceiro lugar, o nosso texto convida-nos – implicitamente – a não nos arvorarmos em juízes dos nossos irmãos. Por um lado, porque o comportamento tolerante de Deus nos convida a uma tolerância semelhante; por outro, porque aquilo que nos parece estranho e reprovável pode fazer parte, em última análise, dos projectos de Deus.
ALELUIA – cf. Mt 4,2

Aleluia. Aleluia.
Jesus proclamava o evangelho do reino
e curava todas as doenças entre o povo.
EVANGELHO – Mt 15,21-28

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores,
começou a gritar:
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.
Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.
Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe:
«Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu:
«Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante d'Ele, dizendo:
«Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu:
«Não é justo que se tome o pão dos filhos
para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela replicou:
«É verdade, Senhor;
mas também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então Jesus respondeu-lhe:
«Mulher, e grande a tua fé.
Faça-se como desejas».
E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.
AMBIENTE
Continuamos na secção da "instrução sobre o Reino" (cf. Mt 13,1-17,27). Depois de apresentar a pregação sobre o Reino em parábolas (cf. Mt 13,1-52), Mateus descreve a resposta dos interlocutores de Jesus à proposta que lhes foi transmitida (cf. Mt 14,1-17,27).
De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt 15,1-9; 16,1-4.5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Começa a tornar-se, cada vez mais claro, que a comunidade judaica não está disposta a acolher a proposta de Jesus.
O episódio que nos é proposto é, precisamente, antecedido de um confronto entre Jesus, por um lado, os fariseus e doutores da Lei, por outro, por causa das tradições judaicas (cf. Mt 15,1-9). Em ruptura com os fariseus e os doutores da Lei, Jesus "retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e de Sídon". A recusa de Israel em acolher a proposta do Reino vai fazer com que a pregação de Jesus se dirija para fora das fronteiras de Israel. A comunidade dos discípulos – esse grupo que escutou atentamente a proposta do Reino e a acolheu – acompanha Jesus.
O episódio narrado no Evangelho deste domingo situa-nos na "região de Tiro e Sídon". Diante de Jesus apresenta-se uma mulher "cananeia". O apelativo "cananeia" designa, no Antigo Testamento, uma mulher pagã (neste caso, trata-se de uma mulher fenícia, provavelmente residente na região de Tiro e Sídon).
A Fenícia não era, aos olhos dos judeus, uma região "recomendável". De lá tinham vindo, frequentemente, exércitos inimigos; de lá tinham vindo, muitas vezes, influências religiosas nefastas, que afastavam os israelitas da fé em Jahwéh e os levavam a correr atrás dos deuses cananeus. A famosa Jezabel, mulher do rei Acab, que potenciou o culto a Baal e Asserá (meados do séc. IX a.C., na época do profeta Elias) e que tão má memória deixou entre os fiéis a Jahwéh era filha de um rei de Sídon. Não admira, portanto, que os fariseus e doutores da Lei, defensores intransigentes da Lei e da pureza da fé, considerassem os habitantes dessa zona como "cães" (designação que, para os judeus, tinha um sentido altamente pejorativo).
O apelo da mulher fenícia vai no sentido de que ela possa, também, ter acesso a essa salvação que Jesus veio propor. Jesus passará por cima dos preconceitos religiosos dos judeus e oferecerá a salvação a esta pagã? Uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e, ainda por cima, "mulher") merecerá a graça da salvação?
MENSAGEM
Consideremos, em primeiro lugar, a figura da mulher fenícia… As suas três intervenções mostram, por um lado, a sua ânsia de salvação; e, por outro, a fé firme e convicta que a anima (as designações "filho de David" – que equivale a "Messias" – e "Senhor" – "Kyrios" – com que ela se dirige a Jesus, lidas em contexto cristão, equivalem a uma confissão de fé). É uma figura que nos impressiona pela fé, pela humildade e também pelo sofrimento que transparece no seu apelo.
Surpreende-nos depois, numa primeira leitura, a forma dura como Jesus trata esta mulher que pede ajuda. Ele começa por passar em silêncio, aparentemente insensível aos apelos da mulher (vers. 23). Depois, perante a insistência dos discípulos, responde: "não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (vers. 24). Finalmente, diante do dramático último apelo da mulher ("socorre-me, Senhor"), responde: "não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cães" (vers. 26).
Como entender esta atitude rude e insensível do mestre galileu, sempre preocupado em traduzir em gestos concretos o amor e a misericórdia de Deus pelos homens? A reacção de Jesus será fruto da convicção de que, de acordo com o plano de Deus, a salvação devia derramar-se, em primeiro lugar, pelos judeus, antes de alcançar os gentios?
A atitude de Jesus faz sentido, se a virmos como uma estratégia pedagógica, destinada a mostrar o sem sentido dos preconceitos judaicos contra os pagãos. Jesus conduziu o jogo de forma a demonstrar como eram ridículas as atitudes de discriminação dos pagãos, propostas pela catequese oficial judaica. Endurecendo progressivamente a sua atitude face ao apelo que
lhe foi feito pela "cananeia", Jesus dá à mulher a possibilidade de demonstrar a firmeza e a convicção da sua fé e prova aos judeus que os pagãos são bem dignos – talvez mais dignos do que esses "santos" membros do Povo de Deus – de se sentar à mesa do Reino. Esta mulher, na sua humildade, nem sequer reivindica equiparar-se a esse Povo eleito, convidado por Deus para o banquete do Reino… Ela está disposta a ficar apenas com "as migalhas" que caem da mesa (vers. 27); mas pede insistentemente que lhe permitam ter acesso a essa salvação que Jesus traz. Ao contrário, os fariseus e doutores da Lei, fechados na sua auto-suficiência e nos seus preconceitos, rejeitam continuamente essa salvação que Jesus não cessa de lhes oferecer.
No final de toda esta caminhada de afirmação da "bondade" e do "merecimento" desses pagãos que a teologia oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: "Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas". A afirmação de Jesus significa: "na verdade tu estás disposta a acolher-Me como o enviado do Pai e a aceitar o pão do Reino, o pão com que Deus mata a fome de vida de todos os seus filhos. Recebe essa salvação que se destina a todos aqueles que têm o coração aberto aos dons de Deus".
É possível que Mateus esteja, nesta catequese, a responder a uma situação concreta da sua comunidade… Nos finais do século primeiro (o Evangelho segundo Mateus aparece durante a década de oitenta), alguns judeo-cristãos ainda tinham dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja de Jesus. Mateus recorda-lhes, então, que para Jesus o que é decisivo não é a raça, a história, a eleição, mas a adesão firme e convicta à proposta de salvação que, em Jesus, Deus faz aos homens.
O texto mostra que a proposta de Jesus é para todos. A comunidade de Jesus é, verdadeiramente, uma comunidade universal. Aquilo que é decisivo, no acesso à salvação, é a fé – isto é, a capacidade de aderir a Jesus e à sua proposta de vida.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir dos seguintes elementos:
• A primeira questão que o nosso texto põe prende-se com a definição daquilo que é essencial na experiência cristã. Quem é que é cristão? Quem é que pode fazer parte da comunidade de Jesus? A resposta está implícita na história da mulher cananeia: torna-se membro da comunidade de Jesus quem aceita a sua oferta de salvação, quem acolhe o Reino, adere a Jesus e ao Evangelho. O que é determinante, para integrar a comunidade do Reino, não é a raça, a cor da pele, o local de nascimento, a tradição familiar, a formação académica, a capacidade intelectual, a visibilidade social, o cumprimento de ritos, a recepção de sacramentos, a amizade com o pároco, os serviços prestados à "fábrica da igreja", mas a fé (entendida como adesão a Jesus e à sua proposta de salvação). Para mim, o que é que é ser cristão? O que está no centro da minha experiência cristã é a pessoa de Jesus e a sua proposta de salvação? Em que é que se fundamenta a minha fé?
• O exemplo da mulher cananeia leva-nos a pensar, por contraste, nesses "fariseus e doutores da Lei" que rejeitam a oferta de salvação que Deus lhes faz, em Jesus. Estão cheios de certezas, de convicções firmes, de preconceitos; mas não têm o coração aberto aos desafios que Deus lhes faz… Conhecem bem a Palavra de Deus, têm ideias definidas acerca do que Deus quer ou não quer, são orgulhosos e auto-suficientes porque se consideram um povo santo, eleito de Deus, mas não têm esse coração humilde e simples para acolher a novidade de Deus… Atenção: o verdadeiro crente é aquele que se apresenta diante de Deus numa atitude de humildade e simplicidade, acolhendo com um coração agradecido os dons de Deus e a graça da salvação. O verdadeiro crente não se barrica em certezas imutáveis ou em chavões doutrinais, mas procura descobrir, cada dia, com humildade e simplicidade, a verdade eterna de Deus e as suas propostas para o mundo e para os homens.
• Teoricamente, ninguém põe em causa que a Igreja nascida de Jesus seja uma comunidade aberta a todos os homens e mulheres, de todas as raças, culturas, classes sociais, quadrantes políticos… Na prática, será que todos encontram na Igreja um espaço de comunhão, de amor, de fraternidade? Os homens e as mulheres, os casados e os divorciados, os pobres e os ricos, os instruídos e os analfabetos, os conhecidos e os desconhecidos, os bons e os maus, os novos e os velhos, todos são acolhidos na comunidade cristã sem discriminação e todos são convidados a pôr a render, para benefício dos irmãos, os talentos que Deus lhes deu? Independentemente do que os documentos da Igreja dizem, do que o Papa ou os bispos dizem, o que é que eu faço para que a minha comunidade cristã seja um espaço de fraternidade, onde todos se sentem acolhidos e amados?
• Como a primeira leitura, também o Evangelho sugere uma reflexão sobre a forma como acolhemos o estrangeiro, o irmão diferente, o "outro" que, por razões políticas, económicas, sociais, laborais, culturais, turísticas, vem ao nosso encontro. Se Deus não discrimina ninguém, mas aceita acolher à sua mesa todos os homens e mulheres, sem distinção, porque não havemos de proceder da mesma forma? Particular cuidado e atenção devem merecer-nos os imigrantes que não falam a nossa língua, que não têm casa, que não têm trabalho, que sentem a ausência da família e dos amigos, que são perseguidos pelas redes que exploram o trabalho escravo… O convite que Deus nos faz é que vejamos em cada pessoa um irmão, independentemente das diferenças de cor da pele, de nacionalidade, de língua ou de valores.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 20º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 20º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. ACOLHER.
Ainda em ambiente pela proximidade da Solenidade da Assunção, a liturgia deste domingo deve primar pela simplicidade. Procure-se dar uma atenção particular ao acolhimento. Dar atenção àqueles que participam nesta celebração e que habitualmente não estão, porque vieram doutras terras em tempo de férias. Se há estrangeiros, o celebrante procure dirigir-lhes algumas palavras na sua própria língua.
3. FAVORECER O SILÊNCIO.
Para favorecer os momentos de silêncio na liturgia da missa, procure-se, antes de cada leitura, deixar um tempo de silêncio entre a primeira leitura e o salmo, entre o salmo e a segunda leitura, entre a segunda leitura e a aclamação ao Evangelho, depois da homilia. Se há lugar a uma breve introdução antes de cada leitura, procure-se deixar um tempo de silêncio entre a introdução e a proclamação do texto bíblico, de modo a distinguir com clareza uma e outra.
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te bendizemos, Deus nosso Pai. Desde as primeiras alianças deste a conhecer o teu amor sem fronteiras. Ninguém está excluído da tua escolha, abres as portas do teu Reino a todo o homem justo.
Dissipa dos nossos corações a tendência em seleccionar sem razão e em excluir injustamente, abre os nossos espíritos a todos os nossos irmãos.
No final da segunda leitura:
Deus, Pai da humanidade, os teus dons e o teu apelo são irrevogáveis, a tua misericórdia estende-se a todos os homens, Tu envias os teus profetas, os teus apóstolos e os teus missionários a todos os povos da terra. Nós Te bendizemos.
Pelo teu Espírito Santo, volta para Ti os nossos corações, apoia os teus mensageiros, prepara os povos que ainda estão longe de Ti para escutar o teu Evangelho.
No final do Evangelho:
Jesus, irmão de todos os homens, o teu coração é acolhedor para todos os nossos sofrimentos, distribuis muito mais que migalhas, dás generosamente o pão da vida. Bendito sejas.
Confirma a nossa confiança em Ti. Que o teu Espírito nos dê a audácia de nos confiar a Ti em qualquer circunstância, na alegria e no sofrimento.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I das Assembleias com Crianças, que tem uma simplicidade de tom na sua intercessão que recorda a da cananeia.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Os "estrangeiros"… Na caminhada da próxima semana e das nossas férias, marcar os nossos comportamentos para com aqueles que são "estrangeiros" de uma maneira ou de outra: raça, cultura, meio social, religião… Verificar o lugar que lhes damos no segredo do nosso coração: como nossos irmãos diante do nosso Pai… ou como vagabundos de passagem que deverão contentar-se com as migalhas?…
19º Domingo do Tempo Comum
Tema do 19º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum tem como tema fundamental a revelação de Deus. Fala-nos de um Deus apostado em percorrer, de braço dado com os homens, os caminhos da história.
A primeira leitura convida os crentes a regressarem às origens da sua fé e do seu compromisso, a fazerem uma peregrinação ao encontro do Deus da comunhão e da Aliança; e garante que o crente não encontra esse Deus nas manifestações espectaculares, mas na humildade, na simplicidade, na interioridade.
O Evangelho apresenta-nos uma reflexão sobre a caminhada histórica dos discípulos, enviados à "outra margem" a propor aos homens o banquete do Reino. Nessa "viagem", a comunidade do Reino não está sozinha, à mercê das forças da morte: em Jesus, o Deus do amor e da comunhão vem ao encontro dos discípulos, estende-lhes a mão, dá-lhes a força para vencer a adversidade, a desilusão, a hostilidade do mundo. Os discípulos são convidados a reconhecê-l'O, a acolhê-l'O e a aceitá-l'O como "o Senhor".
A segunda leitura sugere que esse Deus, apostado em vir ao encontro dos homens e em revelar-lhes o seu rosto de amor e de bondade, tem uma proposta de salvação que oferece a todos. Convida-nos a estarmos atentos às manifestações desse Deus e a não perdermos as oportunidades de salvação que Ele nos oferece.
LEITURA I – 1 Reis 19,9a.11-13a

Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias,
o profeta Elias chegou ao monte de Deus, o Horeb,
e passou a noite numa gruta.
O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo:
«Sai e permanece no monte à espera do Senhor».
Então, o Senhor passou.
Diante d'Ele, uma forte rajada de vento
fendia as montanhas e quebrava os rochedos;
mas o Senhor não estava no vento.
Depois do vento, sentiu-se um terramoto;
mas o Senhor não estava no terramoto.
Depois do terramoto, acendeu-se um fogo;
mas o Senhor não estava no fogo.
Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa.
Quando o ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto,
saiu e ficou à entrada da gruta.
AMBIENTE
A nossa leitura situa-nos no Reino do Norte (Israel), durante o reinado de Acab (873-853 a.C.). No país multiplicam-se os lugares sagrados onde se adoram deuses estrangeiros. De acordo com 1 Re 16,31-33, o próprio rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Asserá e presta culto a esses deuses. Por detrás deste quadro está, provavelmente, a tentativa de Acab em abrir Israel a outras nações, a fim de facilitar o intercâmbio cultural e comercial. Mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel.
Contra estes desvios à fé tradicional, levanta-se o profeta Elias. Ele aparece como o representante desses israelitas fiéis, que recusam a substituição de Jahwéh por deuses estranhos ao universo religioso de Israel. Num episódio dramático cuja memória é conservada no primeiro Livro dos Reis, o próprio Elias desafia os profetas de Baal para um duelo religioso, que termina com o massacre de quatrocentos profetas de Baal, no monte Carmelo (cf. 1 Re 18). Esse episódio é, certamente, uma representação teológica dessa luta sem tréguas que se trava entre os fiéis a Jahwéh e os que abrem o coração às influências culturais e religiosas de outros povos.
O texto que nos é proposto como primeira leitura aparece, precisamente, na sequência do massacre do Carmelo. Jezabel, informada da morte dos profetas de Baal, promete matar Elias; e o profeta foge para o sul, a fim de salvar a vida. Atravessa o Reino do Sul (Judá), passa por Beer-Sheva e dirige-se para o deserto, em direcção ao monte Horeb/Sinai (cf. 1 Re 19,1-8). É aí que o nosso texto nos situa.
MENSAGEM
A peregrinação de Elias ao Sinai/Horeb é uma espécie de regresso aos inícios. Com Elias, é todo o Israel – esse Israel infiel à aliança, que se deixou seduzir pelos cultos cananeus – que regressa às suas origens, ao lugar do seu compromisso inicial com Deus. Israel precisa de se encontrar de novo com Jahwéh e redescobrir a sua vocação de Povo da Aliança.
A cena descrita pelo texto que nos é proposto contém uma clara alusão à revelação de Deus a Moisés (cf. Ex 19,16-17; 33,18-23; 34,5-8): assim como Deus Se revelou a Moisés no Sinai/Horeb, assim também Se revela a Elias no mesmo lugar. Dessas revelações resulta, para um e para outro, um compromisso com a Aliança… Depois de receber a revelação de Jahwéh, Moisés torna-se o instrumento através do qual Deus propõe ao Povo uma Aliança; e Elias, depois de receber a revelação de Jahwéh, torna-se o instrumento através do qual Deus relança uma Aliança ameaçada de ruptura, devido à infidelidade do Povo.
Há, no entanto, uma diferença significativa… A Moisés, Deus revelou-Se no meio de fenómenos naturais aterrorizadores ("trovões e relâmpagos", uma "pesada nuvem", o "fumo" que envolvia toda a montanha, o "fogo", o terramoto que fazia a montanha tremer – Ex 19,16-17). A Elias, Deus não Se revelou nos elementos típicos das manifestações teofânicas (o vento forte que "fendia as montanhas e quebrava os rochedos", o terramoto, o fogo); mas revelou-Se na "brisa ligeira". Diante da manifestação de Deus, Elias cumpriu o ritual adequado: "cobriu o rosto com o manto", já que o homem não pode contemplar face a face o mistério de Deus.
A intenção dos autores deuteronomistas não parece ser polemizar contra a catequese tradicional das manifestações de Deus… Parece ser, antes, distanciar Jahwéh de Baal, considerado na mitologia cananeia o deus do trovão e da tempestade, que fazia a terra tremer com a sua voz poderosa. A intenção fundamental do autor seria mostrar que Jahwéh não Se manifesta em fenómenos assombrosos e espectaculares, mas sim na intimidade, na tranquilidade, no silêncio que ecoa no coração de quem procura a comunhão com Deus.
O encontro com esse Deus que Se manifesta no silêncio, na intimidade, na simplicidade, na humildade, na interioridade do coração do homem leva à acção (num desenvolvimento que o texto que nos é hoje proposto pela liturgia não apresenta, Jahwéh confia a Elias uma missão profética – cf. 1 Re 19,15-18): o encontro com Deus conduz sempre o homem a um empenho concreto e a um compromisso com o mundo.
Com Elias, Israel é convidado a voltar aos inícios, a redescobrir as suas raízes de Povo de Deus, a reencontrar o rosto de Jahwéh (que é muito diferente dos rostos desses deuses que, todos os dias, seduzem o Povo e o af
astam dos seus compromissos), a renovar a sua Aliança com Ele, a escutar a voz de Deus que ecoa no coração de cada membro da comunidade, a aceitar dar testemunho de Deus e dos seus projectos no meio do mundo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode ter em conta os seguintes dados:
• Quem é Deus? Como é Deus? É possível provar, sem margem para dúvidas, a existência de Deus? Estas e outras perguntas já as fizemos, certamente, a nós próprios ou a alguém. Todos nós somos pessoas a quem Deus inquieta: há um "qualquer coisa" no coração do homem que o projecta para o transcendente, que o leva a interrogar-se sobre Deus e a tentar descobrir o seu rosto… No entanto, Deus não é evidente. Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, Deus não existe: não conseguimos vê-l'O com os nossos olhos, sentir o seu cheiro ou tocá-l'O com as nossas mãos. Mais ainda: nenhum instrumento científico, nenhum microscópio electrónico, nenhum radar espacial detectou jamais qualquer sinal sensível de Deus. Talvez por isso o soviético Yuri Gagarin, o primeiro homem do espaço, mal pôs os pés na terra apressou-se a afirmar que não tinha encontrado na estratosfera qualquer marca de Deus… O texto que nos é proposto convida todos aqueles que estão interessados em Deus, a descobri-l'O no silêncio, na simplicidade, na intimidade… É preciso calar o ruído excessivo, moderar a actividade desenfreada, encontrar tempo e disponibilidade para consultar o coração, para interrogar a Palavra de Deus, para perceber a sua presença e as suas indicações nos sinais (quase sempre discretos) que Ele deixa na nossa história e na vida do mundo… Tenho consciência de que preciso encontrar tempo para "buscar Deus"? De acordo com a minha experiência de procura, onde é que eu O encontro mais facilmente: na agitação e nos gestos espectaculares, ou no silêncio, na humildade e na simplicidade?
• Hoje como ontem, há outros deuses, outras propostas de felicidade, que nos procuram seduzir e atrair… Há deuses que gritam alto (em todos os canais de televisão?) a sua capacidade de nos oferecer uma felicidade imediata; há deuses que, como um terramoto, fazem tremer as nossas convicções e lançam por terra os valores que consideramos mais sagrados; há deuses que, com a força da tempestade, nos arrastam para atitudes de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de comodismo, de ódio… O nosso texto convida-nos a uma peregrinação ao encontro das nossas raízes, dos nossos compromissos baptismais… Temos, permanentemente, de partir ao encontro do Deus que fez connosco uma Aliança e que nos chama todos os dias à comunhão com Ele… Aceito percorrer este caminho de conversão? Encontro tempo para redescobrir o Deus da Aliança com quem me comprometi no dia do meu Baptismo? Quais são os falsos deuses que, às vezes, me afastam da comunhão com o verdadeiro Deus?
• Na história de Elias (e na história de qualquer profeta), a descoberta de Deus leva ao compromisso, à acção, ao testemunho… Depois de encontrar o Deus da Aliança, aceito comprometer-me com Ele? Estou disposto a cumprir a missão que Ele me confia no mundo? Estou disponível para O testemunhar no meio dos meus irmãos?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 84 (85)

Refrão: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor
e dai-nos a vossa salvação.
Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis
e a quantos de coração a Ele se convertem.
A sua salvação está perto dos que O temem
e a sua glória habitará na nossa terra.
Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,
abraçaram-se a paz e a justiça.
A fidelidade vai germinar da terra
e a justiça descerá do Céu.
O Senhor dará ainda o que é bom
e a nossa terra produzirá os seus frutos.
A justiça caminhará à sua frente
e a paz seguirá os seus passos.
LEITURA II – Rom 9,1-5

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Eu digo a verdade, não minto,
e disso me dá testemunho a consciência no Espírito Santo:
Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração.
Quisera eu próprio ser separado de Cristo
por amor dos meus irmãos,
que são do mesmo sangue que eu, que são israelitas,
a quem pertencem a adopção filial, a glória, as alianças,
a legislação, o culto e as promessas,
a quem pertencem os Patriarcas
e de quem procede Cristo segundo a carne,
Ele que está acima de todas as coisas,
Deus bendito por todos os séculos. Amen.
AMBIENTE
Depois de apresentar, nos primeiros oito capítulos da Carta aos Romanos, uma catequese sobre a salvação (apesar do pecado que submerge todos os homens e desfeia o mundo Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente a todos os homens, através de Jesus Cristo, a salvação), Paulo vai referir-se, agora, a um problema particular, mas que o preocupa a ele e a todos os cristãos: que acontecerá a Israel que, apesar de ser o Povo eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou essa salvação que Cristo veio oferecer? Israel ficará, devido a essa recusa, definitivamente à margem da salvação? Na verdade, Deus jurou ao seu Povo, em vários momentos da história, libertá-lo e salvá-lo; ora, se Israel ficar excluído da salvação, podemos dizer que Deus falhou? Podemos continuar a confiar na sua Palavra? É a estas questões que, genericamente, Paulo procura responder nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos.
O texto que nos é proposto como segunda leitura deste domingo é a introdução a esta questão.
MENSAGEM
Pelo texto perpassa a grande tristeza e dor que a questão levanta no coração de Paulo. O problema da salvação de Israel incomoda-o tanto que ele até aceitaria tornar-se "anátema" (no Antigo Testamento, o que era "anátema" devia ser totalmente destruído; no Novo Testamento, "anátema" equivale a "maldito" e implicava, quer a exclusão da comunidade do Povo de Deus, quer a maldição divina) e ser separado de Cristo, se isso servisse para que o Povo judeu aceitasse a salvação que Deus lhe oferece. Trata-se de expressões que são para levar a sério? Digamos, apenas, que são afirmações excessivas, mas que dão bem a ideia do sofrimento de Paulo e da sua preocupação com a sorte do seu Povo.
Na verdade, Israel foi adoptado por Deus, é o Povo da Aliança, da Lei, do culto, das Promessas, dos antepassados que escutaram Deus e viveram em comunhão com Ele… Israel é, até, o Povo do qual nasceu Cristo; ora, esse Cristo que "está acima de todas as coisas" deixará o seu Povo "se
gundo a carne" entregue à morte?
A leitura que nos é hoje proposta não vai mais além; mas, no conjunto da sua reflexão sobre esta questão (cf. Rom 9,1-11,36), Paulo mostrará que Deus é eternamente fiel às suas promessas e que nunca falha… Ele tem os seus planos; e a desobediência actual de Israel deverá fazer parte dos planos de Deus. Paulo acabará, no final da secção, por manifestar a sua convicção de que a misericórdia de Deus se derramará também sobre Israel.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:
• Uma das coisas que impressiona, neste texto, é a forma como Paulo sente a infelicidade do seu Povo. A obstinação de Israel em recusar a salvação fá-lo sentir "uma grande tristeza e uma dor contínua" no coração. Todos nós conhecemos irmãos – mesmo baptizados – que recusam a salvação que Deus oferece ou que, pelo menos, vivem numa absoluta indiferença face à vida plena que Deus lhes quer dar. Como nos sentimos diante deles? Ficamos indiferentes e achamos que não é nada connosco? Deixamo-nos contaminar por essa indiferença e escolhemos, como eles, caminhos de egoísmo e de auto-suficiência? Ou sentimos que é nossa responsabilidade continuar a testemunhar diante deles os valores em que acreditamos e que conduzem à vida plena e verdadeira?
• Este texto propõe-nos também uma reflexão sobre as oportunidades perdidas… Israel, apesar de todas as manifestações da bondade e do amor de Deus que conheceu ao longo da sua caminhada pela história, acabou por se instalar numa auto-suficiência que não lhe permitiu acompanhar o ritmo de Deus, nem descobrir os novos desafios que o projecto da salvação de Deus faz, em cada fase, aos homens. O exemplo de Israel faz-nos pensar no nosso compromisso com Deus… Em primeiro lugar, mostra-nos a importância de não nos instalarmos num esquema de vivência medíocre da fé e sugere que o "sim" a Deus do dia do nosso baptismo precisa de ser renovado em cada dia da nossa vida… Em segundo lugar, sugere que o cristão não pode instalar-se nas suas certezas e auto-suficiências, mas tem de estar atento aos desafios, sempre renovados, de Deus… Em terceiro lugar, sugere que o ter o nome inscrito no livro de registos da nossa paróquia não é um certificado de garantia de salvação (a salvação passa sempre pela adesão sempre renovada aos dons de Deus).
ALELUIA – Salmo 129,5
Aleluia. Aleluia.
Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l'O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».
AMBIENTE
No passado domingo, Jesus foi-nos apresentado como o novo Moisés, que conduz "ao deserto" um povo de coração escravo. Aí, liberta-o da opressão do egoísmo, ao mostrar-lhe que os bens são um dom de Deus, destinados a ser partilhados com todos os homens. Nasce, assim, a comunidade do Reino – isto é, essa comunidade fraterna de amor e de partilha, que se senta à mesa de Deus e que d'Ele recebe vida em abundância (cf. Mt 14,13-21).
O texto do Evangelho que hoje nos é proposto vem na sequência desse episódio. Mateus começa por observar que, depois desses sucessos, Jesus "obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l'O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão" (Mt 14,22). Esta nota pode indicar que Jesus quis arrefecer o entusiasmo excessivo dos discípulos (o autor do quarto Evangelho, a propósito do mesmo episódio, refere que Jesus Se retirou sozinho para o monte, pois sabia que "viriam arrebatá-l'O para O fazerem rei" – Jo 6,15).
O episódio situa-nos na área do lago de Tiberíades ou da Genesaré, esse lago de água doce com 21 quilómetros de comprimento e 12 de largura situado na Galileia e que é o grande reservatório de água doce da Palestina.
Para os judeus, o mar – e o lago de Tiberíades ou de Genesaré é considerado, para todos os efeitos, um "mar" – era o lugar onde habitavam os monstros, os demónios e todas as forças que se opunham à vida e à felicidade do homem. Na perspectiva da teologia judaica, no mar o homem estava à mercê das forças demoníacas; e só o poder de Deus podia salvá-lo…
Recordemos, ainda, que o nosso texto está incluído numa secção (cf. Mt 13,1-17,27) do Evangelho segundo Mateus, a que poderíamos chamar "instrução sobre o Reino". Aí, Mateus põe Jesus a dirigir-Se sobretudo aos discípulos e a instruí-los sobre os valores e os mistérios do Reino. É neste contexto de catequese sobre o Reino que devemos situar o episódio que hoje nos é proposto.
Lembremos, finalmente, que o Evangelho segundo Mateus – escrito durante a década de 80 – se destina a uma comunidade cristã que já esqueceu o seu entusiasmo inicial por Jesus e pelo seu Evangelho e que vive uma fé cómoda, instalada, pouco exigente. Para os crentes, avizinham-se grandes contrariedades e perseguições… A comunidade só poderá subsistir se confiar em Jesus, na sua presença, na sua protecção.
MENSAGEM
Depois de despedir a multidão e de obrigar os discípulos a embarcar para a outra margem, Jesus "subiu a um monte para orar, a sós". Mateus só se refere à oração de Jesus por duas vezes: aqui e no episódio do Getsemani (cf. Mt 26,36): em ambos os casos, a oraç
ão precede um momento de prova para os discípulos.
Enquanto Jesus está em diálogo com o Pai, os discípulos estão sozinhos, em viagem pelo lago. Essa viagem, no entanto, não é fácil nem serena… É de noite; o barco é açoitado pelas ondas e navega dificilmente, com vento contrário. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles…
O quadro refere-se, certamente, à situação da comunidade a que Mateus destina o seu Evangelho (e que não será muito diferente da situação de qualquer comunidade cristã, em qualquer tempo e lugar). A "noite" representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança em que tantas vezes "navegam" através da história os discípulos de Jesus, sem saberem exactamente que caminhos percorrer nem para onde ir… As "ondas" que açoitam o barco representam a hostilidade do mundo, que bate continuamente contra o barco em que viajam os discípulos… Os "ventos contrários" representam a oposição, a resistência do mundo ao projecto de Jesus – esse projecto que os discípulos testemunham… Quantas vezes, na sua viagem pela história, os discípulos de Jesus se sentem perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão (o "mar") lançam contra eles…
É aí, precisamente, que Jesus manifesta a sua presença. Ele vai ao encontro dos discípulos "caminhando sobre o mar" (vers. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus "caminha sobre o mar" (Job 9,8b; 38,16; Sal 77,20); só Ele faz "tremer as águas e agitarem-se os abismos" (Sal 77,17); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sal 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu Povo e que não deixa que as forças da morte (o "mar") o destruam. A expressão "sou Eu" reproduz a fórmula de identificação com que Deus se apresenta aos homens no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,3.10-11); e a exortação "tende confiança, não temais" transmite aos discípulos a certeza de que nada têm a temer porque Jesus, o Deus que vence as forças da morte e da opressão acompanha a par e passo a sua caminhada histórica e dá-lhes a força para vencer a adversidade, a solidão e a hostilidade do mundo.
Depois, Mateus narra uma cena exclusiva, que não é apresentada por nenhum outro evangelista: a do diálogo entre Pedro e Jesus (vers. 28-33). Tudo começa com o pedido de Pedro: "se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas". Pedro sai do barco e vai, de facto, ao encontro de Jesus; mas, assustando-se com a violência do vento, começa a afundar-se e pede a Jesus que o salve. Assim acontece, embora Jesus censure a sua pouca fé e as suas dúvidas.
Pedro é, aqui, o porta-voz e o representante dessa comunidade dos discípulos que vai no barco (a Igreja). O episódio reflecte a fragilidade da fé dos discípulos, sempre que têm de enfrentar as forças da opressão, do egoísmo, da injustiça. Jesus comunicou aos seus o poder de vencerem todos os poderes deste mundo que se opõem à vida, à libertação, à realização, à felicidade dos homens. No entanto, enquanto enfrentam as ondas do mundo hostil e os ventos soprados pelas forças da morte, os discípulos debatem-se entre a confiança em Jesus e o medo. Mateus refere-se, desta forma, à experiência de muitos discípulos (da sua comunidade e das comunidades cristãs de todos os tempos e lugares) que seguem a Jesus de forma decidida, mas que se deixam abalar quando chegam as perseguições, os sofrimentos, as dificuldades… Então, começam a afundar-se e a ser submergidos pelo "mar" da morte, da frustração, do desânimo, da desilusão… No entanto, Jesus lá está para lhes estender a mão e para os sustentar.
Finalmente, a desconfiança dos discípulos transforma-se em fé firme: "Tu és verdadeiramente o Filho de Deus" (vers. 33). É para aqui que converge todo o relato. Esta confissão reflecte a fé dos verdadeiros discípulos, que vêem em Jesus o Deus que vence o "mar", o Senhor da vida e da história que acompanha a caminhada dos seus, que lhes dá a força para vencer as forças da opressão e da morte, que lhes estende a mão quando eles estão desanimados e com medo e que não os deixa afundar.
Quando é que os discípulos fizeram a descoberta de que Jesus era o Deus vencedor do pecado e da morte? Naturalmente, após a Páscoa, quando perceberam plenamente o mistério de Jesus (perceberam que Ele não era "um fantasma"), sentiram a sua presença no meio da comunidade reunida, experimentaram a sua ajuda nos momentos difíceis da caminhada, sentiram que Ele lhes transmitia a força de enfrentar as adversidades e a hostilidade do mundo, sentiram que Ele estava lá, estendendo-lhes a mão, nos momentos de fraqueza, de dificuldade, de falta de fé. É esta mesma experiência que Mateus nos convida também a fazer.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir dos seguintes elementos:
• O Evangelho deste domingo é, antes de mais, uma catequese sobre a caminhada histórica da comunidade de Jesus, enviada à "outra margem", a convidar todos os homens para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos. Estamos dispostos a embarcar na aventura de propor a todos os homens o banquete do Reino? Temos consciência de que nos foi confiada a missão de saciar a fome do mundo? Aqueles que são deixados à margem dessa mesa onde se jogam os interesses e os destinos do mundo, que têm fome e sede de vida, de amor, de esperança, encontram em nós uma proposta credível e coerente que aponta no sentido de uma realidade de plenitude, de realização, de vida plena?
• A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o "barco") dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projectos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra – com um sorriso irónico – que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos – às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração – que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância… Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?
• Para que seja possível viver de forma coerente e corajosa na dinâmica do Reino, os discípulos têm de estar conscientes da presença de Jesus, o Senhor da vida e da história, que as forças do mal nunca conseguirão vencer nem domesticar. Ele diz aos discípulos, tantas vezes desanimados e assustados face às dificuldades e às perseguições: "tende confiança. Sou Eu. Não temais". Os discípulos sabem, assim, que não há qualquer razão para se deixarem afundar no desespero e na desilusão. Mesmo quando a sua fé vacila, eles sabem que a mão de Jesus está lá, estendida, para que eles não sejam submergidos pelas forças do egoísmo, da injustiça, da morte. Nada nem ninguém poderá roubar a vida àqueles que lutam para instaurar o Reino. Jesus, vivo e ressuscitado, não deixa nunca que sejamos vencidos.
• A oração de Jesus (que em Mateus antecede os momentos de prova) convida-nos a manter um diálogo íntimo com o Pai. É nesse diálogo que os discípulos colherão o discernimento para perceberem os caminhos de Deus, a força para seguir Jesus, a coragem para enfrentar a hostilidade do mundo.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 19º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. O MISTÉRIO DO SILÊNCIO.
Durante este período estival, são numerosos os que, pequenos e grandes, deixaram a cidade à procura de silêncio e calma. Em ligação com a primeira leitura, poder-se-ia chamar a atenção para o mistério deste silêncio. No silêncio, o cristão aprende a recolher-se para se abrir à presença de Deus. É a ocasião para verificar se o ritmo que anima a celebração da missa é um ritmo em que alternam de maneira harmoniosa o silêncio, a palavra, a música e o cântico.
3. A PROFISSÃO DE FÉ.
O fim do texto evangélico culmina na confissão de fé daqueles que estão no barco, isto é, a comunidade eclesial: "Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!" Poder-se-á valorizar hoje a profissão de fé, com uma breve introdução ou escolhendo outra fórmula de profissão de fé prevista no missal (símbolo dos apóstolos, credo baptismal…).
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Bendito sejas, Deus todo-poderoso e Mestre do universo, porque nos convidas a reconhecer-Te no silêncio, como um sopro de vida, que renova a face da terra. Nós Te bendizemos, porque nos falas ao coração.
Nós Te pedimos pelos pregadores e pelos catequistas, chamados a fazer conhecer o teu rosto e a preparar os encontros contigo. Guia-os!
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças, Pai dos homens. Preparaste longamente a vinda do teu Filho, adoptando um povo. Por Ele deste aos homens a Lei da vida, manifestaste as tuas promessas e ensinaste a rezar-Te. Bendito sejas.
Com o apóstolo Paulo, nós Te pedimos pelo teu primeiro povo, no qual o teu Filho tomou rosto de homem, e por todos os povos da terra.
No final do Evangelho:
Cristo Jesus, mesmo quando somos ameaçados pelas tempestades da nossa terra e a barca da tua Igreja é sacudida pelas vagas, nós Te bendizemos, por causa da tua ressurreição: verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!
Com Pedro, nós Te suplicamos: salva-nos! Dá-nos o teu Espírito de confiança, para nos conduzir contigo pelos caminhos da vida.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II para a Reconciliação.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Fechar os olhos e escutar… Na invasão sonora que nos envolve – e por vezes nos agride – escutamos a voz do nosso Deus? Porque não? Entretanto, tomemos, de vez em quando, o risco do silêncio e da solidão. "Ao largo… para rezar". É aí, com Jesus, que poderemos ouvir a voz do nosso Pai.
18º Domingo do Tempo Comum
Tema do 18º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o convite que Deus nos faz para nos sentarmos à mesa que Ele próprio preparou, e onde nos oferece gratuitamente o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.
Na primeira leitura, Deus convida o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a dirigir-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará definitivamente a fome do seu Povo e oferecer-lhe-á gratuitamente a vida em abundância, a felicidade sem fim.
O Evangelho apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo. No contexto de uma refeição, Jesus mostra aos seus discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. É dessa forma que os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor.
A segunda leitura é um hino ao amor de Deus pelos homens. É esse amor – do qual nenhum poder hostil nos pode afastar – que explica porque é que Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna.
LEITURA I – Is 55,1-3

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor:
"Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas.
Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei.
Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite.
Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta
e o vosso trabalho naquilo que não sacia?
Prestai-Me atenção e vinde a Mim;
escutai e a vossa alma viverá.
Firmarei convosco uma aliança eterna,
com as graças prometidas a David.
AMBIENTE
Em 597 a.C., no reinado de Joaquin, os babilónios derrotaram os exércitos de Judá, conquistaram Jerusalém e deportaram para a Babilónia uma primeira leva de exilados, escolhidos de entre a classe dirigente de Judá. No entanto, esse primeiro grupo de exilados acreditava que o Exílio não estava para durar e que rapidamente poderiam regressar à sua terra. O profeta Jeremias, no entanto, desfez essas falsas esperanças, anunciando aos exilados que o desterro iria prolongar-se e convidando-os a refazer a sua vida na Babilónia ("edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei os seus frutos. Casai, gerai filhos e filhas, casai os vossos filhos e filhas, para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos, em vez de diminuir. Procurai o bem do país para onde vos exilei e rogai por ele ao Senhor, porque só tereis a lucrar com a sua prosperidade" – Jer 29,5-7). Aos poucos, estes exilados acabaram por se adaptar à situação e por lançar as bases para uma permanência prolongada na Babilónia.
Em 586 a.C. deu-se uma nova catástrofe para o Povo de Deus: Jerusalém foi de novo conquistada pelos babilónios e completamente arrasada… Os que tinham escapado à primeira deportação foram levados cativos para a Babilónia e juntaram-se aos seus irmãos exilados.
Os tempos do Exílio foram tempos de desolação e de sofrimento… Todas as referências tinham caído; Jerusalém, a cidade santa, estava reduzida a um montão de ruínas; à frustração pela humilhação nacional, juntavam-se as dúvidas religiosas: Jahwéh será o Deus libertador, como anunciava a teologia e a catequese de Israel – ou será um "bluff", incapaz de proteger o seu Povo? Para alguns dos exilados já nada importava, pois o quadro de referência que dava segurança ao Povo tinha sido completamente subvertido. Enquanto que alguns continuavam a sonhar com a libertação e o regresso, muitos outros deixaram de sonhar e lançaram as bases materiais para se enraizarem definitivamente na Babilónia.
O Exílio prolongou-se até 539 a.C., quando Ciro, rei dos Persas, tomou a Babilónia e deu aos exilados a possibilidade de retornarem à sua terra de origem.
É no contexto do Exílio que aparece o Deutero-Isaías, um profeta anónimo cuja mensagem nos é oferecida nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías. O profeta esforça-se por "consolar" os exilados, anunciando-lhes a libertação iminente, o regresso à Terra (cf. Is 40-48) e a reconstrução de Jerusalém (cf. Is 49-55).
O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta-nos as últimas palavras do "livro da consolação". Depois de um oráculo que anuncia a restauração de Jerusalém (cf. Is 54,11-17), o Deutero-Isaías procura dar aos exilados razões para regressarem à cidade santa.
MENSAGEM
O profeta convida os exilados a cumprirem um novo êxodo, deixando a terra da escravidão e dirigindo-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova que Deus vai reconstruir para o seu Povo. Aí, Judá redescobrirá o Deus libertador, que derrama sobre o seu Povo – gratuita e abundantemente – a justiça, a prosperidade, a abundância, a paz sem fim. O profeta representa esse quadro de salvação através da imagem de um "banquete": em Jerusalém, à volta da mesa de Deus, esse Povo sofredor, desolado, carente, faminto, encontrará trigo, "vinho", "leite" e "manjares suculentos" (vers. 1).
Será fácil, depois de mais de quarenta anos de Exílio, deixar a relativa segurança da Babilónia, enfrentar uma terra devastada e começar tudo de novo? É claro que não. Muitos exilados, correspondendo às palavras do profeta Jeremias (cf. Jer 29), construíram as suas casas, refizeram as suas vidas, lançaram as suas raízes no solo babilónico e consolidaram existências tranquilas e cómodas. A referência ao gastar "o dinheiro naquilo que não alimenta" e "o trabalho naquilo que não sacia" parece dizer respeito ao facto de muitos exilados pretenderem continuar na Babilónia, em lugar de arriscarem o regresso a uma terra desolada e, aparentemente, sem futuro (vers. 2).
O profeta adverte: é preciso ter a coragem de arriscar, de se desinstalar, de partir ao encontro do sonho. Àqueles que forem capazes de sair dos seus esquemas para abrirem o coração ao seu dom, Deus vai oferecer, de forma gratuita e incondicional, a vida em abundância, a felicidade infinita.
Mais: a esses que estão dispostos a deixar as suas certezas e seguranças para partir ao encontro do seu chamamento, Deus oferecerá uma aliança eterna (vers. 3), que nada nem ninguém poderão romper.
Quem aceitar esse dom que Deus oferece encontrará aí a água que mata a sua sede de vida e o alimento que sacia a sua fome de felicidade. Viverá uma relação nova com Deus e integrará, em definitivo, a comunidade do Povo de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes pontos:
• Antes de mais, a leitura que nos é proposta revela o "coração" de Deus: o seu amor, o seu cuidado, a sua preocupação com a situação de um Povo atolado na miséria, no sofrimento, na desolação. Deus não fica, nunca, indiferente à sorte dos seus filhos; mas está continuamente atento às suas necessidades, à sua fome de vida, à sua sede de felicidade. Os crentes podem estar seguros de que, à mesa desse banquete onde Deus os reúne, encontram o alimento que os sacia, a mão que os apoia, a palavra que lhes dá ânimo, o coração que os ama. A reflexão deste texto convida-nos, antes de mais, a descobrir este Deus providente, amoroso e dedicado e a colocar toda a nossa existência nas suas mãos. A reflexão deste texto convida-nos também a sermos testemunhas deste Deus no meio dos nossos irmãos: os pobres, os famintos, os desesperados têm de encontrar nos nossos gestos e palavras esse "coração" amoroso de Deus que os apoia, que lhes dá esperança, que os ajuda a recuperar a dignidade e o gosto pela vida, que lhes mata a fome e a sede de justiça, de fraternidade, de amor e de paz.
• Se é verdade que Deus não cessa de nos oferecer a salvação, também é verdade que nós, os homens, nem sempre acolhemos a oferta que Deus nos faz. Muitas vezes escolhemos caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, à margem do "banquete" de Deus. Na leitura que nos foi proposta, há um apelo a não gastar o dinheiro naquilo que não alimenta e o trabalho naquilo que não sacia. Corresponde a um convite a não nos deixarmos seduzir por falsas miragens de felicidade (os bens materiais, a ilusão do poder, os aplausos e a consideração dos outros homens) e a não gastarmos a vida a beber em fontes que não matam a nossa sede de vida plena e verdadeira. Como é que eu me situo face a isto? De que é que eu sinto "fome"? Como é que eu procuro saciá-la? Eu também sou dos que gastam o tempo, as forças e as oportunidades a correr atrás de ilusões, de valores efémeros, de miragens? Quais são as verdadeiras fontes de vida em que eu devo apostar de forma incondicional?
• Para acolher os dons que Deus oferece, é preciso desinstalar-se, abandonar os esquemas de comodismo e de preguiça que impedem que no coração haja lugar para a novidade de Deus e para os desafios que ele lança. Estou disponível para deixar cair os meus preconceitos, seguranças, esquemas organizados, egoísmos, e para me deixar questionar por Deus e pelas suas propostas?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a nossa fome.
O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
Todos têm os olhos postos em Vós
e a seu tempo lhes dais o alimento.
Abris as vossas mãos
e todos saciais generosamente.
O Senhor é justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.
LEITURA II – Rom 8,35.37-39

Irmãos:
Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?
A tribulação, a angústia, a perseguição,
a fome, a nudez, o perigo ou a espada?
Mas em tudo isto somos vencedores,
graças Àquele que nos amou.
Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida,
nem os Anjos nem os Principados,
nem o presente nem o futuro,
nem as Potestades nem a altura nem a profundidade
nem qualquer outra criatura
poderá separar-nos do amor de Deus,
que se manifestou em Cristo Jesus, Nosso Senhor.
AMBIENTE
O texto que nos é hoje proposto como segunda leitura conclui a reflexão de Paulo sobre a questão da salvação.
Há já alguns domingos que temos vindo a acompanhar o desenvolvimento das ideias de Paulo sobre esta questão: toda a humanidade vive mergulhada numa realidade de pecado (cf. Rom 1,18-3,20); mas a bondade de Deus oferece a todos os homens, de forma gratuita e incondicional, a salvação (cf. 3,21-4,25). Essa salvação chega ao homem através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,1-7,25). O Espírito Santo é que dá ao homem a força para acolher esse dom (cf. Rom 8,1-39), para renunciar à vida do egoísmo e do pecado (a vida "segundo a carne") e para ascender a uma nova situação – a situação de "filho de Deus" (vida "segundo o Espírito").
Acolher a salvação que Deus oferece, identificar-se com Jesus e percorrer com Ele o caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos (vida "segundo o Espírito") não é, no entanto, um caminho fácil, de triunfos e de êxitos humanos; mas é um caminho que é preciso percorrer, tantas vezes na dor, no sofrimento e na renúncia, enfrentando as forças da morte, da opressão, do egoísmo e da injustiça.
Apesar das barreiras que é necessário vencer, das nuvens ameaçadoras e dos mil desafios que, dia a dia, se põem ao crente que segue o caminho de Jesus, o cristão pode e deve confiar no êxito final. Porquê?
É a esta questão que Paulo procura responder nestes versículos que nos são hoje propostos.
MENSAGEM
"Se Deus é por nós, quem será contra nós"? – pergunta Paulo no início da perícopa (Rom 8,31). A verdade é que nada pode derrotar aquele que é objecto do amor imenso e imortal de Deus – amor manifestado nesse movimento que levou Cristo até à entrega total da vida para nos colocar na rota da salvação e da vida plena.
O crente tem de estar certo de que Deus o ama e que lhe reserva a vida em plenitude, a felicidade total, a comunhão plena com Ele. Dessa forma, pode escolher, com tranquilidade e serenidade o caminho de Jesus – caminho de dom, de entrega da vida, de amor até às últimas consequências… Pode, como Jesus, lutar objectivamente contra o egoísmo, a injustiça, a opressão, o pecado; pode gastar a vida nessa luta, sem temer o aniquilamento ou o fracasso; pode enfrentar a perseguição, a angústia, os perigos, as armadilhas montadas pelos homens, com a certeza de que nada o pode vencer ou destruir… E, no final do caminho, espera-o essa vida plena de felicidade sem fim, que Deus oferece àqueles que aceitam a sua proposta de amor e caminham nela.
Nos dois últimos versículos do texto que nos é proposto (vers. 38-39), Paulo enumera uma série de forças que, na época, se julgavam mais ou menos hostis ao homem. Não devemos, contudo, tomar essas expressões como uma descrição detalhada daquilo que, para Paulo, era o mundo sobrenatural. Devemos ver nessa lista, apenas uma forma retórica de sugerir que nada – nem sequer esses poderes que os antigos acreditavam que hostilizavam o homem – será capaz de separar o crist&a
tilde;o do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão da leitura pode fazer-se a partir das seguintes linhas:
• Para Paulo, há uma constatação incrível, que não cessa de o espantar (e que temos repetidamente encontrado nos textos da Carta aos Romanos lidos nos últimos domingos): Deus ama-nos com um amor profundo, total, radical, que nada nem ninguém consegue apagar ou eliminar. Esse amor veio ao nosso encontro em Jesus Cristo, atingiu a nossa existência e transformou-a, capacitando-nos para caminharmos ao encontro da vida eterna. Ora, antes de mais, é esta descoberta que Paulo nos convida a fazer… Nos momentos de crise, de desilusão, de perseguição, de orfandade, quando parece que o mundo está todo contra nós e que não entende a nossa luta e o nosso compromisso, a Palavra de Deus grita: "não tenhais medo; Deus ama-vos".
• Descobrir esse amor dá-nos a coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranquilidade e com o coração cheio de paz. O crente é aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida em plenitude. Pode, portanto, entregar a sua vida como dom, correr riscos na luta pela paz e pela justiça, enfrentar os poderes da opressão e da morte, porque confia no Deus que o ama e que o salva.
ALELUIA – Mt 4,4b
Aleluia. Aleluia.
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
EVANGELHO – Mt 14,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n'O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
"Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento".
Mas Jesus respondeu-lhes:
"Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer".
Disseram-Lhe eles:
"Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes".
Disse Jesus: "Trazei-mos cá".
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.
AMBIENTE
No capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, começa uma longa secção que poderíamos intitular "instrução sobre o Reino" (cf. Mt 13,1-17,27).
Na primeira parte desta secção (cf. Mt 13,1-52), Jesus apresentou em parábolas a realidade do Reino (como vimos, aliás, nos domingos anteriores). Como é que os interlocutores de Jesus reagiram, frente a essa apresentação viva, popular, interpeladora, questionante? Aderiram à proposta de Jesus?
A resposta a esta questão vai ser dada na segunda secção da "instrução sobre o Reino" (cf. Mt 13,53-17,27). De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt 15,1-9; 16,1-4. 5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Diante dessa recusa, Jesus volta-Se, cada vez mais decisivamente, para o pequeno grupo dos seus seguidores – os discípulos. Esse pequeno grupo vai-se definindo cada vez mais como a comunidade do Messias, que acolhe as propostas de Jesus e aceita o Reino. As multidões continuam a seguir Jesus; mas, cada vez mais, é aos discípulos que Jesus Se dirige e a quem destina a sua "instrução".
O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos no âmbito de uma refeição. O "banquete" é, para os semitas, o momento do encontro, da fraternidade, em que os convivas estabelecem entre si laços de familiaridade e de comunhão. É, portanto, símbolo desse mundo novo que há-de vir e no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus para celebrar a fraternidade, a igualdade e a felicidade sem fim. Torna-se, pois, um símbolo privilegiado desse Reino para o qual Jesus veio convidar os homens.
MENSAGEM
Na introdução ao episódio de hoje, Mateus anota que Jesus se retirou para o deserto, seguido por uma "grande multidão"; e que, impressionado pela fome de vida de toda essa gente, Se encheu "de compaixão e curou os seus doentes" (vers. 13-14).
Provavelmente, Mateus quer sugerir, com esta referência, que Jesus é um novo Moisés, cuja missão é libertar o seu Povo da escravidão, a fim de conduzi-lo à terra da liberdade e da vida plena. Como é que vai fazê-lo? Conduzindo-o ao deserto…
O deserto é, para Israel, o tempo e o espaço do encontro com Deus; aí, Israel aprendeu a despir-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua auto-suficiência, para descobrir que cada passo em direcção à liberdade, cada pedaço de pão caído do céu, cada gota de água que brota de um rochedo, é um "milagre" que é preciso agradecer ao amor de Deus. Tudo é um dom de Deus, que o Povo deve acolher com o coração agradecido. O deserto é ainda o lugar e o tempo da partilha, da igualdade, em que cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência, açambarcamento dos bens que pertencem a todos, e em que todos dão as mãos para superar as dificuldades da caminhada (no deserto, quem é egoísta, auto-suficiente e não aceita contar com os outros, está condenado à morte).
É esta experiência que Jesus vai convidar os discípulos a fazer. Vai ensinar-lhes – com uma lição concreta – que tudo é um dom que deve ser agradecido ao amor de Deus; e vai ensinar-lhes também que os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor – que vai nascer a comunidade do Reino.
A história da multiplicação dos pães apresenta todas as características de uma lição, destinada a demonstrar como é que deve viver quem quer aderir ao Reino.
O primeiro momento desse processo pedagógico destinado a formar os membros do Reino tem a ver com a constatação da fome do mundo e com a responsabilização da comunidade do Reino nesse problema&hell
ip; Quando os discípulos Lhe pedem que mande a multidão embora, para que ela encontre comida (lavando as mãos face à situação de necessidade em que a multidão está), Jesus pede-lhes: "dai-lhes vós de comer" (vers. 16). Ensina-lhes, dessa forma, que têm uma responsabilidade inalienável face a esse desafio que o mundo dos pobres todos os dias grita… Depois disto, nunca um discípulo de Jesus poderá dizer que não tem nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado – de pão, de alegria, de apoio, de esperança – é da responsabilidade dos discípulos de Jesus. A dinâmica do Reino passa pela solidariedade que torna todos os cristãos responsáveis pelas necessidades dos pobres.
No segundo momento deste processo pedagógico, Jesus ensina como dar resposta a este desafio. Começa por pedir aos discípulos que façam a listagem dos bens disponíveis; depois, toma os "cinco pães e dois peixes", recita a bênção e manda repartir por todos os presentes… E todos comeram até ficarem saciados.
A lição é clara: diante do apelo dos pobres, a comunidade do Reino tem de aprender a partilhar. "Cinco pães e dois peixes" significam totalidade ("sete"): é na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos irmãos. É uma totalidade fraccionada e diversificada mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome do mundo. A comunidade do Reino é, portanto, não só uma comunidade que se sente responsável pela fome dos irmãos, mas também uma comunidade de coração aberto, disposta a repartir tudo o que tem… É uma comunidade que venceu a escravidão do egoísmo, para fazer a experiência da partilha que sacia e que torna todos os homens irmãos.
No terceiro momento deste processo pedagógico, Jesus dá a razão para a partilha. "Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção" (vers. 19). A "bênção" é uma fórmula de acção de graças, na qual se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa, em concreto, reconhecer que algo que se possui é um dom recebido de Deus… Para quem? Para um único homem ou para uma única família? Mas Deus não é o Pai de todos, que se preocupa com todos e que a todos ama da mesma forma? Portanto, "pronunciar a bênção" é reconhecer que determinado dom veio de Deus e que pertence a todos os filhos de Deus. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. À comunidade do Reino é proposto que aprenda a considerar os bens postos à sua disposição como dons de Deus Pai, colocando-os livremente ao serviço de todos.
Jesus é aqui apresentado como o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo e oferecer-lhe a vida em abundância. Como é que Ele o faz? Criando a comunidade do Reino – isto é, uma comunidade de homens novos, que reconhecem que tudo o que têm é um dom de Deus, destinado a ser partilhado com os outros irmãos.
ACTULIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes aspectos:
• Antes de mais, o texto convida-nos a reflectir sobre a preocupação de Deus em oferecer a todos os homens a vida em abundância. Ele convida todos os homens para o "banquete" do Reino… Aos desclassificados e proscritos que vivem à margem da vida e da história, aos que têm fome de amor e de justiça, aos que vivem atolados no desespero, aos que têm permanentemente os olhos toldados por lágrimas de tristeza, aos que o mundo condena e marginaliza, aos que não têm pão na mesa nem paz no coração, Deus diz: "quero oferecer-te essa plenitude de vida que os homens teus irmãos te negam. Tu também estás convidado para a mesa do Reino".
• A nossa responsabilidade de seguidores de Jesus compromete-nos com a "fome" do mundo. Nenhum cristão pode dizer que não tem culpa pelo facto de 80 por cento da humanidade ser obrigada a viver com 20 por cento dos recursos disponíveis… Nenhum cristão pode "lavar as mãos" quando se gastam em armas e extravagâncias recursos que deviam estar ao serviço da saúde, da educação, da habitação, da construção de redes de saneamento básico… Nenhum cristão pode dormir tranquilo quando tantos homens e mulheres, depois de uma vida de trabalho, recebem pensões miseráveis que mal dão para pagar os medicamentos, enquanto se gastam quantias exorbitantes em obras de fachada que só servem para satisfazer o ego dos donos do mundo… Nós temos responsabilidades na forma como o mundo se constrói… Que podemos fazer para que o nosso mundo seja alicerçado sobre outros valores?
• É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: "Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (…). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias" (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como "meus, muito meus e só meus", ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?
• O problema da fome no mundo não se resolve recorrendo a programas de assistência social, de "rendimento mínimo garantido" ou de outros esquemas de "caridadezinha"; mas resolve-se recorrendo a uma verdadeira revolução das mentalidades, que leve os homens a interiorizar a lógica de partilha. Os bens que Deus colocou à disposição dos seus filhos não podem ser açambarcados por alguns; pertencem a todos os homens e devem ser postos ao serviço de todos. É preciso quebrar a lógica do capitalismo, a lógica egoísta do lucro (mesmo quando ela reparte alguns trocos pelos miseráveis para aliviar a consciência dos exploradores), e substitui-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem isto, nenhuma mudança social criará, de verdade, um mundo mais justo e mais fraterno.
• A narração que hoje nos é proposta tem um inegável contexto eucarístico (as palavras "ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos" levam-nos à fórmula que usamos sempre que celebrámos a Eucaristia). Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia) é comprometer-se com a dinâmica do Reino e é assumir a lógica da partilha, do amor, do serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, os sistemas de exploração, os esquemas de açambarcamento dos bens, os esbanjamentos, a procura de bens supérfluos… Quando celebramos a Eucaristia e nos comprometemos com uma lógica de partilha e de dom, estamos a tornar Jesus presente no mundo e a fazer com que o Reino seja uma realidade viva na história dos homens.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 18º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 18º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. "VINDE, ESCUTAI, COMEI".
Estes três apelos da leitura de Isaías marcam os três primeiros tempos da celebração de qualquer domingo: reunião da assembleia, liturgia da Palavra, liturgia eucarística (o último é o envio). Para a proclamação do texto de Isaías, procure-se valorizar os imperativos: "Vinde… escutai-Me… prestai atenção… vinde a Mim", procurando o tom que convém à aliança que Deus quer concluir com o seu povo. É uma questão de atitude interior! Para pôr em realce o convite, o texto poderia ser proclamado por dois leitores, alternando os apelos contidos na leitura.
3. DAR AMPLITUDE AO RITO DA FRACÇÃO.
Na homilia, o sacerdote poderia destacar o relato evangélico que descreve os gestos de Jesus aquando da multiplicação dos pães como gestos litúrgicos, os mesmos que são empregues no coração da Eucaristia: "ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos e os discípulos deram-nos à multidão". Procurar ligar esta passagem ao momento da fracção do pão ou da comunhão. É conveniente hoje dar amplitude ao rito da fracção do pão.
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te damos graças por todas as refeições que ofereceste ao teu Povo, para saciar a sua fome e para anunciar o banquete da Nova Aliança.
Nós Te pedimos por todos os famintos da nossa terra e por todas as formas de pobreza: os mendigos de pão, de atenção, de ternura, de justiça e de paz. Dá-nos a coragem de lhes deixar mais do que as migalhas.
No final da segunda leitura:
Pai Nosso, nós Te bendizemos pelo amor de Cristo, que manifestaste nas missões do apóstolo Paulo e do qual nada nos pode separar: Tu comunicas o amor de Cristo em cada Eucaristia, ao ponto de nos unires a Ti.
Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs desencorajados, ameaçados pelo desânimo, a angústia, a perseguição, a fome, os perigos.
No final do Evangelho:
Erguemos os olhos para Ti e damos-Te graças pela infinita ternura do teu Filho Jesus. Nós Te bendizemos pelo pão de vida que nos ofereces.
Nós Te pedimos pelos teus discípulos, encarregados de distribuir o pão produzido pelos nossos pobres meios; que a bênção cumule as nossas refeições com a graça do teu Espírito Santo.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III das Assembleias com Crianças, que faz alusão à obra de misericórdia de Cristo.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Ousemos! Quantas sedes e fomes estão em nós e entre nós, para as quais gastamos sem contar o nosso dinheiro e as nossas forças, sem nunca ficarmos saciados! Ousemos… "ir a Ele… e levemos-Lhe…" com toda a confiança o pouco que temos, seguros de que só Ele nos pode satisfazer para além de qualquer desejo.
17º Domingo do Tempo Comum
Tema do 17º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem "sábio", que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse "tesouro" supremo que é o Reino.
A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.
LEITURA I – 1 Reis 3,5.7-12

Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias,
O Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe:
"Pede o que quiseres".
Salomão respondeu:
"Senhor, meu Deus,
Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David
e eu sou muito novo e não sei como proceder.
Este vosso servo está no meio do povo escolhido,
um povo imenso, inumerável,
que não se pode contar nem calcular.
Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente,
para saber distinguir o bem do mal;
pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?"
Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe:
"Porque foi este o teu pedido,
e já que não pediste longa vida, nem riqueza,
nem a morte dos teus inimigos,
mas sabedoria para praticar a justiça,
vou satisfazer o teu desejo.
Dou-te um coração sábio e esclarecido,
como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti".
AMBIENTE
O grande rei David morreu por volta de 972 a.C., após um reinado longo e fecundo, ocupado a expandir as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos do norte e do sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus. Sucedeu-lhe no trono o filho, Salomão.
Salomão desenvolveu um trabalho meritório na estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa do território que herdou, dotou-o de grandes construções (das quais a mais emblemática é o Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o intercâmbio cultural e comercial com os países da zona, incentivou e apoiou a cultura e as artes.
Preocupado com a constituição de uma classe política preparada para as tarefas da governação, Salomão recrutou "sábios" estrangeiros (sobretudo egípcios) para a sua corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo seu "saber", pela sua justiça e prudência. Esses "quadros", além de aconselharem o rei, tinham também a tarefa de preparar os futuros "funcionários" para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.
A corte de Salomão tornou-se, assim, um "viveiro" de "sabedoria". Os "sábios" de Salomão coligiram provérbios, redigiram "máximas" de carácter sapiencial, deram "instruções" (sobre as virtudes que deviam ser cultivadas para ter êxito e para ser feliz). Nesta fase, também redigiram-se crónicas sobre os reinados anteriores e publicaram-se textos sobre as tradições dos antepassados (provavelmente, é nesta época que a "escola jahwista" dá à luz algumas das tradições que irão ocupar um lugar fundamental no Pentateuco). Não admira, portanto, que Salomão tenha ficado na memória histórica de Israel como o protótipo do rei sábio, "cuja sabedoria excedia a todos os orientais e egípcios" (1 Re 4,30).
Salomão é também, historicamente, o primeiro rei que "herda" o trono. Até agora, os seus predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de Deus (segundo a visão "religiosa" dos catequistas bíblicos). Os teólogos de Israel vão, pois, esforçar-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se Salomão chegou a governar o Povo de Deus, não foi apenas por um direito hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.
O texto que hoje nos é proposto supõe todo este enquadramento. O chamado "sonho de Gabaon" (cf. 1 Re 3,5) é uma ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (esse grupo que reflecte a vida e a história na linha das grandes ideias teológicas apresentadas no Livro do Deuteronómio) com uma dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de Jahwéh e justificar a sua proverbial "sabedoria".
MENSAGEM
No Antigo Testamento, o "sonho" aparece, com alguma frequência, como uma forma privilegiada de Deus comunicar com os homens e de lhes indicar os seus caminhos. No nosso texto, aparece-nos também um sonho: os catequistas deuteronomistas vão utilizar este recurso literário para apresentar Salomão como "o escolhido" de Deus, a quem Jahwéh comunica os seus projectos e a quem confia a condução do seu Povo.
O "sonho" de Salomão está estruturado na forma de um diálogo entre Deus e Salomão. Há, em primeiro lugar, uma interpelação de Deus ("que posso Eu dar-te?"); e há, depois, uma resposta de Salomão: consciente da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem rei pede a Deus que lhe dê um coração "sábio" para governar com justiça. A prece do rei é atendida e Deus concede a Salomão uma "sabedoria" inigualável (na continuação – que, todavia, o nosso texto de hoje já não apresenta – Deus acrescenta ainda outros três dons: a riqueza, a glória e a longa vida – cf. 1 Re 3,13-14).
Em termos religiosos, qual a mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar com esta "ficção"?
Antes de mais, o nosso texto deixa claro que, em Israel, o rei é o "instrumento de Deus", o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei que Deus governa, que intervém na vida do seu Povo e o conduz pela história.
Depois, o texto mostra que Salomão não concebeu o seu papel como um privilégio pessoal que podia ser usado em benefício próprio, mas sim como um ministério que lhe foi confiado por Deus. Salomão tinha consciência de que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com "sabedoria" e que o objectivo final desse serviço é a realização do bem comum.
Finalmente (e é talvez o aspecto mais significativo para o tema da liturgia deste domingo), os autores deuteronomistas sublinham a "qualidade" da resposta de Salomão: ele não pede riqueza nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair por valores efémeros.
Dizer que a súplica de Salomão "agradou ao Senhor" (vers. 10) é propor aos israelitas que optem pelos valores eternos, duradouros e essenciais.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões:
• Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito… Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca… O "sábio", contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O "sábio" é aquele que consegue perceber o que efectivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?
• A figura de Salomão interpela também todos aqueles que detêm responsabilidades na comunidade (seja em termos civis, seja em termos religiosos). Convida-os a uma verdadeira atitude de serviço: o seu objectivo não deve nunca ser a realização dos próprios esquemas pessoais, mas sim o benefício de toda a comunidade, a concretização do bem comum.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

Refrão: Quanto amo, Senhor, a vossa lei!
Senhor, eu disse: A minha herança
é cumprir as vossas palavras.
Para mim vale mais a lei da vossa boca
do que milhões em ouro e prata.
Console-me a vossa bondade,
segundo a promessa feita ao vosso servo.
Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei,
porque a vossa lei faz as minhas delícias.
Por isso, eu amo os vossos mandamentos,
mais que o ouro, o ouro mais fino.
Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos
e detesto todo o caminho da mentira.
São admiráveis as vossas ordens,
por isso, a minha alma as observa.
A manifestação das vossas palavras ilumina
e dá inteligência aos simples.
LEITURA II – Rom 8,28-30

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Nós sabemos que Deus concorre em tudo
para o bem daqueles que O amam,
dos que são chamados, segundo o seu desígnio.
Porque os que Ele de antemão conheceu,
também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho,
a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos.
E àqueles que predestinou, também os chamou;
àqueles que chamou, também os justificou;
e àqueles que justificou, também os glorificou.
AMBIENTE
O texto que nos é proposto como segunda leitura continua a reflexão de Paulo sobre o projecto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens.
Já vimos nos domingos anteriores que, na perspectiva de Paulo, todo o homem que chega a este mundo mergulha num contexto de pecado que o marca e condiciona (cf. Rom 1,18-3,20); no entanto, Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar à salvação (cf. Rom 3,21-4,25); e é em Jesus Cristo que esse dom de Deus se comunica ao homem (cf. Rom 5,1-7,25). É o Espírito Santo que permite ao homem acolher esse dom e viver na fidelidade à graça que Deus oferece (cf. Rom 8,1-39).
Depois de assegurar aos cristãos de Roma (e, através deles, aos cristãos de todas as épocas e lugares) que o Espírito "vem em auxílio da nossa fraqueza" e "intercede por nós" (cf. Rom 8,26-27), Paulo relembra – no texto que nos é proposto como segunda leitura – que Deus tem um projecto de amor que se traduz no oferecimento da salvação ao homem.
MENSAGEM
Esse projecto não é um acontecimento casual, mas algo que, desde sempre, está previsto nos planos de Deus.
Aos que aderem a esse projecto, Deus chama-os a identificarem-se com o seu filho Jesus, liberta-os do egoísmo e do pecado e fá-los, com Jesus, chegar à vida nova e plena (justificação).
Neste contexto, Paulo fala "daqueles" que Deus "conheceu" de antemão, que "predestinou" para viverem à imagem de Jesus, que "chamou", que "justificou" e que "glorificou". No entanto, estes versículos não devem ser entendidos no sentido de que a salvação que Deus oferece se destine apenas a um grupo de predestinados, que Deus escolheu de entre os homens de acordo com critérios que nos escapam… A teologia paulina é clara a este respeito: o projecto salvador de Deus está aberto a todos aqueles que querem acolhê-l'O. O que Paulo sublinha aqui é que se trata de um dom gratuito de Deus e que esse dom está previsto desde toda a eternidade.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir dos seguintes dados:
• Em todas as cartas de Paulo transparece o espanto que o apóstolo sente diante do amor de Deus pelo homem. Este tema está, contudo, especialmente presente na Carta aos Romanos. O nosso texto convida-nos a dar conta – outra vez – desse facto extraordinário que é o amor de Deus (amor que o homem não merece, mas que Deus, com ternura, insiste em oferecer, de forma gratuita e incondicional), traduzido num projecto de salvação preparado desde sempre, e que leva Deus a enviar ao mundo o seu próprio Filho para conduzir todos os homens e mulheres a uma nova condição. Numa época marcada por uma certa indiferença face a Deus, este texto convida-nos a tomar consciência de que Deus nos ama, vem continuamente ao nosso encontro, aponta-nos o caminho da vida plena e verdadeira, desafia-nos à identificação com Jesus, convida-nos a integrar a sua família. Nós, os crentes, somos convidados a conduzir a nossa vid
a à luz desta realidade; e somos convocados a testemunhar, com palavras, com acções, com a vida, no meio dos irmãos que dia a dia percorrem connosco o caminho da vida, o amor e o projecto de salvação que Deus tem.
• Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções – opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse "valor mais alto" que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o "valor mais alto", o "tesouro" pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?
ALELUIA – cf. Mt 11,25
Aleluia. Aleluia.
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.
EVANGELHO – Mt 13,44-52

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus às multidões:
"O reino dos Céus é semelhante
a um tesouro escondido num campo.
O homem que o encontrou tornou a escondê-lo
e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía
e comprou aquele campo.
O reino dos Céus é semelhante
a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor,
foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola.
O reino dos Céus é semelhante
a uma rede que, lançada ao mar,
apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia
e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos
e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo:
os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente.
Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?"
Eles responderam-Lhe: "Entendemos".
Disse-lhes então Jesus:
"Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus
é semelhante a um pai de família
que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas".
AMBIENTE
Concluímos, neste domingo, a leitura do capítulo dedicado às "parábolas do Reino" (cf. Mt 13). Nele, recorrendo a imagens e comparações simples, sugestivas e questionantes ("parábolas"), Jesus apresenta esse mundo novo de liberdade e de vida nova que Ele veio propor aos homens e ao qual Ele chamava Reino de Deus.
Concretamente, o nosso texto apresenta-nos três parábolas que são exclusivas de Mateus (nenhuma delas aparece nos outros três evangelhos considerados canónicos. No entanto, as três aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé – embora aí apresentem notáveis variantes em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a parábola da pérola e a parábola da rede e dos peixes.
Para enquadrarmos melhor a mensagem aqui proposta por Mateus, devemos ter em conta a realidade da comunidade a quem o Evangelho se destina… Estamos no final do primeiro século (anos oitenta). Passaram-se mais de trinta anos após a morte de Jesus. O entusiasmo inicial deu lugar à monotonia, à falta de empenho, a uma vivência "morna", pouco exigente e pouco comprometida. No horizonte próximo das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e de hostilidade e os cristãos parecem pouco preparados para enfrentar as dificuldades. Mateus sente que é preciso renovar o compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus valores. As parábolas do Reino que hoje nos são propostas devem ser lidas neste contexto.
MENSAGEM
O texto do Evangelho deste domingo pode ser dividido em três partes. Em cada uma delas, há aspectos e questões que convém pôr em relevo e ter em conta.
Na primeira parte, temos duas parábolas – a parábola do tesouro escondido no campo e a parábola da pérola preciosa (vers. 44-46). Ambas desenvolvem o mesmo tema e apresentam ensinamentos semelhantes.
A questão principal abordada nesta primeira parte é a da descoberta do valor e da importância do Reino. Quer a parábola do tesouro escondido, quer a parábola da pérola preciosa, sugerem que o Reino proposto por Jesus (esse mundo de paz, de amor, de fraternidade, de serviço, de reconciliação que Jesus veio anunciar e oferecer) é um "tesouro" precioso, que os seguidores de Jesus devem abraçar, antes de qualquer outro valor ou proposta. Os cristãos são, antes de mais, aqueles que encontraram algo de único, de fundamental, de decisivo: o Reino. Ora, quando alguém encontra um "tesouro" como esse, deve elegê-lo como a riqueza mais preciosa, o fim último da própria existência, o valor fundamental pelo qual se renuncia a tudo o resto e pelo qual se está disposto a pagar qualquer preço. Provavelmente, Mateus está a sugerir a esses cristãos a quem o seu Evangelho se destina (adormecidos numa fé morna, inconsequente, pouco exigente) que é preciso redescobrir e optar decisivamente por esse valor mais alto, que deve dar sentido às suas vidas – o Reino. O cristão é confrontado, a par e passo, com muitos valores e opções; mas deve aperceber-se de que o Reino é o valor mais importante.
Na segunda parte, Mateus apresenta o Reino na imagem de uma rede que, lançada ao mar, apanha diversos tipos de peixes (vers. 47-50). Na versão apresentada por Mateus, a parábola apresenta um ensinamento semelhante ao da parábola do trigo e do joio (sobre a qual meditamos no passado domingo): o Reino não é um condomínio fechado, onde só há gente escolhida e santa, mas é uma realidade onde o mal e o bem crescem simultaneamente. Deus não tem pressa de condenar e destruir. Ele não quer a morte do pecador; por isso, dá ao homem o tempo necessário e suficiente para amadurecer as suas opções e para fazer as suas escolhas (no Evangelho de Tomé, a versão é diferente: conta a história de um pescador "sábio" que pesca vários peixes, mas fica só com o maior e lança os outros ao mar. Aí, portanto, a parábola da rede e dos peixes apresenta uma mensagem que vai na linha das parábolas do tesouro descoberto no campo e da pérola preciosa. Alguns autores pensam que a versão apresentada no Evangelho de Tomé constitui a versão primitiva da parábola da rede e dos peixes).
A referência que Mateus faz (mais uma vez) ao juízo final é uma forma de exortar os irmãos da sua comunidade no sentido de escolherem decididamente o Reino e porem em prática as propostas de Jesus.
Na terceira parte do Evangelho que nos é proposto, Mateus apresenta um breve diálogo entre Jesus e os discípulos (vers. 51-52).
Neste diálogo temos uma espécie de conclusão de todo o capítulo. Mateus sugere que o verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que &
ldquo;compreende". Ora, "compreender", na teologia mateana, significa "prestar atenção" e comprometer-se com o ensinamento proposto. Os cristãos são, pois, convidados a descobrir a realidade do Reino, a entender as suas exigências, a comprometerem-se com os seus valores. A referência ao "escriba" que "tira do seu tesouro coisas novas e velhas" pode referir-se aos judeus, conhecedores profundos do Antigo Testamento (o "velho"), convidados agora a reflectirem essas velhas promessas à luz das propostas de Jesus (o "novo"). É nessa dialéctica sempre exigente e questionante que o verdadeiro discípulo encontra o caminho para o Reino; e, depois de encontrar esse caminho, deve comprometer-se com ele de forma decisiva, exigente, empenhada.
ACTUALIZAÇÃO
Ter em conta, na reflexão, os seguintes elementos:
• A primeira e mais importante questão abordada neste texto é a das nossas prioridades. Para Mateus, não há qualquer dúvida: ser cristão é ter como prioridade, como objectivo mais importante, como valor fundamental, o Reino. O cristão vive no meio do mundo e é todos os dias desafiado pelos esquemas e valores do mundo; mas não pode deixar que a procura dos bens seja o objectivo número um da sua vida, pois o Reino é partilha. O cristão está permanentemente mergulhado num ambiente em que a força e o poder aparecem como o grande ideal; mas ele não pode deixar que o poder seja o seu objectivo fundamental, porque o Reino é serviço. O cristão é todos os dias convencido de que o êxito profissional, a fama a qualquer preço são condições essenciais para triunfar e para deixar a sua marca na história; mas ele não pode deixar-se seduzir por esses esquemas, pois a realidade do Reino vive-se na humildade e na simplicidade. O cristão faz a sua caminhada num mundo que exalta o orgulho, a auto-suficiência, a independência; mas ele já aprendeu, com Jesus, que o Reino é perdão, tolerância, encontro, fraternidade… O que é que comanda a minha vida? Quais são os valores pelos quais eu sou capaz de deixar tudo? Que significado têm as propostas de Jesus na minha escala de valores?
• A decisão pelo Reino, uma vez tomada, não admite meias tintas, tibiezas, hesitações, jogos duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho. A minha opção pelo Reino é uma opção radical, sincera, que não pactua com desvios, com compromissos a "meio gás", com hipocrisias e incoerências?
• Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental – o Reino – que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
• Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem – todo o tempo do mundo – para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 17º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. FAVORECER O TEMPO DE SILÊNCIO.
Durante o período estival, procure-se favorecer os tempos de silêncio no início das orações, antes das leituras, depois da homilia, depois da comunhão, para permitir a cada um de se preparar para o acolhimento de Cristo, Palavra e Eucaristia. Procurar o Reino é, antes de mais, fazer silêncio para nos deixarmos tocar pela graça.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus, nosso Pai, nós Te bendizemos pelo teu servidor, o rei Salomão, nos dias da sua fidelidade para contigo. Estiveste atento à sua oração e escutaste-o.
Com o rei Salomão, nós Te pedimos pelos dirigentes das nações e das Igrejas: dá-lhes um coração atento, para que conduzam os povos e as comunidades segundo o teu Espírito e saibam discernir o bem do mal.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças pelo desígnio do teu amor e pelo teu filho Jesus, que estabeleceste no meio de nós como primogénito de uma multidão de irmãos.
Nós Te pedimos: Tu que imprimes em nós a imagem do teu Filho, faz que o teu Espírito nos transforme à sua semelhança.
No final do Evangelho:
Nós Te bendizemos pelo Reino dos céus que estabeleceste no coração do nosso mundo como um tesouro escondido e como um laço que nos conduz a Ti.
Nós Te pedimos: dá aos teus fiéis a coragem de procurar em toda a parte o tesouro da tua presença escondida, para aí encontrar a riqueza do teu amor.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III que, na sua intercessão, faz eco dos temas da segunda leitura.
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
"Pede o que quiseres…" Se a mesma questão nos fosse posta hoje, qual seria a nossa resposta? Por que tesouro estamos dispostos a sacrificar tudo? "Um coração que escute e saiba discernir o essencial do acessório!" A oração de Salomão poderia inspirar a nossa oração ao longo da semana…
16º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Tema do 16º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do 16º Domingo do Tempo
Comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem
não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade
do "Reino"; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa "lógica" de Deus,
deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.
A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e omnipotência,
é indulgente e misericordioso para com os homens – mesmo quando eles praticam o
mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem "humanos", isto é,
a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do "Reino de Deus". Esse
"Reino" não é um clube exclusivo de "bons" e de "santos": nele todos os homens
– bons e maus – encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas
escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção
definitiva.
A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus.
Afirma que o Espírito Santo – dom de Deus – vem em auxílio da nossa
fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.
LEITURA I – Sab 12,13.16-19

Leitura do Livro da Sabedoria
Não há Deus, além de Vós,
que tenha cuidado de todas as coisas;
a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente.
O vosso poder é o princípio da justiça
e o vosso domínio soberano
torna-Vos indulgente para com todos.
Mostrais a vossa força
aos que não acreditam na vossa omnipotência
e confundis a audácia daqueles que a conhecem.
Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade
e governais-nos com muita indulgência,
porque sempre podeis usar da força quando quiserdes.
Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo
que o justo deve ser humano
e aos vossos filhos destes a esperança feliz
de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.
AMBIENTE
O "Livro da Sabedoria" é o mais
recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira
metade do séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente
nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e
concepções do mundo helénico, faz o elogio da "sabedoria" israelita, traça o
quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com
exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos
(idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objectivo é duplo:
dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na
idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os
valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da
idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para
outros, só Jahwéh garante a verdadeira "sabedoria" e a verdadeira felicidade.
O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do livro (cf. Sab
10,1-19,22). Nessa parte, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o autor
faz a comparação entre os castigos que Deus lançou contra os "ímpios" (os
pagãos) e a salvação reservada aos "justos" (o Povo de Deus).
O autor começa por mostrar como a "sabedoria" de Deus se manifestou na história
de Israel (cf. Sab 10,1-11,14). Em contraste, vai descrever como é que Deus
tratou os egípcios (cf. Sab 11,15-20) e os idólatras cananeus (cf. Sab
12,3-19). O texto que nos é proposto faz parte desta última perícopa.
Os cananeus eram, na perspectiva dos israelitas, uma raça maldita e perversa,
que cometiam crimes especialmente hediondos: "praticavam obras detestáveis,
ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos" (Sab 12,4-5). Deus
podia tê-los eliminado rapidamente (cf. Sab 12,9); no entanto, retardou o mais
possível o castigo (cf. Sab 12,8), dando-lhes várias oportunidades de se
arrependerem e de mudarem de vida (cf. Sab 12,10).
MENSAGEM
Nessas circunstâncias, Jahwéh deu
provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua misericórdia, a
sua justiça. Deus não tinha que provar nada a ninguém, pois ninguém lhe podia
pedir contas; se agiu dessa forma equilibrada e moderada, é porque é um Deus
justo. A "justiça" não é, no Antigo Testamento, a estrita aplicação da lei; mas
é, sobretudo, a fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor,
bondade e misericórdia; por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar
amor, benevolência e bondade na sua atitude para com os homens.
O que é mais significativo aqui é que a "justiça de Deus" não se exerce sobre o
Povo de Deus, mas sobre um povo "de má estirpe" e de "maldade congénita" (Sab
12,10): é a universalidade da salvação que assim é sugerida.
Por outro lado, o autor vê neste comportamento "justo" de Deus uma lição para
Israel. Que é que, desta forma, Deus ensina ao seu Povo?
Ensina, em primeiro lugar, que Deus não quer a morte do pecador, mas sim que
ele se converta e viva; por isso, "fecha os olhos" diante do pecado do homem, a
fim de o convidar ao arrependimento.
Ensina, em segundo lugar, que "o justo deve ser amigo dos homens" (Sab 12,19):
se a lógica de Deus é uma lógica de perdão e de misericórdia, o Povo de Deus
deve adoptar a mesma lógica e assumir atitudes de bondade, de amor, de
misericórdia, de tolerância, nas suas relações comunitárias. Mais: a bondade e
a compreensão não devem ser reservadas para aqueles que são bons, mas também
para aqueles que fazem insistentemente o mal.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão e actualização da Palavra, podem tomar-se as seguintes indicações:
• O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam acções erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada… Mas já o interiorizámos suficientemente?
• Interiorizar esta "fotografia" de
Deus significa "empapar-nos" da lógica do amor e da misericórdia e deixar que
ela transpareça em gestos para com os nossos irmãos. Isso acontece realmente?
Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos
comportament
os nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e
defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam acções
erradas?
• Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores… Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 85 (86)

Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.
Vós, Senhor, sois bom e indulgente,
cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam.
Ouvi, Senhor, a minha oração,
atendei a voz da minha súplica.
Todos os povos que criastes virão
adorar-vos, Senhor,
e glorificar o vosso nome,
porque Vós sois grande e operais maravilhas,
Vós sois o único Deus.
Senhor, sois um Deus bondoso e
compassivo,
paciente e cheio de misericórdia e fidelidade.
Voltai para mim os vossos olhos
e tende piedade de mim.
LEITURA II – Rom 8,26-27

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
O Espírito Santo vem em auxilio da nossa fraqueza,
porque não sabemos que pedir nas nossas orações;
mas o próprio Espírito intercede por nós
com gemidos inefáveis.
E Aquele que vê no íntimo dos corações
conhece as aspirações do Espírito,
sabe que Ele intercede pelos santos
em conformidade com Deus.
AMBIENTE
Há já alguns domingos que Paulo nos
vem propondo uma catequese sobre o caminho a seguir para poder acolher a
salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é
fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,21-5,11). Essa salvação chega-nos
através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e actua em nós pelo Espírito que
Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projecto e entram na sua
comunidade (cf. Rom 8,1-39) – a comunidade do Reino.
No passado domingo, Paulo convidava os crentes a decidirem-se pela vida
"segundo o Espírito". Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que
ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de
Deus. Trata-se, no entanto, segundo Paulo, de um caminho difícil, que exige
padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.
Como é que o cristão pode fazer essa opção? Como é que ele percebe, claramente,
qual é o caminho? Donde recebe ele a força para viver "segundo o Espírito"?
MENSAGEM
É Deus que nos dá a força de viver
"segundo o Espírito". No entanto, devemos continuamente pedir a Deus, nosso
Pai, essa graça.
Na verdade, nem sempre sabemos o que devemos pedir, pois nem sempre conseguimos
discernir entre a vida "segundo a carne" e a vida "segundo o Espírito". No
entanto, o próprio Espírito Santo "vem em auxílio da nossa fraqueza" (vers.
26a). O que é que Ele faz? Como é que Paulo entende a intervenção do Espírito a
este propósito?
O texto não é explícito. Segundo uma interpretação, nós temos dificuldade em
articular devidamente os nossos desejos e necessidades e é o Espírito que se
encarrega de formulá-los em nosso lugar. Segundo outra interpretação, o
Espírito junta a sua intercessão "inefável" aos nossos gemidos, fazendo com que
a nossa oração chegue até Deus.
Num e noutro caso, o Espírito faz de mediador eficaz no nosso diálogo com Deus.
Ele é nosso "intérprete" e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o
coração. E esta oração (que o Espírito dirige em nosso lugar, ou que o Espírito
"apoia") é sempre acolhida por Deus, pois está em conformidade com os planos e
os projectos de Deus (vers. 27).
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar as seguintes linhas:
• Antes de mais, há neste texto um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.
• O Espírito de Deus, vivo e actuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a "prova provada" do amor de Deus por nós. O Espírito oferece-nos cada dia a vida de Deus, leva-nos ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.
• O ritmo da vida moderna é estonteante… As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para reflectir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida "segundo a carne" ou "segundo o Espírito".
• O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projecto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
ALELUIA – cf. Mt 11,25
Aleluia. Aleluia.
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.
EVANGELHO – Mt 13,24-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
"O reino dos Céus pode comparar
-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: 'Foi um inimigo que fez isso'.
Disseram-lhe os servos:
'Queres que vamos arrancar o joio?'
'Não! – disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'".
Jesus disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos".
Disse-lhes outra parábola:
"O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado".
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: "Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo".
Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d'Ele e disseram-Lhe:
"Explica-nos a parábola do joio no campo".
Jesus respondeu:
"Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão-de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.
Quem tem ouvidos, oiça".
AMBIENTE
Continuamos em contacto com as
"parábolas do Reino". O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de
três imagens ou comparações ("parábolas") que pretendem revelar aos discípulos
e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do "Reino".
Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por "parábolas":
porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante;
porque a "parábola" é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em
contextos polémicos; porque a "parábola" faz as pessoas pensar e incita-as à
procura da verdade. Por tudo isto, as "parábolas" são uma linguagem
privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o
Reino e para as levar a aderir ao Reino.
Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o
fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do
joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga colecção de
"ditos" de Jesus, conhecida como "Evangelho de Tomé").
Também desta vez percebe-se – tanto nas parábolas, como nas explicações que as
acompanham – a preocupação "pastoral" de Mateus: ele não é um jornalista a
transcrever o que Jesus disse; mas é um "pastor" que procura exortar, animar,
ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.
MENSAGEM
A primeira parábola que nos é
proposta é a parábola do trigo e do joio (vers. 24-30). Trata-se de um quadro
da vida quotidiana: há um "senhor" que semeia boa semente no seu campo, um
"inimigo" que semeia o joio (nome de uma erva gramínea que nasce entre o trigo
e o danifica) e "servos" dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo
parece normal; o anormal é a reacção do "senhor" à "crise": dá ordens para que
deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita
a selecção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos
celeiros.
A parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu
com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente
condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por
pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o seu grupo de discípulos…
Com esse comportamento "escandaloso", Ele quis dizer a todos esses que a
religião oficial excluía, que Deus os amava e que os convidava a fazer parte da
sua família, a integrar a comunidade da salvação, a serem membros de pleno
direito da comunidade do "Reino".
Os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para eles, quem não
cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo santo de Deus e não tinha o direito
de fazer parte do "campo" de Deus. A "lógica" dos fariseus condiz com a
"lógica" de Deus?
Nesta parábola, Jesus pretende dar-nos uma lição sobre a "lógica" de Deus.
Sugere que a "lógica" de Deus não é uma "lógica" de destruição, de segregação,
de exclusão, mas é uma "lógica" de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus
de Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de
misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a
existência e para integrar plenamente a comunidade do "Reino". Ele tem um plano
de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e
maus; depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons.
De resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades
coexistem em todos os "campos", em todos os corações.
O "senhor" da parábola é esse Deus paciente, que dá ao homem todas as
oportunidades, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Os "servos" com excesso de zelo são os crentes (que trabalham no campo do
"senhor") rígidos e intolerantes, incapazes de olhar o mundo e o coração dos
homens com a bondade, a serenidade e a paciência de Deus.
O "campo" é o mundo e a história, onde coexistem
o trigo (os sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais
belo e mais feliz) e o joio (os sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento,
pela opressão, pela escravidão). É também o coração de cada homem e de cada
mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte.
Jesus garante: os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela
intolerância face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus
filhos; os métodos de Deus passam por deixar os homens crescer em liberdade,
integrando a comunidade dos filhos de Deus.
Nos vers. 36-43, temos a aplicação que Mateus faz da parábola do trigo e do
joio à vida da sua comunidade.
Nesta "explicação", o eixo central da parábola original passa a ser outro. A
problema já não é se na "lógica" de Deus o trigo e o joio podem crescer juntos,
mas é a questão do "juízo" que espera bons e maus: Mateus insiste que, no "dia
da colheita" (imagem que, nos profetas, se identifica com o dia do "juízo de
Deus" sobre os homens e o mundo), os bons receberão a recompensa e os maus
receberão o castigo.
Estamos nos finais do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo dos
primeiros anos; a vida das comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela
falta de entusiasmo e empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos
aburguesaram-se e nem sempre vivem de forma empenhada e comprometida a sua fé.
Como despertar de novo nos crentes o entusiasmo inicial?
Mateus vai usar os métodos dos pregadores do seu tempo… Recorrendo à linguagem
e aos símbolos da apocalíptica, Mateus lembra aos cristãos da sua comunidade o
juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no fogo, a
fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a impressionar os
crentes, a obrigá-los a inflectir os seus esquemas de vida e a voltar à
fidelidade ao Evangelho. Portanto, não temos aqui uma descrição de como será o
"fim do mundo"; o que temos aqui é um convite urgente e emocionado à conversão,
ao aprofundamento do compromisso com Jesus e com o Evangelho.
O Evangelho deste domingo propõe-nos ainda duas outras parábolas: a parábola do
grão de mostarda (vers. 31-32) e a parábola do fermento (vers. 33). São duas
parábolas muito semelhantes, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma.
Numa e noutra, o quadro é o mesmo: sublinha-se a desproporção entre o início e
o resultado final. O grão de mostarda é uma semente muito pequena, que no
entanto pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões; o fermento
apresenta um aspecto perfeitamente insignificante, mas tem a capacidade de
fermentar uma grande quantidade de massa. Estas duas comparações servem para
apresentar o dinamismo do "Reino". O "Reino" anunciado por Jesus compara-se ao
grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios
muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o mundo, para
o transformar e renovar. Trata-se de um dinamismo de vida nova que começa como
uma pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do
império romano, mas que vai lançar as suas raízes, invadir história dos homens
e potenciar o aparecimento de um mundo novo.
Com estas parábolas, Jesus responde às objecções daqueles que não acreditavam
que da mensagem de um carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir uma proposta de
vida, capaz de fermentar o mundo e a história. Ele garante-nos que o "Reino" é
uma realidade irreversível, que veio para ficar e para transformar o mundo.
Escutar estas parábolas é receber uma injecção de ânimo e de esperança, capaz
de levar a um compromisso mais sério e mais exigente com o "Reino".
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:
• O Evangelho deste domingo garante-nos, antes de mais, que o "Reino" é uma realidade irreversível, que está em processo de crescimento no mundo. É verdade que é difícil perceber essa semente a crescer ou esse fermento a levedar a massa, quando vemos multiplicarem-se as violências, as injustiças, as prepotências, as escravidões… É difícil acreditar que o "Reino" está em processo de construção, quando o materialismo, a futilidade, o comodismo, a procura da facilidade, o efémero sobressaem, de forma tão marcada, na vida de grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo… A Palavra de Deus convida-nos, contudo, a não perder a confiança e a esperança. Apesar das aparências, o dinamismo do "Reino" está presente, minando positivamente a história e a vida dos homens.
• Na verdade, falar do "Reino" não significa falarmos de um "condomínio fechado", ao qual só tem acesso um grupo privilegiado constituído pelos "bons", pelos "puros", pelos perfeitos", e de onde está ausente o mal, o egoísmo e o pecado… Falar do "Reino" é falar de uma realidade em processo de construção, onde cada homem e cada mulher têm o direito de crescer ao seu ritmo, de fazer as suas escolhas, de acolher ou não o dom de Deus, até à opção final e definitiva. É falarmos de uma realidade onde o amor de Deus, vivo e actuante, vai introduzindo no coração do homem um dinamismo de conversão, de transformação, de renascimento, de vida nova.
• Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem "todo o tempo do mundo" para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a "paciência" de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.
• A "paciência de Deus" com o joio convida-nos também a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O "senhor" da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos "servos" que pretendem "cortar o mal pela raiz" e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro… A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorrectos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.
• Convém termos sempre presente o seguinte: não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro… Mal e bem misturam-se no mundo, na vida e no coração de cada um de nós. Dividir as nações em boas (as que têm uma política que serve os nossos interesses) e más (as que têm uma política que lesa os nossos interesses), os grupos sociais em bons (os que defendem valores com os quais concordamos) e maus (os que defendem valores que não são os nossos), os indivíduos em bons (os amigos, aqueles que nos apoiam e que estão sempre de acordo connosco) e maus (aqueles que nos fazem frente, que nos dizem verdades que são difíceis de escutar, que não concordam connosco)… é uma atitude simplista, que nos leva frequentemente a assumir atitudes injustas, que geram exclusão, marginalização, sofrimento e morte. Mais uma vez: saibamos olhar para o mundo, para os grupos, para as pessoas sem preconceitos, com a mesma bondade, compreensão e tolerância que Deus manifesta face a cada homem e a cada mulher, independentemente das suas escolhas e do seu ritmo de caminhada.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
16º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 16º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2. DE UM DOMINGO A OUTRO.
Se temos mantido a sugestão de unidade com o domingo precedente, é conveniente
fazer uma alusão a isso no início da celebração. A decoração floral da igreja,
embora simples, pode aproveitar símbolos presentes no Evangelho de hoje:
espigas de trigo, grão, ervas daninhas… Tal simbolismo pode ajudar a dar
sentido à Boa Nova de Jesus Cristo.
3. UMA SEGUNDA LEITURA MUITO BREVE.
É, sem dúvida, a mais breve das segundas leituras do leccionário que nos é
proposta neste domingo: apenas algumas linhas. Por essa razão, é conveniente
proclamá-la lentamente, com algumas pausas entre as frases. O silêncio
ajudar-nos-á a acolher a voz do Espírito e a vontade de Deus…
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Pai, nós Te louvamos com as palavras que confiaste aos teus profetas e que
lemos nas nossas assembleias: nós Te damos graças porque cuidas de cada um de
nós, és paciente e sempre pronto a ajudar-nos.
Nós Te pedimos: torna-nos atentos à tua presença, que o teu Espírito nos torne
curiosos de Ti, receptivos e cheios de admiração por tudo aquilo que és.
No final da segunda leitura:
Ó Deus, que vês o fundo dos corações, nós Te bendizemos pelo teu Espírito, que
é a tua presença em nós, o teu sopro de vida em nós.
Nós Te recomendamos todas as nossas assembleias de oração, nas nossas igrejas e
nas nossas casas: que o teu Espírito venha em socorro da nossa fraqueza e nos
inspire as palavras para Te cantar, Te louvar e Te rezar.
No final do Evangelho:
Bendito sejas, ó Pai, pelo Reino dos céus, que manifestas no meio de nós e em
nós. Ele é o bom grão que semeaste para renovar a nossa terra, ele é a semente
que cresce e o fermente que age.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos torne pacientes. Diante do mal,
mantém-nos confiantes na presença e na força do teu Reino.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher uma das Orações Eucarísticas para Assembleias com Crianças,
que recordam em termos simples a obra de Cristo.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Sem alternativa! O bom grão semeado no nosso campo era promessa de uma boa
ceifa. Mas eis que o joio veio poluir a seara. Que tipo de compromissos
aceitamos na nossa vida? Deus é paciente! Mas se temos ouvidos, é urgente
escutar o seu apelo à conversão. É urgente escolher o nosso campo: o do Senhor
ou o do Maligno. Não há alternativa!
15º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Tema do 15º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do
15º Domingo do Tempo Comum convida-nos a tomar consciência da importância da
Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.
A primeira leitura garante-nos que a Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda
e criadora de vida. Ela dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos
percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. É sempre eficaz e produz
sempre efeito, embora não actue sempre de acordo com os nossos interesses e
critérios.
O Evangelho propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como
acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser uma "boa terra", disponível para escutar
as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que elas dêem abundantes
frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o "Reino" proposto por
Jesus será uma realidade imparável, onde se manifestará em todo o seu esplendor
e fecundidade a vida de Deus.
A segunda leitura apresenta uma temática (a solidariedade entre o homem e o
resto da criação) que, à primeira vista, não está relacionada com o tema deste
domingo – a Palavra de Deus. Podemos, no entanto, dizer que a Palavra de Deus é
que fornece os critérios para que o homem possa viver "segundo o Espírito" e
para que ele possa construir o "novo céu e a nova terra" com que sonhamos.
LEITURA I – Is 55,10-11

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz
o Senhor:
"Assim como a chuva e a neve que descem do céu
não voltam para lá sem terem regado a terra,
sem a terem fecundado e feito produzir,
para que dê a semente ao semeador e o pão para comer,
assim a palavra que sai da minha boca
não volta sem ter produzido o seu efeito,
sem ter cumprido a minha vontade,
sem ter realizado a sua missão".
AMBIENTE
O
Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta que exerce a sua missão entre
os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no
meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que
recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, "Livro da Consolação".
Na primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a
libertação do cativeiro e um "novo êxodo" do Povo de Deus rumo à Terra
Prometida; na segunda parte (cf. Is 49-55), o profeta fala da reconstrução e da
restauração de Jerusalém.
Estes três versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe, aparecem no
final do "Livro da Consolação". Depois de convidar o Povo (que ainda está na
Babilónia) a buscar e invocar o Senhor (cf. Is 55,6-9), o profeta relembra a
eficácia da Palavra de Deus que acabou de ser proclamada aos exilados (cf. Is
55,10-11).
Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade exilada
está farta de belas palavras e de promessas de libertação que tardam a
concretizar-se… A impaciência, a dúvida, o cepticismo vão minando lentamente a
resistência e a fé dos exilados… Será que as promessas de Deus se
concretizarão? Deus não está a ser demasiado lento, em relação a algo que exige
uma intervenção imediata? Deus ter-se-á esquecido da situação do seu Povo?
MENSAGEM
Não – diz o
profeta – Deus não se esqueceu do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se
concretizar, pois Deus é eternamente fiel às suas promessas. A Palavra de Deus
é eficaz, transformadora, geradora de vida. Ela nunca falha.
Para expressar a ideia da eficácia da Palavra de Deus, o profeta utiliza o
exemplo da chuva e da neve: assim como a chuva e a neve que descem do céu
fecundam a terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Jahwéh não
deixará de se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus.
A imagem é extremamente sugestiva. Devia lembrar aos judeus exilados na
Babilónia as chuvas que caem no norte de Israel e as neves do monte Hermon.
Essa água caída do céu alimenta o rio Jordão; e este, por sua vez, corre por
toda a terra de Israel, deixando um rasto de vida e de fecundidade.
A Palavra de Deus é como essa água bendita caída do céu que, inevitavelmente,
gera essa vida que alimenta o Povo de Deus.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes elementos:
• Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, optimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efectivamente, um caminho de felicidade e de vida plena… "Que bom é estarmos aqui" – dizemos… Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.
• A Palavra de Deus não poderá ser uma espécie de ópio do Povo, no sentido de que projecta em Deus as esperanças e os sonhos que nos competem a nós concretizar? Atenção: é preciso estarmos bem conscientes de que Deus não prescinde de nós para actuar na história humana… A sua Palavra dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. A Palavra de Deus não só não adormece a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projectos de Deus para o mundo e para os homens e convida-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do mundo.
• Vivemos na era do relógio. "Tempo é dinheiro" – dizemos. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos, sem tempo para as pessoas, sem tempo para Deus, sem tempo para nós. Tornamo-nos impacientes e exigentes; achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos. Queremos que Ele aja imediatamente, que nos resolva logo os problemas, que actue de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projectos. É preciso, no entanto, aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Não nos basta saber que a Palavra de Deus é sempre eficaz (embora não tenha os nossos prazos) e que não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem ter realizado a sua missão?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 64 (65)

Refrão: A
semente caiu em boa terra e de
u muito fruto.
Visitastes a
terra e a regastes,
enchendo-a de fertilidade.
As fontes do céu transbordam em água
e fazeis brotar o trigo.
Assim
preparais a terra;
regais os seus sulcos e aplanais as leivas,
Vós a inundais de chuva
e abençoais as sementes.
Coroastes o
ano com os vossos benefícios,
por onde passastes brotou a abundância.
Vicejam as pastagens do deserto
e os outeiros vestem-se de festa.
Os prados
cobrem-se de rebanhos
e os vales enchem-se de trigo.
Tudo canta e grita de alegria.
LEITURA II – Rom 8,18-23

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Eu penso que os sofrimentos do tempo presente
não têm comparação com a glória
que se há-de manifestar em nós.
Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente
a revelação dos filhos de Deus.
Elas estão sujeitas à vã situação do mundo,
não por sua vontade,
mas por vontade d'Aquele que as submeteu,
com a esperança de que as mesmas criaturas
sejam também libertadas da corrupção que escraviza,
para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Sabemos que toda a criatura geme ainda agora
e sofre as dores da maternidade.
E não só ela, mas também nós,
que possuímos as primícias do Espírito,
gememos interiormente,
esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo.
AMBIENTE
Paulo continua a oferecer-nos a sua catequese sobre o caminho que é preciso seguir para se poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e actua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projecto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39).
Nos versículos anteriores ao texto que hoje nos é proposto (cf. Rom 8,1-17), Paulo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou os cristãos a seguirem o mesmo percurso. De forma especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida "segundo a carne" (isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência) e aderir à vida "segundo o Espírito" (isto é, a vida de escuta de Deus, de obediência aos projectos de Deus, de doação aos homens).
MENSAGEM
Na perspectiva de Paulo, o homem não é o único interessado na opção por uma vida "segundo o Espírito": toda a criação está dependente das escolhas que o homem faz. O que é que isto significa?
Como resultado do pecado do homem, a criação inteira ficou submetida ao império do egoísmo e da desordem (cf. Gn 3,17) e está condenada à finitude e à caducidade. Se o homem aderir a Cristo e passar a viver "segundo o Espírito", superará o destino de maldição e de morte em que o pecado o tinha lançado; então, também o resto da criação será libertado e nascerá o novo céu e a nova terra. É o tema da solidariedade entre o homem, os outros animais e a natureza, tão enraizado na Bíblia (cf. Gn 9,12-13; Col 1,20; 2 Pe 3,13; Ap 21,1-15).
Portanto, toda a criação aguarda ansiosamente que o homem escolha a vida "segundo o Espírito". Até lá, vai nascendo – no meio da dificuldade e da dor – esse Homem Novo, bem como esse Novo Céu e Nova Terra com que todos sonhamos. Porquê na dificuldade e na dor? Porque a vida "segundo o Espírito" supõe a renúncia ao egoísmo, aos interesses mesquinhos, ao comodismo, ao orgulho e a opção por um caminho de entrega e de dom da própria vida a Deus e aos outros. Paulo utiliza até o exemplo das dores do parto, para iluminar a mensagem que pretende transmitir… O nascimento de uma criança dá-se sempre através da dor; no entanto, essa dor é o caminho obrigatório para o nascimento de uma nova vida.
De resto, vale a pena viver "segundo o Espírito". Os "padecimentos", as renúncias, as dificuldades, não são nada, em comparação com a felicidade sem fim que espera os crentes no final do caminho.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos:
• Antes de mais, Paulo exorta os crentes a decidirem-se por uma vida "segundo o Espírito". Essa opção terá uma dimensão cósmica e afectará a relação do homem com os outros homens e com toda a criação. Uma vida conduzida de acordo com critérios de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de pecado, gera escravidão, injustiça, arbitrariedade, morte, sofrimento, que se reflectem na vida de todos os outros seres criados e criam desequilíbrios que desfeiam este mundo que Deus quis "bom"… Ao contrário, uma vida conduzida de acordo com os critérios de Deus gera respeito, amor, solidariedade, que se reflectem na vida dos outros seres criados e criam harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade. Tenho consciência de que as minhas opções afectam os outros meus irmãos, bem como o mundo que me rodeia? Tenho consciência de que o mundo será melhor ou pior, de acordo com as opções que eu fizer?
• No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a ideia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o "novo céu e a nova terra".
• Muitas vezes sentimo-nos confusos com certas novidades que nos desconcertam e que parecem pôr em causa os velhos esquemas sobre os quais o mundo se tem edificado. Criticamos os mais jovens pela sua ousadia, pelos seus valores, pelas suas preocupações, pela sua visão do mundo… Não sabemos para onde vamos e parece que nada faz sentido… Sentimo-nos abalados e inseguros; lamentamo-nos porque tudo parece ir de mal a pior e não sabemos "onde isto vai parar". Não é possível que, em muitos casos, a nossa rigidez esconda o comodismo, a instalação, o aburguesamento de quem tem medo da novidade?
• Aconteça o que acontecer, somos convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com os óculos da esperan
ça. Não caminhamos para o holocausto, para a destruição, para o nada, mas para o "novo céu e a nova terra", que já estão em gérmen presentes na nossa história e que, cada dia, se manifestam um pouco mais.
• Atenção: esse "novo céu e nova terra" não podem ser projectados para um futuro ideal, no céu… Eles estão já a construir-se na terra, na nossa história, sempre que os seguidores de Jesus aceitam o seu convite e se dispõem a viver "segundo o Espírito".
ALELUIA
Aleluia. Aleluia.
A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo.
Quem O encontra viverá eternamente.
EVANGELHO – Mt 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
"Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça".
Os discípulos
aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
"Porque lhes falas em parábolas?"
Jesus respondeu-lhes:
"Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
'Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure'.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um".
AMBIENTE
Hoje e nos
próximos dois domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A
"parábola" é uma imagem ou comparação, através da qual se ilustra uma
determinada mensagem ou ensinamento.
A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É uma linguagem habitual na
literatura dos povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de falar e
de instruir através de imagens, de comparações e de alegorias, do que através
dos discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.
A linguagem parabólica tem várias vantagens em relação a um discurso mais
lógico e impositivo. Em primeiro lugar, porque a imagem ou comparação que
caracteriza a linguagem parabólica é muito mais rica em força de comunicação e
em poder de evocação, do que a simples exposição teórica: é mais profunda, mais
carregada de sentido, mais evocadora e, por isso, mexe mais com os ouvintes. Em
segundo lugar, porque é uma excelente arma de controvérsia: a linguagem
figurada permite levar o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro
modo, nunca mereceriam a sua concordância. Em terceiro lugar, porque é um
verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a reflectir, a medir os
prós e os contras, a encontrar soluções para os dilemas que a vida põe:
espicaça a curiosidade, incita à busca, convida a descobrir a verdade.
No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, através
das quais Jesus revela aos discípulos a realidade do "Reino": são as "parábolas
do Reino".
Dessas sete parábolas, três procedem da tradição sinóptica (o semeador, o grão
de mostarda, o fermento); as outras quatro (o trigo e o joio, o tesouro
escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram nem em Marcos, nem em
Lucas. Provavelmente, são originárias da antiga fonte dos "ditos" de Jesus, que
Mateus usou abundantemente na composição do seu Evangelho.
A preocupação do evangelista Mateus é sempre a vida da sua comunidade. Nestas
sete parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação de
um pastor que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé desses crentes
a quem o Evangelho se destina.
MENSAGEM
A parábola que
hoje nos é proposta – a do semeador e da semente – é uma das mais conhecidas e
emblemáticas das parábolas de Jesus. No entanto, o texto do Evangelho de hoje
vai um pouco mais além da parábola em si… Apresenta três partes: a parábola
(vers. 1-9), um conjunto de "ditos" sobre a função das parábolas (vers. 10-17)
e a explicação da parábola (vers. 18-23).
Na primeira parte temos, pois, a parábola propriamente dita (vers. 1-9). O
quadro apresentado supõe as técnicas agrícolas usadas na Palestina de então:
primeiro, o agricultor lançava a semente à terra; depois, é que passava a arar
o terreno. Assim compreende-se porque é que uma parte da semente pôde cair "à
beira do caminho", outra em "sítios pedregosos onde não havia muita terra" e
outra "entre os espinhos".
Evidentemente, a
s diferenças do terreno significam, nesta "comparação", as diferentes formas
como é acolhida a semente. No entanto, nem sequer é isso que é mais
significativo: o que aqui é verdadeiramente significativo é a quantidade
espantosa de frutos que a semente lançada na "boa terra" produz… Tendo em conta
que, na época, uma colheita de sete por um era considerada farta, os cem,
sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo de
surpreendente, de exagerado, de milagroso…
Mateus coloca esta parábola num contexto em que a proposta de Jesus parece
condenada ao malogro. As cidades do lago (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum) tinham
rejeitado a sua pregação (cf. Mt 11,20-24); os fariseus atacavam-no por Ele não
respeitar o sábado e queriam matá-l'O (cf. Mt 12,1-14); acusavam-n'O, além
disso, de agir, não pelo poder de Deus, mas pelo poder de Belzebu, príncipe dos
demónios (cf. Mt 12,22-29); não acreditavam nas suas palavras e exigiam d'Ele
"sinais" (cf. Mt 12,38-45). O "Reino" anunciado sofria grande contestação e
parecia, pois, encaminhar-se para um rotundo fracasso…
É muito possível que esta parábola tenha sido apresentada por Jesus neste
contexto de "crise". Àqueles que manifestavam desânimo e desconfiança em
relação ao êxito do projecto do "Reino", Jesus fala de um resultado final
grandioso. Com esta parábola, Jesus diz aos discípulos desiludidos: "coragem!
Não desanimeis, pois apesar do aparente fracasso, o 'Reino' é uma realidade
imparável; e o resultado final será algo de surpreendente, de maravilhoso, de
inimaginável".
Na segunda parte temos uma reflexão sobre a função das parábolas (vers. 10-17).
O ponto de partida é uma questão posta pelos discípulos: porque é que Jesus
fala em parábolas?
Mateus vê nas parábolas a ocasião para que apareçam, com nitidez, o acolhimento
e a recusa da mensagem proposta por Jesus. Que quer isto dizer?
As parábolas apresentam a proposta do "Reino" numa linguagem sugestiva, rica,
clara, concreta, questionante, interpeladora… Tornam tudo claro e evidente para
os ouvintes; por isso, após escutar a mensagem apresentada nas parábolas, só
não aceita a mensagem quem tiver o coração endurecido e não estiver mesmo
interessado na proposta. As parábolas são, portanto, o factor decisivo: propõem
clara e inequivocamente a realidade do "Reino". Quem acolher essa mensagem,
receberá mais e "terá em abundância" (quer dizer, irá entrando, cada vez mais,
na dinâmica do "Reino"); mas quem não a acolher (apesar da clareza e da
acessibilidade da mensagem), está a rejeitar o "Reino" e a possibilidade de
integrar a comunidade da salvação. Nos que rejeitam a proposta de Jesus,
cumpre-se a profecia de Isaías: o profeta fala de um povo de coração
endurecido, que quanto mais ouve a pregação profética, mais se irrita, agravando
cada vez mais a sua culpa (cf. Is 6,9-10).
Os discípulos são aqueles que escutam a proposta do "Reino" e estão dispostos a
acolhê-la. Eles compreendem, portanto, as parábolas e aceitam a realidade que
elas propõem. Eles são "felizes", porque abriram o coração às propostas de
Jesus, escutaram as suas palavras, viram e entenderam os seus gestos e sinais;
são "felizes" porque (ao contrário daqueles que endureceram o coração e
fecharam os ouvidos à proposta de Jesus) já integram o "Reino".
Na terceira parte, temos a explicação da parábola (vers. 18-23). Alguns
indícios presentes no texto levam a pensar que esta explicação não fazia parte
da parábola original, mas é uma adaptação posterior, que aplica a parábola à
vida dos cristãos.
A explicação desloca, de forma evidente, o "centro de interesse". Nessa
explicação, a parábola deixa de ser uma apresentação da forma grandiosa como o
"Reino" se vai manifestar, para passar a ser uma reflexão sobre as diversas
atitudes com que a comunidade acolhe a Palavra de Jesus (na verdade, é essa a
grande preocupação das comunidades cristãs).
Na perspectiva dos catequistas que prepararam esta aplicação da parábola, o
acolhimento do Evangelho não depende, nem da semente, nem de quem semeia; mas
depende da qualidade da terra.
Diante da Palavra de Jesus, há várias atitudes… Há aqueles que têm um coração
duro como o chão de terra batida dos caminhos: a Palavra de Jesus não poderá
penetrar nessa terra e dar fruto. Há aqueles que têm um coração inconstante,
capaz de se entusiasmar instantaneamente, mas também de desanimar perante as
primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus não pode aí criar raízes. Há aqueles
que têm um coração materialista, que dá sempre prioridade à riqueza e aos bens
deste mundo: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses outros
interesses dominantes. Há também aqueles que têm um coração disponível e bom,
aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto.
Os verdadeiros discípulos (a "boa terra") identificam-se com aqueles que escutam
as parábolas, as entendem e acolhem a proposta do "Reino".
Temos aqui, portanto, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a
Palavra de Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os
outros valores a afoguem e a tornem uma semente estéril, sem vida.
ACTUALIZAÇÃO
Reflectir nas seguintes questões:
• No seu "estado actual", a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a reflectir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?
• A semente que caiu em terrenos duros, de terra batida, faz-nos pensar em corações insensíveis, egoístas, orgulhosos, onde não há lugar para a Palavra de Jesus e para os valores do "Reino". É a realidade de tantos homens e mulheres que vêem no Evangelho um caminho para fracos e vencidos, e que preferem um caminho de independência e de auto-suficiência, à margem de Deus e das suas propostas. Este caminho de orgulho e de auto-suficiência alguma vez foi "o meu caminho"?
• A semente que caiu em sítios pedregosos, que brota nessa pequena camada de terra que aí há, mas que morre rapidamente por falta de raízes profundas, faz-nos pensar em corações inconstantes, capazes de se entusiasmarem com o "Reino", mas incapazes de suportarem as contrariedades, as dificuldades, as perseguições. É a realidade de tantos homens e mulheres que vêem em Jesus uma verdadeira proposta de salvação e que a ela aderem, mas que rapidamente perdem a coragem e entram num jogo de cedências e de meias tintas quando são confrontados com a radicalidade do Evangelho. A Palavra de Deus é, para mim, uma realidade que eu levo a sério, ou algo que eu deixo cair quando me dá jeito?
• A semente que caiu entre os espinhos e que foi sufocada por eles, faz-nos pensar em corações materialistas, comodistas, instalados, para quem a proposta do "Reino" não é a prioridade fundamental. É a realidade de tantos homens e mulheres que, sem rejeitarem a proposta de Jesus (muitas vezes são "muito religiosos" e têm "a sua fé") fazem do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro Deus a que tudo sacrificam. As propostas de Jesus são a referência fundamental à volta da qual a minha vida se constrói, ou deixo que outros interesses e valores sufoquem os valores do Evangelho?
• A semente que caiu em boa terra e que deu fruto abundante faz-nos pensar em corações sensíveis e bons, capazes de aderirem às propostas de Jesus e de embarcarem na aventura do "Reino". É a realidade de tantos homens e mulheres que encontraram na proposta de Jesus um caminho de libertação e de vida plena e que, como Jesus, aceitam fazer da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos homens. Este é o quadro ideal do verdadeiro discípulo; e é esta a proposta que o Evangelho de hoje me faz.
• A parábola, na sua forma original (vers. 1-9) refere-se à inevitável erupção do "Reino", à sua força e aos resultados maravilhosos que o "Reino" alcançará… Com frequência, olhamos o mundo que nos rodeia e ficamos desanimados com o materialismo, a futilidade, os falsos valores que marcam a vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Perguntamo-nos se vale a pena anunciar a proposta libertadora de Jesus num mundo que vive obcecado com as riquezas, com os prazeres, com os valores materiais… O Evangelho de hoje responde: "coragem! Não desanimeis pois, apesar do aparente fracasso, o 'Reino' é uma realidade imparável; e o resultado final será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável".
ALGUMAS
SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA
MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 15º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2.
CONTINUIDADE COM O PRÓXIMO DOMINGO.
Este domingo está marcado pela palavra do semeador. No próximo domingo
escutaremos a parábola do joio. Estas duas parábolas que falam da vida da terra
permitem criar uma unidade, um seguimento entre os dois domingos. Uma decoração
simples na igreja pode ser um meio adequado para assinalar esta continuidade.
3. PREPARAR
UMA "PEQUENA ENTRADA".
Em razão da primeira leitura e do Evangelho, pode-se fazer, no início da
liturgia da Palavra (e também no próximo domingo), o que as Igrejas do Oriente
chamam a "pequena entrada". Trazido por uma pessoa, acompanhada de várias
pessoas com velas ou lamparinas, o leccionário (ou a Bíblia) parte do fundo da
igreja e atravessa a assembleia antes de ser colocado no ambão. Durante este
tempo, pode-se entoar um cântico de aclamação à Palavra.
4. ORAÇÃO NA
LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da
primeira leitura:
Deus que estás tão próximo de nós, nós Te damos graças pela tua Palavra. Assim
como os pais comunicam com os seus filhos para os fazer crescer, também Tu ages
para connosco para nos elevar para Ti.
Nós Te pedimos: prepara os nossos corações e os nossos espíritos como uma boa
terra para o acolhimento da tua Palavra, para que ela germine e dê fruto nas
nossas vidas.
No final da
segunda leitura:
Nós Te damos graças, ó Pai, porque és o Criador do imenso e admirável universo,
que nos ofereces como um jardim para cultivar.
Nós Te pedimos por toda a criação, mas sobretudo pela humanidade, guarda da
nossa terra e do espaço. Ilumina-nos com o teu Espírito criador, para nos
inspirar o respeito pela tua criação.
No final do
Evangelho:
Nós Te agradecemos pelo semeador que nos enviaste, Jesus, teu Filho. Ele lançou
generosamente o bom grão do teu amor e da tua vida em todos os terrenos, e Ele
continua esta obra na tua Igreja.
Nós Te pedimos pelas nossas comunidades: livra-nos de abafar o bom grão, mas
que o teu Espírito o faça frutificar em nós e à nossa volta.
5. ORAÇÃO
EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, com as suas belas epicleses, que
põem em evidência a obra do Espírito.
6. PALAVRA
PARA O CAMINHO.
Que género de terra somos nós? Que género de terra somos nós para esta Palavra
semeada em nós com abundância? Se a possibilidade nos é oferecida, tomemos um
momento ao longo da semana, directamente na natureza, para rezar esta página do
Evangelho. E deixemo-la enraizar-se em nós para lhe permitir produzir fruto em
abundância.
14º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Tema do 14º Domingo do Tempo Comum
A liturgia deste domingo ensina-nos
onde encontrar Deus. Garante-nos que Deus não Se revela na arrogância, no
orgulho, na prepotência, mas sim na simplicidade, na humildade, na pobreza, na
pequenez.
A primeira leitura apresenta-nos um enviado de Deus que vem ao encontro dos
homens na pobreza, na humildade, na simplicidade; e é dessa forma que elimina
os instrumentos de guerra e de morte e instaura a paz definitiva.
No Evangelho, Jesus louva o Pai porque a proposta de salvação que Deus faz aos
homens (e que foi rejeitada pelos "sábios e inteligentes") encontrou
acolhimento no coração dos "pequeninos". Os "grandes", instalados no seu
orgulho e auto-suficiência, não têm tempo nem disponibilidade para os desafios
de Deus; mas os "pequenos", na sua pobreza e simplicidade, estão sempre
disponíveis para acolher a novidade libertadora de Deus.
Na segunda leitura, Paulo convida os crentes – comprometidos com Jesus desde o
dia do Baptismo – a viverem "segundo o Espírito" e não "segundo a carne". A
vida "segundo a carne" é a vida daqueles que se instalam no egoísmo, orgulho e
auto-suficiência; a vida "segundo o Espírito" é a vida daqueles que aceitam
acolher as propostas de Deus.

LEITURA I – Zac 9,9-10
Leitura da Profecia de Zacarias
Eis o que diz o Senhor:
"Exulta de alegria, filha de Sião,
solta brados de júbilo, filha de Jerusalém.
Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro,
humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta.
Destruirá os carros de combate de Efraim
e os cavalos de guerra de Jerusalém;
e será quebrado o arco de guerra.
Anunciará a paz às nações:
o seu domínio irá de um mar ao outro mar
e do Rio até aos confins da terra.
AMBIENTE
O Livro de Zacarias é um livro
profético com catorze capítulos. Actualmente, os estudiosos da Bíblia são
unânimes em reconhecer que entre os oito primeiros capítulos e os restantes há
uma diferença tão grande em contextos, estilo, vocabulário e temática, que
devemos falar de dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não
conhecemos o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se
chamar-lhe o "Deutero-Zacarias". É ao "Deutero-Zacarias" que pertence este
texto que hoje nos é proposto.
Em que época foram escritos esses textos atribuídos ao Deutero-Zacarias? As
opiniões são divergentes; no entanto, a maioria dos comentadores coloca estes
oráculos no final do séc. IV ou princípios do séc. III a.C.. O ambiente é
claramente pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias
de Alexandre da Macedónia, quando o Povo de Deus estava integrado no império
helénico.
O livro do "segundo Zacarias" está marcado por um forte acento messiânico.
Refere-se, com frequência, à figura do Messias, apresentado como rei, como
pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (cf. Zac 9,1-11,7), o profeta
anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do
Messias; na segunda parte (cf. Zac 12,1-14,21), os oráculos descrevem a
salvação e a glória futura de Jerusalém.
MENSAGEM
O Deutero-Zacarias descreve, neste
oráculo, o regresso do rei vitorioso a Jerusalém. A cidade é convidada a
alegrar-se e regozijar-se pois o seu rei, "justo e salvador", chegou.
A entrada triunfal desse rei justo e vitorioso é, no entanto, humilde e
pacífica: ele não cavalgará um cavalo de guerra (símbolo do militarismo), mas
um "jumentinho, filho de uma jumenta". A atitude deste "rei" contrasta
claramente com as exibições de força, de poder, de agressividade dos grandes do
mundo…
No entanto, paradoxalmente, este "rei" humilde e pacífico terá a força para
destruir a guerra (ele aniquilará os instrumentos de morte – os carros de
combate, os cavalos de guerra, os arcos de guerra) e para proclamar a paz
universal. O seu "reino" irá "de um mar ao outro mar" e do "rio" (Eufrates)
"até aos confins da terra" (isto é, abarcará a totalidade do mundo antigo).
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes pontos:
• Em primeiro lugar, o Deutero-Zacarias deixa clara a preocupação de Deus com a salvação do seu Povo. Na fase em que o profeta leva a cabo a sua missão, o Povo de Deus conhece uma relativa tranquilidade; mas é um Povo subjugado, manipulado, impedido de escolher livremente o seu destino e de construir o seu futuro. É nesse contexto que o profeta anuncia a chegada de um rei "justo e salvador", que vem ao encontro do Povo para o libertar e para lhe oferecer a paz ("shalom" – no sentido de harmonia, bem estar, felicidade plena). Ora, Deus não perdeu qualidades, nem mudou a sua essência. O Deus que assim actuou ontem é o Deus que assim actua hoje e que assim actuará sempre. Ao longo da nossa caminhada de todos os dias, fazemos frequentemente a experiência do desencanto, da frustração, da privação de liberdade. Sentimo-nos, tantas vezes, perdidos, sem esperança, incapazes de tomar nas mãos o nosso futuro e de dar um sentido à nossa vida… Nessas circunstâncias, somos convidados a redescobrir esse Deus que vem ao nosso encontro, que restaura a nossa esperança e nos oferece a paz.
• Uma certa visão "americanizada" do mundo e da vida defende a necessidade de armar exércitos formidáveis, de gastar uma considerável fatia do orçamento das nações em instrumentos de morte cada vez mais sofisticados, para impor, pela força e pelo medo, a paz e a segurança do mundo. O Deutero-Zacarias diz-nos que a lógica de Deus é outra: Ele chega desarmado, pacífico, humilde, sem arrogância e é, dessa forma, que Ele salva e liberta os homens. Para mim, qual faz mais sentido: a lógica desarmada de Deus ou a lógica musculada dos senhores do mundo?
• A história da salvação mostrou, muitas vezes, que é através dos pequenos, dos humildes, dos pobres, dos insignificantes que Deus actua no mundo e o transforma. Deus está mais na viúva que lança no tesouro do Templo umas pobres moedas do que no capitalista que preenche um cheque chorudo para pagar os vitrais da nova igreja da paróquia; Deus está mais no gesto simples do pacifista que oferece uma flor a um soldado do que na violência daqueles que lutam de armas na mão contra os "maus"; Deus está mais no olhar límpido de uma criança do que na palavra poderosa de um pregador inflamado que "sabe tudo" sobre Deus… Já aprendi a descobrir esse Deus que se manifesta na humildade, na pobreza, na simplicidade?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)
Refrão 1: Louvarei para sempre o
vosso nome,
Senhor, meu Deus e meu Rei.
Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu
Rei,
e bendizer o vosso nome para sempre.
Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
Graças Vos dêem, Senhor, todas as
criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.
O Senhor é fiel à sua palavra
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor ampara os que vacilam
e levanta todos os oprimidos.

LEITURA II – Rom 8,9.11-13
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence.
Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós.
Assim, irmãos, não somos devedores à carne,
para vivermos segundo a carne.
Se viverdes segundo a carne, morrereis;
mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne,
vivereis.
AMBIENTE
Continuamos a ler a Carta aos Romanos. Ela apresenta-nos um Paulo amadurecido que, depois de vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação (numa altura em que a questão da salvação era uma questão teológica "quente": os judeo-cristãos acreditavam que, para chegar à salvação, era preciso continuar a cumprir a Lei de Moisés; e os judeo-pagãos não manifestavam nenhuma vontade de se submeter aos ritos da Lei judaica).
Na perspectiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado – cf. Rom 1,18-3,20), que Deus oferece por pura bondade aos homens, a todos os homens (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e actua em nós pelo Espírito (cf. Rom 8,1-39).
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que Paulo reflecte sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos (o projecto salvador de Deus em favor dos homens; a acção libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus) se cruzam aqui.
O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projecto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual Paulo não se cansa de dar testemunho.
MENSAGEM
Jesus, o Deus/Homem, gastou a vida a cumprir o projecto do Pai de dar vida ao homem. A sua acção acabou por chocar com os interesses dos senhores do mundo, e Ele foi morto na cruz.
No entanto, essa morte na cruz não foi o "fim da linha": o Espírito de Deus, sempre presente em Jesus, ressuscitou-O (pois, no projecto de Deus, o oferecer a vida para concretizar o plano do Pai não pode gerar morte, mas vida plena e definitiva).
Ora, Jesus ofereceu aos seus discípulos o mesmo Espírito. Os discípulos têm de estar conscientes de que, se viverem como Jesus e se fizerem da vida um dom a Deus e aos irmãos, receberão essa mesma vida nova e definitiva que o Espírito deu a Jesus.
Sobretudo, Paulo convida os cristãos a tirarem as conclusões práticas desta realidade: se viverem "segundo a carne", morrerão (isto é, não encontrarão a vida definitiva); mas se viverem segundo o Espírito, ressuscitarão para a vida nova.
Temos aqui uma das mais interessantes e sugestivas antíteses paulinas: a "carne" e o "Espírito". Viver "segundo a carne" é, na perspectiva de Paulo, viver em oposição a Deus – ou seja, viver fechado a Deus, numa vida de egoísmo, de autismo, de auto-suficiência que leva o homem a prescindir dos mandamentos, das propostas e dos valores de Deus; "viver segundo o Espírito" é, na perspectiva de Paulo, viver em relação com Deus, escutando as suas propostas e sugestões, na obediência aos projectos de Deus e na doação da própria vida aos homens.
Os cristãos são, portanto, veementemente exortados por Paulo a fazerem a sua escolha. Sobretudo, Paulo está interessado em demonstrar aos crentes que só o seguimento de Cristo garante ao homem a vida definitiva.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão poderá ter em conta as seguintes questões:
• À luz dos critérios que hoje presidem à construção do mundo, a vida de Jesus foi um rotundo fracasso. Ele nunca desempenhou qualquer cargo público nem teve jamais conta num banco qualquer; mas viveu na simplicidade, na humildade, no serviço, sem ter para si próprio uma pedra onde reclinar a cabeça. Ele nunca foi apoiado pelos "cabeças pensantes" da sua terra; apenas foi escutado pela gente humilde, marginalizada, condenada a uma situação de escravidão, de pobreza, de debilidade. Ele nunca se proclamou chefe de um movimento popular; apenas ensinou, àqueles que O seguiam, que Deus os ama e que quer fazer deles seus filhos. Ele nunca se sentou num trono, a dar ordens e a distribuir benesses; mas foi abandonado por todos, condenado a uma morte infame e pregado numa cruz. No entanto, Ele venceu a morte e recebeu de Deus a vida plena e definitiva. Paulo diz aos crentes a quem escreve: não vos preocupeis com aqueles valores a que o mundo chama êxito, realização, felicidade; mas tende a coragem de gastar a vida do mesmo jeito de Jesus, a fim de encontrardes a vossa realização plena, a vida definitiva.
• Paulo ensina que a vida "segundo a carne" gera morte; e que a vida "segundo o Espírito" gera vida. O que é viver "segundo a carne"? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida "segundo a carne"? O que é viver "segundo o Espírito"? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida "segundo o Espírito"?
• O cristão tem de viver "segundo o Espírito". É desse jeito que eu vivo? Estou aberto à acção renovadora e libertadora do Espírito que recebi no dia do meu Baptismo?
ALELUIA – cf. Mt 11,25
Aleluia. Aleluia.
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do
céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos os mistério
s do reino.

EVANGELHO – Mt 11,25-30
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Jesus exclamou:
"Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve".
AMBIENTE
Após o "discurso da missão" e o
envio dos discípulos ao mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus (cf.
Mt 9,36-11,1), Mateus coloca no seu esquema de Evangelho uma secção sobre as
reacções e as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e à
sua proposta de "Reino" (cf. Mt 11,2-12,50). O nosso texto integra esta secção.
Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto (cf. Mt 11,20-24),
Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades
situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque
foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes.
Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas,
calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de
abrir o coração à novidade de Deus.
Agora, Jesus manifesta-Se convicto de que essa proposta rejeitada pelos
habitantes das cidades do lago encontrará acolhimento entre os pobres e
marginalizados, desiludidos com a religião "oficial" e que anseiam pela
libertação que Deus tem para lhes oferecer.
O nosso texto consta de três "sentenças" que, provavelmente, foram pronunciadas
em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses "ditos" (cf.
Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22) e devem provir de um
documento que reuniu os "ditos" de Jesus e que tanto Mateus como Lucas
utilizaram na composição dos seus evangelhos. O terceiro (cf. Mt 11,28-30) é
exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria.
MENSAGEM
A primeira sentença (cf. Mt
11,25-26) é uma oração de louvor que Jesus dirige ao Pai, porque Ele escondeu
"estas coisas" aos "sábios e inteligentes" e as revelou aos "pequeninos".
Os "sábios e inteligentes" são certamente esses "fariseus" e "doutores da Lei",
que absolutizavam a Lei, que se consideravam justos e dignos de salvação porque
cumpriam escrupulosamente a Lei, que não estavam dispostos a deixar pôr em
causa esse sistema religioso em que se tinham instalado e que – na sua
perspectiva – lhes garantia automaticamente a salvação. Os "pequeninos" são os
discípulos, os primeiros a responder positivamente à oferta do "Reino"; e são
também esses pobres e marginalizados (os doentes, os publicanos, as mulheres de
má vida, o "povo da terra") que Jesus encontrava todos os dias pelos caminhos
da Galileia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam, com alegria e
entusiasmo, a proposta libertadora de Jesus.
A segunda sentença (cf. Mt 11,27) relaciona-se com a anterior e explica o que é
que foi escondido aos "sábios e inteligentes" e revelado aos "pequeninos".
Trata-se, nem mais nem menos, do "conhecimento" (quer dizer, uma "experiência
profunda e íntima") de Deus.
Os "sábios e inteligentes" (fariseus e doutores da Lei) estavam convencidos de
que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma
espécie de "linha directa" para Deus, através da qual eles ficavam a conhecer
Deus, a sua vontade, os seus projectos para o mundo e para os homens; por isso,
apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus,
capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.
Jesus deixa claro que quem quiser fazer uma experiência profunda e íntima de
Deus tem de aceitar Jesus e segui-l'O. Ele é "o Filho" e só Ele tem uma
experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem rejeitar Jesus
não poderá "conhecer" Deus: quando muito, encontrará imagens distorcidas de
Deus e aplicá-las-á depois para julgar o mundo e os homens. Mas quem aceitar
Jesus e O seguir, aprenderá a viver em comunhão com Deus, na obediência total
aos seus projectos e na aceitação incondicional dos seus planos.
A terceira sentença (cf. Mt 11,28-30) é um convite a ir ao encontro de Jesus e
a aceitar a sua proposta: "vinde a Mim"; "tomai sobre vós o meu jugo…".
Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do "jugo" era aplicada à Lei de
Deus (cf. Si 6,24-30; 51,26-27) – a suprema norma de vida. Para os fariseus,
por exemplo, a Lei não era um "jugo" pesado, mas um "jugo" glorioso, que devia
ser carregado com alegria.
Na realidade, tratava-se de um "jugo" pesadíssimo. A impossibilidade de
cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral, criava
consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra
com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da
salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus
em lugar de os conduzir para a comunhão com Deus.
Jesus veio libertar o homem da escravidão da Lei. A sua proposta de libertação
plena dirige-se aos doentes (na perspectiva da teologia oficial, vítimas de um
castigo de Deus), aos pecadores (os publicanos, as mulheres de má vida, todos
aqueles que tinham publicamente comportamentos política, social ou
religiosamente incorrectos), ao povo simples do país (que, pela dureza da vida
que levava, não podia cumprir escrupulosamente todos os ritos da Lei), a todos
aqueles que a Lei exclui e amaldiçoa. Jesus garante-lhes que Deus não os exclui
nem amaldiçoa e convida-os a integrar o mundo novo do "Reino". É nessa nova
dinâmica proposta por Jesus que eles encontrarão a alegria e a felicidade que a
Lei recusa dar-lhes.
A proposta do "Reino" será uma proposta reservada a uma classe determinada (os
pobres, os débeis, os marginalizados) em detrimento de outra (os ricos, os
poderosos, os da "situação")? Não. A proposta do "Reino" destina-se a todos os
homens e mulheres, sem excepção… No entanto, são os pobres e débeis aqueles que
já desesperaram do socorro humano, que têm o coração mais disponível para acolher
a proposta de Jesus. Os outros (os ricos, os poderosos) estão demasiado cheios
de si próprios, dos seus interesses, dos seus esquemas organizados, para
aceitar arriscar na novid
ade de Deus.
Acolhendo a proposta de Jesus e seguindo-O, os pobres e oprimidos encontrarão o
Pai, tornar-se-ão "filhos de Deus" e descobrirão a vida plena, a salvação
definitiva, a felicidade total.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:
• Na verdade, os critérios de Deus são bem estranhos, vistos de cá de baixo, com as lentes do mundo… Nós, homens, admiramos e incensamos os sábios, os inteligentes, os intelectuais, os ricos, os poderosos, os bonitos e queremos que sejam eles ("os melhores") a dirigir o mundo, a fazer as leis que nos governam, a ditar a moda ou as ideias, a definir o que é correcto ou não é correcto. Mas Deus diz que as coisas essenciais são muito mais depressa percebidas pelo "pequeninos": são eles que estão sempre disponíveis para acolher Deus e os seus valores e para arriscar nos desafios do "Reino". Quantas vezes os pobres, os pequenos, os humildes são ridicularizados, tratados como incapazes, pelos nossos "iluminados" fazedores de opinião, que tudo sabem e que procuram impor ao mundo e aos outros as suas visões pessoais e os seus pseudo-valores… A Palavra de Deus ensina: a sabedoria e a inteligência não garantem a posse da verdade; o que garante a posse da verdade é ter um coração aberto a Deus e às suas propostas (e com frequência, com muita frequência, são os pobres, os humildes, os pequenos que "sintonizam" com Deus e que acolhem essa verdade que Ele quer oferecer aos homens para os levar à vida em plenitude).
• Como é que chegamos a Deus? Como percebemos o seu "rosto"? Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus? É através da filosofia? É através de um discurso racional coerente? É passando todo o tempo disponível na igreja a mudar as toalhas dos altares? O Evangelho responde: "conhecemos" Deus através de Jesus. Jesus é "o Filho" que "conhece" o Pai; só quem segue Jesus e procura viver como Ele (no cumprimento total dos planos de Deus) pode chegar à comunhão com o Pai. Há crentes que, por terem feito catequese, por irem à missa ao domingo e por fazerem parte do conselho pastoral da paróquia, acham que conhecem Deus (isto é, que têm com Ele uma relação estreita de intimidade e comunhão)… Atenção: só "conhece" Deus quem é simples e humilde e está disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos "filhos" de Deus.
• Como nos situamos face a Deus e à proposta que Ele nos apresenta em Jesus? Ficamos fechados no nosso comodismo e instalação, no nosso orgulho e auto-suficiência, sem vontade de arriscar e de pôr em causa as nossas seguranças, ou estamos abertos e atentos à novidade de Deus, a fim de perceber as suas propostas e seguir os seus caminhos?
• Cristo quis oferecer aos pobres, aos marginalizados, aos pequenos, a todos aqueles que a Lei escravizava e oprimia, a libertação e a esperança. Os pobres, os débeis, os marginalizados, aqueles que não encontram lugar à mesa do banquete onde se reúnem os ricos e poderosos, continuam a encontrar – no testemunho dos discípulos de Jesus – essa proposta de libertação e de esperança? A Igreja dá testemunho da proposta libertadora de Jesus para os pobres? Como é que os pequenos e humildes são acolhidos nas nossas comunidades? Como é que acolhemos aqueles que têm comportamentos social ou religiosamente incorrectos?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O
14º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA
SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 14º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2. PREPARAR LEITORES.
Seria bom que todo o baptizado pudesse ser chamado a proclamar na assembleia a
Palavra para os seus irmãos. Um leitor não preparado arrisca-se a não ser
ouvido nem compreendido. O texto pode ser lido, mas será que "fala" aos membros
da assembleia? Faz-se o rito da leitura, mas será que acontece verdadeiramente
"liturgia da Palavra"? Seria bom, sobretudo em tempo de férias, organizar
antecipadamente o grupo de leitores, para que a Palavra seja bem preparada,
proclamada, escutada… e vivida!
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Senhor, nós exultamos de alegria e Te damos graças, porque abres os nossos
espíritos e os nossos corações ao louvor e à admiração. Pelos teus profetas,
desde o princípio manifestas a tua bondade e a tua ternura paterna.
Nós Te pedimos por todos os povos que esperam com angústia o fim das guerras:
concede-lhes artífices da paz.
No final da segunda leitura:
Nós Te bendizemos, porque és Espírito de vida. O teu Filho Jesus venceu todas
as formas de morte.
Nós Te pedimos, Tu que habitas em nós: concede a vida aos nossos seres mortais,
purifica-nos pelo teu Espírito das desordens do homem pecador. Arranca-nos do
domínio das forças de morte, faz-nos viver sob o domínio do Espírito.
No final do Evangelho:
Pai, Senhor do céu e da terra, com o teu Filho Jesus proclamamos o teu louvor:
para Te dares a conhecer a nós e nos revelar o insondável mistério do teu amor,
vieste até nós enviando o teu Filho.
Nós Te pedimos: porque nos chamas a conhecer-Te, purifica as nossas
inteligências, dá-nos um coração de criança na tua presença.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística IV, que nos recorda a fidelidade de Deus
à sua aliança.
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Reviravolta de valores. Numa sociedade idolatra que só crê na força, no poder,
na riqueza, nos sucessos de todo o tipo… Jesus revela-nos que Deus confia os
seus segredos aos mais pequenos… aqueles que não aparecem nas primeiras páginas
dos jornais… aqueles que não contam grande coisa… Uma vez mais, é a reviravolta
dos valores e o convite a rectificar os nossos julgamentos e os nossos
comportamentos.
13º Domingo do Tempo Comum
Tema do 13º Domingo do Tempo Comum
Nas leituras
deste 13º Domingo do Tempo Comum, cruzam-se vários temas. No geral, os três
textos que nos são propostos apresentam uma reflexão sobre alguns aspectos do
discipulado. Fundamentalmente, diz-se quem é o discípulo (é todo aquele que,
pelo baptismo, se identifica com Jesus, faz de Jesus a sua referência e O
segue) e define-se a missão do discípulo (tornar presente na história e no
tempo o projecto de salvação que Deus tem para os homens).
O Evangelho é uma catequese sobre o discipulado, com vários passos. Num
primeiro passo, define o caminho do discípulo: o discípulo tem de ser capaz de
fazer de Jesus a sua opção fundamental e seguir o seu mestre no caminho do amor
e da entrega da vida. Num segundo passo, sugere que toda a comunidade é chamada
a dar testemunho da Boa Nova de Jesus. No terceiro passo, promete uma
recompensa àqueles que acolherem, com generosidade e amor, os missionários do
"Reino".
Na primeira leitura mostra-se como todos podem colaborar na realização do
projecto salvador de Deus. De uma forma directa (Eliseu) ou de uma forma
indirecta (a mulher sunamita), todos têm um papel a desempenhar para que Deus
se torne presente no mundo e interpele os homens.
A segunda leitura recorda que o cristão é alguém que, pelo Baptismo, se
identificou com Jesus. A partir daí, o cristão deve seguir Jesus no caminho do
amor e do dom da vida e renunciar definitivamente ao pecado.
LEITURA I – 2 Re 4,8-11.14-16a

Leitura do Segundo Livro dos Reis
Certo dia, o
profeta Eliseu passou por Sunam.
Vivia lá uma distinta senhora,
que o convidou com insistência a comer em sua casa.
A partir de então, sempre que por ali passava,
era em sua casa que ia tomar a refeição.
A senhora disse ao marido:
"Estou convencida de que este homem,
que passa frequentemente pela nossa casa,
é um santo homem de Deus.
Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto
com paredes de tijolo,
com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada.
Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar".
Um dia, chegou Eliseu
e recolheu-se ao quarto para descansar.
Depois perguntou ao seu servo Giezi:
"Que podemos fazer por esta senhora?"
Giezi respondeu:
"Na verdade, ela não tem filhos
e o seu marido é de idade avançada".
"Chama-a" – disse Eliseu.
O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta.
Disse-lhe o profeta:
"No próximo ano, por esta época,
terás um filho nos braços".
AMBIENTE
Após a morte
de Salomão (932 a.C.), o Povo de Deus dividiu-se em dois reinos: Israel, a
norte, e Judá, a sul. Os dois reinos viveram, a partir daqui, histórias
separadas e, quase sempre, antagónicas.
O nosso texto situa-nos no reino de Israel, em meados do séc. IX a.C., durante
o reinado de Jorão (853-842 a.C.). As relações económicas, políticas e
culturais que Israel insiste em estabelecer com outros países da zona tornam-no
vulnerável às influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada no país
de cultos diversos. É, portanto, uma época de sincretismo e de confusão
religiosa.
Eliseu é um profeta, discípulo de Elias (cf. 1 Re 19,16b.19-21) que,
continuando a obra do mestre, luta contra o sincretismo religioso e procura
trazer de novo os israelitas aos caminhos da fidelidade à aliança. Faz parte,
segundo parece, de uma comunidade de "filhos de profetas" ("benê nebi'im" – cf.
2 Re 2,3; 4,1), isto é, de seguidores incondicionais de Jahwéh, que vivem na
absoluta fidelidade aos mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos
valores religiosos estrangeiros. Estes "filhos de profetas" vivem pobremente
(cf. 2 Re 4,1-7) e são regularmente consultados pelo Povo, que neles busca
apoio face aos abusos dos poderosos.
Eliseu é chamado, com muita frequência (29 vezes), o "homem de Deus" ('ish
Elohim). O título designa um homem que é intérprete da Palavra de Jahwéh junto
dos outros homens; mas a Palavra que o "homem de Deus" transmite é, sobretudo,
uma Palavra poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de
transformar a realidade. Os "milagres" atribuídos a Eliseu (o grande
"milagreiro" do Antigo Testamento") são a expressão viva da força de Deus, que
através do profeta intervém na história e salva os pobres.
Este episódio situa-nos em Sunam, uma pequena cidade situada no sul da
Galileia, não longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre'el, em casa de
uma mulher rica e sem filhos. A história da sunamita tem duas partes distintas:
a descrição da hospitalidade que a mulher oferece ao profeta e que é recompensada
por este com o anúncio do nascimento de um filho (cf. 2 Re 4,8-17) e a
repentina doença e morte desse filho, que exigirá uma nova intervenção do
profeta no sentido de devolver a vida ao menino (cf. 2 Re 8,18-37). A nossa
leitura apresenta-nos apenas a primeira parte.
MENSAGEM
O episódio que
a leitura nos relata descreve, portanto, a generosa hospitalidade que Eliseu
encontra em casa desta mulher sunamita. A mulher não se limita a oferecer a
Eliseu uma refeição, sempre que este passava por Sunam, nas suas idas e vindas
ao monte Carmelo; mas manda construir, expressamente para o profeta, um quarto
no terraço da sua casa e mobila-o adequadamente.
O gesto da mulher não é apenas o levar até às últimas consequências o sagrado
"sacramento da hospitalidade", tão importante para os povos do Crescente
Fértil… Mas é ainda mais: é o reconhecimento de que Eliseu é um "homem de
Deus", através de quem Deus age no mundo. Ajudando Eliseu, a mulher mostra a
sua adesão a Jahwéh e manifesta a sua disponibilidade para colaborar com Deus
no projecto de salvação que Deus tem para o mundo e para os homens.
Em resposta à generosidade da mulher, Eliseu anuncia-lhe o nascimento de um
filho. A promessa tem um valor especial, dada a quase impossibilidade de ter
filhos que pesa sobre o casal, devido à avançada idade do marido.
A história procura ensinar que colaborar com Deus na realização do plano de
salvação/libertação que ele tem para os homens é uma fonte de vida e de bênção.
Deus não deixa de recompensar todos aqueles que com ele colaboram.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:
• Antes de
mais, o texto sugere que o projecto de salvação que Deus tem para os homens e
para o mundo envolve toda a gente e é uma responsabilidade que a todos
compromete. Uns são chamados a estar mais na "linha da frente" e a desenvolver
uma acção mais exclusiva e mais exposta; outros são chamados a desenvolver uma
acção menos exclusiva e mais discreta, mas nem por isso menos importante. Mas
uns e outros t&ecir
c;m de sentir a responsabilidade de colaborar com Deus. Estou consciente disso?
Empenho-me verdadeiramente em descobrir o papel que Deus me confia no seu
projecto e em cumpri-lo com generosidade?
• Numa altura em que a Europa se tornou uma espécie de condomínio fechado, do qual é excluída essa imensa multidão de pobres sem futuro e sem esperança, que mendigam a possibilidade de construir um futuro sem miséria, este episódio convida-nos a reflectir sobre o sentido da hospitalidade e do acolhimento. É evidente para todos que não temos os recursos suficientes para acolher, de forma indiscriminada, todos aqueles que batem à nossa porta; mas a política que o nosso mundo segue em relação aos imigrantes não esconderá também uma boa dose de egoísmo e de falta de vontade de partilhar? Como nos situamos face a isto?
• A nossa leitura deixa também claro que o dar não nos despoja, nem nos faz perder seja o que for. O dar é sempre uma fonte de vida e de bênção. A dádiva não deve, no entanto, ser interesseira, mas desinteressada e gratuita.
• Há pessoas que são chamadas por Deus a deixar a terra, a família, os pontos de referência culturais e sociais, a fim de dedicar a sua vida ao anúncio da Palavra. Não são super-homens ou super-mulheres, mas são homens e mulheres como quaisquer outros, com as mesmas necessidades de afecto, de apoio, de solidariedade, de compreensão. É nossa responsabilidade ajudá-los, não apenas com meios materiais, mas também com compreensão, com solidariedade, com amor.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (89)

Refrão 2: Eu canto para sempre a bondade do Senhor.
Cantarei
eternamente as misericórdias do Senhor
e para sempre proclamarei a sua fidelidade.
Vós dissestes: "A bondade está estabelecida para sempre",
no céu permanece firme a vossa fidelidade.
Feliz do povo
que sabe aclamar-Vos
e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto.
Todos os dias aclama o vosso nome
e se gloria com a vossa justiça.
Vós sois a sua
força,
com o vosso favor se exalta a nossa valentia.
Do Senhor é o nosso escudo
e do Santo de Israel o nosso rei.
LEITURA II – Rom 6,3-4. 8-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo
fomos baptizados na sua morte.
Fomos sepultados com Ele na sua morte,
para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos,
para glória do Pai,
também nós vivamos uma vida nova.
Se morremos com Cristo,
acreditamos que também com Ele viveremos,
sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos,
Cristo já não pode morrer;
a morte já não tem domínio sobre Ele.
Porque na morte que sofreu,
Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre;
mas a sua vida, é uma vida para Deus.
Assim, vós também, considerai-vos mortos para o pecado
e vivos para Deus, em Cristo Jesus.
AMBIENTE
Continuamos a explorar essa carta aos romanos, na qual Paulo propõe a todos os crentes – judeus e não judeus – o essencial da mensagem cristã… Fundamentalmente, Paulo está interessado em sugerir aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais correcto para "conquistar" a salvação) que a salvação é sempre um dom de Deus e não uma conquista do homem. Apesar do pecado dos homens (cf. Rom 1,18-3,20), Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.
O texto que nos é proposto faz parte desse bloco em que Paulo descreve como é que a vida de Deus se comunica aos homens através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39). De acordo com a perspectiva de Paulo, Cristo – ao contrário de Adão, o homem do orgulho e da auto-suficiência – escolheu viver na obediência a Deus e aos seus planos; e foi a obediência de Cristo – isto é, o seu cumprimento incondicional da vontade do Pai – que fez chegar a todos os homens a graça da salvação (cf. Rom 5,12-20).
Isso significará, então, que pecar ou não pecar é indiferente, pois a obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional? O cristão pode pecar tranquilamente (cf. Rom 6,1-2), porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá sempre derramar-se sobre o pecador?
MENSAGEM
Ao ser baptizado (isto é, ao aderir a Cristo e ao aceitar a oferta de salvação que Cristo faz), o cristão renuncia ao egoísmo e ao pecado, a fim de viver numa dinâmica de vida nova. O pecado passa a ser algo absolutamente incoerente e absurdo pois, pelo baptismo, o cristão enxertou-se em Cristo, isto é, passou a receber de Cristo a vida que o anima e alimenta.
Como é que foi a vida que Cristo viveu? A vida de Cristo foi marcada pelo egoísmo, pelo orgulho, pela auto-suficiência? Não. A vida de Cristo foi vivida no amor, na partilha, no dom total de si a Deus e aos homens. Cristo "matou" o pecado, ao viver uma vida segundo Deus. A cruz, sobretudo como expressão última de uma vida totalmente liberta do egoísmo e feita dom radical, é o "golpe final" no pecado (que é egoísmo, que é auto-suficiência, que é fechamento em si próprio). A ressurreição mostra essa vida nova que brota de um "não" decidido ao egoísmo e ao pecado.
Ora os cristãos, pelo Baptismo, são "enxertados" em Cristo. Quer dizer: entram a fazer parte do Corpo de Cristo e passam a receber de Cristo a vida que os alimenta. Se neles circula a mesma vida de Cristo, o pecado já não tem aí lugar: só tem aí lugar essa vida de dom, de amor, de entrega, de serviço que conduz à ressurreição, à vida definitiva. Ser baptizado é "sepultar o pecado" e ressuscitar para uma dinâmica de vida nova, de onde o pecado está – tem de estar – ausente.
ACTUALIZAÇÃO
Para a reflexão, considerar os seguintes elementos:
• Nesta leitura sugere-se, antes de mais, que o cristão é aquele que se identifica com Cristo. Enxertado em Cristo pelo Baptismo, o cristão faz de Cristo a sua referência e segue-O incondicionalmente, renunciando ao pecado e escolhendo o amor e o dom da vida. Ora, todos os discípulos estão conscientes que ser cristão passa por aqui; mas, dia a dia, são desafiados por outras referências, por outros valores, por outros modelos de vida… Qual é o modelo e a referência fundamental à volta da qual a minha vida se ordena e se constrói?
• Em termos concretos, o que é que implica a nossa adesão a Cristo? Paulo responde: significa morrer para o pecado e viver para Deus. O que é que significa "pecar"? Significa fechar-se no próprio egoísmo e recusar Deus e os outros. "Pecar" é recusar a comunhão com Deus e ignorar conscientemente as suas proposta
s; é recusar fazer da vida um dom, um serviço, uma partilha de amor com os irmãos… Os homens do nosso tempo acham que falar de "pecado" não faz sentido e que o discurso sobre o pecado é um discurso antiquado, repressivo, alienante. No entanto, o "pecado" existe: é o egoísmo que gera injustiça e exploração; é o orgulho que gera conflito e divisão; é a vingança que gera violência e morte. O que se pede ao discípulo de Jesus é que renuncie a esta realidade e oriente a sua vida de acordo com outros critérios – os critérios e os valores de Jesus.
ALELUIA – 1 Pedro 2,9
Aleluia. Aleluia.
Vós sois
geração eleita, sacerdócio real, nação santa,
para anunciar os louvores de Deus,
que vos chamou das trevas à sua luz admirável.
EVANGELHO – Mt 10,37-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus apóstolos:
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa".
AMBIENTE
O Evangelho
deste domingo apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus e
que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão (é
chamado, por isso, o "discurso da missão"). Mais do que um discurso histórico,
que Jesus pronunciou de uma única vez e num único lugar, é uma catequese que
Mateus compôs a partir de diversos materiais (o autor combina aqui relatos de
envio, "ditos" de Jesus acerca dos "doze" e várias outras "sentenças" que,
originalmente, tinham um outro contexto).
Qual o objectivo de Mateus, ao compor este texto e ao pô-lo na boca de Jesus?
Estamos na década de 80. Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição
missionária estava bem enraizada (a comunidade cristã de Antioquia da Síria?).
No entanto, as condições políticas do final do séc. I (reinado de Domiciano e
hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo) trazem a
comunidade confusa e desorientada. Vale a pena "remar contra a maré"? Não é um
risco imprudente continuar a anunciar Jesus? Vale a pena arriscar tudo por
causa do Evangelho, quando as condições são tão desfavoráveis?
Mateus compõe então uma espécie de "manual do missionário cristão", destinado a
revitalizar a opção missionária da sua comunidade. Nele sugere que a missão dos
discípulos é anunciar Jesus e continuar a percorrer o caminho de Jesus – mesmo
que esse caminho leve ao dom total da vida. Apresenta, nesse sentido, um
conjunto de valores e atitudes que devem orientar a acção dos missionários
cristãos.
MENSAGEM
O nosso texto
pode dividir-se em duas partes. Na primeira parte (vers. 37-39), Mateus
apresenta um conjunto de exigências radicais para quem quer seguir Jesus; na
segunda parte (vers. 40-42), Mateus sugere que toda a comunidade deve anunciar
Jesus e põe na boca de Jesus o anúncio de uma recompensa, destinada àqueles que
acolherem os mensageiros do Evangelho.
O seguimento de Jesus não é um caminho fácil e consensual, ladeado por aplausos
e encorajamentos. Mas é um caminho radical, que obriga, muitas vezes, a
rupturas e a opções exigentes. Quando se trata de escolher entre Jesus e outros
valores, qual deve ser a opção do cristão?
Mateus não admite "meias-tintas": a primeira lealdade deve ser sempre com
Jesus. Se a alternativa for escolher entre Jesus e a própria família (vers.
37), a escolha do discípulo deve recair sempre em Jesus (recorde-se que, então,
a família era a estrutura social que dava sentido à vida dos indivíduos; a
ruptura com a família era uma medida extrema, que supunha um desenraizamento
social quase completo). O discípulo tem necessariamente que cortar relações com
a própria família para seguir Jesus? Não. No entanto, não pode deixar que a
família ou os afectos o impeçam de responder, com coerência e radicalidade, ao
desafio do "Reino".
Se a alternativa for escolher entre Jesus e as próprias seguranças (vers. 38),
a escolha do discípulo deve ser tomar a cruz e seguir Jesus (o fazer da vida um
dom total a Deus e aos homens, significa o rompimento com todos os esquemas
que, na perspectiva dos homens, dão comodidade, bem estar, realização,
felicidade, êxito).
De resto, escolher Jesus e segui-l'O até à cruz não é um caminho de fracasso e
de morte, mas é um caminho de vida. Na verdade, quando o homem está muito
preocupado em proteger os seus esquemas de seguranças humanas e se fecha no seu
egoísmo e na sua auto-suficiência, acaba por perder a vida verdadeira; mas,
quando o homem aceita viver na obediência aos projectos de Deus e fazer da sua
vida um dom de amor aos irmãos, encontra a vida definitiva (vers. 39).
Na segunda parte do nosso texto, Mateus refere-se à recompensa destinada
àqueles que acolhem os mensageiros da Boa Nova de Jesus.
Mateus refere-se a quatro grupos de pessoas, que integram a comunidade cristã e
que têm a responsabilidade do testemunho: os apóstolos (vers. 40), os profetas
(vers. 41a), os justos (vers. 41b) e os pequenos (vers. 42). Todos eles têm por
missão anunciar a Boa Nova de Jesus. Os apóstolos – os que acompanharam sempre
Jesus – são as testemunhas primordiais de Jesus, pois diz-se deles que quem os
recebe, recebe Jesus. Os profetas são aqueles pregadores itinerantes que, em
nome de Deus, interpelam a comunidade e que a ajudam a ser coerente com os
valores do Evangelho. Os justos são provavelmente os cristãos procedentes do judaísmo,
que procuram viver, no seio da comunidade cristã, em coerência com a Lei de
Moisés. Os pequenos são os discípulos que ainda não integram de forma plena a
comunidade, pois estão em processo de amadurecimento da sua opção (podiam ser
os catecúmenos que estão a descobrir a fé, à espera do compromisso pleno com
Cristo e com a Boa Nova). De qualquer forma, todos estes grupos que formam a
comunidade cristã, têm por missão anunciar o Evangelho de Jesus.
A questão é fundamentalmente esta: a tarefa de anunciar o Evangelho pertence a
todos os membros da comunidade cristã; e esses "missionários&rd
quo; que testemunham a Boa Nova e que entregam a vida ao serviço do "Reino"
devem ser acolhidos com entusiasmo, com generosidade e amor.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, considerar os seguintes elementos:
• Jesus não é um demagogo que faz promessas fáceis e cuja preocupação é juntar adeptos ou atrair multidões a qualquer preço. Ele veio ao nosso encontro com uma proposta de salvação e de vida plena; no entanto, essa proposta implica uma adesão séria, exigente, radical, sem "paninhos quentes" ou "meias tintas". O caminho que Jesus propõe não é um caminho de "massas", mas um caminho de "discípulos": implica uma adesão incondicional ao "Reino", à sua dinâmica, à sua lógica; e isso não é para todos, mas apenas para os discípulos que fazem, séria e conscientemente, essa opção. Como é que eu me situo face a isto? O projecto de Jesus é, para mim, uma opção radical, que eu abracei com convicção, a tempo inteiro e a "fundo perdido", ou é um projecto em que eu "vou estando", sem grande esforço ou compromisso, por inércia, por comodismo, por tradição?
• Dentro do quadro de exigências que Jesus apresenta aos discípulos, sobressai a exigência de preferir Jesus à própria família. Isso não significa, evidentemente, que devamos rejeitar os laços que nos unem àqueles que amamos… No entanto, significa que os laços afectivos, por mais sagrados que sejam, não devem afastar-nos dos valores do "Reino"? As pessoas têm mais importância, para mim, do que o "Reino"? Já me aconteceu renunciar aos valores de Jesus por causa de alguém?
• Outra exigência que Jesus faz aos discípulos é a renúncia à própria vida e o tomar a cruz do amor, do serviço, do dom da vida. O que é mais importante para mim: os meus interesses, os meus valores egoístas, ou o serviço dos irmãos e o dom da vida?
• A forma exigente como Jesus põe a questão da adesão ao "Reino" e à sua dinâmica, faz-nos pensar na nossa pastoral – vocacionada para ser uma pastoral de "massas" – e na tentação que sentem os agentes da pastoral no sentido de facilitar as coisas, de não ser exigentes… Às vezes, interessa mais que as estatísticas da paróquia apresentem um grande número de baptizados, de casamentos, de crismas, de comunhões, do que propor, com exigência, a radicalidade do Evangelho e dos valores de Jesus… O caminho cristão é um caminho de facilidade, onde cabe tudo, ou é um caminho verdadeiramente exigente, onde só cabem aqueles que aceitam a radicalidade de Jesus? A nossa pastoral deve facilitar tudo, ou ir pelo caminho da exigência?
• Às vezes, as pessoas procuram os ritos cristãos por tradição, por influências do meio social ou familiar, porque "a cerimónia religiosa fica bonita nas fotografias…". Sem recusarmos nada devemos, contudo, fazê-las perceber que a opção pelo baptismo ou pelo casamento religioso é uma opção séria e exigente, que só faz sentido no quadro de um compromisso com o "Reino" e com a proposta de Jesus.
• Integrar a comunidade cristã é assumir o imperativo do testemunho. Sinto verdadeiramente que isso é algo que me diz respeito – seja qual for o lugar que eu ocupo na organização da comunidade?
• Como é que, na minha comunidade, são vistos aqueles que se dão, de forma mais plena e mais total, ao anúncio do Evangelho: são reconhecidos e apoiados, ou são injustamente criticados e vítimas de maledicência, de invejas e de ciúmes?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM
1. A liturgia
meditada ao longo da semana.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 13º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. «Quem
perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la…»
Antes do rito penitencial, pode-se convidar a assembleia a uns momentos de
silêncio. Todos são convidados a olhar para a cruz e a contemplar aquele que
perdeu a sua vida para no-la dar.
3. Aspersão
depois do rito penitencial.
Em ligação com a segunda leitura, pode-se fazer a aspersão com água benzida, em
recordação do baptismo.
4. Oração na
lectio divina.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da
primeira leitura:
Deus de nossos Pais, bendito sejas pela hospitalidade oferecida aos teus
profetas e pela atenção que por eles concedes aos teus fiéis.
Nós Te confiamos todas as nossas preocupações de pais e de educadores, diante
das dificuldades que surgem na transmissão da vida e diante das ameaças que
pesam sobre o crescimento das crianças.
No final da
segunda leitura:
Nós Te damos graças pela ressurreição de Jesus e pelo mistério do baptismo.
Pai, nós Te bendizemos pelo teu apelo: convidas-nos a viver para Ti, na relação
filial que Jesus nos manifesta.
Nós Te pedimos: livra-nos de todas as formas de morte. Que o teu Espírito
renove em nós a vida sem limites que nos deste no nosso baptismo.
No final do
Evangelho:
Pai, nós Te damos graças pela tua presença em todo o homem: pela vinda do teu
Filho tornaste-Te homem e é a Ti que servimos quando ajudamos e amamos os
outros. Faz-nos reconhecer neles.
Nós Te pedimos: aumenta em nós o espírito de acolhimento e de atenção aos
outros, desperta em nós o discernimento necessário no amor aos outros.
5. Oração
Eucarística.
Pode-se escolher a Oração Eucarística para as Assembleias com Crianças I, que
une com simplicidade os temas das leituras.
6. Palavra
para o caminho.
Escolher. Não é uma reprimenda que Jesus dá aos seus Apóstolos. É antes um
convite a amá-l'O, a Ele, mais que a todos os que nos são queridos. Mas esse
amor não é complacência. Escolher caminhar o mais perto possível de Cristo, é
tomar com Ele o caminho da Cruz, "jogando" a nossa vida sob o registo da fé e
do amor. Uma decisão em contradição directa com o espírito do mundo…
12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 12º Domingo do Tempo Comum
As leituras deste domingo põem em relevo a dificuldade em viver
como discípulo, dando testemunho do projecto de Deus no mundo. Sugerem que a
perseguição está sempre no horizonte do discípulo... Mas garantem também que a
solicitude e o amor de Deus não abandonam o discípulo que dá testemunho da
salvação.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de um profeta do Antigo Testamento -
Jeremias. É o paradigma do profeta sofredor, que experimenta a perseguição, a
solidão, o abandono por causa da Palavra; no entanto, não deixa de confiar em
Deus e de anunciar - com coerência e fidelidade - as propostas de Deus para os
homens.
No Evangelho, é o próprio Jesus que, ao enviar os discípulos, os avisa para a
inevitabilidade das perseguições e das incompreensões; mas acrescenta:
"não temais". Jesus garante aos seus a presença contínua, a
solicitude e o amor de Deus, ao longo de toda a sua caminhada pelo mundo.
Na segunda leitura, Paulo demonstra aos cristãos de Roma como a fidelidade aos
projectos de Deus gera vida e como uma vida organizada numa dinâmica de egoísmo
e de auto-suficiência gera morte.

LEITURA I - Jer 20,10-13
Leitura do Livro de Jeremias
Disse Jeremias:
"Eu ouvia as invectivas da multidão:
'Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!'
Todos os meus amigos esperavam
que eu desse um passo em falso:
'Talvez ele se deixe enganar
e assim poderemos dominar e nos vingaremos dele'.
Mas o Senhor está comigo como herói poderoso
e os meus perseguidores cairão vencidos.
Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso,
ignomínia eterna que não será esquecida.
Senhor do Universo,
que sondais o justo e perscrutais os rins e o coração,
possa eu ver o castigo que dareis a essa gente,
pois a Vós confiei a minha causa.
Cantai ao Senhor, louvai o Senhor,
que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos".
AMBIENTE
Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C.,
exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de
Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.). O cenário da actividade do profeta é, em
geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).
A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias.
Este rei - preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de
Deus - leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do
país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período,
traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.
No entanto, em 609 a.C., Josias é morto em combate contra os egípcios. Joaquim
sucede-lhe no trono. A segunda fase da actividade profética de Jeremias abrange
o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de
incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a
criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a
infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas:
procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em
contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias
está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente
uma invasão babilónica que castigará os pecados do Povo de Deus. É sobretudo
isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém... As previsões funestas de
Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para
a Babilónia uma parte da população de Jerusalém.
No trono de Judá, fica então Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão
profética de Jeremias desenrola-se precisamente durante este reinado.
Após alguns anos de calma submissão à Babilónia, Sedecias volta a experimentar
a velha política das alianças com o Egipto. Jeremias não está de acordo que se
confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh. Mas nem o rei nem os
notáveis lhe prestam qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado um
amargo "profeta da desgraça", Jeremias apenas consegue criar o vazio
à sua volta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército
egípcio vem em socorro de Judá e os babilónios retiram-se. Nesse momento de
euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a
destruição de Jerusalém (cf. Jer 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é
encarcerado (cf. Jer 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jer
38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor
apossa-se, de facto, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população
para a Babilónia (586 a.C.).
Jeremias é o paradigma dos profetas que sofrem por causa da Palavra. De
natureza sensível e cordial, homem de paz, que anseia pelo sossego da família e
pelo convívio com os amigos, Jeremias não foi feito para o confronto, a
agressão, a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para
"arrancar e destruir, para exterminar e demolir" (Jer 1,10), para
predizer desgraças e anunciar, com violência, destruição e morte (cf. Jer
20,8). Como consequência, foi continuamente objecto de desprezo e de irrisão e
todos o maldiziam. Os familiares, os amigos, os reis, os sacerdotes, os falsos
profetas, o povo inteiro, todos se afastavam, mal ele abria a boca. E esse
homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela
solidão a que a missão profética o condenava.
Jeremias estava verdadeiramente apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que
não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas nos momentos mais
negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a
amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em
palavras. Dirigia-se a Deus e censurava-o asperamente por causa dos problemas
que a missão lhe trazia. Chegou a comparar-se a uma jovem inocente e ingénua,
de quem Deus se apoderou e a quem forçou a fazer algo que o profeta não queria
(cf. Jer 20,7-9).
No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta,
condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos
como "confissões de Jeremias" e são verdadeiros desabafos em que o
profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua
amargura e a sua frustração (cf. Jer 11,18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18;
18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas
"confissões&rdq
uo;.
MENSAGEM
O profeta começa por descrever o quadro que o rodeia... A
multidão, farta de escutar anúncios de castigos e de terrores, resolve pôr um
ponto final no derrotismo de Jeremias e prepara-se para o calar. Jeremias, o
"terror por toda a parte" (é dessa forma irónica que a multidão o
designa, parodiando uma expressão de que o profeta se servia para anunciar as
desgraças que estavam para chegar), vai ser preso, julgado e silenciado. Todo o
ambiente faz pensar na montagem de um esquema de julgamento sumário e de linchamento
popular. O profeta corre, portanto, sérios riscos de vida... No entanto, aquilo
que mais dói a Jeremias é que até os seus amigos mais íntimos lhe voltaram as
costas e juntaram-se aos que maquinavam a sua perda. O profeta - que nunca
pretendeu magoar ninguém, mas somente anunciar com fidelidade a Palavra de Deus
- sente-se só, abandonado, marginalizado, perdido na mais negra solidão (vers.
10).
No entanto, o lamento de Jeremias é bruscamente cortado por um inesperado hino
de louvor a Jahwéh, expressão extraordinária da confiança no Deus que não falha
(vers. 11-13). É preciso dizer que estes versículos estão aqui um tanto ou
quanto deslocados: provavelmente, eles foram pronunciados por Jeremias noutro
contexto e aqui inseridos pelo editor final do livro (no texto original, aos
vers. 7-10 seguir-se-iam os vers. 14-18). De qualquer forma, este hino reproduz
a certeza de que, apesar do sofrimento e da incompreensão que tem de enfrentar,
o profeta não está só: ele confia em Deus, no seu poder, na sua justiça, no seu
amor; e sabe que Deus nunca abandona o pobre que n'Ele confia (aqui
"pobre" não deve ser lido em sentido material, mas no sentido de
desprotegido, perseguido injustamente pelos poderosos).
ACTUALIZAÇÃO
Considerar, na reflexão, as seguintes questões:
• Ser profeta não é um caminho fácil: o exemplo de Jeremias é elucidativo (como também o é o testemunho de Óscar Romero, Luther King, Gandhi e tantos outros profetas do nosso tempo). O "mundo" não gosta de ver ser posta em causa a sua "paz podre", não está disposto a aceitar que se questionem os esquemas de exploração e injustiça instituídos em favor dos poderosos, nem que se critiquem os "valores" de alguns "iluminados" fazedores da opinião pública. O "caminho do profeta" é, portanto, um caminho onde se lida permanentemente com a incompreensão, com a solidão, com o risco... É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir esse caminho? As "bocas" dos outros, as críticas injustas, a solidão que dói mais do que tudo, alguma vez nos impediram de cumprir a missão que o nosso Deus nos confiou?
• No baptismo, fomos ungidos como "profetas", à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a "boca" através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e Se dirige aos homens?
• A experiência profética é um caminho de luta, de sofrimento, muitas vezes de solidão e de abandono; mas é também um caminho onde Deus está. O testemunho de Jeremias confirma que Deus nunca abandona aqueles que procuram testemunhar no mundo, com coragem e verdade, as suas propostas. Esta certeza deve trazer ânimo e dar esperança a todos aqueles que assumem, com coerência, a sua missão profética.

SALMO RESPONSORIAL - Salmo 68 (69)
Refrão: Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.
Por Vós tenho suportado afrontas,
cobrindo-se meu rosto de confusão.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos,
um desconhecido para a minha família.
Devorou-me o zelo pela vossa casa
e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.
A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
no momento propício, meu Deus.
Pela vossa grande bondade, respondei-me,
em prova da vossa salvação.
Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde,
livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas.
Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos.
Louvem-n'O o céu e a terra,
os mares e quanto neles se move.

LEITURA II - Rom 5,12-15
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
e pelo pecado a morte,
assim também a morte atingiu todos os homens,
porque todos pecaram.
De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo.
Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
mesmo para aqueles que não tinham pecado
por uma transgressão à semelhança de Adão,
que é figura d'Aquele que havia de vir.
Mas o dom gratuito não é como a falta.
Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
se concedeu com abundância a muitos homens.
AMBIENTE
No final da década de 50 (a carta aos Romanos apareceu por volta
de 57/58), a "crise" entre os cristãos oriundos do mundo judaico e os
cristãos oriundos do mundo pagão acentua-se. Os cristãos de origem judaica
consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras
da Lei de Moisés, a fim de ter acesso à salvação; mas os cristãos de origem
pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas judaicas. Era uma
questão "quente", que ameaçava a unidade da Igreja.
Neste cenário, Paulo procura mostrar a todos os crentes a unidade da revelação
e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados
por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés - que nunca
assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que
Deus faz a todos, por Jesus.
O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos
(cf. Rom 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos (judeus e não judeus)
vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a
todos salva, sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de
Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de
salvação para todos (cf. Rom 5,12-8,39).
MENSAGEM
Para deixar bem claro que a salvação foi oferecida por Deus aos
homens através de Jesus Cristo, Paulo recorre aqui a uma figura literária que
aparece, com alguma frequência, nos se
us escritos: a antítese. Em concreto, Paulo vai expor o seu raciocínio através
de um jogo de oposições entre duas figuras: Adão e Jesus.
Adão é a figura de uma humanidade que prescinde de Deus e das suas propostas e
que escolhe caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência. Ora, essa
escolha produz injustiça, alienação, desarmonia, pecado. Porque a humanidade
preferiu, tantas vezes, esse caminho, o mundo entrou numa economia de pecado; e
o pecado gera morte. A morte deve ser entendida, neste contexto, em sentido
global - quer dizer, não tanto como morte físico-biológica, mas sobretudo como
morte espiritual e escatológica que é afastamento temporário ou definitivo de
Deus (que é a fonte da vida autêntica).
Cristo propôs um outro caminho. Ele viveu numa permanente escuta de Deus e das
suas propostas, na obediência total aos projectos do Pai. Esse caminho leva à
superação do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e faz nascer um Homem
Novo, plenamente livre, que vive em comunhão com o Deus que é fonte de vida
autêntica (a vitória de Cristo sobre a morte é a prova provada de que a
comunhão com Deus produz vida definitiva). Foi essa a grande proposta que
Cristo fez à humanidade... Assim, Cristo libertou os homens da economia de
pecado e introduziu no mundo uma dinâmica nova, uma economia de graça que gera
vida plena (salvação).
Não é claro que Paulo se esteja a referir aqui àquilo que a teologia posterior
designou como "pecado original" (ou seja, um pecado histórico
cometido pelo primeiro homem, que atinge e marca todos os homens que nascerem
em qualquer tempo e lugar). O que é claro é que, para Paulo, a intervenção de
Cristo na história humana se traduziu num dinamismo de esperança, de vida nova,
de vida autêntica. Cristo veio propor à humanidade um caminho de comunhão com
Deus e de obediência aos seus projectos; é esse caminho que conduz o homem em
direcção à vida plena e definitiva, à salvação.
ACTUALIZAÇÃO
• A história do nosso tempo está cheia de exemplos de homens e mulheres que entregaram a vida para realizar o projecto libertador de Deus no mundo e que foram considerados pela cultura dominante gente vencida e fracassada (embora, com alguma frequência, depois de mortos sejam "recuperados" e apresentados como heróis). Jesus Cristo mostra, contudo, que fazer da vida um dom a Deus aos homens não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho libertador, que introduz no mundo dinamismos de vida nova, de vida autêntica, de vida definitiva. Eu estou disposto a arriscar, a fazer da minha vida um dom, para que a vida plena atinja e liberte os meus irmãos?
• Alguns acontecimentos que marcam o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem de Deus e das suas propostas é uma história marcada pelo egoísmo, pela injustiça e, portanto, é uma história de sofrimento e de morte. Quando o homem deixa de dar ouvidos a Deus, dá ouvidos ao lucro fácil, destrói a natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em proveito próprio a vida dos seus irmãos. Qual o nosso papel de crentes neste processo? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da história e as suas propostas sejam acolhidas?
• A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Exaltou o individualismo e a auto-suficiência e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós - orgulhosamente sós - a definir o nosso caminho e o nosso destino. No entanto, onde nos leva esta cultura que prescinde de Deus e das suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz, ou tem potenciado o aparecimento de homens perdidos e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados?
ALELUIA - Jo 15,26b.27a
Aleluia. Aleluia.
O Espírito da verdade dará testemunho de Mim, diz o Senhor,
e vós também dareis testemunho de Mim.

EVANGELHO - Mt 10,26-33
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
"Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus".
AMBIENTE
Continuamos no mesmo ambiente em que o Evangelho do passado
domingo nos situava. Os discípulos - que Jesus chamou e que responderam
positivamente a esse chamamento, que escutaram os ensinamentos e que
testemunharam os sinais de Jesus - vão ser enviados ao mundo, a fim de
continuarem a obra libertadora e salvadora de Jesus. Contudo, antes de partir,
recebem as instruções de Jesus: é o "discurso da missão", que se
prolonga de 9,36 a 11,1.
Mateus escreve durante a década de 80. No império romano reina Domiciano (anos
81 a 96), um imperador que não está disposto a tolerar o cristianismo. No
horizonte imediato das comunidades cristãs, está uma hostilidade crescente, que
rapidamente se converterá em perseguição organizada contra o cristianismo (no
ano 95, por iniciativa de Domiciano, começa uma terrível perseguição contra os
cristãos em todos os territórios do império romano).
A comunidade cristã a quem Mateus destina o seu Evangelho (possivelmente, a
comunidade cristã de Antioquia da Síria) é uma comunidade com grande
sensibilidade missionária, verdadeiramente empenhada em levar a Boa Nova de
Jesus a todos os homens. No entanto, os missionários convivem, dia a dia, com
as dificuldades e as perseguições e manifestam um certo desânimo e uma certa
frustração. Os crentes não sabem que caminho percorrer e estão perturbados e
confusos.
Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de "manual do missionário
cristão", que é o nosso "discurso da missão". Para mostrar que a
actividade missionária é um imperativo da vida cristã, Mateus apresenta a
missão dos discípulos como a continua&c
cedil;ão da obra libertadora de Jesus. Define também os conteúdos do anúncio e
as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir, enquanto
testemunhas do "Reino".
MENSAGEM
O tema central da nossa leitura é sugerido pela expressão
"não temais", que se repete por três vezes ao longo do texto (cf. Mt
10,26.28.31). Trata-se de uma expressão que aparece com alguma frequência no
Antigo Testamento, dirigida a Israel (cf. Is 41,10.13; 43,1.5; 44,2; Jer 30,10)
ou a um profeta (cf. Jer 1,8). O contexto é sempre o da eleição: Jahwéh elege
alguém (um Povo ou uma pessoa) para o seu serviço; ao eleito, confia-lhe uma
missão profética no mundo; e porque sabe que o "eleito" se vai
confrontar com forças adversas, que se traduzirão em sofrimento e perseguição,
assegura-lhe a sua presença, a sua ajuda e protecção.
É precisamente neste contexto que o Evangelho deste domingo nos situa. Ao
enviar os discípulos que elegeu, Jesus assegura-lhes a sua presença, a sua
ajuda, a sua protecção, a fim de que os discípulos superem o medo e a angústia
que resultam da perseguição. As palavras de Jesus correspondem à última
bem-aventurança: "bem-aventurados sereis quando, por minha causa, vos
insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós"
(Mt 5,12).
Este convite à superação do medo vai acompanhado por três desenvolvimentos.
No primeiro desenvolvimento (vers. 26.27), Jesus pede aos discípulos que não
deixem o medo impedir a proclamação aberta da Boa Nova. A mensagem libertadora
de Jesus não pode correr o risco de ficar - por causa do medo - circunscrita a
um pequeno grupo, cobarde e comodamente fechado dentro de quatro paredes, sem
correr riscos, nem incomodar a ordem injusta sobre a qual o mundo se constrói;
mas é uma mensagem que deve ser proclamada com coragem, com convicção, com
coerência, de cima dos telhados, a fim de mudar o mundo e tornar-se uma Boa
Nova libertadora para todos os homens e mulheres.
No segundo desenvolvimento (vers. 28), Jesus recomenda aos discípulos que não
se deixem vencer pelo medo da morte física. O que é decisivo, para o discípulo,
não é que os perseguidores o possam eliminar fisicamente; mas o que é decisivo,
para o discípulo, é perder a possibilidade de chegar à vida plena, à vida
definitiva... Ora, o cristão sabe que a vida definitiva é um dom, que Deus
oferece àqueles acolheram a sua proposta e que aceitaram pôr a própria vida ao
serviço do "Reino". Os discípulos que procuram percorrer com
fidelidade o caminho de Jesus não precisam, portanto, de viver angustiados pelo
medo da morte.
No terceiro desenvolvimento (vers. 29-31), Jesus convida os discípulos a
descobrirem a confiança absoluta em Deus. Para ilustrar a solicitude de Deus,
Mateus recorre a duas imagens: a dos pássaros de que Deus cuida (que revela a
tocante ternura e preocupação de Deus por todas as criaturas, mesmo as mais
insignificantes e indefesas) e a dos cabelos que Deus conta (que revela a forma
particular, única, profunda, como Deus conhece o homem, com a sua
especificidade, os seus problemas, as suas dificuldades). Deus é aqui
apresentado como um "Pai", cheio de amor e de ternura, sempre
preocupado em cuidar dos seus "filhos", em entendê-los e em
protegê-los. Ora, depois de terem descoberto este "rosto" de Deus, os
discípulos têm alguma razão para ter medo? A certeza de ser filho de Deus é,
sem dúvida, algo que alimenta a capacidade do discípulo em empenhar-se - sem
medo, sem prevenções, sem preconceitos, sem condições - na missão. Nada - nem
as dificuldades, nem as perseguições - conseguem calar esse discípulo que confia
na solicitude, no cuidado e no amor de Deus Pai.
As últimas palavras (vers. 32-33) da leitura que hoje nos é proposta contêm uma
séria advertência de Jesus: a atitude do discípulo diante da perseguição
condicionará o seu destino último... Aqueles que se mantiveram fiéis a Deus e
aos seus projectos e que testemunharam com desassombro a Palavra encontrarão
vida definitiva; mas aqueles que procuraram proteger-se, comodamente instalados
numa vida morna, sem riscos, sem chatices, e também sem coerência, terão
recusado a vida em plenitude: esses não poderão fazer parte da comunidade de
Jesus.
ACTUALIZAÇÃO
Na reflexão, podem considerar-se as seguintes questões:
• O projecto de Jesus, vivido com radicalidade e coerência, não é um projecto "simpático", aclamado e aplaudido por aqueles que mandam no mundo ou que "fazem" a opinião pública; mas é um projecto radical, questionante, provocante, que exige a vitória sobre o egoísmo, o comodismo, a instalação, a opressão, a injustiça... É um projecto capaz de abalar os fundamentos dessa ordem injusta e alienante sobre a qual o mundo se constrói. Há um certo "mundo" que se sente ameaçado nos seus fundamentos e que procura, todos os dias, encontrar formas para subverter e domesticar o projecto de Jesus. A nossa época inventou formas (menos sangrentas, mas certamente mais refinadas do que as de Domiciano) de reduzir ao silêncio os discípulos: ridiculariza-os, desautoriza-os, calunia-os, corrompe-os, massacra-os com publicidade enganosa de valores efémeros... Como a comunidade de Mateus, também nós andamos assustados, confusos, desorientados, interrogando-nos se vale a pena continuar a remar contra a maré... A todos nós, Jesus diz: "não temais".
• O medo - de parecer antiquado, de ficar desenquadrado em relação aos outros, de ser ridicularizado, de ser morto - não pode impedir-nos de dar testemunho. A Palavra libertadora de Jesus não pode ser calada, escondida, escamoteada; mas tem de ser vivamente afirmada com palavras, com gestos, com atitudes provocatórias e questionantes. Viver uma fé "morninha" (instalada, cómoda, que não faz ondas, que não muda nada, que aceita passivamente valores, esquemas, dinâmicas e estruturas desumanizantes), não chega para nos integrar plenamente na comunidade de Jesus.
• De resto, o valor supremo da nossa vida não está no reconhecimento público, mas está nessa vida definitiva que nos espera no final de um caminho gasto na entrega ao Pai e no serviço aos homens; e Jesus demonstrou-nos que só esse caminho produz essa vida de felicidade sem fim que os donos do mundo não conseguem roubar.
• A Palavra de Deus que nos foi hoje proposta convida-nos também a fazer a descoberta desse Deus que tem um coração cheio de ternura, de bondade, de solicitude. Se nos entregarmos confiadamente nas mãos desse Deus, que é um pai que nos dá confiança e protecção e é uma mãe que nos dá amor e que nos pega ao colo quando temos dificuldade em caminhar, não teremos qualquer receio de enfrentar os homens.
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 12º Domingo do Tempo Comum, procurar
meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em
cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária
da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos
eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para
viver em pleno a Palavra de Deus.
2. PROLONGAR O CÂNTICO DE ENTRADA.
Procure-se prolongar o cântico de entrada. A sua função é congregar a
comunidade que se prepara para celebrar. Se for muito curto (muitas vezes
termina antes de o presidente chegar ao altar), não exercerá essa função.
Recordemos também que não é necessário que o início do cântico de entrada
coincida com o início da procissão de entrada. O cântico pode começar bem antes
da procissão.
3. PREVENIR OS LEITORES.
As leituras deste domingo têm géneros literários muito diferentes. Nenhuma é
fácil de se ler em público. Onde tal não acontece, é bom adquirir o hábito de
prevenir os leitores, com antecedência, para prepararem a proclamação das
leituras. Melhor ainda, deveria haver um tempo durante a semana para meditarem
e prepararem em conjunto os textos bíblicos que vão proclamar no domingo. Grupo
de leitores é também para isso, não apenas para constarem de uma lista...
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o
acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Bendito sejas, Senhor do universo, que perscrutas os rins e os corações. Em
todo o tempo livraste o pobre do poder dos maus: salvaste Isaac, Moisés e o teu
Povo, vigiaste o teu Filho e os apóstolos.
Nós Te confiamos a nossa causa e as de todos os infelizes. Nós Te pedimos: fica
ao nosso lado, apoia-nos quando ajudamos os outros.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças pelo primeiro Adão, de quem herdámos a vida terrestre. Mas
nós Te bendizemos sobretudo pelo teu Filho Jesus, o segundo Adão, por quem nos
deste a graça em abundância, para a vida eterna.
Nós Te pedimos pela nossa humanidade votada à morte, e por tantos homens e
mulheres que procuram desesperadamente fugir da morte. Mantém-nos confiantes na
tua graça.
No final do Evangelho:
Pai, nós Te bendizemos pelo teu humor, quando nos asseguras com a tua
protecção, mesmo até aos nossos cabelos! E quando nos dás mais valor do que a
todos os passarinhos do mundo!
Nós Te pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs atingidos pela inquietude (e
nós também). Que o teu Espírito nos fortaleça na confiança.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, que sublinha a liberdade de Cristo e
a sua obra de vida tal como Paulo a descreve na segunda leitura.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
E as nossas convicções religiosas? Expor e defender as opiniões políticas
reforça as convicções e torna-as mais incisivas. E as nossas convicções
religiosas? Diante de certas relações, não somos por vezes tentados a deixar de
lado os nossos compromissos de crentes? ...prontos a negar a fé para não nos
comprometermos? ...prontos a todos os compromissos para salvar o nosso lugar?
Por quem nos pronunciamos diante dos homens?
11º Domingo do Tempo Comum - Ano A
Tema do 11º Domingo do Tempo Comum
Neste domingo, a Palavra que vamos reflectir recorda-nos a presença constante de Deus no mundo e a vontade que Ele tem de oferecer aos homens, a cada passo, a sua vida e a sua salvação. No entanto, a intervenção de Deus na história humana concretiza-se através daqueles que Ele chama e envia, para serem sinais vivos do seu amor e testemunhas da sua bondade.
A primeira leitura apresenta-nos o Deus da "aliança", que elege um Povo para com ele estabelecer laços de comunhão e de familiaridade; a esse Povo, Jahwéh confia uma missão sacerdotal: Israel deve ser o Povo reservado para o serviço de Jahwéh, isto é, para ser um sinal de Deus no meio das outras nações.
O Evangelho traz-nos o "discurso da missão". Nele, Mateus apresenta uma catequese sobre a escolha, o chamamento e o envio de "doze" discípulos (que representam a totalidade do Povo de Deus) a anunciar o "Reino". Esses "doze" serão os continuadores da missão de Jesus e deverão levar a proposta de salvação e de libertação que Deus fez aos homens em Jesus, a toda a terra.
A segunda leitura sugere que a comunidade dos discípulos é fundamentalmente uma comunidade de pessoas a quem Deus ama. A sua missão no mundo é dar testemunho do amor de Deus pelos homens - um amor eterno, inquebrável, gratuito e absolutamente único.

LEITURA I - Ex 19,2-6a
Leitura do Livro do Êxodo
Naqueles dias,
os filhos de Israel partiram de Refidim
e chegaram ao deserto do Sinai,
onde acamparam, em frente da montanha.
Moisés subiu à presença de Deus.
O Senhor chamou-o da montanha e disse-lhe:
«Assim falarás à casa de Jacob,
isto dirás aos filhos de Israel:
'Vistes o que Eu fiz ao Egipto,
como vos transportei sobre asas de águia
e vos trouxe até Mim.
Agora, se ouvirdes a minha voz,
se guardardes a minha aliança,
sereis minha propriedade especial entre todos os povos.
Porque toda a terra Me pertence;
mas vós sereis para Mim um reino de sacerdotes,
uma nação santa'».
AMBIENTE
O texto que nos é proposto faz parte das "tradições sobre a aliança do Sinai" - um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso ("berit" - "aliança") que Israel teria assumido com Jahwéh.
O texto situa-nos no deserto do Sinai, "em frente do monte". No texto bíblico, não temos indicações geográficas suficientes para identificar o "monte da aliança". Em si, o nome Sinai não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura.
Uma tradição cristã do séc. IV d.C., no entanto, identifica o "monte da aliança" com o "Gebel Musah" (o "monte de Moisés"), um monte com 2244 metros de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do "monte da aliança" com este lugar levante problemas, o "Gebel Musah" é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.
Vai ser pois aqui, no Sinai, diante de "um monte" que Jahwéh e Israel se vão comprometer numa "aliança". A palavra hebraica "berit", usada neste contexto, define um pacto entre duas partes, que implica direitos e obrigações, muitas vezes recíprocos. A "berit" raramente era escrita, mas tinha sempre valor jurídico. Habitualmente, o compromisso era selado por um ritual consagrado pelo uso, que incluía um juramento e a imolação de animais em sacrifício.
Será à luz deste esquema jurídico que Israel vai representar o seu compromisso com Jahwéh.
MENSAGEM
Repare-se, em primeiro lugar, que a iniciativa da "aliança" é de Deus: é Jahwéh que convoca Moisés - o intermediário entre Deus e o Povo - para a montanha e propõe, através dele, uma "aliança" à "casa de Jacob". A iniciativa de estabelecer laços de comunhão e de familiaridade com o seu Povo é sempre de Deus.
Essa "aliança" que Deus propõe é, em segundo lugar, uma realidade que envolve toda a história do Povo. As palavras de proposição da "aliança" aparecem em três estrofes, cada uma das quais abarca um tempo: passado, presente e futuro. É uma relação que aponta à totalidade da caminhada do Povo de Deus.
A primeira estrofe (vers. 4) refere-se ao passado. Faz referência à libertação da escravidão do Egipto ("vistes o que Eu fiz no Egipto"), à presença e assistência amorosa de Deus ao longo da marcha pelo deserto ("como vos transportei sobre asas de águia") e ao chamamento à comunhão com o próprio Deus ("e vos trouxe até Mim"). Tudo isso resulta do "compromisso" que Deus assumiu com Israel, ainda antes da "aliança" do Sinai.
A segunda estrofe (vers. 5a) refere-se ao presente. Jahwéh convida Israel a aceitar estabelecer com Deus laços privilegiados de comunhão e de familiaridade. Para que isso aconteça, Deus pede a Israel que escute a sua voz e guarde a "aliança" (os mandamentos de Deus são as exigências com que o Povo se deve comprometer).
A terceira estrofe (vers. 5b-6) refere-se ao futuro. Se Israel aceitar comprometer-se com Deus numa "aliança", Deus oferecerá ao Povo uma relação especial, que o tornará o Povo eleito de Deus, um reino de sacerdotes e uma nação santa. Entre todos os povos da terra, Israel passará a ser o Povo eleito, que Deus escolheu entre todos os povos da terra para com ele manter uma relação única. Será também um reino de sacerdotes - quer dizer, um Povo cuja missão é testemunhar Deus e torná-l'O presente no mundo. Será finalmente uma nação santa - quer dizer, um Povo "à parte", separado do convívio dos outros povos para se dedicar exclusivamente ao serviço de Jahwéh.
A "aliança" aparece aqui como fazendo parte integrante do projecto de salvação que Deus tem para os homens. Israel é convidado por Deus a desempenhar um papel primordial nesse processo: se aceitar fazer parte da comunidade de Deus e percorrer um determinado caminho (o caminho dos mandamentos), ele será o Povo escolhido por Deus para o seu serviço e para ser um sinal de Jahwéh dia
nte de todos os outros povos. Esta "eleição" não é um privilégio, mas um serviço, que se concretiza numa missão profética: ser um sinal vivo de Deus no mundo.
Descobre-se aqui o sentido fundamental do Êxodo: a libertação do Egipto não se resume em fazer sair um povo da escravidão para a liberdade: a caminhada que Jahwéh começou com este Povo no Egipto aponta para o compromisso com Deus e com os homens; aponta para a construção de um Povo que não só conquista a sua liberdade mas se torna testemunha de Deus, sinal de Deus, sacerdote de Deus no meio do mundo.
ACTUALIZAÇÃO
Considerar as seguintes questões:
• Vivemos num tempo em que não é fácil - no meio da azáfama em que a vida decorre - reconhecer a presença, o amor e o cuidado de Deus com essa humanidade que Ele criou; alguns dos nossos contemporâneos chegam mesmo a falar da "morte de Deus", para exprimir a realidade de uma história de onde Deus parece estar totalmente ausente. O nosso texto, no entanto, revela um Deus empenhado em caminhar ao lado dos homens, em estabelecer com eles laços de familiaridade e de comunhão, em apresentar-lhes propostas de salvação, de libertação, de vida definitiva. É Deus que está ausente da história dos homens, ou são os homens que apostam noutros deuses (isto é, noutros esquemas de felicidade) e não têm tempo nem disponibilidade para encontrar o Deus da "aliança" e da comunhão? Deus ter-Se-á tornado indiferente e insensível ao destino dos homens, ou são os homens que preferem trilhar caminhos de orgulho e de auto-suficiência à margem de Deus? Deus terá renunciado a estabelecer laços familiares connosco, ou somos nós que, em nome de uma pretensa liberdade, preferimos construir a história do mundo longe de Deus e das suas propostas?
• Os autores do nosso texto definem a resposta do Povo aos desafios do Deus da "aliança" em termos de "ouvir a voz" de Deus e "guardar a aliança". "Ouvir a voz" de Deus significa escutar as suas propostas, acolhê-las no coração e transformá-las em gestos na vida diária; "guardar a aliança" significa comprometer-se com as propostas de Deus e viver de forma coerente com os mandamentos... Objectivamente, o que é que as propostas feitas por Deus significam na minha vida? O "caminho", que eu percorro dia a dia, está de acordo com esse "caminho" de felicidade e de vida plena que Deus definiu e que me apresentou? As propostas de Deus interpelam-me e interferem com as minhas opções ou, na hora das decisões, eu escolho de acordo com os meus interesses pessoais, prescindindo das indicações de Deus?
• O Povo que aceita o compromisso com Deus e que "embarca" na aventura da "aliança" é um Povo que é propriedade de Deus, que aceita ficar ao serviço de Deus. A sua missão é testemunhar o projecto salvador de Deus diante de todos os povos da terra. Tenho consciência de que, no dia do meu baptismo, eu entrei na comunidade do Povo de Deus e assumi o compromisso de testemunhar Deus e o seu projecto de salvação diante do mundo? A minha vida tem sido coerente com esta opção? Tenho sido um sinal vivo do amor e da bondade de Deus diante dos homens e mulheres com quem me cruzo todos os dias?

SALMO RESPONSORIAL - Salmo 99 (100)
Refrão: Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
servi o Senhor com alegria,
vinde a Ele com cânticos de júbilo.
Sabei que o Senhor é Deus,
Ele nos fez, a ele pertencemos,
somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.
Porque o Senhor é bom,
eterna é a sua misericórdia,
a sua fidelidade estende-se de geração em geração.

LEITURA II - Rom 5,6-11
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Quando ainda éramos fracos,
Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado.
Dificilmente alguém morre por um justo;
por um homem bom,
talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
Mas Deus prova assim o seu amor para connosco.
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
E agora, que fomos justificados pelo seu sangue,
com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina.
Se, na verdade, quando éramos inimigos,
fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho,
com muito mais razão, depois de reconciliados,
seremos salvos pela sua vida.
Mais ainda: também nos gloriamos em Deus,
por Nosso Senhor Jesus Cristo,
por quem alcançámos agora a reconciliação.
AMBIENTE
A Carta aos Romanos - já o dissemos atrás - é um texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo por volta do ano 57/58 e no qual o apóstolo apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto para a carta é um projecto de passagem por Roma, a caminho de Espanha (cf. Rom 16,23-24): Paulo sente que terminou a sua missão no oriente e quer anunciar o Evangelho de Jesus no ocidente.
No entanto, a opinião da maioria dos estudiosos da Carta aos Romanos é que Paulo se serve deste pretexto para lembrar, quer aos cristãos vindos do judaísmo (e para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés), quer aos cristãos vindos do paganismo (e para quem a Lei de Moisés constituía um empecilho) o essencial da mensagem cristã. Paulo insiste, sobretudo, no facto de a salvação não ser uma conquista do homem, mas um dom do amor de Deus. Na verdade, todos os homens vivem mergulhados no pecado, pois o pecado é uma realidade universal (cf. Rom 1,18-3,20); mas Deus, na sua bondade, a todos "justifica" e salva (cf. Rom 3,1-5,11); e essa salvação é oferecida por Deus ao homem através de Jesus Cristo; ao homem, resta aderir a essa proposta de salvação, na fé (cf. Rom 5,12-8,39).
O texto que nos é proposto é a parte final de uma perícopa que começa em Rom 5,1. Nessa perícopa, Paulo explica o que brota dessa "justificação" que Deus nos ofereceu: em primeiro lugar, a paz, que é a plenitude dos bens (cf. Rom 5,1); em segundo lugar, a esperança, que nos permite caminhar por este mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude (cf. Rom 5,2-4).
MENSAGEM
Em terceiro lugar (e assim chegamos, finalmente ao texto que nos é proposto hoje como segunda leitura), sermos "justificados" (isto é, recebermos, de forma totalmente gratuita uma salvação não merecida) implica descobrir o quanto Deus nos ama. O amor de Deus pelos homens é, para Paulo, algo que nunca deixará de o "espantar"; e é esse "espanto" que ele procura transmitir aos cristãos nas linhas seguintes...
Para Paulo, a história da salvação é uma incrível história de amor.
Como o homem, contando apenas com as suas forças, não conseguiria superar a situação de escravidão, de egoísmo e de pecado em que havia caído, Deus enviou o seu Filho ao mundo; Ele ofereceu toda a sua vida - até à cruz - para que os homens percebessem que o egoísmo gera morte e sofrimento e que só o amor gera felicidade e vida sem fim. Dessa forma, Ele salvou os homens da escravidão do egoísmo e do pecado e ofereceu-lhes, de forma totalmente gratuita, a salvação.
O mais incrível, no entanto, é que tudo isto aconteceu "quando éramos, ainda, pecadores". Trata-se de algo incompreensível do ponto de vista humano, que subverte totalmente a lógica dos homens... Nós talvez aceitássemos morrer por alguém a quem amamos muito; mas em nenhum caso estaríamos dispostos a dar a nossa vida por alguém egoísta, orgulhoso e auto-suficiente. No entanto, Deus ama de tal forma os homens - todos os homens - que aceitou que o próprio Filho morresse pelos ímpios.
O amor de Deus é verdadeiramente um amor "inqualificável", incrível, ilógico, inexplicável. Soa a absoluto, a eternidade. Nada nem ninguém conseguirá vencê-lo, derrotá-lo, eliminá-lo.
Paulo acrescenta ainda: e se Deus nos amou desta forma quando éramos pecadores, com muito mais razão nos amará agora que nos reconciliamos com Ele. Esse amor que nada nem ninguém conseguirá apagar é para nós garantia de vida em plenitude.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir das seguintes questões:
• O cristão é fundamentalmente alguém que descobriu que Deus o ama. Por isso, enfrenta cada dia com a serenidade, a alegria, a esperança que brotam dessa certeza fundamental. A certeza do amor de Deus condiciona a minha vida, a minha forma de enfrentar as dificuldades, o meu jeito de responder aos desafios que a vida me coloca?
• O amor de Deus é totalmente gratuito, incondicional e eterno. Não espera nada em troca; não põe condições para se derramar sobre o homem; não é descartável... Numa época em que a cultura dominante (não só a "cultura das telenovelas", mas também a cultura de certas elites pretensamente iluminadas) vende a imagem do amor interesseiro, condicionado e efémero, o amor de Deus constitui um tremendo desafio aos crentes.
• O amor de Deus é universal. Não marginaliza nem discrimina ninguém, não distingue entre amigos e inimigos, não condena irremediavelmente os que falharam nem os afasta do convívio de Deus. Nós, discípulos de Jesus, somos testemunhas deste amor? Como é que tratamos e acolhemos aqueles que não concordam connosco, que assumem atitudes problemáticas, que fracassaram no seu casamento, que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorrectos?

EVANGELHO - Mt 9,36-10,8
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».
AMBIENTE
Depois de ter apresentado Jesus (cf. Mt 1,1-4,22) e de ter mostrado Jesus a anunciar o "Reino" em palavras e em obras (cf. Mt 4,23-9,35), Mateus vai descrever o envio dos discípulos em missão (cf. Mt 9,36-11,1). Os discípulos são aqueles que Jesus chamou, que responderam positivamente a esse chamamento e seguiram Jesus; durante a caminhada que fizeram com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Formados por Jesus na "escola do Reino", eles podem agora ser enviados ao mundo, a fim de anunciar a todos os homens a chegada do "Reino dos Céus".
Os estudiosos do Evangelho segundo Mateus costumam chamar ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o "discurso da missão": nele, Jesus envia os discípulos e define a missão desses discípulos - anunciar a chegada do "Reino". Este "discurso da missão" consta de várias partes: uma introdução (cf. Mt 9,36-38); o chamamento e o envio dos discípulos (cf. Mt 10,1-15); uma instrução sobre o "caminho" que os discípulos têm de percorrer (cf. 10,16-42); uma conclusão (cf. Mt 11,1).
Trata-se de um discurso composto por Mateus a partir de diversos materiais. O autor combinou aqui relatos de envio, "ditos" de Jesus acerca dos "doze" e várias outras "sentenças" de Jesus que originalmente não foram proferidas neste contexto concreto.
Mateus escreve o seu Evangelho durante a década de 80. Dirige-o a uma comunidade viva e entusiasta, profundamente empenhada na actividade missionária (poderá ser a comunidade cristã de Antioquia da Síria). No entanto, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a perseguição traziam essa comunidade algo desorientada e perturbada. Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de "manual do missionário cristão", que enraíza a missão em Jesus Cristo, apresenta os conteúdos do anúncio que os discípulos são chamados a proclamar e define as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir.
MENSAGEM
O texto que hoje nos é proposto inclui a introdução e uma parte da descrição do chamamento e do envio dos discípulos.
Na introdução (cf. Mt 9,36-38), Mateus explica que essa missão à qual Deus chama os discípulos é expressão da solicitude de Deus, que quer oferecer ao seu Povo a salvação. Mateus - que escreve para uma comunidade onde existia um número significativo de crentes de origem judaica - vai usar, para transmitir esta mensagem, imagens retiradas do Antigo Testamento e muito familiares para os judeus.
Nas palavras de Jesus, Israel é uma comunidade abatida e desnorteada, cujos pastores (os líderes religiosos judeus) se demitiram das suas responsabilidades. Eles são esses maus
pastores de que falavam os profetas (cf. Ez 34; Zac 10,2). O coração de Deus está, no entanto, cheio de compaixão por este rebanho abatido e desanimado; Deus vai, então, assumir as suas responsabilidades, no sentido de conduzir o seu Povo para as pastagens onde há vida.
Duas notas ainda: a referência à "messe" indica que essa missão é urgente e que já não há muito tempo para a levar a cabo (nos profetas, a "messe" aparece ligada à imagem do juízo iminente de Deus - cf. Is 17,5; Jer 13,24; Jl 4,12-13); a referência ao "pedido" que deve ser feito ao Senhor da "messe" é um apelo a que a comunidade contemple a missão como uma obra de Deus, que deve ser levada a cabo com os critérios de Deus (por isso, a comunidade deve rezar - a fim de se aperceber dos projectos, das perspectivas e dos critérios de Deus - antes de empreender a tarefa de anunciar o Evangelho).
Vem depois o chamamento dos discípulos (cf. Mt 10,1-4). Mateus começa por deixar claro que a iniciativa é de Jesus: "chamou-os". Não há qualquer explicação sobre os critérios que levaram a essa escolha: falar de vocação e de eleição é falar de um mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre consegue compreender e explicar.
Depois, Mateus aponta o número dos discípulos ("doze"). Porquê exactamente "doze"? Trata-se de um número simbólico, que lembra as doze tribos que formavam o antigo Povo de Deus. Estes "doze" discípulos representam simbolicamente a totalidade do Povo de Deus, do novo Povo de Deus.
Em seguida, Mateus define a missão que Jesus lhes confiou ("deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades"). Os espíritos impuros, as doenças e as enfermidades representam tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de chegar à vida em plenitude. A missão dos discípulos é, pois, lutar contra tudo aquilo - seja de carácter físico, seja de carácter espiritual - que destrói a vida e a felicidade do homem (podemos dizer que a missão dos discípulos é lutar contra o "pecado").
Finalmente, Mateus aponta os nomes dos "Doze" (Simão Pedro, André, Tiago filho de Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão o cananeu e Judas Iscariotes). As listas apresentadas pelos vários evangelistas apresentam diferenças, seja na ordem dos nomes, seja nos próprios nomes (Tadeu é, na lista de Lucas, Judas). Em qualquer caso, Pedro encabeça sempre a lista e Judas Iscariotes fecha-a. Estes dois são talvez as duas personagens mais fortes e que, ao longo da caminhada com Jesus, devem ter assumido algum protagonismo no grupo dos discípulos.
O último passo é o envio dos discípulos - evidentemente antecedido de um conjunto de instruções para a missão (cf. Mt 10,5-8).
Em primeiro lugar (vers. 5-6), Jesus vai definir os destinatários da missão: numa primeira fase, são "as ovelhas perdidas da casa de Israel". Esta interpretação "restritiva" da missão explica-se a partir da forma como o cristianismo se expandiu em termos geográficos: primeiro pela Palestina e só depois fora das fronteiras da Palestina; provavelmente, também terá a ver com as tensões existentes na comunidade de Mateus, onde alguns judeo-cristãos tinham dificuldade em aceitar que o Evangelho fosse anunciado aos pagãos. Mais tarde, Mateus vai deixar claro que, na segunda fase, o anúncio se destina, também aos pagãos. Porquê? Porque a "casa de Israel" rejeitou Jesus e a sua proposta do "Reino" (cf. Mt 21,43).
Em segundo lugar (vers. 7-8a.b.c.d), apontam-se os sinais que devem acompanhar o anúncio da chegada do "Reino": a cura dos doentes, a ressurreição dos mortos, a expulsão dos demónios. O anúncio não deve constar de palavras apenas, mas de gestos concretos que sejam sinal vivo dessa libertação que o "Reino" traz.
Em terceiro lugar (vers. 8e), aparece um apelo à gratuidade: os discípulos não podem partir para a missão a pensar em colher dividendos pessoais, ou em satisfazer interesses egoístas. A expressão "recebestes de graça, dai de graça" convida a fazer da própria vida um dom gratuito ao "Reino", sem esperar em troca qualquer paga.
Repare-se como em todo o discurso a missão dos discípulos aparece como um prolongamento da missão de Jesus. O anúncio, que é confiado aos discípulos, é o anúncio que Jesus fazia (o "Reino"); os gestos que os discípulos são convidados a fazer para anunciar o "Reino" são os mesmos que Jesus fez; os destinatários da mensagem que Jesus apresentou são os mesmos da mensagem que os discípulos apresentam... Ao apresentar a missão dos discípulos em paralelo e em absoluta continuidade com a missão de Jesus, Jesus convida a Igreja (os discípulos) a continuar na história a obra libertadora que Ele começou em favor do homem.
ACTUALIZAÇÃO
A reflexão pode partir das seguintes questões e desenvolvimentos:
• Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Não esqueçamos isto: Deus nunca Se ausentou da história dos homens; Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira liberdade, da verdadeira felicidade, da vida definitiva.
• Como é que Deus age hoje no mundo? A resposta que o Evangelho deste domingo dá é: através desses discípulos que aceitaram responder positivamente ao chamamento de Jesus e embarcaram na aventura do "Reino". Eles continuam hoje no mundo a obra de Jesus e anunciam - com palavras e com gestos - esse mundo novo de felicidade sem fim que Deus quer oferecer aos homens.
• Atenção: Jesus não chama apenas um grupo de "especialistas" para O seguir e para dar testemunho do "Reino". Os "doze" representam a totalidade do Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus (os "doze") que é enviada, a fim de continuar a obra de Jesus no meio dos homens e anunciar-lhes o "Reino". Tenho consciência de que isto me diz respeito e que eu pertenço à comunidade que Jesus envia em missão?
• Qual é a missão dos discípulos de Jesus? É lutar objectivamente contra tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de ser feliz. Hoje há estruturas que geram guerra, violência, terror, morte: a missão dos discípulos de Jesus é contestá-las e desmontá-las; hoje há "valores" (apresentados como o "último grito" da moda, do avanço cultural ou científico) que geram escravidão, opressão, sofrimento: a missão dos discípulos de Jesus é recusá-los e denunciá-los; hoje há esquemas de exploração (disfarçados de sistemas económicos geradores de bem-estar) que geram miséria, marginalização, debilidade, exclusão: a missão dos discípulos de Jesus é combatê-los. A proposta libertadora de Jesus tem de estar presente (através dos discípulos) em qualquer lado onde houver um irmão vítima da escravidão e da injustiça. É isso que eu procuro fazer?
• As obras que eu realizo são verdadeiramente um anúncio do mundo novo que está para chegar? Eu procuro transmitir alegria, coragem e esperança àqueles que vivem imersos no abatimento, na frustração, no desespero? Eu procuro ser um sinal do amor e da ternura de Deus para aqueles que vivem sozinhos, abandonados, marginalizados?
• O nosso serviço ao "Reino" é um serviço totalmente gratuito, ou é um serviço que serve para promover os nossos interesses, a nossa pessoa, os nossos esquemas de realização pessoal?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 11º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. REENCONTRAR O TEMPO COMUM.
Reencontrar os domingos do tempo comum não significa entrar na rotina do quotidiano. A repetição dos ritos não deve levar a isso. Aproveitemos o tempo comum para avaliar e melhorar as nossas atitudes. Procuremos dar um cuidado muito particular aos espaços na liturgia, ao seu equilíbrio, à sua beleza. Não tenhamos medo de retomar cânticos bem conhecidos, que todos podem cantar sem a folha na mão. O sentido das palavras tantas vezes repetidas continua vivo ao longo dos tempos e dos acontecimentos. Não esqueçamos o silêncio, pois ele dá o seu peso ao quotidiano e aos seus gestos repetidos. Não é no silêncio que o Verbo de Deus visita a nossa carne e faz-nos habitar n'Ele, para nos alegrar e nos colocar no mundo?
3. ANUNCIAR... A REENTRADA.
O Evangelho do apelo dos discípulos pode ser uma ocasião, no final da homilia, para chamar aqueles que exercem um serviço na paróquia, assim como outros que poderão vir a exercê-lo no próximo ano pastoral. Em atitude de acção de graças e de renovação de compromisso...
4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te bendizemos, ó Pai, pela ternura que manifestaste para com o teu povo: fizeste-o sair do Egipto par o libertar, guiaste-o através do deserto, fizeste dele o teu povo e um reino de sacerdotes.
Nós Te pedimos: abre os nossos corações e os nossos espíritos à tua palavra, torna-nos atentos à tua voz, para que guardemos a tua Aliança.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças, porque nos deste a maior prova do teu amor, enviando-nos o teu Filho Jesus, e Ele mesmo viveu até aceitar a morte. Por Ele, reconciliaste-nos contigo.
Nós Te pedimos por todas as vítimas das injustiças. Salva-nos pela vida de Cristo ressuscitado. Justifica-nos pelo dom do teu Espírito.
No final do Evangelho:
Nós Te damos graças pela bondade de Jesus, porque Ele cuidou das multidões humanas quando estavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Nós Te bendizemos pelos apóstolos que instituíste.
Mestre da seara, nós Te pedimos: envia operários para a tua seara. Torna-nos acolhedores do Reino dos Céus que está bem próximo.
5. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III, que sublinha bem a obra do Espírito.
6. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Uma abundante seara e tão poucos trabalhadores! O desemprego não existe no campo missionário, são os trabalhadores que faltam! Porém, Jesus não se cansa de chamar! Então? Estás à espera de quê? Não falta talvez consistência e audácia à nossa fé para ousarmos arriscar este género de trabalho cujos produtos não virão aumentar as nossas contas no banco? E se este convite te disser pessoalmente respeito? Que respondes?